15 de Dezembro de 2011 – Concerto de aniversário da Universidade de Aveiro

Talvez ninguém «de dentro» contasse que este concerto pudesse correr tão bem como correu. Fazer um concerto inteiro dedicado à música de Bach não é propriamente uma aventura fácil. Mas todos acabaram por estar, claramente, à altura do desafio. Depois de, durante a tarde, a Universidade homenagear três arquitectos que, estando ligados à criação do «campus», são hoje referências internacionais na área (Alcino Soutinho, Eduardo Souto de Moura e Álvaro Siza Vieira), o concerto foi o encerramento perfeito. Foi hoje, na Sé de Aveiro, com o «Magnificat» e a Cantata BWV 147 «Herz und mund und tat und leben» (que se pode traduzir livremente por «coração, boca e acções de vida»). Uma forma simples, mas rica, de lançar o desafio de um Natal mais genuíno.

14 de Dezembro de 2011 – Comparações

O presidente do Banco Central Alemão, um tal de Jens Weidmann, disse que nós, portugueses, estamos a viver um problema parecido com os alcoólicos crónicos. Estamos sempre a adiar para amanhã a recuperação, e a ajuda que nos estão a dar não nos resolve o problema. Confessemos, o tipo tem piada. Se nos tivesse comparado com os maníaco-depressivos, ou coisa parecida, tinha de enriquecer a imagem com a medicação respectiva, e a coisa talvez não resultasse com o impacto pretendido. Dizer que a malta gosta da pinga, é bonito. Remete-me para o senhor Narciso do «Pátio das Cantigas», que, em conversa com o candeeiro, sabiamente lhe responde: «Compreendi-te. Não te dignas baixar-te até mim, convencido que és alguém. Pensas que, por dares luz a uma simples rua, és igual ao sol que dá luz ao mundo». Pois é, Herr Weidmann. Nós podemos ser alcoólicos, mas ainda conseguimos responder à altura.

«É como um alcoólico dizer que a partir de amanhã vai estar sóbrio e a respeitar as regras, mas que esta noite precisa de beber. (…) Não creio que seja bom dar uma garrafa a um alcoólico. Não servirá para o ajudar a resolver o seu problema».

(Jens Weidmann, presidente do Banco Central Alemão)

13 de Dezembro de 2011 – Último ensaio

O Orfeão de Arouca está, neste momento, a ultimar a preparação da gravação do seu primeiro trabalho discográfico. Foi uma ideia que surgiu como as cerejas. Começámos por pensar em fazer qualquer coisa ligada ao Cancioneiro de Arouca, depois resolvemos juntar-lhe as Janeiras, depois pensámos «vestir» a música dita «popular» com uma «roupa» erudita, com arranjos para ensemble de sopros e orquestra de cordas. Como se não bastasse esta escalada, resolvemos, ainda, acrescentar um pequeno livro, com 16 páginas, com alguns textos sobre o trabalho e o que se pretende com ele. A partir de hoje, começamos a fase do fazer. Vamos a isso.

12 de Dezembro de 2011 – Outro sol

É curioso pensarmos que a claridade do dia se deve a um astro que, nos últimos dias especialmente, não temos o grato prazer de poder apreciar convenientemente. O sol. Aliás, todo o nosso pequeno universo apenas existe porque existe o sol. Nós não pensamos nele, pelo menos até sentirmos a falta, não o vemos, mas são assim, muitas vezes, as coisas verdadeiramente fundamentais. Não se vêem, não se sentem, não nos parecem importantes. Até pensarmos nelas. Até querermos senti-las, tocá-las, vivê-las. Luís XIV intitulou-se «rei sol», como que a marcar uma verdade absoluta, como absoluta era a sua visão sobre tudo. Mas Luís passou, a carruagem prosseguiu, e história continuou a moldar-se sem ele. E, discreto, o sol lá continuou, a nascer e a pôr-se, dia após dia, na sua certeza fundamental. Discreto. Esquecido. Escondido. Essencial. Eu queria poder oferecer o sol.

