Ouvir a «Paixão Segundo São Mateus», de Johann Sebastian Bach (basta os primeiros minutos), é quase como sentir os pulmões insuflarem com um ar diferente, com uma vida diferente. Bach tem o condão de, a partir das melodias aparentemente mais simples (algumas até demasiado simples), tecer uma teia de sons, de forma tão rendilhada e sólida, que se transformam em coisas verdadeiramente estruturais. A expressão «Bach» pode ser, livremente, traduzida para português como «Ribeiro». Neste sentido, a música de Bach corre, verdadeiramente, como um ribeiro. Como se fosse uma qualquer força da natureza, que cumpre a sua função por apenas existir. Assim como há um «antes de Cristo» e um «depois de Cristo», na História da Humanidade, há também uma espécie de «antes de Bach» e «depois de Bach», na História da Música. É mais fácil, talvez, ouvir a Paixão (de preferência a versão cénica de Peter Sellars, apresentada pela Filarmónica de Berlim, com direcção de Simon Rattle), e deixar esse novo ar, esse ar diferente habitar-nos, para se perceber melhor tudo isto. Hoje, é dia de aniversário de Bach.
20 de Março de 2016 – Sabedoria, paciência, ou coisa assim…
Há quem lhe chame sabedoria. Há quem lhe chame paciência. Ou prudência. Ou conselho. Somos pródigos em desmultiplicar significados, quando procuramos simplificar. Seja o que for, é algo que se cultiva. Que se semeia, e deixa germinar. Até, sem darmos conta, conseguirmos olhar e ver, pensar e reflectir, ponderar e decidir. Com sabedoria, paciência, prudência, conselho, ou qualquer coisa assim. Coisa que sabe bem ter. Usar. Ser.
«Orei e foi-me dada a prudência; implorei e veio a mim o espírito de sabedoria. Preferi-a aos ceptros e aos tronos e, em sua comparação, considerei a riqueza como nada. Não a equiparei à pedra mais preciosa, pois todo o ouro, à vista dela, não passa de um pouco de areia e, comparada com ela, a prata é considerada como lodo. Amei-a mais do que a saúde e a beleza e decidi tê-la como luz, porque o seu brilho jamais se extingue. Com ela me vieram todos os bens e, pelas suas mãos, riquezas inumeráveis».
(Sab 7, 7-11)
19 de Março de 2016 – Abrir. Estar.

E, de repente, abrimos a agenda, e verificamos que já não a abríamos desde Outubro. É como se começássemos uma viagem, de trás para a frente, a tentar reconstituir todos os passos que nos conduziram a este acto de a reabrir. E é como se o mundo fosse mudando, mas a andar para trás. Como se fosse “desmudando”. E eu não quero. Este cometa, que se move a uma velocidade inimaginável, que se chama tempo, tem deixado atrás de si uma cauda de coisas boas. Das que aconteceram porque estavam ali para acontecer. Das que fizemos acontecer. Das que não aconteceram. Hoje, volto a reabrir a agenda, sempre sem saber a que ritmo vou conseguir abrir todos os dias. Dias em que, no final, o abrir de um sorriso meigo, quente, macio, em que o abrir do mais belo sorriso que se pode receber, faz a alma transbordar. É aí que deixam de ser precisas as palavras. É aí que apetece. Apenas. Estar.
9 de Outubro de 2015 – Uma não-crítica
Quando somos público, facilita-se-nos a crítica. Rapidamente ficamos com a sensação de que, afinal, é fácil. A observação foge-nos para o gosto, e, se não gostamos, achamos simples, fraco, «uma porcaria». Exercer o juízo de valor é complicado, perverso até. Mas enfim. Hoje, foi dia de ver e ouvir as irmãs Labèque, na Casa da Música (obrigado, meu querido amigo Jorge Prendas), num formato e com repertório pouco habituais. Dois pianos em palco. Uma primeira parte dedicada a Ravel, com «Ma mère l’Oye» e «Rapsódia Espanhola». Uma segunda parte dedicada a Stravinsky, com a «Sagração da Primavera» para dois pianos (uma versão que o próprio compositor terá preparado para situações de ensaio do bailado). Katia e Marielle Labèque sempre tocaram juntas, e a sua discografia é das mais premiadas do mercado internacional, muito por força do repertório que trabalham. Tocam nas salas mais importantes do mundo e trabalham com os músicos mais relevantes do mundo. Têm dois anos de diferença, mas parecem gémeas, até na forma como tocam (juntas). Hoje, no final do concerto, lá se foi falando sobre como correu, do que se gostou e não gostou tanto. E nunca como naquele momento as palavras de Flaubert, no Dicionário das Ideias Feitas, foram tão certeiras: «para se ser um verdadeiro músico não se deve compor seja o que for, tocar seja que instrumento for e deve desprezar-se os virtuosos». Assim, já se pode ter espírito crítico suficiente.
