A passagem de Barack Obama por Portugal foi notícia em todo o mundo. De resto, o Presidente dos Estados Unidos é sempre notícia, com ou sem Portugal à mistura. Com a derrota eleitoral recente, este foi o momento para se reflectir sobre as semelhanças e diferenças entre Obama candidato e Obama presidente. Barack Obama foi (e é, ainda) uma esperança para muitos. Uma esperança de que é possível fazer-se política de uma forma diferente, não pela política em si, mas com propósitos e com justiça. Mas, sabemo-lo, por vezes a «máquina» é demasiado pesada, e o seu funcionamento dificilmente pode ser contrariado. Obama, apesar das contrariedades, continua a fazer passar uma imagem positiva, face um contexto substancialmente mais complexo do que os seus antecessores. Poderemos continuar a dizer «yes, we can»?
20 de Novembro de 2010 – Portugal, a primeira aldeia global
O livro não se lê, deixa-se ler. É absolutamente notável como Martin Page, jornalista britânico que viveu largos anos em Portugal, se fez valer de uma certa «objectividade», e nos dá a conhecer os feitos notáveis de que os nossos antepassados foram capazes. Não com um saudosismo desesperado. Não com um heroísmo «estado novista». Não com uma aura de epopeia, ou quase fábula. Com palavras simples, fala dos factos e do pensamento das várias épocas, de como as coisas se relacionam, desvenda-nos alguns porquês interessantes, muitos deles pouco conhecidos. Ficamos a perceber melhor o porquê de determinados acontecimentos em determinados momentos da história universal. De como nos integramos na geopolítica do mundo (a Europa, nos primeiros cerca de 1000 anos). A leitura ainda está no início, mas promete valer a pena.
19 de Novembro de 2010 – O que nos diferencia e distancia de Alcobaça
A história tem as suas curiosidades, muitas delas mais próximas de nós do que julgamos, e que, por isso mesmo, nos ajudam a perceber melhor alguns «porquês» de hoje. Se andarmos um pouco para trás no tempo, verificamos alguns factos curiosos. É inquestionável que a nossa fundação, os nossos fundamentos, e, logo, a nossa identidade, enquanto país, devem muito (senão quase tudo) aos Templários (mais tarde Ordem de Cristo) e aos Cistercientes. Pelo país, os mosteiros foram elementos essenciais na fixação dos povos, na reorganização territorial e, sobretudo, na conservação e divulgação do conhecimento, em especial aplicando-o em contextos práticos (agricultura, alimentação, cultura, educação e formação, entre outros aspectos). O fundador da ordem dos templários era familiar de D. Afonso Henriques, bem como São Bernardo, reformador da ordem dos Beneditinos, actual Ordem de Cister. Alcobaça, sabemo-lo, foi a «casa mãe» dos cistercienses em Portugal, e talvez por isso (a par com uma melhor localização geográfica face às acessibilidades) conserve ainda uma dinâmica social e cultural muito assente nessa identidade monacal. Por estes dias, decorre a Mostra Internacional de Doces e Licores Conventuais, evento que tem merecido amplo destaque na comunicação social. Os doces conventuais de Arouca estão ali muito bem representados por Manuel Bastos. Arouca teve também, em tempos e graças ao intenso trabalho da associação Anima Património, um evento similar, que atraiu um vasto número de visitantes. Contudo, o «Cister, sabores e saberes» nunca teve o apoio que merecia, nem conseguiu ter espaço para crescer como se pretendia. Em parte, estão aqui algumas das razões que nos separam e distinguem de Alcobaça. Perde Arouca com isso.
18 de Novembro de 2010 – Escola Secundária não tem dinheiro para contratar professores para projecto de cidadania
A notícia vem na edição online do jornal «I». A Escola Secundária de Arouca tem um projecto de formação na área da Cidadania, que não avança porque não tem professores disponíveis. E não tem, porque o projecto, que contemplava a remuneração dos professores por essas horas, foi reiteradamente chumbado pelo Ministério da Educação. Agora, a solução, segundo a notícia, passa pelo recrutamento de professores que estejam disponíveis para trabalhar voluntariamente, ou seja, sem receberem pelo seu trabalho. Segundo se lê, a iniciativa procura tocar em três áreas: Formação de Jovens Líderes, Formação em Mediação de Conflitos e Aulas de Convivência. Os destinatários poderiam ser tanto os delegados de turma e dirigentes das associações de estudantes, como os alunos expulsos por mau comportamento. A Escola Secundária tenta, assim, colmatar uma lacuna importante na formação dos seus alunos, apelando, em «desespero de causa», ao voluntariado. O Ministério prefere embandeirar com milhões numa reformulação do edifício do que investir na formação dos jovens arouquenses. Voltamos à história dos alicerces e do telhado. Uns preferem começar a construir por um lado. Outros, por outro.
17 de Novembro de 2010 – Afinal, era possível
O Ministro das Finanças era intransigente, e chegou mesmo a romper as negociações com alarido. Mas, hoje, tudo muda. O mesmo Teixeira dos Santos foi ao Parlamento dizer que foi possível fazer ainda mais cortes em despesas do Estado do que os que o PSD pedia. Entre outras, foram reduzidas despesas em combustíveis, material de escritório, transporte, custos hoteleiros, seminários, exposições e publicidade, deslocações, estadas, outros trabalhos especializados e outros serviços, pareceres, projectos e consultadoria e ainda um corte de 80 milhões de euros nas indemnizações compensatórias a pagar às empresas do Sector Empresarial do Estado. Afinal, era possível não fazer descarregar a crise nos portugueses. Afinal, era possível não aumentar brutalmente os impostos. Afinal era possível diminuir os desperdícios do Estado. Afinal, era possível.