11 de Dezembro de 2011 – O problema das capitais

Talvez seja um problema exclusivamente português, mas o que é certo é que o «efeito capital» funciona como uma espécie de «sucção» de todo um país para um espaço geográfico confinado a que se chama Lisboa, cujas fronteiras, algures a partir de Vlia Franca de Xira, Alverca, Sintra e Almada, a delimitam do «resto do país». Este efeito de «sucção» fez com que, apesar de a União Europeia estar a proporcionar a Portugal a possibilidade de investir seis milhões de euros em cada dia, a economia só cresceu, nos últimos 10 anos, menos de 0,5%, milhões estes que significam 2% do PIB. Esta é a realidade que resulta do facto de Lisboa estar a absorver fundos comunitários que seriam destinados a outras áreas do país. Isto faz com que uma aparente boa notícia seja apenas isso, aparente. Uma plataforma de indústrias criativas quer fazer de Lisboa uma «capital cultural», em 2013, aproveitando a dinâmica de duas grandes exposições internacionais («Experimenta Design» e «Trienal de Arquitectura»). Já há ideias para programar concertos, entrevistas, apresentações, itinerários, enfim, uma vasta «produção de conteúdos». Novamente em Lisboa. No «umbigo de Portugal», onde tudo acontece. Deixando todo o resto do «rectângulo» de fora. É injusto que Portugal seja só Lisboa. E é demasiado extenuante lutar contra isso.

10 de Dezembro de 2011 – Hic sunt dracones

http://www.youtube.com/watch?v=z17OEqbrOOQ

«Hic sunt dracones» era uma expressão que surgia, frequentemente, na cartografia, para indicar a presença de monstros marinhos, ou de um mar revolto. Em suma, de um lugar onde não se deveria passar, sob pena de não se regressar. No caso, Roland Joffé, realizador de «Missão», escolheu a frase para título de um filme sobre José Maria Escrivá, fundador da «Opus Dei». O filme, baseado em factos verídicos, retrata o drama da Guerra Civil Espanhola, em especial para os clérigos, para não falar do povo espanhol em geral, que, ficamos com a sensação, nunca sabia muito bem de que lado deveria estar. Porque, percebemos, há sempre um lugar dentro de nós onde também existem dragões. Contudo, como acontece com os grãos de cacau, algo de aparentemente inútil pode ganhar um sabor divinal. A paciência, a habilidade, o trabalho duro e o amor libertam os sabores divinos que se escondem no grão de cacau. Há que apurar o paladar, e deixar a paciência, a habilidade, o trabalho duro e o amor trabalharem. Tocar ao de leve outra mão. Libertar sorrisos cativos. Porque não existem só dragões. Há todo um mundo de grãos de cacau, que podem, facilmente, tornar-se doces.

9 de Dezembro de 2011 – Prazeres

Quando, há dias, saí do eléctrico e entrei no Cemitério dos Prazeres, para uma visita, pensei que talvez estivesse a ser de uma excentricidade pouco habitual. Mas um texto publicado hoje no jornal «i», provou o contrário. Desde que visitei Père Lachaise, o famoso cemitério parisiense, onde estão sepultados vultos como Chopin, Poulenc e até Jim Morrison, que fiquei com a sensação que um cemitério também pode ser um espaço de arte. Pois bem, o pequeno passeio pelos Prazeres comprovou isso mesmo. Sem saber, verifiquei que o jazigo de D. Pedro de Sousa Holstein (Duque de Palmela) é o maior e mais antigo jazigo privado da Europa. Mas quem passear o olhar de uma forma mais ou menos atenta, facilmente se surpreende. Como no caso do jazigo dos escritores. Ali, não muito longe da entrada, José Cardoso Pires, Natália Correia, Matilde Rosa Araújo, Rómulo de Carvalho e Fernando Namora, por exemplo. Esculturas de artistas como Teixeira Lopes ou Simões de Almeida. Jazigos onde a maçonaria está claramente representada. Transponho, de novo, o portão que separa a morte da vida. Como na cidade. Como no ruído, que se volta a ouvir. Ainda há sol. Ainda há vida.

