«Temos de comunicar a raiz da nossa fé. E a raiz da nossa fé é, sem dúvida, a palavra, a Bíblia. Até porque a Bíblia tem em si um extraordinário potencial cultural e não apenas religioso». Foi mais ou menos por aqui que começou a excelente conferência proferida pelo cardeal Gianfranco Ravasi, hoje, na Universidade Católica, em Lisboa. O desafio era acutilante: «Parábolas mediáticas e parábolas evangélicas – Comunicar a fé no tempo da internet» foi o título escolhido, chamando, desde logo, a atenção pelo facto de serem raras as oportunidades de ouvirmos gente da Igreja Católica preocupada com as questões da comunicação. «Num mundo que tende cada vez mais a ser virtual, temos de recuperar o encontro, o diálogo, a comunicação», disse Ravasi, que, meio a brincar, meio a sério, classificou Jesus como o utilizador por excelência do «twitter» do seu tempo, como quando disse «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus», com a essencialidade e a clareza de um «tweet».
28 de Janeiro de 2015 – Voar
A frase é atribuída a Leonardo da Vinci, mas vale pelo que diz. Quando tivermos experimentado a sensação de voar, andaremos na terra com os olhos voltados para o céu, onde estivemos e para onde desejaremos voltar. É um bocado paradoxal que um tipo que tem vertigens tenha, ao mesmo tempo, vontade de voar, se possível da forma mais radical que encontre. A última mania chama-se «wingsuit flying», e não podia ter um ar mais «Davinciano». Estes verdadeiros «birdmen» (homens-pássaro) fazem voos absolutamente fantásticos, com um fato planador insuflável, com o qual chegam a atingir os 200 quilómetros por hora, até terminarem com a abertura do pára-quedas que levam às costas. Se um dia puder voltar ao céu com um fato destes, talvez continue a olhar para cima ainda com mais vontade de voltar. Mesmo com vertigens.
27 de Janeiro de 2015 – Arbeit macht frei
Entrar num campo de concentração nazi é das experiências mais cortantes que se pode ter. Sachsenhausen, em Oranienburg, não muito longe de Berlim. O que começa por se entranhar, quase de forma agressiva, é o silêncio. Tudo, ali, é silêncio, mesmo ainda antes de chegarmos ao portão. «O trabalho liberta». Irónico. À entrada, como à saída. Quando milhares de judeus passaram estas grades, para serem literalmente dizimados, como quando libertaram os que sobreviveram e trouxeram o peso da experiência agarrado à pele. O trabalho liberta. A resistência. A justiça. Como a cicatriz, que renova a pele, mas não apaga o que a causou. Uma cicatriz com 70 anos. Para nos mostrar como foi e como não pode voltar a ser. No interior do hospital, junto aos fornos crematórios, a ouvir a explicação detalhada do que ali acontecia, passo a passo. No espaço ao ar livre, de onde se vê tudo, num triângulo de horizonte que parece imenso. O silêncio, sempre o silêncio. Que corta a pele como a bala metida na cabeça daquele que ia a caminho da câmara de gás. Que corta a carne como a coronhada naquele que, sem dizer nada, não obedecia ao que não sabia. A ferida, ainda aberta, ganha forma de tatuagem. Na forma de três palavras simples, aparentemente vazias. «O trabalho liberta». «Arbeit macht frei».
26 de Janeiro de 2015 – White New York
É curioso que, antes de adormecermos, possamos ver Nova Iorque acordar coberta pelo que dizem ser o maior manto de neve de que há memória. Os Estados Unidos têm sempre esta coisa de «hollywoodesco». É tudo em grande. Compreende-se. Depois do 11 de Setembro, mais vale prevenir do que remediar. Já há imagens, para já de um nevão como outro qualquer. Não com a planura alta da Freita, mas com o recortado tridimensional dos arranha-céus. Nova Iorque vai acordar com neve. Talvez um nevão histórico. Enquanto, por cá, adormecemos com um frio habitual, à espera, quem sabe, de um dia de sol tímido. Em jeito de brincadeira, a fazer lembrar a canção de José Cid…
25 de Janeiro de 2015 – Escuta, meu rapaz…
Escuta, meu rapaz. De todas as pessoas que te podem dizer o que é a vida, talvez eu seja a menos avisada. Na realidade os cerca de 15 anos que nos separam, rapidamente foram encurtados. Hoje, parece mais fácil tomares conta de mim do que o contrário. Quando eras deste tamanho, era quase difícil pegar em ti. Era como se fosses demasiado precioso para eu correr o risco de não pegar em ti como devia ser. Mas não faz mal. Vi-te crescer como se estes 20 anos passassem em dois dias. Hoje é daqueles dias em que toda a gente te diz que tem muito orgulho em ti. Pois, eu também. Porque, confesso-te, dá-me gozo ver-te crescer, constantemente à procura da perfeição. Seremos parecidos nisso? Não sei. E, de repente, tens 20 anos. Foi tão rápido, que não me sinto com moral para te dar grandes conselhos. Nem preciso. Até porque… Escuta, meu rapaz. De todas as pessoas que te podem dizer o que é a vida, talvez eu seja a menos avisada. Hoje, se posso dar-te um conselho, digo-te. Apenas sê.
