27 de Novembro de 2020 – ‘El Professor’

Na sua página do ‘Instagram’, Alvaro Morte, o mítico ‘Professor’ da série ‘La Casa de Papel’ assinala o Dia do Professor com um testemunho muito pessoal. Segundo ele, a ignorância de algumas fases da nossa vida não nos permite, em devido tempo, valorizar com merecimento o trabalho dos professores, porque nos preocupamos mais com a afirmação da nossa identidade, e isso faz com que ajamos com mais rebeldia do que respeito. Todavia, se nos lembrarmos dos momentos e das pessoas que nos guiaram, deram alento e inspiraram, em algum ponto encontraremos um professor. No escuro da sombra dos dias, os professores permitiram que a economia não parasse, dando o corpo às balas, expondo-se a mais do que possíveis contágios, para que os alunos pudessem, estar nas escolas e os pais a trabalhar para a produtividade do país. Na hora de elencar as prioridades para a vacinação, o Governo voltou a colocar os professores exactamente no mesmo lugar. No escuro da sombra dos dias, como os mineiros que extraem as pedras preciosas das entranhas da terra, ou os construtores que ficam responsáveis pelos alicerces das casas. Por tudo isto, agradecemos ao Governo de Portugal, com um sorriso irónico, sarcástico e de escárnio.

26 de Novembro de 2020 – O que é amar um país

Noto, antes de mais, que o título do livro do Cardeal Tolentino não é uma pergunta, é uma afirmação. E é uma afirmação a partir da qual surgem várias outras afirmações do que é necessário fazermos e sermos, num tempo em que parece que temos de estar e ser mais um e menos comunidade. Parece. Porque há várias formas de sermos e estarmos com, mesmo estando fisicamente isolados, e a pequena frase que serve de sub-título ao livro já diz muito sobre isso: ‘o poder da esperança’. Amar um país, significa amarmo-nos, a nós mesmos e aos outros. E, para isso, temos de começar pela raiz. Por descubri-la. Por cuidar dela. Por nutri-la. Subirmos à montanha dentro de nós mesmos, e vermos quem verdadeiramente somos. De reaprendermos o que é e como é estarmos mais próximos e mais afastados, e podermos estar próximos e afastados ao mesmo tempo, na proporção correcta. Por transformarmos o tempo, deixando de contar os minutos e percebendo melhor o valor de cada um deles. E de passarmos a escrever, com a nossa vida, outras histórias. Sobre como amar um país.

25 de Novembro de 2020 – Liebesträum

Ouço hoje, até às entranhas, o ‘Liebesträum’, de Max Reger. Há descobertas assim. Que surgem quando parece que procuramos outras coisas. Mas elas surgem, talvez porque tenham de surgir. Como com qualquer música, basta fecharmos os olhos, e deixarmo-nos levar por ela para onde formos levados, sem pensar. ‘Liebesträum’ significa ‘sonho de amor’. Que Max Reger coloca em música, em forma de caminhos, cores, aromas, matizes, texturas, respiração, tensão, relaxamento. Em forma de paisagem sonora. A construir por cada um. Talvez indescritível. Talvez apenas sentida. Talvez um sonho. Esse, em cada nota de ‘Liebesträum’.

24 de Novembro de 2020 – ‘The Newsroom’

Para além de produzir vários documentários e séries documentais absolutamente esmagadoras para Donald Trump, dando-nos uma imagem de uma América que quis (re)construir (ou descontrair) à sua imagem, a HBO te uma série em que dá a conhecer os bastidores de uma estação televisiva americana, a ‘Atlantic Cable News’, em que o Will McAvoy de Jeff Daniels é a ‘âncora’, como lhe chamam os americanos. Se outros argumentos faltassem, haveria o facto de ser escrita por Aaron Sorkin, um dos mais reputados argumentistas americanos, responsável, entre outros, pelos guiões de ‘West Wing’. Mas há um todos que nos prende desde o primeiro episódio. O ‘sumo’ das histórias humanas por trás dos ecrãs. As intrigas políticas e sociais da época. O 11 de Setembro revivido. A ascensão da internet, do jornalismo cidadão e das ‘fake news’. Mas, sobretudo, uma vontade quixotesca de fazer um noticiário como mandam as regras. Com erros, certamente. Mas tendo a excelência como meta. E é curioso como os episódios são um pouco mais longos que o habitual nas séries (alguns ultrapassam uma hora), mas não se dá conta do tempo passar. Porque tudo acontece à velocidade das notícias.

