Normalmente, os filmes que têm a música como tema de fundo pecam sempre pelo exagero. Há aqueles que mostram os músicos como super-homens, que do nada fazem coisas espectaculares e que, mesmo nas situações mais adversas, conseguem, sem qualquer preparação, demonstrar um virtuosismo incomparável. São os mais frequentes. Depois, há os que são mais parecidos com o recente “Whiplash”, que, segundo parece, até é candidato a alguns Oscars. “Whiplash” conta a história de um baterista de jazz que quer ser o melhor de sempre. Para tal, contrariamente à ideia habitualmente construída em torno dos músicos, estuda até aos ossos (literalmente), ao ponto de entrar numa espiral depressiva. Se antes tínhamos o oito, agora parece termos o oitenta. Vale a pena ver, para servir de referência. Nada mais.
7 de Fevereiro de 2015 – «Construir o futuro em Arouca»
Conferência de João Ferrão marca o início da actividade do Círculo Mais Democracia
João Ferrão, professor e investigador da Universidade de Lisboa, e anterior Secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades, foi o primeiro orador das «Conferências de Arouca», promovidas pelo recém-criado movimento cívico «Mais Democracia». A conferência «Construir o futuro em Arouca», que serviu também para assinalar o arranque das actividades do movimento, decorreu no auditório da loja interactiva de turismo, no passado dia 7 de Fevereiro. A sessão foi moderada por Manuel Brandão Alves, arouquense, membro fundador do Círculo e professor catedrático da Universidade de Lisboa, e contou com várias presenças ilustres, com relevo para Manuel Sobrinho Simões (também ele membro fundador do grupo), bem como o presidente e a vice-presidente da Câmara Municipal.
Começando por afirmar que o título poderia ter «tanto de demagógico como de pedagógico», o orador tomou, desde logo, a iniciativa e «a responsabilidade de lançar a conversa», mais do que manter o tom de aula ou palestra. «Construir o futuro em Arouca significa, desde logo, que o futuro é construído em todo o lado, mas também em Arouca. E nós sabemos como as condições de construção do futuro são desiguais, são completamente assimétricas, e que há quem decida o futuro muito mais do que nós», afirmou João Ferrão. Assim, construir o futuro em Arouca não é o mesmo que construir o futuro em outros locais (o que pode levar a uma visão demagógica), mas é uma responsabilidade local contribuir para essa construção (onde intervém a vertente pedagógica).
«Os mapas cognitivos impedem-nos de ver mais longe»
Utilizando a metáfora da caixa de ferramentas, João Ferrão alertou para a forma como, muitas vezes, encaramos o país e os territórios. «Posso falar sobre a caixa de ferramentas e a sua potencialidade, mas se não a abrir e não dispuser das ferramentas para os seus fins, de pouco serve», afirmou, para demonstrar que «muitas vezes é quem vem de fora que nos mostra as limitações que impomos a nós mesmos, e isso, frequentemente, chega a ter impactos nas políticas públicas».
Neste ponto, o orador alertou para a forma menos correcta como são discutidos os problemas do país, «olhado como um ponto», à luz das políticas macroeconómicas e financeiras. «Não podemos discutir qualquer perspectiva a partir de um ponto», afirmou João Ferrão, porque «o futuro do país constrói-se a partir da diversidade».
O futuro
«O futuro não se prevê, o futuro constrói-se» foi a frase-chave que o professor e investigador da Universidade de Lisboa usou para caracterizar uma visão do futuro que já perpassa por algumas franjas da sociedade. «É necessário um esforço colectivo para que o impossível aconteça, mesmo nestes tempos de instabilidade e imprevisibilidade», afirmou, acrescentando que «a economia não pode ser um fim em si mesma, mas um meio, organizado, para atingir o fim (o bem-estar)».
Neste ponto, João Ferrão destacou a importância da economia verde, do desenvolvimento sustentável e das novas tecnologias como exemplo claro desta alteração dos meios para atingir os fins.
Foco nas relações
Para o anterior Secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades, o futuro depende muito das relações. «Somos o que somos pelas nossas características, mas também, e sobretudo, pelas relações que estabelecemos com os outros», adiantou, dando o exemplo do «hidrogénio e do oxigénio que, combinados na proporção certa, geram água, que é fonte de vida».
E é destas relações e das características que nos distinguem do «resto do mundo» que podemos mobilizar-nos. João Ferrão deu como exemplo o Arouca Geopark como forma de «mobilização e relação com o mapa global, uma plataforma a partir da qual se poderá construir futuro, pelas características únicas no mundo».
Mais do que soluções, o orador fez questão de orientar a plateia para as perguntas certas, a partir das quais se possa, com estas ideias, pensar melhor a construção do futuro.
O orador
Licenciado em Geografia, obteve o grau de Doutor em Geografia Humana, pela Universidade de Lisboa (UL). É Investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais desta Universidade, onde também lecciona em cursos de doutoramento e pós-graduação.
