10 de Abril de 2016 – Vamos pôr o Sequeira no lugar certo

sequeira_pinturaNa minha última deslocação a Lisboa, em trabalho, dei de caras com uma iniciativa em que já andava há algum tempo para participar. O Museu Nacional de Arte Antiga teve a fabulosa ideia de dividir «A Adoração dos Magos», de Domingos Sequeira, em pixeis, para que os que quisessem ajudar na sua aquisição pudessem fazê-lo de forma ainda mais concreta. Pois bem, parece que o «puzzle de pixeis» está quase completo, e o quadro irá, brevemente, juntar-se ao cartão final e aos desenhos preparatórios do pintor, que já fazem parte da colecção do Museu. O quadro é lindíssimo, e, dizem os entendidos, é uma peça fundamental do património nacional. Irá, com o meu contributo, para o lugar certo. Certamente.

9 de Abril de 2016 – Wine Project

wine-projectMarcos Alberti é fotógrafo e resolver verificar, através das imagens, os efeitos do vinho em quem o consome. A ideia foi aliar trabalho com boa disposição e algum humor a temperar as imagens. O processo foi sempre acompanhado por boas conversas, segundo explica o fotógrafo brasileiro, que não se alonga em propósitos quanto a este trabalho. Basicamente, segundo se lê, procurou apenas ver (e dar a ver) como é fácil alterarmos o nosso à vontade três copos depois. «Tem uma frase que diz, a primeira taça é da comida, a segunda é do amor e a terceira é confusão. Queria ver se isso era verdade», diz. Será?

 

8 de Abril de 2016 – As convenções da música clássica

parodyofbachBaldur Brönniman, maestro titular da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, com quem já tive o prazer de trabalhar, ficou, para mim, conhecido pelo seu sentido prático. Recentemente, descobri o seu site e o seu blog, curiosamente através de um artigo em que manifesta a sua opinião contra algumas das convenções estabelecidas (muitas vezes não sabemos muito bem como nem porquê) no domínio do que costumamos chamar a música «clássica». Brönniman aponta dez coisas que o público devia ter permissão para fazer, durante os concertos, para além de sentar-se calma, tranquila e silenciosamente na plateia. O «mandamento» número um do maestro é que o público deveria poder aplaudir entre os movimentos das obras, contrariando o hábito introduzido por Gustav Mahler, tornando as coisas mais espontâneas e permitindo ao público exprimir-se em relação ao concerto que está a ouvir. Em segundo lugar, diz o maestro que as orquestras não deveriam afinar em palco. O ritual da entrada e afinação acaba por retirar impacto àquele momento mágico que é o início do som que se pretende partilhar. Brönniman é apologista dos telemóveis nas salas de concerto (terceira observação), desde que em modo silencioso. Não para fazer chamadas, mas para permitir, por exemplo, «tweetar», fotografar ou gravar partes do concerto. Se as pessoas pagam bilhete, deveriam ter direito a captar recordações, diz. No quarto «mandamento», o maestro diz que os programas deveriam ser menos previsíveis. Muitas vezes, são os «encores» que prendem as pessoas às cadeiras das plateias. Em quinto lugar, diz Brönnimann que deveríamos poder levar as nossas bebidas para a sala, como nos concertos «pop», num ambiente relaxado. Chegamos ao sexto ponto, em que o maestro diz que os artistas deviam estar mais sintonizados, mais envolvidos, mais comprometidos com o público. Muitos estão, e chegam mesmo a dialogar com a plateia, antes ou durante o concerto. Mas o público deveria poder também deslocar-se ao «backstage» no final dos concertos, conversar com os músicos, partilhar opiniões. Sétimo «mandamento», mais relacionado com o «outfit», Brönnimann acha que o traje das orquestras está fora de moda. «Demasiado século XIX», diz. Em oitavo lugar, o maestro pensa que os concertos deveriam ser mais orientados para o público familiar, permitindo entradas e saídas de pais e crianças, colocando as famílias com filhos pequenos próximas das saídas, por exemplo, bem como a existência de espaços para brincar, conteúdos interactivos, etc. Quase quase a terminar, em nono lugar, Brönnimann acha que as salas de concerto deviam apostar mais na tecnologia para aproximar músicos e público. Ecrãs para mostrarem o que não se vê da plateia, recurso a alterações físicas para melhorar as condições acústicas e disponibilização de conteúdos para «download» são algumas das sugestões, para acrescentar ainda mais criatividade ao trabalho dos artistas. Por fim, o maestro diz que todos os programas deveria conter pelo menos uma peça contemporânea, inesperada, que faça a ligação entre a música «clássica» e o que se produz actualmente, porque a música é uma arte viva. Dez mandamentos em que vale a pena pensar.