23 de Novembro de 2020 – ‘Answer me’, please, Mr. Jarrett

A 23 de Novembro de 2015, não escrevi n’A Minha Agenda. A 23 de Novembro de 2015, estava, por esta hora, em Florença, no Teatro dell’Opera, à espera de ouvir ao vivo Keith Jarrett. A primeira vez que ouvi Keith Jarrett foi como se um mundo diferente surgisse. Nunca antes tinha ouvido um piano soar da forma que ouvi naquele instante. E esse instante mudou tudo. Desde esse momento que digo a mim mesmo que gostava de ser assim, mas já passou tempo suficiente para perceber que não é possível ser igual a Keith Jarrett. Há poucos dias, o New York Times publicava uma pequena reportagem, em que dava conta que Jarrett não iria voltar aos palcos, e talvez não voltasse a poder tocar sequer. Dois acidentes vasculares cerebrais, em 2018, seguidos de uma paralisia, deixaram como sequela a inutilização de toda a parte esquerda do seu corpo, fazendo com que caminhe com imensa dificuldade. Keith Jarrett tem 75 anos. Lembro-me que, quando vi que iria fazer uma tournée pela Europa, decidi imediatamente que iria vê-lo. Não importava onde. Foi em Florença, curiosamente a cidade estrangeira para onde viajei sozinho pela primeira vez. Durante o concerto, Jarrett pediu-nos muito que desfrutássemos do momento, e que não nos preocupássemos com filmar ou fotografar, porque o que de melhor poderíamos levar dali eram as memórias. Desejei muito que aquele concerto se tornasse, um dia, num disco. Mas não aconteceu. Dessa viagem europeia, ficou gravado o concerto de Budapeste. Desse álbum, recentemente lançado, o último trecho transborda poesia, delicadeza, amor. E, cada vez que ouço, volto a todas essas memórias. A quando ouvi o ‘Köln Concert’ pela primeira vez. A quando sonhei ser igual a ele. A quando o vi e ouvi. A quando ele mesmo me disse que o melhor que poderia levar de um concerto dele eram as memórias. É por isto tudo que, ao ouvir estes quatro minutos e meio, a única mensagem que lhe quero mandar é a de que me responda e surpreenda, como faz sempre. Sempre que me passa pela memória. Answer me, please, Mr. Jarrett. Like this. That will do.

Keith Jarrett – ‘Answer Me’ (Live in Budapest)

22 de Novembro de 2020 – Milagres

Foto: Rui Duarte Silva (Expresso)

Hoje, a palavra que ficou a martelar o tiquetaque do relógio foi ‘milagre’. Um milagre é algo de inexplicável, inesperado, impossível, diríamos. De certa forma, ver o Miguel Oliveira ganhar o Grande Prémio de Portugal é um ‘milagre’, embora saibamos que esse ‘milagre’ foi fruto de muito treino, trabalho, persistência, foco, e uma imensidão de outras coisas. Conheci, sem saber, a Cristina, mãe do Miguel Oliveira, num retiro em que trabalhámos as emoções, juntamente com dezenas de outros amigos, e, olhando para esses dias, percebe-se bem de que tipo de fibra o Miguel é feito. Mas houve outro ‘milagre’ a martelar o tiquetaque. Há alguns anos que conheço o padre José Paulo Teixeira. Dos tempos em Moldes, em Janarde, em Albergaria da Serra, em Silveiras, em vários sítios onde fomos, com ele, levar um pouco de música a algumas celebrações, como naquele Ano Novo com neve, em que tínhamos o povo (e ele) à nossa espera fora da igreja, entre outras peripécias. O padre Paulo é, em si mesmo, um ‘milagre’. Um ‘milagre’ em movimento, que não pára, que precisa de estar em movimento, em transformação, em construção permanente. Talvez tenha sido por isso que lhe foi confiada a capelania do Hospital de São João, onde vai percorrendo, diariamente, os quase vinte quilómetros de corredores, levando o conforto de uma palavra e a ‘escuta activa’, de que fala na entrevista ao ‘Expresso’, aos vários doentes. O padre Paulo tem visto que, com esta coisa da COVID, os profissionais de saúde não têm tempo sequer para pedir este tipo de ajuda, de que muitas vezes precisam. E os doentes, por vezes, também já não têm condições físicas e anímicas para o fazerem. Mas também ali há ‘milagres’. Como as curas de que a Bíblia nos fala, se bem que talvez de forma um pouco menos espectacular. O que é certo, é que eles acontecem, e o padre Paulo ajuda a fazer acontecer.