8 de Dezembro de 2011 – Foi mais ou menos assim, anteontem

Anteontem foi o concerto por que esperávamos, no «Vocal Ensemble». Sem contarmos, acabámos por ser filmados, para além da transmissão em directo para a Antena 2. O concerto, apesar dos percalços que sucedem quando se está a fazer música, sem rede, sem tempo nem espaço para o erro, teve momentos belíssimos. Pelo menos, foi o que se sentiu do lado de cá. Entretanto, a RTP publicou algumas fotografias, num espaço de galerias da internet. Aqui ficam algumas imagens.

7 de Dezembro de 2011 – Perdão, senhor Engenheiro José Sócrates


Estimado Engenheiro José Sócrates. Eu, pobre português, me penitencio por ser pobre e por ser português. Queria, do fundo do meu mais íntimo resto de consciência, pedir-lhe desculpa por ter contribuído para que fosse escorraçado do nosso país, à beira-mar plantado. Só de muito longe posso imaginar o peso do desterro a que o senhor Engenheiro foi votado, e quase me sinto tentado a pedir-lhe que volte e nos salve. Mas sei que o seu orgulho ferido não o permite, e Portugal inteiro clama, neste vale de lágrimas, contra si próprio, flagelando-se nos emaranhados da crise a que, sem qualquer réstia de culpa sua, está votado. Somos, de facto, um país de gaiatos, tem razão. Não temos o seu espírito cosmopolita, nem o seu vasto saber sobre economia, gestão, obras públicas, engenharia civil, política, filosofia, nem tão pouco o seu saber estar nos mais altos palcos do poder, a sua elegância, o seu porte, a sua facilidade com o verbo. Portugal, na realidade, não é digno de si. Por isso, em nome dos portugueses, creio que devo pedir-lhe perdão. Assim como me parece que fui injusto quando o acusei de mentira, em relação à nossa Via Estruturante. A culpa não terá sido sua, com certeza. Talvez do Doutor Paulo Campos, ou do Engenheiro Mário Lino, ou do Professor António Mendonça, ou de todos eles, mais do Doutor Passos Coelho e do Doutor Paulo Portas. Maus servidores deste país, que nos prometeram as coisas, alto e bom som, e depois se esqueceram. Deve ter sido um equívoco da minha parte. A crise em que estamos, senhor Engenheiro, deve-se a nós mesmos. É a conclusão a que chego. Por isso, como meros aprendizes, como os alunos de filosofia da antiga Grécia, deste rectângulo insignificante, na parte mais ocidental da Europa, clamamos pela sua sabedoria e assertividade, pela sua honestidade e carácter. Precisamos de si, afinal. Volte, senhor Engenheiro, volte sem demora. E perdoe-nos. Não é o senhor Engenheiro que não é digno de nós. É todo um país que não é digno de si.

6 de Dezembro de 2011 – No amarelo da Carris

Meio da manhã em Lisboa. A pé. Nuvens altas. Entro nas veias da cidade. Absorvo, quase poro a poro, o que posso. Caminho. Do Santo Contestável, desço à Estrela. Passo pelo jardim. Há gente que passeia, há gente que fala ao telefone, há gente sentada, sem fazer nada. E eu. Circulo. Basílica da Estrela. Há missa. Detenho-me a olhar o espaço, entrecortado pelo falar do celebrante e pelas respostas não muito efusivas da assembleia. Há um órgão pequeno, perto de uma grande cúpula. Curioso contraste. Saio. Um mendigo. Não dou. Há eléctricos a passar em frente. Subo. Quero comprar a viagem de regresso aos Prazeres. A senhora que comanda a máquina sorri e diz que é tão perto que me oferece a viagem. Sorrio de volta. Sento-me à janela e penso em escrever. Prazeres. Curiosa a arquitectura dos cemitérios. Vejo. Encontro nomes conhecidos. Caminho. Silêncio. Retorno ao exterior. Ao bulício. Preparo-me. Desço, novamente a pé, até ao Quelhas. Passo pela rua Almeida Brandão. Curioso. São Bento. Estranha calma, desabitado, parece. Passo por uma paragem de autocarro, onde uma rapariga estuda partituras de «carols» natalícios. Penso em sorrir e dizer «desço para cantar um Requiem», mas prefiro ficar pelo sorriso, só para mim. Junto ao Quelhas, entro. Vai haver música daqui a pouco. Concentração.