31 de Outubro de 2012 – Porque o melhor do mundo…

http://www.youtube.com/watch?v=mZgs9BpvdkA

Dizia Pessoa que o melhor do mundo são as crianças. Uma espécie de “verdade de La Palice” de que nos esquecemos com frequência. Cada vez queremos que as crianças cresçam mais depressa. Aprendam mais depressa. Saibam reagir mais depressa. Esquecemos que é preciso tempo e espaço para brincar, para fazer de conta, para crescer, para aprender, para ser. E hoje, na sessão de (in)formação promovida pela Comissão de Protecção de Crianças e Jovens de Arouca, foi um pouco esta a ideia que me ficou, se bem que com outro enfoque: os abusos. Como se disse, e bem, é uma realidade, e à realidade dificilmente escapamos. Não adianta fazermos de conta que ela não existe, ou termos pudor em falar sobre ela, porque não se resolverão os problemas com silêncio ou com silenciamento. À mensagem “I can’t wait untill I grow up” (não posso esperar por ser crescido), acrescentaria uma outra: “the child learns what he sees” (a criança aprende o que vê). Porque o que é preciso é, talvez, deixar que as crianças não tenham pressa de crescer, e possam, vendo, aprender tudo o que houver a aprender. Para que possam ser, de facto, o(s) melhor(es) do mundo.

30 de Outubro de 2012 – Pessim(real)ismo

A RTP esperou cerca de meia hora para noticiar, no Jornal da Tarde, que os portugueses estão mais pessimistas. Como tudo, trata-se de uma questão de ponto de vista. Podemos olhar para o copo meio cheio, ou meio vazio. Ou vê-lo à claridade, ou no escuro. Ou recusarmo-nos a vê-lo. Se virmos bem a realidade, que razões temos para sermos optimistas? Não estaremos, com pessimismo, a ser realistas, conformes com a realidade? Ser pessimista é o mais realistas que podemos ser. O optimismo seria, em última análise, uma reacção. Só possível se houvesse esperança. Isso que nos tiram, dia a dia, hora a hora, ao minuto, ao segundo. A realidade não quer que sejamos optimistas.

29 de Outubro de 2012 – O jornalismo…

Em 1998, resolvi perseguir uma espécie de um sonho. Juntamente com mais 99 “camaradas”, como é costume dizer-se na profissão que nunca tive, desci a Avenida da Boavista a pé, à procura da Escola Superior de Jornalismo. Ali passámos, todos, quatro anos à procura do âmago desse sonho. Aprendemos a modelá-lo de acordo com a realidade, e, à medida que nos aproximávamos do fim, começávamos a ter a clara noção de que talvez nunca fôssemos exercer a profissão que procurávamos conhecer melhor, quatro anos antes. Dizem-me jornalista, mas nunca o fui. Nunca tive carteira profissional. Nunca pertenci ao Sindicato (sim, para se ter carteira profissional, tem de se ser sindicalizado, o que é, no mínimo, estranho, mas é assim que funciona em Portugal). Nunca fui contratado por nenhum órgão de comunicação social. Conheço bem apenas a redacção da TSF Porto, porque ali pude fazer um estágio, onde aprendi, em poucos meses, muito mais do que é ser-se jornalista do que em muito dos quatro anos que me perdi entre livros e aulas. Tudo isto veio à memória ao ver o debate “Prós e Contras” da RTP, onde Fátima Campos Ferreira vai lançando debates frequentemente viciados pela sua excessiva interferência, interrupção e condicionamento. Mas o programa está assim formatado, assim o vemos. Fala-se sobre o futuro do jornalismo. Pois bem, para mim, o futuro do jornalismo é exactamente igual ao passado. Um meio com características muito próprias, onde só quem tem um instinto de sobrevivência muito apurado e alguma capacidade de encaixe consegue sobreviver. Tudo o resto, a crise, as dificuldades, as faltas de apoio, o desemprego, o crescente avanço da tecnologia, isso não é muito diferente do que se passa nos restantes sectores. É por isso que há sonhos. Porque são isso mesmo. Sonhos.

