6 de Janeiro de 2021 – Tradutor, traidor

Há poucos dias, encontrei uma canção infantil, da autoria de Charles West, que, basicamente, conta a história das coisas mais mirabolantes que podemos aprender na escola até, no final, chegarmos à conclusão que a melhor coisa que lá encontramos é a nossa professora (ou o nosso professor). A canção chama-se ‘Miss Pringle’, e mostra algumas verdades absolutas, como o facto de uma cobra ser um lagarto sem pernas, ou um morcego um pássaro sem bico, ou um camelo ser uma espécie de lhama, mas muito mais calmo, ou, ainda, uma baleia ser um peixe com mais físico. A coisa vai por aí adiante, até terminar com a evidência de que muito aprendemos na escola, mas, no caso, tudo se deve a Miss Pringle, que, para além de ser uma excelente professora, dá vontade de apertá-la em abraços. A minha espécie de tradução é uma certa traição, porque traz as ideias mais para o campo musical. Ainda assim, não resisto a partilhá-la, como que assumindo essa traição, em nome de um bem maior.

A snake is a lizard without any legs.
And a bat is a bird with no beak.
A camel’s a llama
(but very much calmer),
While a whale is a fish with physique.

(Physique is a word that I like to slip in
Whenever the chat starts to bore me.
My friends start to giggle,
Their hips start to wiggle,
And I know now that they won’t ignore me.)

A cow is a horse which has udders below.
And a pig’s like a dog with a snout.
A penguin’s a bird
That is just too absurd,
While a peacock’s an absolute knockout.

You can tell that they teach me a lot at my school.
Miss Pringle’s a very good teacher.
She’s ever so wise,
And her beautiful eyes
Make you just want to run up and squeeze her!

Colcheias e pausas, e claves de sol
E compassos do princípio ao fim.
Bemóis, sustenidos,
São todos amigos,
As canções ficam sempre assim.

Com voz afinada e sempre a sorrir
Com todas as letras de cor
Com tanto ensaio
Só lá para Maio
Vou poder ser um grande cantor.

Sem ter partitura, que cabeça dura
Não consigo ser cantor assim.
De máscara posta
Que raio de bosta
Se desmaio, vai ser o meu fim.

Vou contar um segredo, mas só a vocês
Eu tenho uma sorte danada
Tenho um professor, 
Que é mesmo um amor
É o Ivo, que fixe, e mais nada!

‘Miss Pringle’ (Charles West)

5 de Janeiro de 2021 – De não poder cantar as Janeiras

Foto: CMA

Há uma tradição que fomos mantendo em Arouca: o cantar das Janeiras. Hoje, seria o dia de abrirmos as hostilidades, levando as boas festas aos estúdios da Rádio Regional de Arouca, e, daí, a todo o mundo. Este ano, não conseguimos fazê-lo. Estamos, desde o início da pandemia, sem condições para realizarmos os nossos ensaios com segurança. Não pudemos preparar, como habitualmente, o Concerto de Natal. Não vamos poder cantar nem preparar o nosso Encontro de Janeiras. E o panorama não parece muito animador. Diz-se que quem canta, seus mais espanta. Sem podermos cantar, não há forma de espantarmos este bicho que incomoda toda a gente.

4 de Janeiro de 2021 – O ego de Egas

Às vezes, não conseguimos à primeira. Nem à segunda. Nem depois de toda a vida esgotada a tentar. Mas quem não tenta, não consegue. Egas Moniz foi o primeiro Nobel português. Vemo-lo, aqui, com vida, com uma personalidade, com anseios, inquietações, incertezas. Mas também com a simplicidade de quem se refugia nas raizes. O Doutor Egas quis ver as artérias do cérebro através do raio x. E conseguiu. Como conseguiu, com persistência e sem deixar nunca de lutar, provar que era possível fazer investigação em Portugal. Mesmo limitado, em termos de recursos, e com um pensamento demasiado à frente do seu tempo. Hoje, somos um país de investigadores, mas muito do espírito (de uma certa mesquinhez e inveja de quem faz, diga-se de passagem) não anda muito longe do daqueles tempos. Há coisas que nem a lobotomia consegue resolver.

3 de Janeiro de 2021 – Óculos

Quando era pequeno, havia duas coisas que me pareciam identificativas de pessoas inteligentes. Uma, era serem esquerdistas. Outra, usarem óculos. A primeira, não consegui. A segunda, sim. Cinquenta por cento, não está mal. Não que, hoje, esteja particularmente feliz por usá-los. Mas de uma coisa tenho a certeza. Vejo muito melhor com eles. De preferência, sem os embaciar por causa da máscara. Ao ponto de ser, como diz Mário Quintana, uma espécie de viajante que procura a aventura como o avozinho procura, por toda a parte, os óculos que, na realidade, estão na ponta do nariz. Ou, ainda, como diz Jô Soares, que a natureza (ou Deus) sabe o que faz. Já prevendo que íamos usar óculos (serviria também para a máscara), fez-nos com orelhas.

2 de Janeiro de 2021 – Homens livres

O arranque do ano não podia trazer piores surpresas. Carlos do Carmo deixou-nos, e, ao deixar-nos, deixou o legado de temperar as palavras com a quantidade certa de fado. Carlos do Carmo era, como Sting, um homem livre, no sentido em que não ficou nunca preso a qualquer estilo, nem tão pouco impôs o fado ao que foi fazendo. Uns, dizem que puxou o fado para o lado da canção. Outros, que é o Sinatra português. Talvez ambos tenham razão. Hoje, vi o documentário sobre Sting, e a sua forma completa de ser músico. Embora não pareça, uma coisa está ligada à outra. Sting junta literatura, jazz, música antiga, rock, reggae, música étnica, e muito mais do que imaginamos ou não imaginamos. Cria a sua própria linguagem. É, como diz o título do documentário, um homem livre. Que vale a pena conhecer, para além da música.

