A motivação correu, viral, pelas redes sociais, e os motivos eram mais que válidos. Houve tempo e espaço para toda a indignação e mais alguma, até tudo terminar junto à Assembleia da República. Tudo estaria bem, se acabasse bem. Mas as manifestações, de um modo geral, raramente acabam bem. Quanto mais não seja, porque há sempre agitadores que se aproveitam da situação, e tratam de agir para as televisões, instigando a Polícia a intervir contra arremessos de pedras, garrafas e engenhos pirotécnicos. Foi pena que esses não tenham seguido o exemplo de grandes estadistas, e ido para o Algarve. Por isso, se não quisermos ver estas manifestações com outros óculos, o que é devido à Polícia é um grande elogio pela forma como agiu. Não se deu por ela, até ter de se dar. E se tudo corresse como deveria ter corrido, não se veria sequer a acção daqueles homens que, lado a lado com os manifestantes, talvez tenham tido vontade de alinhar na massa humana, e fazer ouvir o protesto. Mas não. Foram profissionais. Bem-hajam por isso.
14 de Setembro de 2012 – A oportunidade de redescobrir o humanismo e a solidariedade
O significado da palavra “caridade” é, cada vez mais, fruto dos tempos que vivemos, desvirtuado. Etimologicamente, caridade aproxima-se de amor. É mais isso do que propriamente esmola. Bem sabemos o quanto os políticos estão desacreditados, nos dias que correm, mas Cavaco Silva, hoje, não falou nada mal quando disse que tínhamos de redescobrir o humanismo e a solidariedade. Se em outras alturas era frequente vermos gente sair do país para praticar o voluntariado em zonas carenciadas do mundo, agora o desafio é maior. É o de eliminarmos a barreira da proximidade, que muitas vezes nos impede de fazermos o mesmo por quem vive ao nosso lado, e ser-se voluntário no próprio meio onde se vive. À distância, é mais fácil. Não se é conhecido nem se conhece, não se tem resistências contra ninguém, não temos um bom-nome, uma reputação conhecida. Mas ao lado da porta, mais difícil se torna, sobretudo quando se sabe que ninguém é profeta na sua própria terra. Pois bem, cada vez mais é esse o desafio que nos espera. Com a dificuldade acrescida de não se esperar nada em troca.
“Num mundo marcado por tantas carências, num país que atravessa tempos tão adversos, os valores do humanismo e da solidariedade têm de ser redescobertos. Cada qual tem um imperativo para com os outros, sobretudo quando pode, de facto, fazer a diferença, num mundo em que convivemos com situações a que, como seres humanos, não podemos ficar indiferentes”.
(Aníbal Cavaco Silva, Presidente da República, durante a cerimónia da entrega do Prémio Champalimaud 2012)
13 de Setembro de 2012 – Esquizofrenia colectiva
Ler as notícias ou ver os telejornais dá-nos a possibilidade de experimentar uma sensação próxima da esquizofrenia. Às vezes dá a sensação que, de tão reais que as coisas nos apresentam, só podem ser mentira. Aparece uma coisa e o seu contrário. Aparece o sim e o não. Afirma-se e desmente-se. E nós, colectivamente, apertamos, com força, a cabeça com as mãos, à espera que a normalidade (se é que ela existe) reapareça. Às vezes apetece abandonar tudo, ou então adormecer, à espera que o sonho mau passe. Mas logo surge outra notícia, outra personagem, a levar-nos na espiral de acontecimentos ou novidades, que voltam a mergulhar-nos na tal esquizofrenia. Ninguém sabe qual o remédio, ou sequer se ele existe. Mas será possível continuar assim por muito mais tempo?
12 de Setembro de 2012 – Texto 1200
Esta é a 1200.ª vez que escrevo neste espaço. Houve uma interrupção, involuntária, mas o “bichinho” acabou por ser mais forte. Assumi, e assumo, desde o principio, o carácter pessoal (mas transmissível) deste espaço, e “as opiniões são como as vaginas”, disse alguém um dia. Portanto, a única coisa que se me apraz dizer é OBRIGADO pelo facto de continuarem a ler uma coisa que, de vez em quando ou quase sempre, não tem interesse absolutamente nenhum senão para mim. E mesmo para mim, algumas vezes, tenho dúvidas. “Last, but not least”, é obrigatório o agradecimento ao Rui Gato, por continuar, mesmo que à distância, a providenciar um pequeno espaço neste imenso mundo da internet para eu poder ir escrevendo o que me apetece. Com amigos assim, ele e vocês todos, que mais se pode querer?
11 de Setembro de 2012 – 11 anos
Há 11 anos, tinha estado até tarde, na noite anterior, a trabalhar com os meus amigos Aida Silva e João Abrunhosa numa reportagem que estávamos a fazer sobre os cafés do Porto. A Joana, verdadeira líder da equipa, tinha ido agarrar uma oportunidade a Lisboa, e agarrou-a tão bem, que ainda hoje a segura. Tinha amanhecido como em qualquer outro dia, e a tarde já tinha chegado sem avisar, quando, depois de não ter dado conta de nada, pelas ruas do Porto, encontrei o departamento de Jornalismo da Faculdade de Letras da Universidade do Porto completamente parado e colado a uma pequena televisão, que ia contando o que estava a acontecer do outro lado do Atlântico. Ainda chegámos a pensar que talvez fosse um sonho. Afinal, tínhamos acordado há pouco, e talvez ainda viesse alguém dizer-nos que era tudo imaginação nossa, de tantas imagens que já nos tinham passado pelos olhos. Mas não. O mundo estava a mudar. Em directo. Em frente a nós. Sem podermos fazer nada, senão esperar que o guião previamente escrito tivesse sequência. Como muitas obras de arte que nos parecem estranhas, aqueles atentados continuam a não fazer sentido. Mesmo 11 anos e muitas teorias depois.
