Às vezes, a leitura de jornais fica um bocadinho desfasada da pressão do tempo. Maria João Pires deu uma entrevista à revista do ‘Expresso’, mas a leitura foi sendo feita. Para além de todas as questões sobre a sua relação com o país, das condicionantes que fizeram com que orientasse a sua carreira da forma como orientou, ou até mesmo de como, de certa forma, criámos a pandemia em que vivemos, duas ideias ficam na retina. Uma, sobre o que pensa do ensino, sobre ensinar ou transmitir. Diz Maria João Pires que podemos facilmente colocar o conhecimento que possamos ter em páginas de livros, e estaremos a ensinar algo a quem nos ler. Mas transmitir, é essencial, no domínio das artes, porque vive da criatividade e do momento, é uma experiência viva e individual. Outra ideia, muito mais simples, mas muito mais forte, tem a ver com a humildade. As três frases merecem ser transcritas: ‘É o primeiro princípio para sermos seres humanos dignos. Sem humildade não aprendemos nada, não conseguimos avançar. A humildade é a primeira das qualidades que temos de cuidar e alimentar diariamente.’
Há quem prefira primeiro ver o livro, depois o filme (ou a série). Há quem prefira o contrário. Eu prefiro o que tiver de ser. De resto, ultimamente, a leitura não tem sido muita, portanto, ver e depois ler seria o mais provável. De há algum tempo para cá, as séries da RTP têm-me prendido a atenção, o que não poderia ser diferente quando o título era o de um ‘best-seller’ nacional de Mário Zambujal. Pelas leituras, conhecia-o de ‘Cafuné’, e não desgostei de conhecê-lo. Agora, volto a conhecê-lo, mas, primeiro, através das imagens. E ainda é cedo para saber no que vai dar. No primeiro episódio, ficámos a conhecer os malandros. No segundo, o Arnaldo figurante. No terceiro, a Adelaide magrinha. Ainda faltam conhecer cinco malandros. Estou para ver…
Há vários anos que se vai sabendo de ataques terroristas no norte de Moçambique. Em meados de Novembro, as notícias davam conta de que jihadistas haviam raptado e decapitado cinquenta pessoas. A sombra do Estado Islâmico já há algum tempo paira, bastante negra, sobre Cabo Delgado, e D. Luiz Lisboa, bispo de Pemba, tem sido um dos rostos e uma das vozes da resistência a esta onda de terror e de morte. Já o tinha ouvido dizer que ninguém iria silenciar a Igreja sobre as o que estava a acontecer na sua Diocese. Hoje, numa sessão on-line, promovida pela Fundação Fé e Cooperação, D. Luiz disse duas coisas particularmente interessantes. Disse que, quando questionava os seus fiéis sobre o perigo de se refugiarem nas matas, e a probabilidade de serem atacados por animais, eles lhes respondiam que os animais sabem que são os bons e quem são os maus. Disse, ainda, há famílias de Cabo Delgado que, ainda que estejam a passar por sérias dificuldades, acolhem mais uma, duas ou até três famílias. Uma das lições que daqui podemos retirar é a de que os pobres são solidários. Não precisei de ouvir mais nada.
Era uma vez um conto de Natal. Daqueles contos de Natal que o avô lhe contava, quando publicava no jornal. Era frequente saberem um do outro pelo jornal. Mas o que é facto, é que, quando se encontravam, era como se soubessem tudo um do outro, e tudo acontecia de forma fluida e natural. Este é o conto de Natal que ele oferece ao avô.
De onde ele olhava para o mundo, tudo acontecia depressa, e com intensidade. Não havia tempo para nada, a não ser para fazer-se o que tinha de fazer-se, de preferência mais rapidamente do que seria suposto. Eram raros os momentos em que ele podia olhar para outra parte do mundo, onde as coisas aconteciam mais devagar, onde havia tempo para olhar, ver, observar e deixar-se encantar. A todo o momento, ele estava em contacto com o mundo, e o mundo em contacto com ele. As notícias chegavam-lhe, às vezes antes mesmo de acontecerem. As pessoas apareciam-lhe emolduradas em ecrãs de vários tamanhos. Tudo acontecia sem que ele saísse do lugar, e era essa a sua realidade. Uma espécie de linha de montagem da vida. O universo imutável.
