E, de repente, ouvimos falar sobre um dos nossos restaurantes de eleição na nossa rádio de eleição. A TSF dedicou o «TSF à mesa», de António Catarino, ao Assembleia Wine Bar & Restaurant, e ouvir falar de gastronomia arouquense nas ondas hertzianas foi quase tão saboroso como estar mesmo à mesa. É mais uma prova de reconhecimento pelo excelente trabalho que tem vindo a ser desenvolvido por este grupo de malta boa, que faz o Assembleia saber bem todos os dias. O programa pode ser ouvido aqui.
30 de Março de 2016 – E Marcelo falou ao país
Num horário absolutamente improvável. Num estilo talvez pouco presidencial. Eis que o país assiste à primeira comunicação do Presidente da República. Sem qualquer cuidado com o «prime time» das televisões generalistas. Apenas fazendo o que e como quis. Marcelo foi mais Marcelo do que Presidente, e optou por aproximar o formato da conversa, mais descontraída, ou do tom coloquial, e menos de «discurso». As opções do Presidente da República têm sido menos óbvias do que o habitual. E isso é bom. Para óbvio, basta o que já conhecemos.
29 de Março de 2016 – Bruegel. Bruxelas. Entre o bem e o mal
A luta entre o bem e o mal já se trava em Bruxelas há mais de 450 anos. Chama-se «A queda dos anjos rebeldes». É um quadro pintado por Pieter Bruegel, o Velho. Em 1562. E faz parte do acervo do museu nacional de artes da Bélgica.
Há poucos dias, a Europa acordou desorientada, com os atentados perpetrados no seu coração político, cujo simbolismo se percebe, mas as consequências não. De repente, em outro tempo e em outro contexto, a Bélgica parecia abrir uma nova frente de luta entre o bem e o mal. Em outra tela. Com outras cores. Com outros protagonistas. Com outras interrogações ou porquês.
Bruegel resgatou a herança de Hieronymus Bosch, e juntou, na mesma tela, formas humanas e sombras, luz e trevas, anjos comandados por São Miguel, com a sua armadura dourada, e o dragão com sete cabeças. Estranhamente, em equilíbrio.
É estranho como o bem e o mal conseguem, frequentemente, coexistir. Tal como o céu azul e a profundeza do abismo, de Bruegel. A pouco e pouco, é como se nos fossem retirando a tela do pintor holandês, ou o vidro da televisão. E aquilo que estava ali, mesmo em frente a nós, mas, de facto, longe (e nós, protegidos), passa a estar à nossa volta, e suga-nos. Para dentro do quadro.
Pilatos terá feito a pergunta verdadeiramente essencial, quando fazia uma espécie de julgamento a Cristo. «O que é a verdade?» Esta, a pergunta que, entre as explosões de Bruxelas e a explosão de cores de Bruegel, metralha a nossa mente. Desorientada. Ferida. E sem uma resposta definitiva.
O quadro de Bruegel é um dos que pode ser visto e conhecido com particular detalhe no mais recente projecto do Google Cultural Institute. Aqui. Obrigado Rui Tukayana, pela dica, no «Mundo Digital» de hoje, na TSF.
28 de Março de 2016 – E, de repente, doze portugueses morrem num acidente
E, de repente, doze portugueses morrem num acidente. Na estrada. A caminho de Portugal. Fazendo lembrar outros tempos. Em que se atravessava a fronteira a salto. Em que os emigrantes portugueses iam viver para os «bidonvilles». De repente, parece que andamos para trás quase um século. As condições em que vivem os emigrantes parecem voltar a ser as mesmas que quando tinham de fugir da guerra, ou da miséria, ou da morte, ou simplesmente da vida. De repente, doze portugueses mandam a sua vida dentro de uma carrinha onde, ao que parece, só cabiam seis ou nove, não interessa. Em vez de mandarem o seu salário para os seus, mandam a sua própria vida. Como se fosse uma mercadoria. Que se extraviou. Uma destas vidas, era de Arouca.
27 de Março de 2016 – Passagem
A Páscoa é, na sua essência, uma passagem. Da morte à vida. Da destruição à reconstrução. Do caos à ordem. Uma oportunidade para reedificarmos tudo a partir de dentro. Tal como a Primavera faz rebentar as flores, depois da razia do Inverno. A Páscoa é um tempo fértil em imagens. Deixadas por quadros, trechos musicais, filmes. E há algumas imagens que, sem querermos, se sobrepõem. Como a imagem sonora que Andrew Lloyd Webber pinta no final do filme/musical «Jesus Christ Superstar». O excerto chama-se «John (19-41)», e, basicamente, transforma em sons este excerto do Evangelho Segundo São João. Sem esquecer de colocar música nos poros deixados pelas dúvidas e mistérios do texto. É um bom exercício de Páscoa, ouvir, com ouvidos de ver.