Há muitas histórias com final feliz. Vemos muitas histórias extraordinárias. Algumas pessoas, para me provocarem, dizem-me: ‘senhor padre, isto foi milagre’. Milagre foi, sem dúvida. Mas da medicina, da enfermagem, da ciência e da força de cada pessoa. Não serão os milagres que as pessoas querem ver, mas todos os dias, e várias vezes ao dia, eu vejo milagres no hospital. E desses dou testemunho, e luto por eles todos os dias

Padre José Paulo Teixeira (capelão do Hospital de São João, Porto), ao jornal ‘Expresso’

21 de Novembro de 2020 – Behold, America

E, lançando mão a um livro, abri, sem pensar onde, a obra completa de Walt Whitman. E abrindo numa página à sorte, surge a oitava ‘Song of the exposition’. Um longo poema de amor à América. E, à medida que se lê, para além de parecer que a voz de quem o escreveu nos lê as mesmas linhas ao ouvido, é como se chegássemos àquela terra pela primeira vez, e, em poucos segundos, víssemos a história em ‘fast-forward’, até chegarmos a este preciso momento. Nós, portugueses, tornamos poética a vastidão do mar, por onde nos aventurámos. Os americanos podem, facilmente, fazer o mesmo com a vastidão (e inúmeras cambiantes) da terra que conseguem pisar. Como é possível que o país que despertou este canto de amor a Walt Whitman seja, hoje, um pântano? Como é possível que um país que se declara o farol político do mundo, esteja em ‘sede vacante’, personificada num não presidente? Quando vamos poder voltar a acreditar e a ver essa América da vitória e da lei, das suas várias geografias, de líderes carismáticos, de barcos a entrar e a sair dos portos, em direcção ao mundo? Quando poderemos voltar a dizer, com o tom e o timbre de Whitman, ‘Eis a América’?

And thou America,
Thy offspring towering e’er so high, yet higher Thee above all towering,
With Victory on thy left, and thy right hand Law;
Thou Union holding all, fusing, absorbing, tolerating all,
Thee, ever thee, I sing.

Thou, also thou, a World,
With all thy wide geographies, manifold, different, distant,
Rounded by thee in one – one common orbic language,
One common indivisible destiny for All.

And by the spells which ye vouchsafe to those your ministers in earnest,
I here personify and call my themes, to make them pass before ye.

Behold, America! (and thou, ineffable guest and sister!)
For thee come trooping up thy waters and thy lands;
Behold! thy fields and farms, thy far-off woods and mountains,
As in procession coming.

Behold, the sea itself,
And on its limitless, heaving breast, the ships;
See, where their white sails, bellying in the wind, speckle the green and blue,
See, the steamers coming and going, steaming in or out of port,
See, dusky and undulating, the long pennants of smoke.

