27 de Dezembro de 2020 – ‘Soul’

Quando se trata de filmes de animação, o melhor mesmo é ver a versão original, para se perceber mais claramente a mensagem. E a mensagem de ‘Soul’ é bem mais profunda do que se poderia esperar de um filme de animação. Foi difícil não ‘colar’ imediatamente à personagem principal, Joe Gardner, o típico professor de música que preferia ser músico do que ensinar. Logo aí, uma mistura de sentimentos, porque há sempre alunos pelos quais vale a pena (e muito) lutar. Depois, à medida que o filme avança, são muitas as questões que nos entram pelo olhar dentro. O que fazemos com a vida que nos é dada? Onde colocamos os sonhos pelos quais devemos lutar? Até que ponto o nosso egoísmo nos impede de fazermos as coisas como devem ser feitas? ‘Soul’ é uma espécie de viagem à nossa alma, essa alma que, dizemos nós, sempre que a colocamos no que fazemos, faz com que as coisas resultem.

26 de Dezembro de 2020 – Submissão

O Pai Natal ofereceu-me o livro que Michel Houllebecq publicou no dia do ataque terrorista ao ‘Charlie Hebdo’. Não tardou a avançar na leitura, para descobrir uma narrativa actual, que põe o dedo na ferida da polémica civilizacional em torno do Islão. A trama desenrola-se em torno de uma eleição presidencial francesa, em que Houllebecq coloca, frente a frente, Marine Le Pen, da Frente Nacional (de extrema-direita) e Mohammed Ben Abbes (da Fraternidade Muçulmana, que congrega os defensores da República, à Esquerda, com o Partido Socialista à cabeça). Rapidamente começam a ser debatidos assuntos prementes e estruturantes da democracia ocidental, nomeadamente a igualdade de género, o Estado laico (ou não), a Educação, a xenofobia e o tratamento de minorias. Esta ‘Submissão’ à vontade de Deus é, até certo ponto, posta em evidência pelo autor, até porque, segundo ele, o Ocidente, tal como o conhecemos, está perto do fim. A leitura prossegue a bom ritmo.

25 de Dezembro de 2020 – ‘1800’

Acabei de verificar que o texto anterior foi o 1800.º que aqui publiquei. É apenas um número, mas um número que talvez parecesse impossível, quando comecei a escrevinhar umas coisas neste espaço. A ‘inspiração’, ou o que lhe queiramos chamar, surge aqui e ali, de vez em quando desaparece por algum tempo, regressa, e assim anda. Mas o espaço permanece, razão pela qual agradeço ao meu amigo Rui Duarte, que sempre foi incansável com todo o apoio para que a agenda continue a funcionar. Agora, é só continuar.

24 de Dezembro de 2020 – Starry, starry night

Há melodias que nos entram no ouvido para dificilmente nos saírem da cabeça. Foi assim. O Natal é uma noite estrelada, e por isso a ‘starry, starry Night’, da canção ‘Vincent’, de Don McLean, vem mesmo a calhar para este dia. Para se dizer, sem palavras, e com toda a simplicidade do mundo, que, apesar do paradoxo de termos de estar mais isolados para podermos estar mais juntos, há uma coisa que podemos, hoje, ter em comum. Onde quer que estejamos, se olharmos para o céu, estaremos, de certeza, a ver as mesmas estrelas. A partir desse olhar, cada um verá e sentirá o que entender. Mas estaremos, sem dúvida, a olhar na mesma direcção.

23 de Dezembro de 2020 – O abraço dos pinguins

Foto: Tobias Baumgaertner 

Há quem diga que quando mais observamos os animais mais compreendemos como nós, humanos, somos limitados. O fotógrafo alemão Tobias Baumgaertner venceu, recentemente, um prémio dos Ocean Photography Awards, com uma particularmente tocante. Dois pinguins abraçam-se enquanto desfrutam da vista sobre a cidade de Melbourne. Na altura em que captou a imagem (há cerca de um ano), Baumgaertner escreveu que ‘em momentos como estes, os que são realmente sortudos são aqueles que podem estar com as pessoas que mais amam’. Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras. Talvez seja o caso.

