7 de Dezembro de 2020 – Quando a literatura previu (ou influenciou) o futuro

Ao vasculhar os imensos documentos que vou acumulando em discos externos, encontrei uma curiosa tabela cronológica, que nos mostra como alguns grandes escritores previram ou, de alguma forma, influenciaram o futuro, umas vezes em pequenas, outras em grandes coisas. O primeiro exemplo que aparece remonta a 1735, e às ‘Viagens de Gulliver’, de Jonathan Swift, em que o autor fala sobre as duas luas de Marte, descoberta que só aconteceu 142 anos depois. Outro exemplo interessante é o de ‘Admirável Mundo Novo’, de Aldous Huxley, que, em 1932, fala de drogas que alteram o estado de espírito (os anti-depressivos só começaram a ser comercializados em 1950) e de engenharia genética (a primeira manipulação de ADN só ocorreu em 1972). Entre os muitos exemplos curiosos, há o dos auscultadores de pequena dimensão (vulgarmente chamados ‘in-ear’), que aparecem no livro ‘Fahrenheit 451’, de Ray Bradbury, em 1948, ‘gadget’ que só veio a ser comercializado pela Apple, pela primeira vez, 51 anos depois. Vale a pena dar uma vista de olhos à tabela, aqui.

6 de Dezembro de 2020 – O que temos é inveja uns dos outros

Lembro-me, hoje, de um livrinho, bem açucarado, nas palavras e nas ideias, de Zuenir Ventura, sobre a inveja. Dizia Zuenir, logo no título, que se trata de um ‘mal secreto’. Para além de mal secreto, é pecado mortal, dizem. Algures no processo da destilaria das redes sociais, leio qualquer coisa parecida com uma ideia de que o que todos temos é inveja. Se os empresários da restauração protestam, porque estão economicamente com a corda ao pescoço, imediatamente temos inveja do carro que conduzem, ou da casa que têm, porque cobram muito dinheiro pelos seus cozinhados com assinatura. Se um cantor famoso perde uma filha, relativizamos a dor, porque é rico, e facilmente se distrairá. Além disso, os acidentes por excesso de velocidade, para alguns, só acontecem a quem tem carros de alta cilindrada, coisa ao alcance de privilegiados. É feio termos inveja, porque é algo que não tem rigorosamente nada a ver connosco, e tudo a ver com os outros. Nós não temos, e não queremos que os outros tenham. Mesmo que o que aparentam seja fruto de trabalho árduo, ou anos de formação e prática. É capaz de ser verdade. Não temos ciúmes, não temos cobiça Temos inveja.

Ciúme é querer manter o que se tem; cobiça é querer o que não se tem; inveja é querer que o outro não tenha

‘Inveja’ (Zuenir Ventura)

5 de Dezembro de 2020 – Louis van Beethoven

Hoje, pudemos ver, na RTP2, um retrato em filme de Beethoven. É sempre interessante ver um pouco dos génios a três dimensões, ao vivo e a cores, mesmo que nem tudo o que vemos seja verdade, e mesmo que nem todas as verdades que vemos sejam as que gostaríamos que fossem. Os retratos dos grandes génios da música são sempre dramáticos. Com a inspiração sempre a romper as barreiras do estabelecido, com a incompreensão a temperar as vidas com alguns laivos de miséria, com a arte a funcionar maioritariamente como acessório, e não como testemunho de uma história que haveria de ser escrita. Hoje, passados vários séculos, não é assim tão diferente. É só uma questão de juntarmos aos génios aqueles que (ainda) vão lutando em sua defesa. E o filme, é mais ou menos o mesmo.

4 de Dezembro de 2020 – As humanidades produzem inúteis

É de 2016, o texto publicado no ‘El País’, mas parece ganhar nova actualidade, sobretudo no contexto em que vivemos. As artes, as ciências sociais, as humanidades, como chamamos a estas áreas, só servem para produzir inúteis e inutilidades. Um filósofo, um historiador de arte, o que produzem, efectivamente? Que riqueza trazem para a economia estes desligados do processo produtivo? É que, na realidade, estas disciplinas são úteis para o inútil, o que as torna duplamente inúteis. Podemos viver sem arte, sem artistas, está mais ou menos comprovado. Não podemos é viver sem dinheiro. Vale a pena ler o texto na íntegra, aqui. E tudo isto é uma tremenda ironia.

