20 de Novembro de 2012 – Mais, mais velhos e nas cidades

Os censos confirmaram uma tendência que já se adivinhava. Somos mais, somos mais velhos e vivemos maioritariamente nas cidades. O que era bom que os números também dissessem era como podemos reverter parte desta situação. Porque o que nos dizem, no fundo, é que temos um país a várias velocidades. Um país em que o nível de oportunidades não é igual para todos. Talvez por isso vivamos mais nas cidades, apesar de a qualidade de vida não ser a desejada. Mas nós cá continuaremos. No interior «esquecido e ostracizado», no tal «Portugal profundo», que muitos gostariam que nem sequer existisse. Cerramos a selha, como quem cerra a pronúncia. E talvez, um dia, cheguemos lá.

19 de Novembro de 2012 – Boa noite, senhor Soares

Desde «Amor de Perdição» que não acontecia uma coisa destas. Na altura, o fervilhar da adolescência e a porta da juventude fizeram com que Camilo fosse devorado num só dia. Desta vez, a façanha não foi tão grande. «Boa noite, senhor Soares» é uma pequena novela do meu antigo Mestre e (sempre) amigo Mário Cláudio, onde, nas entrelinhas de uma prosa deliciosa, se pode conhecer um pouco da pessoa de Pessoa. Ou, pelo menos, da pessoa que se mostrava. Todos nos queixamos de que o tempo é pouco. Que não fazemos as coisas que queremos, porque o tempo não chega. Pois bem, para ler nem sempre é preciso muito tempo. Basta algum querer. E encontrar as palavras certas para nos prenderem. Do princípio ao fim.

18 de Novembro de 2012 – A notícia (que talvez não devesse ter sido) depois do tornado

Hoje foi notícia (grande, diga-se de passagem) o facto de o povo de Silves ter saído à rua para ajudar os funcionários da autarquia nas limpezas do espaço urbano, depois do tornado. De facto, a notícia é (ou devia ser) o tornado, ele mesmo. Porque, normalmente, a notícia é a novidade, o que surpreende, o que esta um pouco “ao lado” da realidade. Mas não. O que foi notícia foi o que está na moda chamar-se de voluntariado, mas que, nos primórdios da democracia portuguesa, aí, onde ela foi, pela única vez, verdadeiramente genuína, era “normal”.  Com o passar do tempo, trabalhar em prol da comunidade, ser um elemento activo e “vivo” do processo social, deixou de ser normal, para passar a ser notícia. Ainda bem que há notícias destas. Mas talvez melhor fosse se não fossem notícia.

17 de Novembro de 2012 – Magusto

Tocar um “instrumento” composto por quase 40 vozes humanas não é fácil, no sentido em que não se trata de um verdadeiro “instrumento”, mas, de facto, de quase 40 pessoas. E as pessoas precisam, cada vez mais, de conviver umas com as outras, mais do que fazerem música juntas. Hoje, em conjunto com a Banda Musical de Arouca, resolvemos reavivar a tradição do magusto, para nos congratularmos pelo facto de termos podido trabalhar juntos. Se cada um destes músicos tivesse de ser pago pelo trabalho que tem feito, talvez não houvesse dinheiro no orçamento de vários anos. Hoje, tentamos pagar com castanhas. E prolongar a capacidade de endividamento.

16 de Novembro de 2012 – Carta aberta ao presidente do PSD

Ex.mo senhor
Presidente do Partido Social-Democrata e Primeiro-Ministro de Portugal:

Nasci poucos meses antes de Sá Carneiro morrer, mas cresci a aprender a sonhar e a querer saber sempre mais sobre essa personagem fascinante e cativante da política portuguesa, que, parece-nos, e cada vez mais, levou consigo para a morte os nossos sonhos e a nossa vontade de querermos ser mais portugueses. Mas pouco interessará a V.ª Ex.ª saber sobre os meus sonhos, ou sobre o facto de conhecer ou não conhecer Sá Carneiro, o seu pensamento, os seus ideais, as suas batalhas por um Portugal de futuro, justo, moderno, crítico, sólido.

Cresci a aprender a gostar de política, muito por causa dessa personagem quase mítica, e por ver que o Partido Social-Democrata que fundou mobilizava as pessoas, fazia com que se identificassem com ele. O PSD era o partido dos melhores, porque era feito de gente íntegra, que não hesitou nunca em pôr as mãos no trabalho que o povo fazia, para, juntos, construírem este Portugal que desbaratamos agora. Mas pouco interessará a V.ª Ex.ª saber dos meus gostos, ou de um passado que em nada nos ajuda a resolver os problemas que enfrentamos hoje.