16 de Novembro de 2010 – FMI ou Esquerda mundial?
Talvez seja mais uma prova de que o poder inebria e desfoca a visão. Dominique Strauss-Kahn, director do FMI e, possivelmente, o próximo presidente francês, parece ter confundido os papéis, e confessou que trabalha para a Esquerda mundial. De repente, um dos homens que pode e deve ser garante do equilíbrio da «sanidade mental» dos mercados, solta uma frase que dá, pelo menos, para parar e pensar. Fica a ideia de que Strauss-Kahn não trabalha para o Fundo Monetário Internacional, para ajudar ao equilíbrio económico, monetário e financeiro dos países, mas que, se verdadeiramente o faz, fá-lo porque trabalha para o que chama de «Esquerda mundial», por ser ela quem põe o mundo em movimento. Já tínhamos a ideia de que não podíamos mais confiar na esquerda portuguesa, porque nos defraudou. Podíamos, ainda e por contágio, pensar que seria arriscado confiarmos na esquerda internacional. Será que podemos confiar no FMI?
«Eu trabalho para a Esquerda mundial. A Esquerda faz mover o mundo há muito tempo.»
(Dominique Strauss-Kahn, director do FMI e «presidenciável» francês, no jornal «Le Monde»)
15 de Novembro de 2010 – O ministro das Finanças acordou?
Em declarações ao jornal «Financial Times», o ministro das Finanças admitiu que Portugal pode vir a precisar de pedir ajuda internacional para fazer frente à crise. Com o aperto dos números e com o descontrole completo, Teixeira dos Santos parece ter acordado. Contudo, a confusão permanece. Os membros do Governo vão falando todos ao mesmo tempo e em tons díspares, dando a entender, por vezes, que não são do mesmo partido nem partilham funções governativas. Mas, voltando ao que interessa, não parece que o «Financial Times» tenha grande interesse em noticiar o que quer que seja sobre Portugal, muito menos de forma fantasiada. Portanto, é fortemente provável que Teixeira dos santos tenha mesmo acordado.
«O risco é elevado porque não estamos perante um problema apenas nacional ou do país. Trata-se de problemas da Grécia, de Portugal e da Irlanda. (…) Os mercados olham para essas economias em conjunto porque estamos todos juntos na zona do euro, mas provavelmente olhariam de forma diferente se lá não estivéssemos. O risco de contágio poderia ser menor ».
( Teixeira dos Santos, ministro das Finanças, em declarações ao jornal «Financial Times»)
14 de Novembro de 2010 – Nas malhas da «Rede Social»
Como o «Facebook», o filme «A Rede Social» parece que primeiro se estranha e depois se entranha. Talvez seja por isso que, em média, cada sala de cinema portuguesa já recebeu mais de 1000 espectadores só para este filme (um total de 64 mil espectadores, na primeira semana depois da estreia). O filme dá-nos a conhecer um pouco dos meandros de uma das mais poderosas redes sociais, porque viciante, de uma forma ou outra; bem como dos meandros da construção de uma fortuna avaliada em 25 biliões de dólares por parte de Mark Zuckerberg, o milionário mais novo da história da humanidade. O argumento de Aaron Sorkin (criador de «West Wing – Os homens do Presidente») e a realização de David Fincher fizeram o resto. Vale a pena ver.
13 de Novembro de 2010 – O som magistral da polifonia portuguesa, no cadeiral do Mosteiro
Anunciava-se um grande concerto, e as expectativas não podiam ter sido melhor superadas. O espaço era propício, o enquadramento do concerto não podia ser melhor, e a mestria e limpidez com que os cantores do Coro Casa da Música foram dando a conhecer as obras de Frei Manuel Cardoso e Diogo Dias Melgás encarregaram-se de fazer o resto. Como se não bastasse, Jonathan Ayerst ofereceu-nos magníficas interpretações de Pedro de Araújo, no órgão ibérico. Tudo isto, com Paul Hillier na direcção. Somente um dos maiores especialistas em música antiga do mundo, conhecido pelas suas interpretações únicas e altamente competentes. Arouca teve a sorte única de poder desfrutar de um concerto desta qualidade.
12 de Novembro de 2010 – Homenagem sentida a Aristides Noites
As poucas e sentidas palavras de hoje são apenas para uma sentida e simples homenagem ao Sr. Aristides Noites. O Sr. Aristides, muito antes de o conhecer, foi o responsável pelo meu ar desajeitado, aos cinco anos, de fraldas de fora, depois de tentar imitar os seus gestos vigorosos e graciosos, de batuta na mão. Longe estava, nessa altura, de imaginar que iria ser o meu primeiro maestro, com quem aprendemos a disciplina, o rigor, a integridade e a intensidade do trabalho musical e da instituição que representamos. Com ele, aprendemos também que uma forma muito própria de liderança pode dar frutos. Frutos que vêm, no fundo, da humildade e da disponibilidade para o trabalho. O Sr. Aristides chegou a maestro da Banda de Arouca, porque a conhecia bem por dentro. Porque foi músico a sério, e sabia o que podia esperar de cada timbre, de cada instrumento e de cada instrumentista. Foi também autarca respeitado e em quem, sucessivamente, foi depositada confiança para gerir os destinos da sua freguesia e do seu município. O seu ingresso repentino numa outra, nova e grandiosa, orquestra, apanha-nos de surpresa. Mas o seu exemplo dá-nos a garantia de que, se o seguirmos, talvez ainda possamos vir a ser companheiros de naipe.