8 de Outubro de 2015 – De-Lovely
Em 2004, Irwin Winkler teve a coragem de fazer um filme sobre Cole Porter. Se a vida tem melodia, ritmo e harmonia, Porter foi o homem que fez a síntese perfeita entre tudo. Kevin Kline tem um desempenho notável, a par de Ashley Judd, e a música não podia estar melhor entregue. A matéria-prima é de Cole Porter, mas ter, no mesmo filme, Sheryl Crow, Alanis Morissette, Diana Krall, Elvis Costello e Robbie Williams parece impensável. A história, bem… é melhor ver.
7 de Outubro de 2015 – Um violoncelo quase violino
Quando falamos dos instrumentos de cordas que compõem, habitualmente, as orquestras, é frequente brincarmos, ao dizer que uma viola é um violino um pouco maior, um violoncelo é um violino grande e um contrabaixo é um violino muito grande. Bem, hoje descobri o «cello da spalla», que pode facilmente ser traduzido como «violoncelo de ombro». Há quem diga que Bach estava a pensar num «cello da spalla» com cinco cordas para a sua suite número seis. Há uma certa excentricidade neste instrumento, mas que rapidamente se entranha, porque o som é lindíssimo. Dá para ficar curioso.
6 de Outubro de 2015 – Air Politiques du Portugal
Andam por aí uns senhores, que, supostamente, gerem o nosso dinheiro, e com isso nosso destino, e que parecem estar um pouco confusos quanto ao significado de «esquerda» e «direita». É como se andassem desnorteados, metidos nos seus fatos de corte fotogénico e gravata de cor televisiva, mas sem saber de onde deveriam vir nem para onde hão-de ir. Fazem e desfazem. Concordam de manhã, discordam à tarde, e ficam indecisos à hora do telejornal. Aos que agiram assim, os trabalhadores da Air France rasgaram as vestes. A estes, que apetecia, apetecia…
5 de Outubro de 2015 – Maestrina
A mulher é, sem dúvida, o ser mais sedutor que existe. As que têm a sorte de serem maestrinas, normalmente colocam de lado a sedução, e acabam, por força das circunstâncias, por encontrar num certo exagero no vigor do gesto a solução para se imporem. Com Alondra de la Parra, parece ser um pouco diferente, pelo menos a julgar por estes cerca de dois minutos. Sem perder o vigor (e o rigor) que é necessário ter-se, quando à frente de uma orquestra, optou por não pôr totalmente de lado a sedução. A começar pela peça a ensaiar, e a terminar na forma como se vai expressando gestualmente. E, assim, dá vontade de continuar a ver e ouvir, para além do minuto e tal.
4 de Outubro de 2015 – Silêncio…
O silêncio deve ser das coisas mais unânimes que existem. Shakespeare dizia que é preferível ser rei do silêncio do que escravo das palavras. Confúcio, que o silêncio é um amigo que nunca trai. Siro, nas suas sentenças, afirmava-se mais vezes arrependido por falar do que por estar calado. Séneca, que os desgostos da vida nos ensinam a arte do silêncio. É verdade tudo isto e muito mais. Às vezes, mesmo não sendo preciso procurá-lo. Ele instala-se. Afirma-se. Impõe-se. E espalha-se. E faz sentir o seu sabor. Que quase sacia, não fosse maior, uma vez ou outra, a vontade de dizer.
(Eugénio de Andrade: Rosto Precário)
6 de Agosto de 2015 – Orquestra Windows
Este é apenas mais um argumento para aqueles que acham que «once you go Mac, you never go back». Uma orquestra que, com base nos sons que os computadores emitem a partir dos erros ou dos comandos básicos do «Windows», é algo de curioso. Mais curioso ainda, uma valsa «Windows». Bem, acima de tudo, importa percebermos que a música também pode ter (bom) humor, e não tanto formalismo. Só isso, já é bom.