24 de Janeiro de 2015 – A montanha
Se eu pudesse, vivia no seio de uma montanha. Talvez sendo aquela água, que caindo é já outra, parecendo ser a mesma, ou sendo a mesma. Ou sendo a pedra que a água molda. Ou ainda uma simples folha verde, protegida por árvores maiores ou por uma fenda num penhasco. Às vezes apetece estar recolhido, aconchegado pela montanha. Como se fosse um segredo a que só se chega pela descoberta. Quando se sobe até aqui, apetece tudo isto. Não a montanha. Imponente, impenetrável, sólida. Antes o que de mais frágil possa estar recolhido dentro dela.
Foto: Joana Costa
23 de Janeiro de 2015 – CR7 (pecados capitais)
O primeiro pecado capital de Cristiano Ronaldo (a ordem de importância dos sete é irrelevante) é o seu excessivo foco no trabalho. Todos os treinadores que o orientaram e grande parte dos companheiros de equipa que foi tendo são unânimes ao reconhecer que é sempre o primeiro a chegar, o último a sair e o que mais intensamente trabalha os vários aspectos do treino. CR7 não esquece, contudo, o facto de que o seu trabalho individual tem por objectivo o enriquecimento do colectivo. Acresce a isto o facto de estar a fazer a sua carreira no estrangeiro, o que é particularmente português, sobretudo no aspecto do foco no melhor desempenho possível, que é, no fundo, o que faz de nós efectivamente bons e reconhecidos pelo mundo fora.
Decorrente do primeiro, o segundo pecado capital de Cristiano é, precisamente, o seu percurso, ou a sua carreira. CR7 começou como todos os outros, foi crescendo e dando nas vistas como muitos outros, mas houve um conjunto de factores que fez com que «explodisse» no Sporting, e rapidamente conquistasse a Europa e o mundo. Sorte, trabalho ou o acompanhamento correcto, ou a soma das três, fez com que a sua carreira nunca tivesse tido um revés, um passo dado em falso, críticas ferozes da opinião pública ou qualquer arrependimento. Ronaldo pode orgulhar-se de poder olhar para as fotografias antigas, tiradas ainda na Madeira, com o pai no «Andorinha» e no Nacional, junto da mãe à entrada do antigo Estádio de Alvalade, ainda com cara de menino no Manchester United e por aí fora, com a certeza de que cada passo correspondeu à subida de um degrau, de forma consistente.
O terceiro pecado capital de CR7 é o facto de projectar Portugal no mundo. Melhor ou pior, com mais ou menos emoção, na maioria dos momentos altos da sua carreira Cristiano dirigiu-se ao mundo em português, e nunca escondeu nem se afastou da «responsabilidade» de ser um símbolo do nosso país. Por muito que o acusemos de «tirar o pé do acelerador» na Selecção Nacional, basta lembrarmos os golos contra a Suécia, por exemplo, e ficamos conversados.
O quarto pecado capital de Ronaldo é a sua humildade (em alguns casos, alguns dirão mesmo «parolice»). Uma «parolice» que se lhe desculpa, porque tudo o que tem e tudo o que é deve-o a si mesmo, ao seu esforço, ao seu trabalho, ao seu posicionamento estratégico perante os desafios que lhe foram surgindo. A riqueza, a quase ostentação de CR7 não é maior, nem menor, nem diferente da que outros ídolos foram apresentando, ao longo dos tempos. Figo foi acusado de ser «pesetero» quando trocou Barcelona por Madrid, por exemplo, acusação que não se conhece a Ronaldo.