10 de Setembro de 2012 – 32
Esta foi uma das imagens do dia. Em boa parte passado em torno da grande música, sob a orientação de um homem com uma história que fala por si. Foi um aniversário diferente, mas que diabo, não deixa de ser um dia igual aos outros. São 32 anos, que podiam ser outro número qualquer. Há quem faça dessa contagem um caminho penoso, com um acréscimo depressivo a cada mudança de algarismo. Não faço contas à vida a esses números. São 32 como poderiam ser 23. Foram muitos (e mesmo muitos) os que, por vias electrónicas, me foram felicitando. A certa altura, o facebook dizia-me que cerca de 500 pessoas tinham escrito na minha cronologia. É o efeito multiplicador das redes sociais. Estou certo, porém, que, ainda que proporcionalmente, isso tem reflexo na vida real. Por isso, agradeço, mais uma vez, a todos. Estes 32 não são só meus. São também vossos.
9 de Setembro de 2012 – All together now
Nos últimos tempos, sempre que se fala no maestro António Victorino d’Almeida, é destas imagens e destes sons que nos lembramos. De facto, só uma figura como Victorino d’Almeida poderia dar corpo a tamanha originalidade. A partir de hoje, rumo a Amarante, para trabalhar com a Orquestra do Norte, sob a direcção do homem «All together now», para a Grande Orquestra de Verão. Os concertos serão a 17 de Setembro em Portalegre (Espaço Robinson) e a 22 na Guarda (Teatro Municipal), tendo no programa a «Sinfonia n.º 40», KV 550 de Wolfgang Amadeus Mozart, a «Sinfonia n.º 5, op. 167» de Victorino D’Almeida e «Tea for Two» de Dmitri Chostakovitch. Aí vamos nós.
8 de Setembro de 2012 – Senhora da Mó
Fugir à festa da Senhora da Mó é tarefa difícil. Há gente boa a fazer anos neste dia, e muita gente que passa o dia a aproveitar a sombra e o fresco do monte, que nos mostra Arouca como nenhum outro. Desta vez, não havia tempo contado, e a tarde fluiu, animada e sem preocupações. Foram passando caras conhecidas, foram-se trocando saudações, foi-se vivendo o que ainda havia para viver do dia de festa. Foi bonita a festa, pá. Sol, paisagem, alegria, música, gente boa. Nos tempos idos, a vila subia ao monte, e festejava. Hoje, é mais do que a vila. É Arouca toda que sobe ao monte dentro de si. E fica mais perto do céu.
7 de Setembro de 2012 – Aí vamos nós outra vez
A economia portuguesa é facilmente comparável com a manta da velhinha, sobre os joelhos da cadeira de rodas. Se queremos que cubra os pés, destapa as pernas. Se queremos que cubra as pernas, destapa os pés. E dê-se a volta por onde se der, algo vai ficar sempre descoberto. Hoje, o Primeiro-Ministro de Portugal veio pedir-nos mais sacrifícios, mas não explicou muito bem o que falhou. Veio pedir-nos que, cegamente, aceitemos correr para uma meta que não conhecemos. Estaremos a seguir um plano de resgate económico, ou a caminho de um novo modelo social? Estará o Governo a agir de forma a, subliminarmente, criar teias de dependência dos mais fracos em relação a um Estado pesudo-assistencialista, convidando ao acefalismo? Quanto é que já conseguimos poupar nos cortes na despesa do Estado? Não sabemos, nem ninguém pergunta. Limitamo-nos a reclamar. Muitas vezes, por reclamar. Pedro Passos Coelho chegou ao Palácio de São Bento na pior altura possível. Se bem que, como no caso da manta, e com a qualidade (que não abunda, na verdade) dos nossos políticos, com este ou com qualquer outro Primeiro-Ministro, não estaríamos melhor. Temos alternativas?
6 de Setembro de 2012 – De volta ao trabalho com o Orfeão de Arouca
Regressamos, hoje, ao trabalho com o Orfeão de Arouca. Na estante está a missa do sexto tom, com o canto gregoriano fixado por Henri du Mont. O objectivo é fazer corresponder o canto gregoriano ao exercício de composição que François Couperin fez, ao compor peças de órgão sobre o que chamamos “cantus firmus”, ou seja, a melodia gregoriana apresentada. Em Outubro, se o calendário se cumprir, teremos a possibilidade de apresentar esta viagem em concerto, com o mestre Nicolas Roger ao órgão, abrindo uma série de interessantes pontes entre a música francesa e a sonoridade de um órgão ibérico, entre um organista francês e vozes “populares” portuguesas, entre o gregoriano e o contraponto. Mas, para já, o caminho ainda está no princípio. Se bem que já com a meta em vista.