28 de Outubro de 2012 – O «segurança socialês»

Portugal é fértil nos «sub-idiomas» ou dialectos que cria. Quem cair nas «malhas» dos Recibos Verdes, tem de estar fortemente preparado para aprender estes dialectos o mais rapidamente possível, sob pena de, quando der por ela, estar absolutamente «engolido» pelo sistema, o que se traduz, em português, por «pagar para trabalhar». Até ser possível ter os serviços relacionados com a tributação disponíveis na internet, havia o «financês», traduzido no enorme emaranhado de papéis que eram precisos para iniciar actividade, percentagens, designações, e muito mais. Para quem anda nestas andanças, resta ainda o «segurança socialês». A Segurança Social, apesar do esforço, continua a não querer que os contribuintes regularizem as suas dívidas com ajuda da internet. Quem quiser fazê-lo, tem de dominar o «sub-idioma», e ir prestar vassalagem a alguns dos senhores feudais dos serviços (felizmente, raras excepções), que teimam em não facilitar o atendimento. É preciso sabermos o que significa «escalão contributivo», ou a «base dos rendimentos declarados», ou como podemos «re-adequar o escalão ao rendimento». De tudo o que se lê, ouve e vê, a única boa notícia, que ainda ninguém confirmou nem desmentiu, é que o Governo criou um subsídio de desemprego para trabalhadores independentes que descontem 80% dos rendimentos para a mesma entidade. Valha-nos isso. Porque isso a gente percebe.

 

27 de Outubro de 2012 – Re(a)fundar o país

O Primeiro-Ministro de Portugal disse que era preciso refundar o memorando de reajustamento da economia nacional. Numa altura em que também se fala de reformas do Estado, a mais polémica relacionada com a administração local, o que fica desta declaração é que são muitos «res». Portugal não está muito necessitado de «rewinds». Normalmente, só volta atrás quem tenta, mas também quem erra. Com este gesto, aparentemente inofensivo, ou até mesmo bem intencionado, procurando passar a ideia de que é preciso renegociar a dívida, o que o Primeiro-Ministro de Portugal fez foi contribuir para a desvinculação do PS do memorando que assinou. Provavelmente, em direcção a um re(a)fundamento do país.

26 de Outubro de 2012 – «Mixórdia de Temáticas»: o livro

Confesso. Sou fã de humor inteligente e livre e descomprometido. Por isso, sou fã de Ricardo Araújo Pereira (e invejo-o, ao mesmo tempo, por não conseguir escrever tão bem como ele). Chegou há poucas horas, pelo correio, o meu exemplar de «Mixórdia de Temáticas», e o que aconteceu foi que ainda não consegui parar de ler. Estou já a dois terços de chegar ao fim, e a única coisa que apetece é seguir para o capítulo seguinte. São textos curtos, mas com um humor delicioso em cada expressão usada. Está lá muito do que somos, e do que não somos mas gostaríamos de ser. Está, essencialmente, a capacidade de rirmos de nós próprios, o que nem sempre é fácil. Está o «génio» de RAP. Vale a pena ler. Essencialmente a parte em que dá a conhecer o seu número de sócio do Sport Lisboa e Benfica. Entre outras temáticas absolutamente triviais.

25 de Outubro de 2012 – FMI e roupa suja

É absolutamente intragável a quantidade de notícias que referem o FMI, produzidas hoje, dizendo tudo e o seu contrário. Os mesmos que nos impuseram medidas duras, para conseguirmos não só recuperar a economia como pagar o empréstimo que nos fizeram (será que isto é mesmo possível fazer-se ao mesmo tempo?). Esses, a acreditar no que nos dizem as notícias, tanto dizem que estamos no bom caminho, como alertam para o facto de austeridade fazer aumentar o desemprego, como, a seguir, dizem que esse mesmo desemprego não é só culpa da austeridade. Todavia, esta ausência de lógica parece ser o que, realmente, faz sentido. Num âmbito completamente diferente, o Benfica, a campanha eleitoral também tem sido fértil em contradições. Luís Filipe Vieira diz que não quer debater com Rui Rangel, porque um debate seria “lavagem de roupa suja”. Mas os lavadores, apesar de não o fazerem face a face, lá prosseguem na labuta, e lavam roupa suja “por tabela seca”, trocando mimos à distância. Quanto a nós, com o FMI, não temos essa sorte. Porque, no que diz respeito a lavagem de roupa suja, só há um lado da barricada que o faz. Quem tem de trabalhar para lhes pagar.