22 de Dezembro de 2020 – Paradoxos covídicos

Curiosamente, ou talvez não, parece que encontramos paradoxos em tudo o que olhamos. Numa altura em que a vacina da COVID-19 começa a ser administrada no Reino Unido, surge uma segunda estirpe do vírus. Ao mesmo tempo, numa altura em que a Europa começa a fazer chegar a vacina ao maior número de pessoas, ultrapassando as fronteiras, a França (e, consequentemente, todo o continente) tenta impedir que o vírus chegue à boleia dos camionistas, que deverão passar o Natal nas cabines, sem higiene, sem alimentação e sem afectos condignos. Ao mesmo tempo que tudo isto acontece, o Reino Unido e a União Europeia negoceiam, em contra-relógio, os temos finais do ‘Brexit’. Curiosamente, ou talvez não.

21 de Dezembro de 2020 – Curso de Direcção de Orquestra

Quando um maestro chega a um pódio, vive a tensão de vários paradoxos. Ele está sozinho, numa altura em que está rodeado de gente. Ele tem claro, na sua mente, o som que quer produzir, mas ainda não sabe como (e se) irá resultar. Ele está em frente ao instrumento mais completo e complexo que existe, mas o que habita o espaço é o silêncio. Depois, vai moldando, com o gesto, a música que quer fazer surgir. O som a que chegou, depois de estudar meticulosamente a partitura em que o compositor deixou escrito o que quer que se ouça, e de descobrir, nas entrelinhas, o que o compositor não escreveu, mas que a música irá encarregar-se de fazer acontecer. Hoje é o corolário de um período relativamente curto (mas muito rico) de formação, em que, ainda que sem pódio e com um grupo mais pequeno de músicos, moldaremos o som, e tornaremos realidade o que alguns compositores deixaram (e, em alguns casos, não deixaram) escrito. Lembro, frequentemente, a melhor definição de música de que já ouvi falar, escrita numa resposta a um teste de formação musical. ‘A música é boa’. Mais nada.

20 de Dezembro de 2020 – A preparar música para o Natal

Esta foto, tirada pelo meu amigo Franklin Ferreira, mostra o aspecto da ‘sala de controlo’, a partir de onde ele esteve a tratar do som do pequeno Concerto de Natal que andámos a preparar em tempo record. Lá para dia 25, devemos poder ouvir (e ver) o resultado. Para já, soube bem fazer música com amigos com quem já não estava há muito tempo. Conhecendo, como conheço, o trabalho do Frank, só pode correr bem.

19 de Dezembro de 2020 – Sobre aquilo a que alguns chamam o início do fim da COVID-19

Özlem Türeci e Ugur Sahin são os responsáveis pela fiabilidade da vacina contra a COVID-19. Ironia do destino, são alemães de origem turca, uma comunidade que em constante luta pela integração naquele país. Özlem e Ugur são uma espécie de casal Curie do século XXI, e saltaram agora para a ribalta pelo sucesso a que conseguiram chegar nos testes à vacina por que o mundo espera. Mas a importância da actividade deste casal vai além do que, agora, sabemos. Pensando que cada doente é único, porque tem um organismo único, foram os responsáveis pelo desenvolvimento da imunoterapia, quando poucos acreditavam que o sistema imunitário pode ser um aliado fundamental na luta contra o cancro. Numa altura em que, por aqui e por ali, se vão ouvindo discursos de cariz xenófobo, ao mesmo tempo que, por exemplo, em Portugal assistimos à emigração de muitos dos nossos melhores produtores de ciência, será interessante pensar-se que política de migrações queremos ter. O pai de Ugur foi um dos trabalhadores turcos que a Alemanha, em tempos, convidou para darem força à indústria. Foi trabalhar para uma fábrica da Ford, em Colónia, conseguiu fazer com que o filho estudasse medicina, e chegasse a uma altura em que pode muito bem tornar-se numa das pessoas que ajudou a pôr cobro a uma epidemia mundial.

18 de Dezembro de 2020 – De como comunicar mal pode dar cabo da coisa

Rui Portugal é Sub-Director Geral da Saúde. Recentemente, assumiu as rédeas da comunicação da DGS ao país, e não lhe podia ter corrido pior. Poderíamos, antes de tudo, questionar a forma como os jornalistas fazem jornalismo, mas, para este caso, pouco importa, porque, numa altura em que a comunicação tem de ser tratada de forma profissional, em que todos são pseudo-especialistas na matéria, e em que todos estamos habituados ao ‘clean’ da relação ‘tu-cá, tu-lá’ com quem vemos nos ecrãs, achar-se que não se precisa de polir o discurso e ter cuidado com o que se diz (e, acima de tudo, com a forma como se diz), é como estar na beira do precipício e dar um passo em frente. É pena que, por muita competência técnica que Rui Portugal possa ter, seja traído pela máxima segundo a qual ‘à mulher de César não basta ser séria, tem de parecer’.