11 de Novembro de 2010 – Li bem? «Governo garante que não prevê…»?

A nossa percepção da crise está a deixar de ser retórica ou política, e está a tornar-se metafísica. Quando a notícia surgiu no «twitter», primeiro estranhei, mas acabei por entranhar. No «site» do jornal «Público» lia-se o título: «Governo garante que não prevê chamar FMI». A frase pode parecer irrelevante, mas deixar demasiado juntos os verbos «garantir» e «prever», não funciona lá muito bem. Por outro lado, é significativo dos tempos que vivemos. Mas há mais. O FMI não vem aí. O FMI já cá esteve, e nós nem soubemos. Aliás, só soubemos hoje, porque João Tiago Silveira, distinto porta-voz do PS, deu a conhecer que esteve, recentemente, em Portugal uma equipa daquela entidade. Mas ao que parece, foi apenas «uma mera reunião técnica de rotina, como tantas vezes tem acontecido na vida do país ao longo dos anos». Li bem?

10 de Novembro de 2010 – As incertezas da certeza

Quando interrogado sobre se o que estava a fazer era suficiente para atalhar os problemas do país, o Governo apressou-se a dizer que, num contexto em que os «mercados internacionais», essa entidade mitológica, que parece governar-nos mais do que quem tem obrigação de o fazer, nos enchem de incertezas, não podiam ser dadas nenhumas garantias. Mas hoje o Ministro das Finanças, verdadeiro «menino guerreiro» do Partido Socialista, afirmou categoricamente que a solução é continuarmos nesta senda, e de certeza que vamos conseguir «safar-nos» da intervenção do FMI. As certezas ou incertezas, sobretudo em política, são quem nos governa. Longe vão os tempos em que a política era o pensar-se os fins com base nos meios e distribuir os meios consoante os fins. Hoje, é outra coisa qualquer.

9 de Novembro de 2010 – A magia dos números

Uma das grandes vantagens da Economia, é o facto de ser formada com base nos números. E os números, como algumas obras de arte, mudam rapidamente de sentido, quando vistos de outra perspectiva. Foi isso que aconteceu hoje no Parlamento, com o Ministro da Economia. Numa altura em que, na opinião recente do Ministro das Finanças, começam a tocar as campainhas de alarme do FMI, Vieira da Silva diz que não há números mágicos, e que tudo está bem no reino. Depois de termos visto o Ministro da Informação de Saddam Hussein proclamar a vitória do Iraque na guerra contra os Estados Unidos, quando as tropas aliadas estavam a dois passos, bombardeando tudo o que era alvo estratégico, a magia dos números de Vieira da Silva soou a «dejá-vu».

8 de Novembro de 2010 – Casa Pia, estaca zero

Em seis anos de julgamento (seis anos, note-se), produziu-se uma série infindável de molhos de papéis, a que se chama processo. Em seis anos de julgamento, a opinião pública foi sabendo dos avanços e recuos de uma condenação que era preciso que fosse efectiva e inequívoca. Em seis anos de julgamento, ficámos sem saber muito bem se o objectivo era julgar os criminosos ou o sistema de justiça, que, reconheçamos, não nos dá a mínima garantia de que funcione como deve ser. Em seis anos de julgamento (seis anos, note-se), o tribunal fez e desfez, e não deu conta de que cometeu uma incongruência absolutamente inacreditável, aceitando uma acusação que inicialmente era relativa a um sábado e que, depois de provado o seu não fundamento, alterou para um dia indeterminado. Abriu-se a «caixa de pandora». Em seis anos, tudo o que se passou foi absolutamente inócuo, vazio, lixo, nada. É isto a nossa justiça?

7 de Novembro de 2010 – Assim, não vamos lá…

Até Jorge Jesus parece já ter «embarcado» naquele «rame rame». O Benfica voltou a jogar… à Benfica. Aquele típico (não) jogo do Benfica dos anos anteriores à vitória Campeonato. Depois de um ano em grande, os últimos jogos têm deixado muito a desejar. Hoje, o Benfica foi ao Porto «passear» os galões de campeão. Mas isso não basta. É preciso outra atitude, outra garra, outra determinação, outro profissionalismo, que, ao contrário do que tentou «desdizer» Nuno Gomes, não pode ser comparável ao que o FC Porto sempre nos habituou, nem tão pouco ao Benfica do ano passado. Por tudo isto, e pelos 5-0, chegamos à conclusão de que assim não vamos lá. E, se o FCP continuar nesta senda, teremos campeão muito em breve. Merecido, sem qualquer margem para dúvidas.