3 de Dezembro de 2020 – Às vezes, há laivos de boa política

Rui Rio nem sempre está errado. Aliás, o que é pena é que, das vezes que está certo, não seja seguido pela gente do seu próprio partido, que vive numa eterna relação de amor/ódio, aparentemente muito mais exacerbada do que com qualquer outro líder. Os que muito o criticam, são os mesmos que, quando age com sentido de Estado (o que é relativamente frequente), o elogiam. É difícil de compreender um PSD que não se compreende a si próprio. Todavia, o que vale a pena sublinhar, no dia de hoje, é, novamente, esse sentido de Estado de Rui Rio, que não tem qualquer problema em sacrificar o interesse partidário em prol do interesse nacional. Hoje, assumiu que o PSD vai votar a favor da continuidade do estado de emergência. Não vai abster-se. Não vai votar contra. Vai votar a favor. Porque, segundo diz o presidente do partido, ‘esta é a hora de unir esforços e combater um inimigo comum. Não dar ao governo os instrumentos de que precisa para combater a pandemia, para depois dizer que as coisas correram mal, não está de acordo com o interesse nacional’. De vez em quando, vale a pena ouvir alguns políticos.

2 de Dezembro de 2020 – Sá Carneiro

Mesmo tanto tempo depois da sua morte, a personalidade mítica de Sá Carneiro continua a pairar sobre a política portuguesa. A forma como sempre viveu e protagonizou a luta política é única e incontornável, e temos de concordar que Portugal não seria, certamente, o mesmo, caso o acidente de Camarate não se tivesse dado. Como escrevi há uns anos, quando Francisco Sá Carneiro morreu, eu ainda não tinha completado três meses de vida. Não fui, portanto, apanhado de surpresa pela perda, não o conheci em vida, não assisti à sua forma de fazer política. Sei de Sá Carneiro que passou pela vida com a velocidade e a força de um meteorito, deixando atrás de si um rasto de mudança, de força, muitas vezes de choque ou confronto com uma realidade que parecia custar cada vez mais mudar. Sei que não acreditava propriamente na revolução, mas antes na mudança construída a partir de dentro. Sei que não desistia facilmente de lutar pelas suas causas. Sei, também, que aquele Portugal ambicioso, cheio de anseios e liberdades, em constante busca pela modernidade, ávido de equilíbrio e justiça sociais, talvez já não exista. O Portugal vanguardista pelo qual Sá Carneiro lutava foi, praticamente, enterrado com o seu principal visionário e construtor. Aparentemente, Portugal desistiu da vanguarda, rejeitou um futuro promissor, decidiu dedicar-se às querelas provincianas do costume, onde procuramos, todos, mandar mais que o vizinho. Talvez seja esse Portugal o culpado por eu não ter conhecido Sá Carneiro.

1 de Dezembro de 2020 – Vem aí o Natal?

Em contraste com o sol, que, em inundando alguns espaços, sabe bem sentir na pele, este é o tempo de o frio quase fazer congelar o nariz, logo pela manhã. De outros aromas, como o da pedra da rua fria da geada. Mas também do encontro, do convívio, de voltar a ver pessoas que não víamos, em muitos casos, há um ano. Um tempo em que nos dizem que talvez não seja possível vermos todos os rostos que gostaríamos de ver. Que talvez não possamos deixar o nariz congelar a qualquer hora. Que talvez não possamos sentir o cheiro da geada na pedra da rua em qualquer circunstância. Este é o tempo em que escreveríamos ‘vem aí o natal’ com ponto final. Mas em que não temos outra alternativa senão transformar o que sempre foi uma afirmação numa pergunta, sem sabermos até quando.