É Pró-reitor da UL para a sociedade e comunidades locais e Representante do Conselho dos Reitores das Universidades Portuguesas no CNADS (Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável). Tem desempenhado diversos cargos de relevância pública e política, nomeadamente: presidente da APDR – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Regional; Secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades no XVII Governo Constitucional; Membro do Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (Coordenador nacional de diversos projectos e redes de investigação internacionais) e Consultor da OCDE.
Tem coordenado diversos estudos de avaliação de políticas públicas, para o Governo português e para a Comissão Europeia e é conferencista junto de múltiplas instituições académicas e outras, em Portugal e no estrangeiro.
O «Círculo Mais Democracia»
O Círculo Mais Democracia é uma plataforma de acção cívica, que pretende «aprofundar o funcionamento democrático, possibilitando que cada um possa ser mais cidadão», como se pode ler no manifesto que enquadra a acção do grupo, sem pretender sobrepor-se «ao trabalho cívico que, felizmente, muitas outras instituições já desenvolvem em Arouca».
O território de Arouca é, assim, a matriz para a «realização de reflexões e debates que facilitem e permitam que cada um possa ser parte de uma sociedade e de uma democracia que sente como mais sua», afirma, também, o manifesto. Este Círculo, que já congrega mais de uma centena de arouquenses, é dinamizado por personalidades com raízes ou fortes ligações a Arouca.
Com a conferência do Professor Doutor João Ferrão dá-se início a um ciclo de debates sobre temas variados, que pretendem alargar a capacidade cidadã dos participantes, contribuindo, de forma activa, para o desenvolvimento do seu pensamento crítico e, de modo indirecto, para a projecção do nome de Arouca.
A próxima conferência deste ciclo terá lugar a 14 de Março, às 15:00, também no auditório da loja interactiva, com o tema «Mais de dois séculos de políticas florestais erradas», sendo o orador convidado o Prof. Doutor Américo Mendes, professor associado da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Católica (Porto) e presidente da Associação Florestal do Vale do Sousa.
6 de Fevereiro de 2015 – Ser quem…
Mário Laginha colocava o desafio de uma forma transparente, numa entrevista sublime (daquelas habituais) a Carlos Vaz Marques. Laginha chegou ao piano com vontade de ser como Keith Jarrett. A meta não poderia ser mais bonita, mais arrojada, mais fabulosamente perfeita. Ser um músico como Keith Jarrett é uma ambição desmedida que, de tão desmedida que é, é quase invejosa. Às vezes eu queria ser como o Mário Laginha. Outras vezes, também gostava de ser como o Keith Jarrett. Mas como gosto mais do Mário Laginha, e o sinto mais próximo, prefiro-o. Outras vezes gostava de ser outros. Mas, no fundo, estamos condenados (e bem) a ser quem somos. Mesmo que sonhemos ser quem quisermos. Somos. Estamos sendo. Ponto.
5 de Fevereiro de 2015 – O que falhou?
Tropecei num vídeo do maestro Karl Böhm, à frente da Orquestra Filarmónica de Viena. Gesto já curto. Olhar já distante. Algum cansaço a perpassar toda a imagem. Mas o que prendeu o olhar não foi nada disso, que, de tão óbvio, já não teve esse poder. Olhando o infinito, a postura do maestro desfaz-se completamente quando, de forma inesperada, as trompas não entram como deviam. E o pensamento é rápido, e a pergunta simples, embora longa. Por que cargas de água é que, apesar de trabalharmos arduamente para que nada falhe, apesar de atentarmos em cada um dos pormenores para que nada falhe, apesar de exercitarmos todos os dias para que nada falhe, apesar de conhecermos tudo a fundo, para que nada falhe, acaba por ser, muitas vezes, a coisa mais simples que estraga tudo?
4 de Fevereiro de 2015 – Deixe-me morrer
Senhor Ministro. Se um dia eu estiver a apodrecer por dentro. Se um dia a minha pele já não conseguir aguentar com as raízes de um qualquer tumor. Se um dia a doença for de tal forma possessiva que não reste mais nada do que uma cama qualquer. Se, porventura, um dia não tiver dinheiro para me curar. Se não conseguir pagar para viver. Se a minha saúde não puder ser transaccionada, nem que seja por um pano humedecido em água para limpar o que restar de mim. Se um dia eu precisar de um mínimo que seja de uma saúde que não é para todos. Se um dia, Senhor Ministro, peço-lhe. Deixe-me morrer.
