Hoje, não me apetecem as palavras, depois de saber o quão dura tem sido a vida de quem tem estado na linha da frente. A linha da frente está verdadeiramente difícil, disse-me ela, por muito que não acreditemos. Há meses, disse-me ela. Já tive de escolher entre 12 doentes para 3 vagas, disse-me ela, esperando que alguém, Deus ou o Universo, comprove que foi a melhor opção. Não vou esquecer os rostos associados às escolhas, disse-me ela. Perante isto, não consegui dizer muito mais do que ‘se pudesse, trocava de lugar’ com ela. Não tenho essa competência. Não tenho essa coragem. Nem sequer palavras tenho.
Acabo de ver o documentário ‘Deus Cérebro’, muitíssimo bem concebido para a RTP, em que vários especialistas, de todo o mundo e de várias áreas do saber, nos dão a conhecer o melhor e mais completo computador que existe. Um centro de comando de ideias, pensamentos, acções, mas também de emoções. Foi curioso relembrar que, na realidade, não há um centro racional no cérebro e outro emocional no coração. É ‘cá em cima’ que fica tudo. E é incrível ver como conhecemos tão bem um espaço de nós que é, apesar de todo o conhecimento, um enigma permanente, um universo em expansão, uma fortaleza difícil de explorar até ao mais ínfimo pormenor. Vale a pena cada segundo de viagem.
A frase é um bocado batida, e costuma ser muito usada conforme as conveniências. Seja assim ou não, tenho-a sentido com altamente verdadeira, nos últimos dias. Não falo já dos avanços, recuos e ziguezagues das medidas do Governo contra a pandemia. Falo tão somente da forma diversa como o Estado encara os actos de pagar e de receber. Quando o Estado entende que lhe devemos algo, é coercivo na cobrança. Lança mão de todos os recursos para conseguir que lhe paguemos. Cobra juros. Penhora-nos bens. Enfim, trinta por uma linha. Mas quando o Estado tem de pagar-nos algo que nos é devido, a coisa muda de figura. Há erros informáticos. Os impressos devidos não foram preenchidos. Os prazos não foram cumpridos. Enfim, trinta por uma linha. Indo ao concreto. Estive em isolamento profiláctico, e, obviamente, a minha entidade patronal não me pagou os dias que não trabalhei. O Estado, e mais concretamente a Segurança Social, estão em dívida para comigo. Há cerca de um mês. Entretanto, tive de continuar a cumprir as minhas obrigações, também para com o mesmo Estado que não é pessoa de bem. Mas, às vezes, o que apetecia era pedir ao André Ventura para passar nos serviços da Segurança Social, e desatar a falar por cima de toda a gente, até fazerem a transferência bancária mágica.
O livro de crónicas de Clarice Lispector, ‘A Descoberta do Mundo’, começa com um pequeno parágrafo em que a autora conta a história de uma mãe que procura silenciar e adormecer um filho com fome. Na troca de argumentos entre mãe e filho, o diálogo vai ficando menos doce, até terminar num raspanete, seguido de silêncio dos dois. Ela, pensa-o dormindo. Ele, tem medo de voltar a queixar-se. Embrenhados no silêncio e no cansaço, adormecem os dois. Mas a autora não esconde a revolta em relação ao que causou o silêncio que precedeu o sono. A fome. Há vários tipos de fome. Tal como há vários tipos de silêncio. Tal como há vários tipos de revolta. Por esta vez, a fome pode ser a incerteza. O silêncio, pode ser a desorientação, perante a incerteza. E a revolta… Bem, a revolta, pode ser a revolta. Perante a incerteza.
Não posso. Não posso pensar na cena que visualizei e que é real. O filho está de noite com dor de fome e diz para a mãe: estou com fome, mamãe. Ela responde com doçura: dorme. Ele diz: mas estou com fome. Ela insiste: durma. Ele diz: não posso, estou com fome. Ela responde exasperada: durma. Ele insiste. Ela grita com dor: durma, seu chato! Os dois ficam em silêncio no escuro, imóveis. Será que ele está dormindo? – pensa ela toda acordada. E ele está amedrontado demais para se queixar. Na noite negra, os dois estão despertos. Até que, de dor e cansaço, ambos cochilam, no ninho da resignação. E ei não aguento a resignação. Ah, como devoro com fome e prazer a revolta.