Jesus Christ Superstar – Andrew Lloyd Webber & Tim Rice – John Nineteen- Forty-One (19-41)
Jesus Christ Superstar – Andrew Lloyd Webber & Tim Rice: John (19-41)
26 de Março de 2016 – Jacarépagunaminacajurapassu
E às vezes apetece não pensar em nada. Ou relembrar tempos divertidos. Sons divertidos. Quando ainda se cruzava a Avenida de Gaia de autocarro. Quando se ia ao Rivoli ou ao Museu do Carro Eléctrico ou à Alfândega «ouver» as Vozes da Rádio. E de como rimos até não podermos mais ao ouvir, pela primeira vez, o «super-hit» que conta a história de um extraterrestre que, ao chegar a Portugal, descobriu a cultura brasileira. «Jacarépagunaminacajurapassu» foi, a partir daquele dia, o «single» promocional das Vozes da Rádio, nos nossos ouvidos. E passámos a ir a todos os concertos e a tentar ter na prateleira todos os cd’s. E ficámos, desde esse dia, amigos. Por causa de «Jacarépagunaminacajurapassu». Os senhores lançaram, por estes dias, um disco novo. Ide, ide «ouver».
Vozes da Rádio – Jacarépagunaminacajurapassu
25 de Março de 2016 – Cântico Final
Em dia de Sexta-Feira Santa, é talvez curioso que ressoe, latente, o «Cântico Final» de Vergílio Ferreira. Esse cântico que, mais do que religioso, é um cântico da arte, da vida enquanto percurso, da morte (quantas vezes esperada) como inevitabilidade a que fugimos. Um cântico polifónico. Umas vezes com acompanhamento, outras apenas com a voz de quem o canta. E se, por vezes, explode em cores espalhadas por uma tela, outras é lúgubre, como um salmo da Paixão, entre paredes de pedra de há muitos séculos. Quando, quase estranhamente, se gosta, é-se talvez mau juiz. Mas fazer este percurso, ouvir, por dentro, este cântico que quase caminha em contra-mão com a ideia da Páscoa, fazendo dela a sua afinação, é uma das formas de fazer essa passagem. Entre a morte e a vida, ou ao contrário. Ou apenas percorrer.
«O primeiro nevão aparecera com o anúncio do inverno; e durante dias não cessou a dança fantástica dos flocos brancos na distância raiada do horizonte. Lago dos cisnes, aceno longínquo, aceno de sempre. Através das janelas do seu quarto, Mário assistia pela última vez a essa visita de uma certa inocência maravilhada – dádiva miraculosa dos velhos contos de fadas à pobreza da montanha, ao seu pobre corpo destruído. Mundo insondável das finas vibrações, lúcida visão de um riso de outrora, fugidio aceno de uma verdade de origens – como vos amo, como vos lembro! (…) Sentia-se profundamente bem, quando as dores o esqueciam um pouco, sentia um prazer quente, como um bafo na face, em olhar a neve que não cessava de cair, em escutar essa vibração íntima do silêncio que alastrava com ela sobre a terra. E ao ouvir uma palavra erradia dos vultos breves que passavam no caminho, ao pressentir de novo essa obscura união da montanha ao frémito dos astros, de tocar, como numa suspeita, o intrínseco recolhimento do mundo a uma hora primordial de verdade indizível – qualquer coisa mais forte e intocável do que uma presença na noite o gravava de um apelo de paz, de resignação, de desistência, como a evidência serena de um limite atingido.»
Vergílio Ferreira (Cântico Final)
24 de Março de 2016 – Cruyff, a parte mecânica da laranja
O tempo passou, e parece que reduziu as coisas a metade. Cuyff era o 14, e Ronaldo, por exemplo, é «apenas» 7. Beckenbauer era conhecido como «o filósofo», mas no que diz respeito às coisas da bola, o pensamento de Cruyff, e a forma como se impôs, supera qualquer filosofia. A cerca de um mês de completar 69 anos, o motor da «Laranja Mecânica» não conseguiu marcar golo contra o cancro. Mas isso não nos impede de verificarmos que foi precisamente essa engrenagem que mudou o futebol, de forma decisiva. Basta vermos a estética a que a Selecção Holandesa nos habituou, ou, de forma ainda mais evidente, o «tiki-taka» do FC Barcelona (que Guardiola estendeu ao máximo). Como alguém dizia, por estes dias, o futebol joga-se com onze de cada lado. Cruyff somou o «3» da perfeição. Com ele, jogar-se-á, sempre, com catorze.
23 de Março de 2016 – O som, a fúria e o silêncio de Bruxelas
Há uma espécie de fascínio do ser humano pela explosão. Talvez reminiscências do «Big Bang». Esse som, essa fúria primordial é, também, um dos fascínios mais praticados por extremistas e radicais, como se, assim, conseguissem voltar a dar origem a alguma coisa, sendo que, a única coisa a que conseguem dar origem é a uma espécie de caos e a um vazio atarantado. Explosões. Sons ensurdecedores e primordiais. Uma fúria primitiva inexplicável. O caos total, vivido por quem pouco ou nada tem a ver com esta luta surda, que apenas os que a travam (contra si próprios?) parecem compreender. Ante tudo isto, resta apenas o silêncio.
22 de Março de 2016 – Três (pequenos) pontos sobre a eutanásia
O debate parece estar a decorrer longe das posições extremadas que outros debates fracturantes foram assumindo, o que demonstra que, apesar de tudo, a sociedade portuguesa está mais madura, mais preparada para pensar, para informar-se, para trocar argumentos, para expressar-se. A questão da eutanásia volta a ser colocada, ainda que de forma mais ou menos indefinida, mas o assunto debate-se, e ainda bem.