10 de Novembro de 2012 – Ser o melhor da minha aldeia pode não ser o melhor do mundo

Hoje conseguimos a façanha de sair deste espacinho guardado entre as montanhas, para irmos e regressarmos de Lisboa no mesmo dia. Pode parecer pouco para muitos, mas para quem é de Arouca, é uma verdadeira aventura. Porque ainda estamos longe de muita coisa. Fomos com o intuito de participar no famoso “Quiz” literário, das livrarias Bertrand. Tinham-nos prometido que as perguntas iam ser mais acessíveis, mas não foi bem isso que aconteceu. Os questionários eram, de facto, para quase especialistas, e não para meros curiosos que sabem umas coisas do (pouco) que já leram. Levámos, portanto, uma “cabazada”, como se diz na gíria desportiva. E veio-me à memória uma frase ouvida há uns anos atrás. Posso ser o melhor da minha aldeia, mas quando saio, comparo-me com os melhores da aldeia deles. E nem sempre ser-se o melhor da sua aldeia é ser-se o melhor do mundo. Depois disto, regresso a casa, para continuar a ler “Alegrias e tristezas do Trabalho”, de Alain de Botton. Uma espécie de terapia, para diminuir o peso da “cabazada”.

9 de Novembro de 2012 – Orfeão de Arouca, ao encontro da semente

A metáfora pode ser vista de várias formas. De facto, até musicalmente foi possível fazermos uma viagem quase até à “semente”, promovendo o diálogo entre o canto gregoriano e o órgão. Mas houve mais do que isso. Houve música do nosso tempo, escrita para equilibrar vozes e instrumentos. Houve espaço para conjugar instrumentos. Houve espaço para a voz humana. Houve, em suma, espaço para, ao encontro da semente, a encontrarmos, aqui e além, umas vezes mais facilmente, outras nem tanto. Mas para, cada um, fazer esse percurso, ao som da melhor música que foi possível fazer-se. Porque andamos, constantemente, ao encontro dessa semente, que já germina. A da boa música. Dando frutos. Sempre que queremos.

8 de Novembro de 2012 – Nimrod

Há uma música que não me tem saído da cabeça, especialmente depois de ter iniciado (e terminado) a tarefa de tentar transcrever o 9.º andamento das Variações Enigma, de Edward Elgar, para que a Banda Musical de Arouca, possa apresentá-lo na abertura do Concerto de Natal. A ideia surgiu depois de ter visto uma performance interessantíssima, por parte das bandas militares inglesas. Estava ali a prova de que era possível. O andamento chama-se “Nimrod”, em referência a uma personagem do Livro dos Génesis, dado como neto de Noé, uma das personagens mais poderosas do seu tempo, também frequentemente ligado à construção da Torre de Babel. Elgar terá composto este andamento numa altura em que estava prestes a desistir de compor, tendo sido encorajado pelos que lhe eram próximos a seguir o exemplo de Beethoven, e lutar contra essa falta de “inspiração”, ou de força para continuar. Daí, terá surgido “Nimrod”. O que teríamos perdido se Elgar tivesse desistido.

7 de Novembro de 2012 – Deus existe?

Não resisti à tentação de comprar o livro do padre Joaquim Carreira das Neves. Em boa parte por causa do título, é certo. Mas também muito por causa do autor. E pela conjugação de factores, é claro. Um livro de um sacerdote, com uma interrogação tão incisiva, é caso para admirar. Hans Kung já havia ensaiado uma tentativa semelhante, com um título idêntico. Desta feita, o padre Carreira das Neves faz uma viagem cronológica sobre as várias formas de deus, e as várias religiões, com o cuidado científico exigido e com tempo e espaço para abordar as questões do Deus de cada uma delas, que, no fundo, e para todas, é um e só um. Há quem acredite, há quem não acredite. Há quem queira e quem não queira acreditar. Depois de “Religião para ateus”, de Alain de Botton, esta leitura está já na cabeceira. Para cenas dos próximos capítulos, com certeza.

6 de Novembro de 2012 – E eu tenho inveja de Lobo Antunes

Ele já assumiu que escreveu tudo o que queria. E talvez o tenha feito, porque conseguiu ler tudo o que queria. Fez tudo o que queria. Já pode dizer adeus, diz ele. Eu também queria ter lido tudo o que é obrigatório ler. E ter o dom de escrever tudo o que queria escrever. Poder olhar para trás e verificar que cada palavra, ao lado de outra palavra, era exactamente ali. Ver-me ali. Sentir que estava o dever cumprido. Queria ter feito tudo o que quis fazer. Ser tudo o que quis. Dizer tudo o que quisesse. Poder dizer adeus, talvez mais tarde. É por tudo isto que tenho inveja de Lobo Antunes. Ele pode dizer e fazer tudo o que quiser. Eu não.