Clarice Lispector – ‘A Descoberta do Mundo (Crónicas)’
Num ‘duelo’, ainda que em forma de entrevista, entre Miguel Sousa Tavares e Vitorino Silva, seria fácil prevermos um vencedor. Muito provavelmente, de forma preconceituosa, mas não preveríamos uma vitória do ex-presidente da Junta de Freguesia de Rans, Penafiel. Pois bem, desengane-se quem não acredita que a humildade e a simplicidade são, talvez, as duas coisas mais preciosas que podemos ter. Sousa Tavares perguntou ao Tino se daqui a quatro anos se encontrariam de novo. Tino respondeu a Miguel que as eleições presidenciais são de cinco em cinco anos. Não é preciso dizer mais nada.
São enormes as possibilidades de, no Outono deste ano, termos um ‘déjà vu’. As eleições presidenciais serão, certamente, um passeio para Marcelo Rebelo de Sousa, e é relativamente grande a expectativa para percebermos como se vão comportar os candidatos de esquerda, para não falar no fenómeno André Ventura. Ana Gomes tentou segurar o seu eleitorado, e até mesmo entrar no eleitorado descontente com Marcelo, ao colar o actual Presidente a Ricardo Salgado. Este movimento (pouco) estratégico de Ana Gomes foi um verdadeiro ‘tiro no pé’, porque, de resto, a candidata já tinha sido vítima do mesmo tipo de ataque, com André Ventura a trazer a lume a relação próxima da candidata com Paulo Pedroso (seu director de campanha). Marisa Matias, tem estado completamente apagada. João Ferreira é uma espécie de lufada de ar fresco vinda das hostes comunistas, mas longe de poder causar estragos. Tiago Mayan é um candidato aparentemente interessante, mas os portugueses ainda não lidam bem com o epíteto ‘liberal’. Vitorino Silva, igual a si próprio, procura ser uma voz do povo, sem descolar do popularucho. E André Ventura vai conseguindo o que quer: que se fale dele, bem ou mal.
Lá para Setembro ou Outubro, teremos eleições autárquicas. E em Arouca, aparentemente, acontecerá mais ou menos o mesmo, uma espécie de ‘déjà vu’ antecipado. Olhando para o cenário, nesta altura, serão umas eleições que constituirão um relativo passeio para Margarida Belém (e para o PS), e é relativamente grande a expectativa para percebermos como se vão comportar as restantes estruturas partidárias, bem como os eventuais candidatos independentes. O PSD ainda não apresentou candidato, e tem tentado explorar alguns assuntos caros aos arouquenses, como o preço da água, não aparentando ter qualquer fio condutor estratégico ou pensamento alternativo. O CDS local, será vítima do eclipse nacional de quem sido vítima? A CDU, que tem mantido uma acção política coerente e assertiva, costuma apresentar candidatos muito válidos, mas talvez continue a ser vítima de um certo preconceito local em relação ao seu posicionamento ideológico. Voltaremos a ter candidatura independente de Victor Brandão, que já manifestou resiliência suficiente para continuar a tentar a sua sorte, seja em que contexto for?
Apesar de algumas incertezas na equação, o que parece certo é que, tal como as eleições presidenciais serão um passeio para Marcelo, as autárquicas serão, igualmente, um passeio para Margarida Belém. Uma reeleição é, praticamente, garantida, a menos que se trate de alguém como Donald Trump. Em casos semelhantes, há a garantia de a democracia funcionar, mesmo que seja da forma mais crua possível. Outro factor a incluir na equação é a pandemia, que poderá afastar alguns eleitores do exercício do seu direito. De resto, o contexto actual veio trazer ao de cima, ainda que de forma ténue, questões muito pertinentes relacionadas com o modelo eleitoral presencial, e de como, em certas situações, pode ser limitado e limitador.
Os próximos meses serão, contudo, uma verdadeira maratona com as barreiras (mais habituais nas corridas de curta distância) distribuídas pelos quilómetros que restam até à meta. A actual presidente, tal como os seus adversários, recolherão ao eremitério, para contarem espingardas. Teremos, certamente, notícias sobre as autárquicas a surgir em breve, começando, talvez, pelas juntas de freguesia. Haverá, certamente, muitas surpresas. Mas, hoje, neste contexto, o que parece é que, de facto, no próximo dia 24 de Janeiro iremos ter um ‘déjà vu’ antecipado.