De onde ela via o mundo, a paisagem era parecida. O tempo fugia-lhe. O olhar estava quase sempre direccionado para onde tinha de estar. Tudo estava ligado. As caras nas molduras dos ecrãs. Uma espécie de linha de montagem da vida. O universo quase imutável.
Era frequente, a certa altura, um e outro, verem-se como se estivessem sozinhos no mundo. E foi quando aconteceu, numa espécie de acaso, começarem a ver as caras um do outro nas molduras dos ecrãs. Primeiro, em forma de letras, palavras, frases. Depois, imagens. Depois, as vozes foram falando ao ouvido um do outro. Era quase Natal, e o tempo desacelerava, o olhar podia desviar-se para o alto das montanhas, para as nuvens com um resto de neve, para o encanto dos retratos que foram ficando na memória, ano após ano, das luzes que contornam casas e árvores, das montras com cores quentes, dos sorrisos acolhedores das pessoas com quem se cruzavam. Ela, deixava que os sons que ia ouvindo do mundo lá fora lhe fizessem cócegas no ouvido. Ele, inspirava, de olhos fechados e com a satisfação do regresso à criança que nunca tinha deixado de ser, o cheiro da geada nas pedras da rua.
Talvez tenha havido aquele momento em que ‘era uma vez’, mas eles não conseguiam precisá-lo. E não importava. Apenas importava o encanto de redescobrirem esse encanto de driblar o tempo, de olharem para o mundo de outras perspectivas e formas, de olharem para as caras sem estarem nas molduras tecnológicas, de se deixarem encantar, como se as horas fossem a água de um rio, e eles ficassem apenas a contemplar o mundo a partir da margem.
Foi um tempero diferente, aquele Natal. E, ao regressar à voragem habitual, nada foi como era dantes. O tempo passou a ser contado de outra forma. A pressa passou a ser menos apressada. Aprenderam a gerir o ritmo frenético e a olhá-lo mascarados. Passaram a valorizar pequenos gestos. Puderam sentir que aquele Natal de descoberta e de um estender de mão para se abrirem ao outro tem de ser construído em todo o tempo e lugar.
Desde aquele Natal, e dos natais que outros lhes proporcionaram, quando pensavam que estavam mais sozinhos do que nunca, e mesmo mascarados, perceberam o valor incomensurável de um olhar. Que nunca esquece quão profundos são os campos, que os enigmas são resolúveis e que é possível conservar a claridade de um dia de sol, mesmo quando chove. Desde aquele Natal que perceberam, e muito mais em todos os dias que se lhe seguiram, que nunca se esquece um olhar. Ainda que com máscara, podemos continuar a olhar. A ver. A observar. E será o olhar que nos leva ao outro. Que nos permite contar o tempo, a partir das memórias que guardamos e revemos de olhos fechados. Que nos permite, no fim de contas, viver. Esse olhar de Natal. Todos os dias.
À medida que se vai aproximando, começa a ser mais evidente que este Natal vai ser diferente. Provavelmente, será um pouco mais Natal do que os outros. Provavelmente, ajudará a que os próximos Natais sejam mais Natais do que os outros. Sobrará pouco tempo, logo depois, até que um novo ano comece, e é também esse renascer que o Natal nos traz. A cada ano, uma oportunidade de voltarmos a nascer diferentes, para melhor. À medida que se vai aproximando esse Natal mais natalício, aproximamo-nos do presépio. Dessa simplicidade, desse despojamento, desse nascimento para o qual (como para a morte) nada precisamos, apenas precisamos que aconteça.