5 de Novembro de 2012 – O mesmo argumento, ao contrário

António José Seguro disse hoje que não aceita cortes no Estado Social. É curiosa a afirmação, porque é exactamente igual à de Sócrates, e não se consta, nessa altura, que Seguro pensasse da mesma forma, sobretudo quando era Teixeira dos Santos quem os propunha. A retórica tem destas habilidades. Pode, facilmente, converter-se, reverter-se, renovar-se, com base na argumentação que estiver mais à mão, e nas circunstâncias. Não é difícil de prever que o «soundbyte» seguinte vai ser o de que o PS está preparado para eleições. Até pode ser verdade. Até pode ser melhor para Portugal. Mas seria bem mais pedagógico se, a par disto, nos explicassem o que teríamos a ganhar com eleições antecipadas. Porque quem está «de fora» apenas vê nestas tácticas a vontade de jogar o jogo das cadeiras. E isso, pouco resolve.

4 de Novembro de 2012 – A preparar a música para o Natal

A aventura segue já em velocidade de cruzeiro, com vários arranjos a ganharem forma, para serem apresentados no Concerto de Natal. Com o objectivo de sermos originais, estamos a ir um pouco mais longe, este ano, com coisas escritas (ou melhor, transcritas) propositadamente para o efeito. O Concerto de Natal, em Arouca, é já um marco cultural, que demonstra bem o valor que o movimento associativo local tem e a sua capacidade dinamizadora e empreendedora. Passo a passo, vai em crescendo de qualidade. Pelo menos, enquanto pudermos.

3 de Novembro de 2012 – «Resgatados» (ou a repetição da história?)

Leio com voragem, no sentido mais amplo da palavra, «Resgatados», de David Dinis e Hugo Filipe Coelho. Regresso, com curiosidade, aos bastidores da acção política, que levaram a que, em Abril de 2011, José Sócrates usasse o «telefone vermelho» para pedir ajuda à «troika». Sócrates, tudo parece indicar, era dos únicos (senão mesmo o único) que acreditava ser possível sobreviver sem ajuda do FMI. Fez tudo o que pôde (e talvez não devesse) para o conseguir, mas em vão. Pelo meio, falou com alguns, mas esqueceu-se de falar com outros, e a uns e outros nunca deu o retrato completo. O próprio Ministro das Finanças da altura, Teixeira dos Santos, o alertava sistematicamente para a gravidade da situação, e avançava já com propostas de medidas que o tempo veio a impor, e que tanto têm sido criticadas. Basicamente, Sócrates «caiu» por falta de consenso. Por uma certa teimosia de parte a parte. É frequente que os cálculos de quem decide não estejam muito alinhados com os de quem vê a carteira vazia todos os dias. Relendo esta história recente, parece estarmos a assistir a um «remake». Mais uma vez com decisões e motivações que ultrapassam o comum dos portugueses. Como diria Badaró, «é política».

2 de Novembro de 2012 – Pontes sem margens

Tem caído em desuso a construção de pontes com uma margem num feriado e outra num fim-de-semana. Nesse entremeio, construía-se um descanso ou um fazer qualquer outra coisa que nos libertasse do dia-a-dia. Agora não. Há uma margem, outra margem e esse rio imenso que é o dia do meio. Ou então um imenso tabuleiro sem apoio nas margens. Onde, cada vez mais, são os sonhos, os ideais, as convicções que se vão colocando, sem poderem circular de margem a margem. Porque, de um lado e de outro, há sempre alguém a afastar a ponte. Deixando tudo isso suspenso. Afastando tudo isso. Para que tudo isso caia por terra.

1 de Novembro de 2012 – Fazes-me falta, pá…

É uma frase comum, mas que ganha especial fôlego quando nos entra pela carne dentro. A importância de uma pessoa não se mede tanto pela sua presença como pela sua ausência. A ausência é uma espécie de cratera de um vulcão, que vai alargando, alargando, de cada vez que a lava da lembrança vai subindo e ficando agarrada a cada parte de nós. A falta que faz uma palavra no momento certo. O silêncio ensurdecedor quando procuramos um conselho. O vazio quando procuramos um abraço. Há dias assim. Em que se acumulam as lembranças de todos os outros dias. Não aquela lembrança quase hipócrita, vinda do esquecimento dos outros dias. Fazes-me falta, pá.