5 de Dezembro de 2011 – É já amanhã…

É já amanhã que o «Vocal Ensemble» dá um concerto para a Antena 2. O «friozinho» na barriga já começa a crescer. Há a consciência de que tudo está a ser feito para que nada falhe, mas nunca há uma segunda hipótese. Cremos e queremos que tudo correrá bem. A partir das 19:00, em directo na Antena 2. Ou no ISEG, em Lisboa. Vamos a isso.

4 de Dezembro de 2011 – A long road

Às vezes as coisas alinham-se para que retiremos, de todas elas, uma ideia simples. E o facto de se andar na estrada (literalmente) boa parte do dia, ajuda. Ajuda a pensar na estrada que se escolheu. Mais ou menos tortuosa. Melhor ou pior conservada. No que se deixou para trás. No que se vai encontrar. No que fazer, pensar e sentir durante o percurso. Nas opções de desvio. Mais curto, ou mais longo, para tudo há um caminho a percorrer. Seja para chegar a Lisboa, seja para se edificar uma construção musical. Seja, até, para fazer ruir algo. Feitas as opções dos vários cortes e saídas, depois de partes em paralelos, em alcatrão, mais rápidas, mais lentas, chegámos aqui. À parte final de uma viagem. Ao início de outra.

3 de Dezembro de 2011 – 93

Esta senhora é a minha avó, e faz hoje 93 anos. Noventa e três anos bem disfarçados por uma forma «rija» de ser e estar. Levantando-se, sempre, das quedas. Pé ante pé. Devagarinho, como que a apreciar bem tudo o que está à volta. A avó «Miquitas» já falava das festividades há muito tempo. Com a alegria e a vontade de pensar em cada pormenor. Dir-se-ia que eram 39 em vez de 93. Na realidade, 93 é só um número, composto por dois algarismos, cuja ordem é completamente arbitrária. Conta a vida que passa entre os algarismos. Entre os dedos da mão envelhecida. Pelas linhas de cada pequena ruga. Amanhã vai ser dia de festa, com a minha ausência. Mas o dia é hoje, e por isso almoçámos juntos. Amanhã, estarei a caminho de Lisboa, enquanto toda a gente comemora. Eu tive sorte. Comemorei antes. No dia.

2 de Dezembro de 2011 – «Post» número MIL

Sem saber muito bem como, hoje é a milésima vez que escrevo neste espaço. Quando o meu amigo Rui Gato me desafiou para ter um espaço de «blog» dentro do conceito «AroucaBiz», comecei por fazê-lo de uma forma «normal». Anotando, num ou noutro dia, aquilo que me ia atraindo mais ou menos a atenção. Depois, parámos um pouco, e surgiu-me a ideia, como um desafio a mim mesmo, de escrever todos os dias. Diz o povo que «quem canta mal, canta sempre», portanto, o máximo que poderia acontecer era eu adaptar isso à minha escrita. Por essas e por outras, a coisa foi andando, até chegarmos aqui. Portanto, reverentemente me inclino, grato, perante os que vão tendo a paciência e curiosidade de me lerem, mesmo sabendo que há um mundo imenso, lá fora, de palavras muito melhores e muito mais sábias do que as minhas. Reverentemente me inclino, grato, também ao meu amigo Rui, pela forma sempre disponível com que tem acompanhado (e resolvendo questões técnicas) este espaço. Muito obrigado a todos, porque é a vossa passagem (mesmo que fugaz) por este espaço que faz com que pareça que vale a pena continuar. E, enquanto parecer, a malta cá vai continuando a dizer umas coisas.

1 de Dezembro de 2011 – Se hoje não fosse feriado

É curioso pensarmos que se hoje não fosse feriado, muita coisa teria sido diferente na nossa história, e seríamos e estaríamos, consequentemente, diferentes. Se hoje não fosse feriado, não poderíamos dizer que «de Espanha, nem bom vento, nem bom casamento». Não poderíamos chamar, a brincar, «Espanha» a Vale de Cambra. Não teríamos um (des)acordo ortográfico que acaba com a nossa língua. Porque seríamos, tudo indica, Espanha. Falaríamos castelhano. Provavelmente teríamos delirado com as vitórias da selecção. Diríamos aqueles «ésses» todos esquisitos, e falaríamos com musiquinha. Hoje não trabalhamos, porque comemoramos a restauração da independência. O facto de um grupo de portugueses ter querido reafirmar o seu estatuto de país, com identidade e história próprios. Deixámos de ter um rei espanhol, e passámos a ser governados pela Casa de Bragança. Isto foi em 1640, mas talvez não seja muito descabido voltarmos a «tocar a reunir». Porque há dois tipos, no centro da Europa, que estão a mandar em nós. E nós não os elegemos. «So much for democracy».

30 de Novembro de 2011 – Moda, ou voltar ao que era no princípio

No pós-25 de Abril, quando a Lei estava suspensa, foi necessário que o povo, essa entidade muitas vezes abstracta, viesse para a rua, mais do que manifestar-se, ajudar com a sua força de trabalho os que estavam, de forma absolutamente voluntária, à frente da autarquias. Foi assim que nasceram muitas das obras públicas que hoje ainda são estruturais, em muitos municípios. De então para cá, as coisas evoluíram no sentido da burocratização e, até certo ponto, «complexificação» dos processos. Hoje, as autarquias são «máquinas», muitas vezes pesadas, e isso começa a fazer-se sentir. Lisboa, por exemplo, já assumiu não ter capacidade para pagar as horas extraordinárias dos seus funcionários, e o presidente da Câmara teme que, com as quebras nas receitas, a própria gestão dos salários dos funcionários possa ser complicada. Já Cascais avançou com uma ideia diferente. Um projecto de voluntariado que permite aos funcionários da Câmara participarem em acções de apoio a instituições sociais concelhias, mesmo em horário laboral. A tendência, de facto, é esta, e, em muitos casos, já acontece, mesmo que em situações pontuais. Pede-se aos funcionários autárquicos que sejam mais voluntaristas. Como na verdadeira afirmação do poder autárquico, aquela que muitos consideram ser a principal conquista de Abril.