Talvez por sermos seres limitados, somos, também, de limites. E a história que hoje me chama a atenção no Jornal de Notícias mostra os dois lados de um mesmo limite. Um homem atira-se ao Tejo com o objectivo de morrer. Só alguém numa situação limite procura provocar a própria morte, como que, ao saltar para o vazio preenchido pelas águas do rio, se salte para além desse limite que é a vida, inundada de dificuldades. Outro homem atira-se ao Tejo com o objectivo de salvar o homem que havia saltado para a morte. Um outro salto, de vida, de coragem, de humanidade. Um outro limite, o da morte iminente, para o qual, em princípio, não fomos feitos. Há muitas formas de contar uma história, muitas formas de recortá-la da realidade, muitas formas de sublinhar, com cores diferentes, este ou aquele pormenor. Seja qual for a forma de contar, recortar ou sublinhar, os limites da vida e da morte estão aqui claros. Ganhou o caminho do meio. Que, no final de contas, vai dar à vida.
Há nove meses, inspectores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras assassinaram um cidadão ucraniano, no aeroporto de Lisboa. Durante nove meses, o Sr. Cabrita, que é quem manda nas polícias de um país, diz que disse algumas coisas, mas as algumas coisas que disse não disseram nada, e o assunto parecia esquecido. Parecia, até deixar de estar. Alguém resolveu fazer contas e começar a puxar a ponta do novelo das responsabilidades. Demitida a directora do SEF, os pontos de interrogação começaram a ficar maiores em relação às condições que o Sr. Cabrita teria para continuar a ser a pessoa que manda nas polícias de um país. Perante o crescimento dos pontos de interrogação, o Sr. Cabrita resolveu organizar uma espécie de ‘drink’ de fim de tarde, para passear o seu sarcasmo, a sua altivez, a sua falta de humildade e a sua má educação. Tudo coisas a que já foi habituando os habitantes de um país onde é a pessoa que manda nas polícias. Anunciou que ia criar um botão de pânico e deu as boas-vindas às pessoas ao seu país, mas esqueceu-se de que as pessoas que resolveu atacar vivem num país diferente daquele onde o Sr. Cabrita é a pessoa que manda nas polícias. O Sr. Cabrita, quando ainda era deputado, protagonizou uma triste cena com o então Secretário de Estado Paulo Núncio. O Sr. Cabrita combateu o fogo que consumiu as golas, no seu Ministério, com uma espécie de contra-fogo, o que faz dele um incendiário. O Sr. Cabrita assobiou para o lado quando o confrontaram com a chegada frequente de migrantes ilegais à costa do Algarve. O Sr. Cabrita ignorou a forma desordeira como os refugiados, que o país em que manda nas polícias acolheu, se comportam nos chamados centros de acolhimento. E, como se não bastasse, o Sr. Cabrita ignorou um assassinato, um atentado contra os Direitos Humanos, de que se gaba, agora, de ser um defensor nato. No mundo em que o Sr. Cabrita (não) vive, e em que é a pessoa que (não) manda nas polícias do país em que vive, houve uns meliantes que, pela segunda vez, partiram o vidro do meu carro e andaram a remexer nas minhas coisas. Portanto, as polícias em que o Sr. Cabrita diz que manda, não estão a trabalhar como deve ser. É por isso, e só por isso, não pelas execráveis tropelias que o Sr. Cabrita já fez, que eu acho que ele já não tem condições para ser Ministro. Sr. Cabrita, bem-vindo ao mundo real. Alegue, por favor, que se demite porque o meu carro foi assaltado duas vezes este ano. É uma boa forma de ir-se embora, ‘swiftly and with style’.