7 de Abril de 2016 – Há porrada ou não há porrada?

joao-soaresCircula, a toda a velocidade, nas redes sociais, uma ameaça de porrada (metafórica? reiterada?) do (ainda?) Ministro da Cultura ao crítico Augusto M. Seabra. Pelos vistos, a ameaça já vem de 1999, segundo se lê no Facebook, o que, verdade seja dita, não abona em favor da classe política (mais uma promessa não cumprida). João Soares estende aos seus críticos, de uma forma mais popular e direccionada, a lei ditada outrora por Jorge Coelho, segundo a qual «quem se mete com o PS, leva». Dizermos o que nos apetece no Facebook, não faz mal nenhum. O problema é quando não se é «um qualquer». A menos que se seja…

6 de Abril de 2016 – Panama Papers

De repente, ficou a saber-se (e ficará a saber-se ainda mais) sobre umas quantas manobras financeiras para fugir aos impostos e preservar fortunas. Diz que está tudo nuns «papéis» do Panamá, para onde foi fugindo muito dinheiro de pessoas ricas e poderosas. Primeiros-Ministros, presidentes de entidades internacionais, actores e gente do «show biz» recorreram a este expediente, colocando dinheiro em «off-shores», através de uma empresa especializada no assunto: uma tal «Mossack Fonseca», a quem descobriram, agora, os «papéis». O jornal «The Guardian» explica, resumidamente, o que está a acontecer. E isto promete…

 

5 de Abril de 2016 – Quando perder pode ser ganhar um bocadinho

Bayern-BenficaÀs vezes, perder pode significar ganhar. Mesmo que só um bocadinho. O Benfica já estava, para todos os efeitos, derrotado. Mal soube que teria de jogar com o Bayern de Munique. Não havia nenhum indicador que pudesse indiciar o contrário. A história sempre esteve a desfavor, e se fôssemos ver os resultados com outras equipas portuguesas, nos tempos mais recentes, a nuvem ainda se adensava. Sucede que, como Pep Guardiola foi dizendo por outras palavras, o futebol nem sempre é laboratorial ou estatístico. E, com humildade, aquela que já não se via no Benfica há algum tempo, a derrota acabou por ficar apenas em 1-0 (mesmo que esqueçamos as oportunidades flagrantes que Jonas poderia ter aproveitado). Neste caso, perder foi mesmo ganhar um bocadinho.

4 de Abril de 2016 – «A terra que te ofereço», ou o sabor saboroso das palavras de outros

por-sol-radarE, às vezes, procuramos com todas as forças as melhores palavras para dizermos, ou apenas para pensarmos. Mas não as alcançamos. Até as encontrarmos, alinhadas por outros. E parece que era mesmo aquilo em que estávamos a pensar, e que queríamos dizer naquele momento. Foi então que apareceram, de novo, as palavras saborosas de Ruy Duarte de Carvalho. E não foi preciso mais nada…

quando,
ansiosa,
pela primeira vez
pisares
a terra que te ofereço,
estarei presente
para auscultar,
no ar,
a viração suave do encontro
da lua que transportas
com a sólida
e materna nudez do horizonte.

quando,
ansioso,
te vir a caminhar
no chão da minha oferta,
coloco,
brandamente,
em tuas mãos,
uma quinda de mel
colhido em tardes quentes
de irreversível
votação ao sul.