Tenho andado a redescobrir um livrinho de Stephen Greenblatt, chamado ‘A grande mudança’, que conta a história de um manuscrito cuja descoberta terá alterado o rumo da história do pensamento moderno. O livrinho conta a história de como Poggio Bracciolini, um ex-secretário papal, se lança na descoberta de livros, e de como terá descoberto ‘Da natureza das coisas’, de Lucrécio, a partir do qual foi possível, de forma sustentada, questionar toda a ordem intelectual até então vigente. O manuscrito de Lucrécio terá cerca de dois mil anos, e, ainda assim, questiona-nos duplamente. Sobre a razão pela qual ignoramos, deliberadamente, quem não concorda connosco. E como é possível que um manuscrito com tal antiguidade ainda seja capaz de nos fazer mudar de perspectiva. Para além disso, achei curioso uma citação que Greenblatt faz de um manuscrito de um mosteiro, que procurava esconjurar quem pretendesse roubá-lo e, com ele, o conhecimento que em si encerrava. É, de facto, um sacrilégio roubar livros…
Que aquele que rouba livros, ou não devolve livros emprestados, que o livro se transforme em serpente na sua mão e o pique. Que seja atingido por paralisia e todos os seus membros rebentem. Que definhe de dor, implorando por clemência, e o seu tormento não seja aliviado até que entre em decomposição. Que os vermes corroam as suas entranhas como sinal do Verme que não perece. E quando finalmente for ao julgamento final, que as chamas do Inferno o consumam para sempre.
Houve uma altura em que José Rodrigues dos Santos resolveu começar a piscar o olho à malta, quando se despedia com um ‘nós voltamos a ver-nos amanhã’ talvez ligeiramente arrogante, partindo do princípio que, no dia seguinte, estaríamos na disposição de aturável-lo outra vez. Houve também uma altura em que Rodrigo Guedes de Carvalho resolveu partilhar coisas que lia nas redes sociais, e até mesmo endureceu um pouco a posição de perguntador. Mas talvez nada se compare à forma dura, fria, rude, ‘incomunicativa’, e por aí a diante, com que João Adelino Faria entrevistou os candidatos à Presidência da República. Um espaço do canal público, que deveria ser igualitário e servir para que os portugueses pudessem conhecer melhor os concidadãos que vão a votos, tornou-se numa espécie de ringue de boxe, em que João Adelino põe as luvas em riste, e os entrevistados são o saco. Depois disto, tivemos uma moderadora que se demite das suas funções, e deixa dois candidatos entrarem em total cacofonia durante 95% do tempo de debate. Só me ocorre a frase do polícia d’O que diz Molero’, de Dinis Machado, que chega muito depois de toda a trapalhada ter acontecido, para perguntar, com a sua calma gorda, ‘mas o que é que se passou?’
Depois de assistir à grande reportagem da SIC sobre o ‘Chega’, a única coisa que se consegue dizer é que não se consegue dizer nada. Quem conhece a vida partidária, sabe que muito do que ali se conta acontece em todos os partidos. Este, tem o azar de defender causas complicadas, de vesti-las da forma que a maioria quer e gosta de vê-las, e de não ter medo da polémica, porque, ao fim e ao cabo, é a polémica que o alimenta. Ficar a saber mais sobre o ‘Chega’ pode até ter o efeito contrário do que os autores deste conjunto de reportagens pensava. Ao falarem do partido e do seu líder, podem estar a contribuir para que não precisem de gastar tanto em comunicação. E para que mais portugueses passem a dar razão ao ‘Chega’. Não será tempo de dizer que chega de falar disso?
Há alguns anos (poucos), fui parar ao ensino artístico. Às vezes, quando visitamos um amigo, acabamos por não entrar na casa pela porta principal, mas não deixamos de nos surpreender pela beleza do interior, mesmo não sendo o ‘hall’ o primeiro espaço a visitar. E o que era uma espécie de preconceito, deixa de existir. Não tem de ser tudo como pensávamos. Acabei por passar a trabalhar mais a fundo na iniciação musical dos mais pequenos. E, entretanto, lembraram-se de perguntar à malta o que andamos a fazer em relação às provas de acesso ao quinto ano. Assim sendo, a malta vai dizer umas coisas, num seminário on-line, no próximo dia 24 de Janeiro, sábado, lá para as 16:30. Ou muito me engano, ou, como nas aulas do dia a dia, vou aprender mais do que ensinar…