30 de Novembro de 2020 – A imperfeição da humanidade

Vivemos em constante tensão com a perfeição. Se há quem diga que perfeito, só Deus, se Deus nos criou à sua imagem e semelhança, é lícito que queiramos ser perfeitos, ou, pelo menos, o mais perfeitos que consigamos ser. E, sabendo nós dessa limitação, não nos cansamos de procurar essa perfeição divina, às vezes nos sítios mais errados possíveis. Os tempos que correm surpreendem-nos com facilidade. Há quem queira quebrar o isolamento de quem tem de enfrentá-lo, na tentativa de torná-lo menos penoso. Mas há também quem queira rapidamente colocar um rótulo em quem tem de enfrentar o isolamento e um vírus que deixou de ter rosto para passar a ter vários rostos. Em 2001, o Dalai Lama visitou o Porto, por ocasião da Capital Europeia da Cultura. Pude estar presente na sua conferência, e sentir (sugestionado, ou não) que estava na presença de alguém especial. Entre várias coisas sábias e sensatas que disse na altura, ficam algumas palavras que deixou a Carlos Vaz Marques, na entrevista ‘Pessoal e Transmissível’ que concedeu. Como não somos perfeitos, haverá sempre gente com más intenções.

Sempre acreditei e acredito na Humanidade. Mas também sei que uma Humanidade perfeita é impossível. Haverá sempre gente com más intenções.

Dalai Lama, em entrevista ‘Pessoal e Transmissível’ a Carlos Vaz Marques, na TSF

29 de Novembro de 2020 – Que escola?

O Governo decretou uma espécie de mini-confinamento, nos fins-de-semana prolongados do início de Dezembro. Ao conceder tolerância de ponto aos seus trabalhadores, deixou ao critério do sector privado fazer o mesmo. O que, muito provavelmente, vai acontecer, é que o sector privado não pode dar-se ao luxo de não trabalhar, porque a vida já vai andando para trás o suficiente para não ter portas abertas e caixa disponível para receber os trocos que for possível arrecadar. Estando decretado o fecho das escolas, o debate vai voltar a ser feito de uma forma truncada, e a partir de uma perspectiva meramente utilitária. A questão central vai ser ‘onde é que os pais que têm de trabalhar vão deixar os filhos que não têm escola’. E se esta perspectiva utilitária é, no imediato, a mais importante, não deixo de entristecer-me com o valor que é dado à escola nesta inferência. A escola não é, portanto, um lugar de aprendizagem, de crescimento, de educação (muitas vezes, a que não se consegue que venha de casa). A escola é um mero armazém onde os meninos ficam, para os pais poderem trabalhar, e que desempenha o papel de ‘pais’ durante esta ausência. Será?

28 de Novembro de 2020 – O fim do mundo

O documentário ‘A life on our Planet’, da ‘Netflix’, mais do que uma espécie de autobiografia de Sir David Attenborough, é uma forma de recentrarmos as perspectivas sobre o que está a acontecer ao planeta Terra. Lembro-me de uma conversa descontraída, há alguns anos, com o meu amigo Professor Artur Sá, em que falávamos, precisamente, desta perspectiva que nos é mais ou menos impingida sobre o fim do mundo. Desde os relatos bíblicos, até às previsões místicas, a tónica é sempre colocada no fim do mundo, como se, de repente, fôssemos todos (nós, e a casa comum que habitamos) engolidos por uma espécie de porta para o nada, e assim daríamos forma a um possível cenário de apocalipse. Nada mais errado, e este documentário mostra-nos isso mesmo. A Terra já conheceu várias extinções em massa, e tratou, ao seu ritmo, de encontrar de novo o equilíbrio. Sabemos bem que a natureza segue o seu curso, independentemente da nossa (ir)responsabilidade na sua gestão. Portanto, o que poderá acontecer não é o fim do mundo. É o nosso fim, o fim da nossa espécie. É nisso que temos vindo a trabalhar arduamente nas últimas décadas, e é para travarmos a nossa própria extinção que temos de pôr os pés ao caminho. O mundo não acabará por nossa causa. Provavelmente, o que nos está a tentar dizer é que conseguirá viver bem melhor sem nós. Agora, como diz Sir David Attenborough, é connosco.