1 de Janeiro de 2021 – Concerto de Ano Novo

Foto: Wiener Philharmoniker

Durante algum tempo, pensava que um maestro poder dispor da Filarmónica de Viena apenas para executar valsas e polcas constituía um desperdício. Com o tempo, fui-me apercebendo de que não é bem assim, de que há coisas que vale a pena serem ouvidas outra vez (ou, para mim, pela primeira vez). O nível de qualidade da produção televisiva do Concerto de Ano Novo foi, também, aumentando consideravelmente. Mas este ano, atípico, como bem sabemos, trouxe à tona um pormenor essencial. É que não importa a qualidade da transmissão, não importa a quantos milhões a música está a chegar, não importa até mesmo que os músicos recebam, aqui e ali, aplausos vindos de todo o mundo, trazidos pela internet. Tudo isto é muito menos impactante do que uma sala sem público. Riccardo Muti, prestes a completar 80 anos, disse tudo na sua mensagem. A música é uma missão, essencialmente para que construamos uma sociedade melhor. E quanto isso, não há sala vazia que nos pare.

Musicians have in their weapons flowers, not things that kill. We bring joy, hope, peace, brotherhood, Love with capital L. So music is important not because it’s entertainment, music is not only a profession, but it’s a mission. That is why we do this work. So mission for what? To make the society better. To think about the new generation that in one complete year has been deprived of deep thinking, thinking about health. Health is the first, most important thing, but also the health of the mind. And music helps. So, my message to the governors, and presidents, and prime ministers everywhere, in every part of the world, consider culture always as one of the primary elements to have a better society in the future.

Riccardo Muti

31 de Dezembro de 2020 – Quatro personalidades do ano

No final de mais um ano, e, ainda por cima, de um ano tão atípico, é lícito que se façam balanços de vários tipos. Ouvi hoje, na TSF, uma pergunta de um jornalista a uma comentadora que me despertou a atenção. Quem elegeria como personalidade do ano? Pois bem, pegando na resposta da comentadora, e pensando um bocadinho em como correram as coisas, fiquei a pensar no assunto, sem chegar a uma conclusão perfeita. Apetece-me eleger quatro personalidades do ano. Desde logo, os profissionais de saúde, pelas razões óbvias. Uma luta constantemente desigual, que foram vencendo, dia a dia, até à primeira pequena vitória da vacina. Também os jornalistas, que nos foram informando, a par e passo, do que foi acontecendo. Só uma informação feita por profissionais sérios pode ser considerada jornalismo, e, em geral, conseguimos tê-lo. Os professores, ainda que não se fale muito deles, não olharam para trás, quando se tratou de ‘dar o corpo às balas’, para que o ano lectivo decorresse dentro da normalidade possível, que o Governo insistiu em manter, desde o primeiro momento. E a gente da Cultura, que vai resistindo, com a resiliência possível, às dificuldades de levar a arte ao maior número de pessoas possível. Umas vezes com mais, outras com menos, mas sempre com razão, reivindicando uma ajuda (mais do que necessária) fundamental. Venha 2021, com as possibilidades (quase) infinitas de mudança.

30 de Dezembro de 2020 – Nas entranhas do hospital

É irónico que fiquemos a conhecer melhor as entranhas de um hospital porque nos querem ver as nossas entranhas. Nas várias conversas, com os vários técnicos, enfermeiros e médicos, dou-me conta de que é a primeira vez que me acontece uma série de coisas. É a primeira vez que me deito numa cama articulada de hospital. É a primeira vez que tenho um catéter espetado na veia da mão. É a primeira vez que põem um saco de soro a vigiar-me. É a primeira vez que experimento uma anestesia geral. Raios… É preciso passarem 40 anos para se saber o que praticamente toda a gente já sabe. Que, nas entranhas de um hospital, também há humanidade. Muito mais do que aquela com que sentimos, pela primeira vez, todas estas coisas.

29 de Dezembro de 2020 – Bom 2001 para todos

Foto: António Cotrim (Expresso)

A senhora já tinha feito uma grande confusão entre os 4 000 novos casos (que, na realidade, eram pouco mais de 3000) e a barreira dos 400 000 (desde o início da pandemia), que foi hoje ultrapassada. Mas faltava a cereja no topo do bolo, que foi o desejo de um feliz 2001 para todos nós. A senhora está, visivelmente, cansada. E volta a contribuir para levantarmos a questão sobre a qualidade com que as nossas autoridades de saúde estão a comunicar connosco. O esforço é louvável, e não temos de ser todos ‘influencers’ ou entendidos em comunicação. Mas talvez fosse tempo de darem a mão à palmatória, e concluirem que a comunicação é demasiado importante para não ser bem feita e por quem sabe fazê-la. Assim, resta-nos ter a esperança de que os desejos da senhora se concretizem, e andemos 20 anos para trás. Sabendo o que sabemos hoje, talvez as coisas cheguem a 2021 melhores do que esperamos.

28 de Dezembro de 2020 – Deixar o tempo passar

Hoje é dia de não pensar em nada… Sabe bem, no meio de tantos dias, haver um que seja de férias. Sem pensar muito no burburinho das notícias. Sem pensar muito nas várias pandemias do mundo cibernético. Sem pensar em mais nada senão o que nos apetece, a cada momento. Lê-se, escreve-se, pensa-se. Deixa-se o tempo passar. Até amanhã.