29 de Novembro de 2011 – Vocal Ensemble na Antena 2, a 6 de Dezembro

No próximo dia 6 de Dezembro, a Antena 2 vai transmitir, em directo, um concerto do «Vocal Ensemble», a partir do auditório do Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa. O programa, já apresentado em concerto na Capela da Vista Alegre, pretende homenagear Tomas Luis de Victoria, sem deixar de passar por Frei Manuel Cardoso. Neste momento, a pergunta que paira sobre a minha cabeça (aliás, como no concerto anterior) é se serei digno de fazer esta música. Todavia, enquanto pergunto e não pergunto, estudo as partituras, e espero que, a 6 de Dezembro, a partir das 19:00, a música possa fluir, com o toque divino que só ela pode proporcionar.

Informações sobre o concerto Antena 2, aqui.

28 de Novembro de 2011 – Em busca das montanhas azuis

Acabo de ouvir, de fio a pavio, o último álbum de Fausto Bordalo Dias. Sublime, sublime, sublime, termina a viagem «Por este Rio acima», tantas vezes feita, até ao adeus final. Todas as viagens têm um adeus. Umas vezes mais definitivo que outras. Se vigias, de infinitas maneiras, algures no espaço celeste onde vejo a lua dizer que vai diminuir, quando sei que está a crescer, escuta esta música comigo. Porque também fomos por esse rio acima, os dois, muitas vezes. E ensinaste-me caminhos, mesmo quando partiste. Se estás aí, sabes que falhei. Bem que lançávamos o barco de saída, quando a guitarra era objecto partilhado. Fazes-me falta, para teres a palavra providencial em todo o tempo. Vou em busca das montanhas azuis sozinho. Porque tu já não estás aqui. Como a «welwitschia mirabilis» de Fausto, Alice, tu eras a minha «welwitschia mirabilis» de pai. Já não tenho guerreiros nem descobridores comigo. Exponho-me ao perfume das chuvas. Frias, deste Inverno que agora começa. Tu ficas, para sempre, aqui. E tu, guerreira, também. Comigo. E eu, vou em busca das montanhas azuis sozinho.

O PERFUME DAS CHUVAS
(Fausto Bordalo Dias)

chegaste no rasto da luz pela água
ao deserto da areia florida
Welwitschia Mirabilis
e nunca mais
uma andorinha
tão breve que fosse
deixou de voar
nas asas leves e azuis
do planalto da minha infância
eu sei que te abandono
quando agora parto pela orla de todos os mares
mas tu ficas
para sempre
no perfume das chuvas
Alice

[audio:http://aminhaagenda.aroucaonline.com/wp-content/uploads/2011/11/Em-busca-das-montanhas-azuis.mp3|titles=Em busca das montanhas azuis]

27 de Novembro de 2011 – A mão que ensina

Hoje, ao apertar a mão, de manhã, ao António «Rato», tive uma espécie de premonição do que o dia me iria ensinar. Enquanto nos cumprimentávamos, sentia a mão gretada e carnuda, de quem trabalha a pedra. De quem esculpe. De quem constrói, com arte. Senti que a minha mão, esguia e magra, estava a dizer-me que talvez nunca tenha construído (e talvez nunca construa) nada. Nem com, nem sem arte. Talvez nem plantar uma árvore. Nem ter um filho. Nem escrever um livro. Não tenho as mãos gretadas da arte. Nem de construir. Nem de esculpir nada. Nunca construí um muro, colocando, paciente e sabiamente, pedra sobre pedra, com o engenho e a arquitectura de quem sabe que é assim que se faz. Nunca esculpi um pináculo. Nunca fiz uma calçada. Nunca tive a mão gretada. Nem do tempo. Nem do saber. Nem de nada, a não ser de frieiras. Em menos de um minuto, a mão do António «Rato» ensinou-me tudo sobre arte, saber, viver. Ensinou-me, ao largar, que tudo o que eu sei sobre a vida é um imenso nada.

26 de Novembro de 2011 – Fado vai ser Património Mundial

Ainda não é garantido, mas as indicações apontam nesse sentido. O Fado vai ser património imaterial da humanidade. A candidatura portuguesa tem tido um amplo apoio da comunicação social nacional, e tem como rosto mais visível o musicólogo Rui Vieira Nery. A «força política» desta candidatura vem da Câmara Municipal de Lisboa, com o objectivo de «garantir a continuidade do Fado, reforçar a sua visibilidade e promover a coexistência da tradição com uma incessante reinterpretação e recriação artísticas». Para tal, a candidatura portuguesa baseia-se em três fundamentos: um Plano de Salvaguarda, um Plano Pedagógico e um Plano de Edição e de Investigação. É quase certo que vamos conseguir. Serão óptimas notícias para Portugal e para a música portuguesa. E será uma enorme responsabilidade começar a construir o «day after». Porque é aí, precisamente, que vai estar o verdadeiro desafio, e não apenas em ultrapassar o primeiro obstáculo.