24 de Outubro de 2012 – Puxar o cordel

Fui de novo ao baú, buscar mais um texto com mais de 10 anos. Estávamos quase no final do trajecto académico, e exercitávamos o género crónica. Na altura, lia Agostinho da Silva, e pensava em como alguns problemas nos são colocados como camas-de-gato. Ao mesmo tempo difíceis, e tão fáceis como um simples cordel. Só que emaranhado com uma ordem que o torna complicado. Apesar de simples.

Certo dia não dormia. Pensei. Queria ser algo que não dormisse, ou dormisse para sempre. Uma árvore, uma pedra, qualquer coisa. Depois quis ser grande. Sim. Grande, famoso, que me reconhecessem pelo trabalho que fizesse. Em suma, queria ser.

Todos os dias regressava a casa, todos os dias não dormia logo à primeira, todos os dias a mesma cama de gato. Pensava, no escuro. Afinal, saio todos os dias, todos os dias regresso, todos os dias vou procurar coisas, coloco o corpo em comunicação com o que lhe é exterior. Cada dia, cada minuto era uma cama de gato.

Cuidadosamente, fui metendo os dedos nos cordéis e puxando. Houve dias em que resolvi e passei o cordel para as mãos de outros meninos. Outros em que o trouxe para casa, talvez os dias em que não adormecia.

Dia a dia, o cordel ia sendo maior. E eu puxava-o e via os outros puxarem-no também. Era preciso dominarmos o cordel, manejá-lo com cuidado e alguma sagacidade. Às vezes também olhava para trás, para quando o cordel era mais pequeno. E queria que fossem outros a puxá-lo por mim.

Afinal, todos os dias eram nada mais do que um teste à astúcia, uma procura da melhor forma de manobrar o cordel. Tudo passava também pelas mãos daqueles com quem jogávamos. Fui passando o cordel de mão em mão e trazendo-o de novo. Lanço-o a esse lado, daí partirá para outras mãos e voltará e irá de novo. O verdadeiro segredo estará, muito simplesmente, na forma de puxar o cordel. Polegar e indicador juntos. Cordel no meio deles, de baixo para cima. Já está. Amanhã jogamos de novo…

«As coisas acontecem, sucedem e a gente aproveita ou não. Há um jogo de meninos que, em Portugal, se chama cama de gato: os meninos atam um cordel em círculo, depois fazem assim com a mão, vem outro e faz uma complicação qualquer, mete o dedo e faz outra complicação, vem outro ainda e quanto aos dedos faz assim e tira, e forma outra figura. Este jogo chama-se cama de gato. Então, eu acho que a vida vem de vez em quando e apresenta-nos o problema, olhamos e vemos como é que havemos de tirar, depois metemos os dedos, fazemos assim e sai outra coisa. É que toda a nossa habilidade é tornar a ser crianças para ver como é que sai a cama de gato.»

(Agostinho da Silva – Vida Conversável)

23 de Outubro de 2012 – Não é bem assim, senhor Secretário de Estado

O Secretário de Estado do Emprego disse hoje que tínhamos de aproveitar a situação actual para nos requalificarmos. Segundo o Jornal de Negócios, o Norte vai acolher um investimento de 5,2 milhões de euros, no âmbito do Fundo Social Europeu e do Plano Operacional do Potencial Humano (POPH). Isto seria importante, se não fosse, até certo ponto, exclusivo. Os licenciados, por exemplo, não podem aceder a muitas destas acções de formação/reconversão profissional. Pois bem, senhor Secretário de Estado. Eu estou há seis anos a tentar reconverter-me profissionalmente, graças ao meu trabalho, investindo dinheiro do meu bolso, sacrificando a minha carreira profissional. Como eu, sei que muita gente gostaria de arriscar. Por que razão é tão difícil?

22 de Outubro de 2012 – A Cidade Dourada

Algures em Janeiro de 2001, escrevi um texto em que contava uma viagem a Salamanca, realizada poucos anos antes. Na altura, foi uma espécie de exercício. Bem sucedido, pareceu. Olhando para trás, passaram cerca de 10 anos. Muito mudou. Outras coisas, nem tanto. Lembrei-me de Salamanca, porque foi uma viagem de libertação. Não fomos muito longe. Excepto no pensamento.

Salamanca. É difícil não se apaixonar por ela. Será talvez a nossa ânsia interminável de ressuscitar um passado de contos de reis e rainhas, de materializar toda a música e todo o cheiro a medieval que nos envolve quando procuramos esse passado e encontramos dele uma pequena ponta que nos dá a ilusão de o termos descoberto.