6 de Novembro de 2010 – Jordi Savall e Hespèrion XXI, na Casa da Música

Jordi Savall é uma referência mundial no que diz respeito, sobretudo, à música antiga. Hoje, pela primeira vez, tive oportunidade de ver e ouvir, ao vivo, o resultado do seu olhar muito próprio sobre a música, num concerto de elevadíssima qualidade, na Casa da Música. Conduzindo o seu agrupamento «Hespèrion XXI» por viagens sonoras até Istambul (ou Constantinopla, como lhe queiramos chamar), Savall deu-nos a conhecer, com a mestria habitual, o «Livro da Ciência da Música», de Dimitrie Cantemir (1673-1723). Foram várias horas de um concerto incansável para quem ouviu, em que as culturas do ocidente e do oriente se cruzaram, como se cruzavam naquela região, à época. E, através dos sons, percebemos a história, a(s) cultura(s) e a profunda união que, apesar das diferenças, a música pode proporcionar aos homens, que tanto teimam em não aproveitar.

5 de Novembro de 2010 – A importância masculina de ir ao barbeiro

Confesso que vou ao barbeiro maioritariamente por manifesta inépcia. Para além de não ter o ritual diário do «barbeio», não tenho jeito absolutamente nenhum para o fazer a mim mesmo. Por outro lado, ir ao barbeiro tem algo de intrinsecamente masculino. Ouve-se falar de futebol, fica a saber-se das novidades, colocam-se as conversas em dia. E, no fim, sai-se com outra cara. Sem cortes, sem restos de barba por cortar, e com a masculinidade revigorada. Sabe bem, às vezes, ir ao barbeiro.

4 de Novembro de 2010 – «Masterclass» de bateria jazz, com Bruno Pedroso

Ser aluno da Universidade de Aveiro tem, às vezes, destas (boas) surpresas. Hoje tivemos a oportunidade de contactar com um dos mais prodigiosos bateristas de jazz portugueses: Bruno Pedroso. Durante toda a tarde, pudemos desfrutar de uma animada e proveitosa «masterclass» com o músico. Bruno Pedroso é professor da Escola de Jazz Luís Villas-Boas, do «Hot Clube», e teve o privilégio de contactar e de tocar com alguns dos mais famosos músicos de jazz, nacionais e estrangeiros. Na sua simplicidade, transmitiu-nos algum do seu vastíssimo conhecimento, dentro das limitações que o tempo e as circunstâncias impuseram. Uma tarde altamente proveitosa.

3 de Novembro de 2010 – Um e-mail curioso sobre uma experiência socialista

Sabemos que nem tudo o que circula na internet é verdadeiro, mas este «e-mail», recebido hoje, pareceu-me curioso, elucidativo e de um forte apelo à reflexão. Segundo aí se lê, um professor da universidade Texas Tech, que raramente chumbava um aluno, foi desafiado por uma turma, que defendia de forma firme a ideia de que o socialismo seria a ideologia perfeita. Em resposta, o professor lançou o desafio de tentarem uma experiência, substituindo o capital pelas suas notas. A avaliação seria feita com base na média da turma, em vez de ter um carácter individual. Seria essa a «justiça». Após o primeiro teste, todos tiveram 12 valores. Os que estudaram empenhadamente acharam injusto, os que pouco ou nada estudaram ficaram satisfeitos. Para o segundo teste, os que estudavam muito relaxaram-se, porque não queriam estar a trabalhar para o sucesso dos que estudavam pouco. Os que estudavam pouco, relaxaram, porque sentiram que, com o apoio dos «bons», iriam, com certeza, «safar-se». A média desceu para 10 valores. Após o terceiro teste, a média caiu para 5 valores. Diminuíam as notas e aumentavam as desavenças entre alunos, que não queriam estudar para benefício dos outros. Todos chumbaram. O professor demonstrou, assim, que quando a recompensa é grande o esforço pelo sucesso é igualmente intenso. Mas quando quem dirige elimina a recompensa, e retira benefícios sem consentimento, com vista a dar aos que não lutaram por eles, o fracasso torna-se mais real.

«É impossível levar o pobre à prosperidade através de leis que punem os ricos pela sua prosperidade. Por cada pessoa que recebe sem trabalhar, outra pessoa tem de trabalhar recebendo menos. O governo só pode dar a alguém aquilo que tira de outro alguém. Quando metade da população descobre de que não precisa de trabalhar, pois a outra metade da população irá sustentá-la, e quando esta outra metade entende que não vale mais a pena trabalhar para sustentar a primeira metade, então chegamos ao começo do fim de uma nação. É impossível multiplicar riqueza dividindo-a».

(Atr.: Adrian Rogers, 1931)

1 e 2 de Novembro – Todos os santos, e os que partiram

Em muitos locais, juntam-se as intenções com que se vivem ambos os dias. Dia 1, evocam-se os exemplos de santidade. Dia 2, os que já partiram. Na medida em que, ao partir, encerramos o caminho que nos trouxe à vida, e terminamos, com sucesso, a tarefa de que fomos incumbidos, é justo que se juntem as preces, a favor de gente que, em tudo, é igual. Lembramos os que foram e são exemplo para nós. Lembramos os que nos marcaram e em quem pensamos quando temos dúvidas, à espera de saber o que fariam no nosso lugar. Lembramos todos os que combateram o bom combate, e que contribuiram para o sentido da vida, que é, ao fim e ao cabo, o de andar sempre em frente.