trago
para ti
em cada mão
aberta,
os frutos mais recentes
deste outono
que te ofereço verde:
o mês mais farto de óleos
e ternura avulsa.
e dou-te a mão
para que possas
ver,
mais confiante,
a vastidão
sonora
de uma aurora
elaborada em espera
e reflectida
na rápida torrente
que se mede em cor.

num mapa
desdobrado para ti,
eu marcarei
as rotas
que sei já
e quero dar-te:
o deslizar de um gesto,
a esteira fumegante
de um archote
aceso,
um tracejar
vermelho
de pés nus,
um corredor aberto
na savana,
um navegável mar de plasma
quente.

Ruy Duarte de Carvalho («A terra que te ofereço»)

3 de Abril de 2016 – Versailles

versailles-serieIr a Paris «por engano» e passar ao lado de uma visita a Versailles é, talvez, um estranho acumulado de azares. A adensar o sentimento de azar, para além dos vários documentários vistos sobre a fabulosa obra de Luís XIV, surge agora a série «Versailles». As séries são uma espécie de vício em processo de alastramento. Uma fórmula encontrada para consumo rápido, com algum sumo misturado com os ingredientes («sintéticos») habituais do formato. Por estes dias, mesmo que de forma supérflua, entra-se neste mundo de opulência e de um certo capricho do «Rei Sol». Dos vários diálogos (interessantes, diga-se, bem ao estilo BBC), fica na memória parte do último episódio. Quando Luís XIV percebe que, muitas vezes, o inimigo se distancia para parecer próximo ou se aproxima para parecer distante. E quando lhe dão a conhecer «A Arte da Guerra», de Sun Tzu, resumindo-a na imagem de que devemos mostrar-nos fracos quando estamos fortes e fortes quando estamos fracos. O «british accent» desculpa-se, portanto.

2 de Abril de 2016 – A História de Deus

O padre Carreira das Neves já tinha lançado a questão, um pouco na senda de Hans Küng, num interessante livro sobre as «faces» que Deus assume. Nas várias religiões, nos vários momentos da história, consoante a parte do mundo em que estamos. Agora, a National Geographic lança uma série documental, com Morgan Freeman como cicerone desta viagem às origens de Deus. Às questões eternas sobre que parte nos cabe a nós e que parte Lhe cabe a Ele. Ao grande ponto interrogação da morte. Apetece ver…

1 de Abril de 2016 – O Presidente da República ganhou o totoloto

img_2529-3O «Observador» de hoje conta uma história dentro de outra história dentro de outra história. A 1 de Abril de 1985, o «Diário de Notícias» escrevia que Marcelo Rebelo de Sousa tinha sido o grande totalista do Totoloto. «Marcelo Rebelo foi o único totalista do Totoloto ganhando, por isso, 25 345 987$30. O DN tentou contactar o jovem professor de Direito e patrono da Nova Esperança social-democrata, mas todas as diligências para o efeito resultaram infrutíferas. Fontes próximas daquele conhecido analista político disseram-nos não poder revelar o seu paradeiro, admitindo, no entanto, a possibilidade de Marcelo Rebelo de Sousa, logo que conhecida a feliz notícia, se ter refugiado numa quinta dos arredores da capital, fugindo, assim, à curiosidade dos seus amigos e admiradores que, entre si, já fazem apostas de como o dinheiro irá ser entregue.» Não fosse o diabo tecê-las, «A Capital» foi atrás da notícia, e chegou à fala com o «jovem professor de Direito», que confirmou as informações veiculadas pelo DN, chegando mesmo a afirmar que os 25 345 987$30 (mais de 25 mil contos, na altura) serviriam para pagar os salários em atraso dos jornalistas do Diário de Notícias. Curiosamente, passados estes anos, Marcelo acabou por ganhar outro Totoloto, o que confere verdade à notícia. Ao mesmo tempo que serve de lição a quem continua, sem grande humor nem criatividade, a insistir num 1 de Abril tão básico que até chateia.