Quinto pecado capital é o facto de desvalorizar o confronto constante com Messi. Os seus gestos, a luta que protagoniza em campo e até mesmo a forma como se veste distinguem-se, para o bem e/ou para o mal, do argentino. O vídeo recente de um Messi desinteressado do jogo, não abona a seu favor.
Outro pecado capital é o facto de não esquecer a família em nenhuma circunstância. Com todas as críticas que possamos apontar-lhe, e pela história de vida que teve, num momento da vida social em que a família é tão desprezada, o seu exemplo deve ser tido em conta.
O espaço está a ficar curto para apontar todos os pecados de Cristiano Ronaldo, mas não podemos esquecer, para terminar, a sua capacidade de comunicação. Estudada ou espontânea, a sua «marca» é reconhecida e «vende». Prova disso é o seu reconhecimento universal. São sete pecados, que facilmente se perdoam. Até porque todos nós temos um bocadinho de inveja (ou melhor, cobiça). Quem não se sentiria no topo do mundo se estivesse no lugar de CR7?
22 de Janeiro de 2015 – Welcome, Mr. Mehldau
O senhor Mehldau entrou calmamente e, do alto do seu porte, começou a dar largas à música. Não havia mais ninguém, só o senhor Mehldau e o piano. Como se fossem uma única pessoa. E o senhor Mehldau parecia tocar com duas mãos, quando tocava apenas com uma. Foi viajando, viajando, pelas sonoridades que iam surgindo. Às vezes parecia um Chopin dos tempos modernos, outras vezes era ele próprio. Outras, ainda, uma reencarnação dos pianistas dos filmes mudos, aqueles que tocavam músicas muito rápidas, e geralmente castiças. O senhor Mehldau encheu a sala de um som quente, forte, intenso, mágico. Tratou, rapidamente, de dar um concerto sublime. Terminou com «And I love her» e «Blackbird», dos Beatles. E foi um bom final. Depois voltou a tocar aquele emaranhado bom de sons, com que começou. Como se voltasse ao princípio. O senhor Mehldau é um senhor. Gostava de ser, assim mais ou menos, como ele.
Foto: Ana Catarina Costa
21 de Janeiro de 2015 – Ano Novo, vida…
Porque é que, a cada ano novo, temos de querer, obrigatoriamente, uma vida nova? Apetece-me a vida velha. Sem as camadas de complicação que vão assentando, umas em cima das outras. Sem o tempo cada vez mais curto. Sem as preocupações laterais de todos os dias. Apetece-me a vida velha, sincera, simples, sonhadora, aberta a todas as possibilidades, feita de todos os impossíveis. Apetece-me a vida velha de voltar aqui. Dos livros. Da música, muita. Da surpresa com o mais simples que possa aparecer. A vida velha, boa, feita de coisas boas. Não quero essa vida nova, de mais camadas de complicação, de menos tempo, de mais preocupações quotidianas. Ano Novo, sim. Mas vida velha, por favor…
25 de Agosto de 2014 – Happy Birthday, Mr. Bernstein
Erradamente, passamos a vida a tentar inventar a roda. Continuamos a pensar que ainda há algo por descobrir, algo por fazer, algo por inventar. Mas não. Por muito que continuemos a querer inovar, os fundamentos do que fazemos estão lá atrás, no tempo. Hoje, estão na moda os Serviços Educativos. Bem entendido, há muita coisa a fazer. Mas a inventar, há pouco. Leonard Bernstein esteve na origem dessa “invenção” que aliou a educação à música, com os “Young People’s Concerts”. É incrível como conseguimos olhar para estes programas, ainda a preto e branco e com inúmeras limitações técnicas, que hoje facilmente se contornariam, e achamos que foram feitos ontem. Bernstein era um grande músico, um grande maestro e um grande educador. Ao que poderíamos acrescentar um grande comunicador. A sua biografia lança várias interrogações, seja no domínio social, afectivo, político até. Mas sobra a música, e isso é tudo. Hoje, Bernstein faria 96 anos. Se todos os que foram tocados pela sua música e pelos seus ensinamentos se expressassem em conjunto, talvez o mundo todo se transformasse numa grande orquestra.