3 de Fevereiro de 2015 – Pormenores de esperança
Há quem encontre sinais de esperança nas notícias. Nas palavras gastas dos que fazem parte da cacofonia diária. Nas imagens que nos entram em catadupa pelos olhos adentro. Na música de elevador, omnipresente, ritmada pelas vozes cuidadas de quem fala connosco pela rádio. E de tanto olhar para tanto lado, não vemos o que há de mais simples, de mais óbvio, de mais puro. É que, para além dos pombos do progresso, dessas aves citadinas, que para uns são sinal de modernidade, para outros de um ar, a breve tempo, irrespirável, há sinais de esperança nos ninhos de andorinha que, discretamente, se voltaram a esconder naquele espaço onde termina o telhado e começa a fachada de uma casa. Olhar para cima e encontrar, de volta, um sinal da andorinha da primavera. Simples. Como a esperança, no fundo.
2 de Fevereiro de 2015 – Pikena
Pikena. Quando, um dia, me ofereceste um livro ilustrado com um poema de Fernando Pessoa, nem sabias no que te estavas a meter. Porque, entretanto, o tempo passou, e fazemos contas a isso em números redondos. Eu dez anos, tu sempre pikena. E agora, eu mais dez anos, e tu sempre pikena. Tenho dado por mim a olhar para trás e a verificar que muita coisa aconteceu cedo demais. Peguei-te ao colo cedo demais. Como tu, mesmo achando que não, cresceste num ápice. Lembra-te que não somos do nosso tamanho, mas do tamanho do que vemos. Lembra-te que nenhum rio é maior que o da tua aldeia. E lembra-te, hoje, de outra coisa que te quero deixar. Lembra-te de seres tu a agarrar em ti e a fazeres de ti o que ainda vais ser. Eu sei, porque eu sei-te, que, mesmo sendo pikena, um dia vais ser grande. Vais ser ainda maior. Até lá, ouve bem estas palavras do mesmo Pessoa que um dia me deste. Escuta com atenção. Para já, é a melhor prenda que te posso dar. Cuida-te.
Ode de Ricardo Reis – Nanna Caymmi e Suely Costa
1 de Fevereiro de 2015 – Se hace el camino al andar
Há quem diga que foi Miguel de Unamuno. Há quem diga que foi Pablo Neruda. Pois bem, parece que uns e outros estão errados. O autor do famoso poema que diz que não existe caminho, que o caminho se faz caminhando, chama-se Antonio Machado. São poucas e curtas as linhas que, a fazer lembrar António Aleixo, dizem muito em pouco tempo, em pouco espaço, em poucas letras. Há o caminho. Que se faz caminhando. E que depois de caminhado, mesmo que volte a ser caminhado, já não será o mesmo caminho. Mas, ainda assim, o caminho faz-se caminhando. E há que caminhar. Com os que chegam, e vêm connosco. Com os que, entretanto, seguem por outros atalhos. Com os que vão e voltam. Com os que partem. O caminho faz-se com todos. O caminho faz-se.
Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.Caminante no hay camino
sino estelas en la marAntonio Machado (Proverbios y cantares XXIX – Campos de Castilla)
31 de Janeiro de 2015 – Círculo Mais Democracia
No próximo dia 7 de Fevereiro será dado a conhecer um novo movimento de cidadãos. Sem política que não seja a de querer contribuir para o esclarecimento, para o debate, para o conhecimento, para o questionamento sobre temas transversais, tanto ao local como ao global. Território e Desenvolvimento, Estado, Cultura e Conhecimento e Cidadania são os quatro vectores que unem académicos arouquenses ou com ligações fortes a Arouca (Manuel Sobrinho Simões, Manuel Brandão Alves, Maria de Lurdes Fernandes, Jorge Gonçalves e Fernando Regateiro à cabeça), e com vontade de debaterem como podemos ser mais eficientes e pró-activos nestes domínios. A primeira conferência, de um ciclo de cinco, terá como orador o Professor João Ferrão, reputado investigador da Geografia Humana, do Ordenamento e do Desenvolvimento do Território. Encontro marcado às 15:00, no auditório da Loja Interactiva de Turismo. Porque há várias formas de construir o futuro em Arouca. Uma delas, sem dúvida, é por via do conhecimento.
30 de Janeiro de 2015 – Ser público dentro da orquestra
«Mittendrin» (no meio) é a expressão que está a ser utilizada para definir um ciclo de concertos no mínimo original. Iván Fischer, maestro húngaro da orquestra da Konzerthaus de Berlim, é o rosto desta experiência que mais não faz do que trazer o público para dentro da orquestra. Deixa de haver dois níveis de comunicação, deixa de haver duas entidades, passa a estar tudo no mesmo patamar, e o público está lado a lado com os músicos. Abre-se espaço para que músicos e público conversem, se conheçam, se relacionem. Para que o público possa olhar a partitura e o maestro do mesmo ponto de vista que os músicos. Para que a experiência sonora (e estética) seja completamente diferente. Para que seja uma experiência vivida por dentro. Mais próxima dos pormenores. Que mais facilmente, de parte a parte, termina com um sorriso.