Clarice Lispector faz 100 anos. Fui sabendo, pelas várias referências, mais ou menos veladas, pelos caminhos que fui trilhando, ao longo do dia. Para além das crónicas, da leitura de Clarice, o que me ficou foi uma certa solidão. Não sei se a que criou para as suas personagens, ou se a que transferiu de si para as suas palavras. Mas sempre aquela solidão onde se regressa a cada fim de dia. Essa solidão a partir de onde tudo nasce. E foi ao percorrer esse caminho que me voltaram, vívidas, as imagens de Itália. Onde regresso tantas vezes. Tal como se colou ao meu olhar a fotografia que te mostrei de Positano. Onde havemos de ir, antes ou depois de percorrermos os caminhos que serpenteiam por entre os trulli de Puglia. E, na boleia da fotografia, fogem do olhar três frases de Clarice, que como que estabelecem aquela solidão quotidiana como ponto de partida para qualquer viagem. ‘O mundo me parece uma coisa vasta demais e sem síntese possível’, diz algures, para, noutro lugar, dizer ‘mas um dia ainda hei de ir, sem me importar para onde o ir me levará’. Assim como, sobre outra viagem, da qual a partida não teve data fixa ou momento exacto, mas que se revelou uma aventura de descobrimento. ‘Não me lembro mais qual foi nosso começo. Sei que não começamos pelo começo. Já era amor antes de ser’.
Algum tempo depois de terminar o meu curso, tive o privilégio de estagiar, ainda que por um breve período de tempo, na TSF Rádio Notícias. Não foi tempo suficiente para nada, excepto para aprender muito, tudo o que sei sobre rádio, e ainda umas coisas mais. Desses tempos, lembro-me que, quando chegava à redacção de manhã, o Joaquim Pedro tinha uma espécie de ritual religioso, ao qual me converti com relativa facilidade. O Pedro ouvia, religiosamente, os ‘Sinais’, a crónica do Fernando Alves, quase sempre antes de ela ir para o ar. Para ele, aquela audição era como que a aprendizagem diária do que ainda faltava aprender. E era verdade, naquele tempo como hoje. Em viagem, é como se o carro parasse, para ouvir, para pesar, para sorver cada palavra do Fernando Alves. Hoje, tecendo uma textura a partir da breve oração solitária do Papa junto do monumento a Maria, na praça de Espanha, em Roma. Uma estátua da Virgem, com o pé sobre a serpente, colocada em cima de uma coluna vinda dos achados arqueológicos da cidade. Um monumento erguido pelos bombeiros de Roma, que todos os anos, a 8 de Dezembro, elevam a grua, e fazem com que Maria fique a segurar um ramo de rosas brancas. O tear de palavras continua, e chega a Atahualpa Yupanqui, compatriota do Papa Francisco, e à sua canção ‘Para rezar en la noche’. «É sobre o homem que caminha pelo mundo. O homem que nada tem, salvo a guitarra. É com ela que reza nas noites frias», diz Fernando Alves. Um homem que caminha pelo mundo, sozinho, sem nada a não ser o que o ajuda a rezar. Como o papa. A quem só faltou a guitarra, mas nem por isso o condão de nos questionarmos. Aposto que o Pedro ouviu de coração aberto o tecer das palavras de Fernando Alves, e, naqueles breves momentos, talvez tenha rezado.
Desde que vi, com olhos de ver, a série ‘West Wing’, sobre os bastidores da Casa Branca, que o fascínio em torno dos bastidores da vida política e da assessoria não parou de crescer. Foi mais ou menos fácil chegar a ‘Borgen’, ‘Scandal’, ‘House of Cards’, ou às muito polidamente britânicas ‘Yes Minister’ e ‘The Crown’, ou ainda, mais recentemente, ‘The Comey Rule’, e, vistas as coisas pelo outro lado da coisa, ‘The Newsroom’. Foi, portanto, com naturalidade que, estando a RTP2 a transmiti-la, chegasse a ‘1994’, que retrata a ascensão de Berlusconi e da sua ‘Forza Italia’ aos corredores do poder. De todas, talvez seja a que prefere mostrar as coisas pela via de como não se deveria fazer. Contudo, em muitos casos, e na realidade, fez-se mesmo. Daí que talvez valha a pena ver.