Não importam datas ou qualquer outra prisão ao tempo. Antes o espaço, a personalidade de uma cidade, a intemporalidade, tudo o que resiste à fruição de um momento e nos permite seguir os passos de outros, estar em outros tempos nos mesmos sítios. É inexplicável a sensação de se sair do desconhecido em descoberta do que apenas se vê muito ao longe.

Contudo, olhando todas estas casas, facilmente se vêem os mercadores justando negócios pelas ruas, homens e mulheres que procuram fazer renascer os seus espíritos.

Olhares sobre a cidade

O fim de tarde algures num espaço próximo da Catedral. Belas mulheres cruzam os caminhos imaginários de um passeio largo. Estranha-se, depois entranha-se o sabor do falar dos espanhóis. Os corpos procuram a luz e não têm dificuldade em encontrá-la. O dourado dos edifícios em pedra de Villamayor reflecte um céu que se adivinha estrelado. Por isso a chamam “cidade dourada”.

Como que cantando as belezas da cidade, cantam-se as belezas de todas as mulheres, jovens e menos jovens, que tocam este final de tarde. São interessantes as reacções a estas pequenas serenatas. Algumas das belas donzelas fogem, outras deleitam-se. Tal como outrora, os trovadores mostram os seus dotes e colhem recompensas pelo seu desempenho.

A noite chama-nos à “Plaza Maior”, onde toda a cidade se congrega, se procura e se encontra. Verdadeira miscelânea de culturas, a noite adivinha-se de descoberta mútua.

Ao longe, uma banda de música vai agarrando fortes melodias populares espanholas, inundando toda a praça e tirando toda a cor de uma bandeira que se agita no centro de um dos lados deste quadrado de paredes douradas.

Mas outro foco de atenção surge. Os portugueses fazem a festa, sentados no chão, no lado oposto. Duas jovens agitam os corpos, iniciando uma espécie de dança cigana a que as guitarras dos portugueses não conseguiram resistir.

Rostos da noite

Desta mistura engraçada surgem vários rostos que se virão a tornar conhecidos. Maria, nome português, rosto de uma beleza invulgar. Talvez por isso a atenção e uma aproximação quase incontrolável.

Maria conduz, com algumas amigas, um pequeno grupo de portugueses pelas ruas da noite de Salamanca. Faz questão de separar este roteiro nocturno de um outro que promete para a manhã seguinte.

O ambiente da noite é quente, os corpos transbordam energia, os rostos demonstram alegria.

Depois de alguns bares visitados, Maria despede-se. Entra num autocarro e coloca a sua beleza a uma das janelas. Rapidamente, emaranha-se no aglomerado dourado ao fundo e desaparece.

Uma visão de Ballester

Amanhece rapidamente. Todo o tempo é pouco para absorver tudo o que a cidade tem para dar. Guardaram-se para este dia as últimas visitas a locais de referência.

Um olhar sobre a fachada da Universidade e o desejo de um dia voltar, talvez com um objectivo diferente. Surge a vontade de se ser parte da cidade dourada, haurir a sabedoria destas paredes, deste brasão, de toda a História que aqui se revive hoje.

Depois de uma rápida conversa com dois empregados de um café, junto à “Plaza Maior”, aparece Maria, acompanhando o nascer do sol.

Depois de mais um passeio pela cidade, procurando todo o ouro que não havia sido visto, o regresso à praça.

Grande aparato, muitos jornalistas e uma voz envelhecida acompanhada de aplausos sentidos. Alguns minutos depois surge, muito próxima, a imagem de um homem igual a muitos outros. Envelhecido, uma experiência de vida bem visível no rosto. Ali, a dois passos de mim, completamente desprotegido, ao contrário do que seria de se esperar.

Alguém ao meu lado sussura: “Aquele homem chama-se apenas Gonzalo Torrente Ballester!”

O início de uma outra viagem

De volta, tudo se arruma de novo algures atrás do agora. É nesta altura que a viagem termina e se inicia de novo. Não há tempo ou qualquer outra coisa capaz de nos prender a memória e a imaginação.

São essas imagens, únicas e inesquecíveis, que ficam guardadas e nos permitem ali regressar quando quisermos. Elas permanecem lá, longe, à espera de serem descobertas de novo.