Song of the exposition – 8 (Walt Whitman)

20 de Novembro de 2020 – Isolado, mas no mundo

Dei conta, ao regressar aqui, que não vinha desde que tivemos de viver confinados. Curiosamente, ou talvez não, voltei quando também tenho de viver confinado, de forma profiláctica. E dei por mim a relembrar uma sessão preparatória do mestrado em Sociologia, em que eu, na altura (início dos anos 2000) grande fã do conceito de Aldeia Global, resolvi colocar a questão sobre como nos deveríamos posicionar nesse contexto. O Professor José Reis, com a sua bonomia habitual, respondeu de imediato, e com poucas palavras. Começou por dizer que ‘a Aldeia não é Global, a Aldeia é minha’. E confesso, sinceramente, que não precisei do resto da resposta. Quase vinte anos depois, compreendo, como nunca, aquelas palavras. De facto, a Aldeia é minha. Ninguém está disposto a abdicar, de qualquer maneira, do seu espaço, do seu território, da sua identidade. Penso na ‘minha’ Arouca, no ‘meu’ Mosteiro, nas ‘minhas’ aldeias, nos ‘meus’ arouquenses. Penso, também, no meu espaço físico, agora reduzido a poucos metros quadrados. E, de tudo isso, não quero abdicar. Acontece, porém, que estou aqui, a escrever. Estou também aqui, em contacto com amigos, colegas, alunos. Estou aqui à procura de notícias do exterior. A internet está cada vez mais dentro de nós, e pouco estamos a conseguir fazer para que isso não se concretize. Portanto, ainda que de forma consciente, o paradoxo permanece. A Aldeia é, de facto, minha. Mas o que acontece é que eu estou isolado, sim. Não deixo, todavia, de estar no mundo. O que é estranho. E, ao mesmo tempo, curioso.

18 de Março de 2020 – A Cultura, bem de primeira necessidade

Monika Grütters, Ministra da Cultura alemã (Foto: Günther Ortmann/Getty Images)

A Ministra da Cultura alemã disse que não ia deixar ficar mal os agentes culturais. Cumpriu. Monika Grütters conseguiu fazer com que Angela Merkel e o seu Governo considerassem a Cultura como bem de primeira necessidade, beneficiando de medidas como uma ajuda directa de largos milhões de euros e acesso a uma linha de financiamento ilimitada, sobretudo para manutenção de empregos. A Ministra não deixou de sublinhar que, na situação em que nos encontramos actualmente, é fácil percebermos que a Cultura não é um luxo, e que não podemos prescindir dela por tempo indeterminado. ‘Ouviremos as preocupações dos agentes culturais, e trabalharemos para garantir que estes possam aceder às medidas de apoio e de liquidez. Temos de reagir às adversidades, que não são culpa nossa, mas que têm de ser compensadas’. A notícia do ABC (jornal espanhol) é de leitura obrigatória.

17 de Março de 2020 – Johann Sebastian Bach: Matthäus-Passion

Johann Sebastian Bach: Matthäus-Passion (St Matthew Passion) / Sir Simon Rattle, conductor · Berliner Philharmoniker · Rundfunkchor Berlin (Simon Halsey, chorus master) · Knaben des Staats- und Domchors Berlin (Kai-Uwe Jirka, chorus master) · Peter Sellars, ritualization / Recorded at the Berlin Philharmonie, 11 April 2010

É nestas alturas que me invade uma certa tristeza por não saber falar alemão. A gravação já tem 10 anos, e a música séculos, mas é uma obra tão monumental, que tem de ser percebida no seu todo. Bach construiu algumas catedrais, duas delas as Paixões. Hoje, deixei-me invadir e levar até ao infinito pela Paixão segundo São Mateus. Que música fabulosa. Que equilíbrio. Que tudo. Não há nada que não esteja lá. Tudo na proporção necessária, no tempo necessário, no momento oportuno. Nesta performance da Orquestra Filarmónica de Berlim, o que há de novo é a ‘ritualização’ ou encenação da obra, magnificamente pensada por Peter Sellars. Apesar da sobriedade de uma versão de concerto, a intensidade dramática está toda lá, com o narrador a viver e a sentir o que Cristo terá vivido e sentido nos momentos que antecederam a sua morte. Tudo, resulta num concerto lindíssimo, que nos faz lembrar, nestes tempos de quarentena e de Quaresma, a caminhada que temos de fazer para a redenção, para o cimo da montanha, para a passagem da morte à vida. Por tudo o que lá está, por tudo o que não está, e pela imensa grandeza desta música, o dia está ganho.