Aderi cedo, agora percebo, a esta mobilização, e fiz-me militante activo do PSD. Aprendi a debater internamente, na busca das melhores ideias, dos melhores projectos, das melhores acções para o bem comum. Aprendi como se faz política. Aprendi como se faz uma campanha eleitoral. Aprendi como se pensa e age politicamente, e como se pensa e age tendo em vista o bem comum, e como, de vez em quando, a diferença é maior que a semelhança. Mas pouco interessará a V.ª Ex.ª saber como e quanto, e até mesmo se, aderi ao mesmo partido que hoje V.ª Ex.ª lidera.

Também vivi os tempos recentes. Também em Arouca senti a mentira e o esquecimento a que os políticos habitualmente nos condenam. Também senti na pele as consequências desse desgoverno, que, dizem-me, V.ª Ex.ª está a tentar remediar. Só que eu não consigo continuar a fazer parte de uma entidade que já não sei se existe. V.ª Ex.ª e os seus pares estão demasiado concentrados no governo de Portugal, e isso percebe-se. Mas isso não permite que V.ª Ex.ª se esqueça do partido que lidera, que o elegeu e que o mandatou para conduzir nestes tempos difíceis. Sinto, sinceramente, que o PSD começa a deixar de existir. Como podem os autarcas sociais-democratas defender as políticas que dificultam a vida da população que eles próprios servem e que devem ajudar? Como podem as estruturas locais que se vêem em minoria lutar contra um estado de coisas que não lhes deixa qualquer margem de acção?

Sei, senhor Presidente, senhor Primeiro-Ministro, que pouco lhe importará perder um militante em Arouca, uma terra que, certamente, pouco ou nada lhe dirá. E perdoe-me por sequer pensar que um abandono como este o poderia preocupar, face aos terríveis problemas com que se debate diariamente. Mas o que é facto é que deixou de fazer sentido para mim pertencer a um partido que eu vejo, dia a dia, desaparecer. Eu pude ver o PSD crescer. Ajudei Arouca a acordar, muitas vezes, vestida de laranja. Senti o sabor da vitória, mas senti muito mais, e muito mais amargamente, o da derrota. Faço o balanço, e verifico que foram muitas mais as vezes em que saí prejudicado do que beneficiado por ser ou ter sido um militante activo. Apesar disso, nunca regateei o meu apoio e o meu empenho às causas com as quais me comprometi, mesmo sabendo que as consequências poderiam não ser as mais favoráveis. A isso, chamei luta, para a qual, neste momento, deixei de ter força.

Senhor Presidente, senhor Primeiro-Ministro. Aquilo que lhe peço hoje é a liberdade. A liberdade de pensar, de opinar, de decidir sem ter de estar à espera do que pensa o meu partido. Peço-lhe a liberdade de viver esta crise como português, e não como social-democrata. Peço-lhe a liberdade de me poder dizer livre de qualquer grupo ideológico. Peço-lhe a liberdade de trilhar o meu próprio caminho. E, se um dia esse caminho me trouxer de volta ao PSD, devolvo essa liberdade de me rejeitarem, se o entenderem. Neste momento, o que sinto é que o cartão que lhe devolvo não me faz falta. Porque o PSD que eu conheci, o PSD em que cresci a acreditar, o PSD de Sá Carneiro, o PSD invencível em Arouca, esse PSD não existe. E temo, sinceramente, que deixe de existir um pouco por todo o país.

O resto, senhor Presidente, senhor Primeiro-Ministro, já não dependerá de mim, mas de V.ª Ex.ª.

Cordialmente,

Ivo Brandão

 

Arouca, 16 de Novembro de 2012

15 de Novembro de 2012 – Ave, prof. Augusto Santos Silva!

Aprendi a respeitar o professor Augusto Santos Silva pelos seus competentíssimos estudos sobre as dinâmicas culturais em Portugal. Li alguns dos seus textos, com uma abordagem habitualmente lúcida e transversal. Tive pena quando a sua faceta de político combativo se exacerbou, acabando, sem querer, por retirar alguma credibilidade ao trabalho entretanto desenvolvido no meio académico. Mas hoje, ao acordar, não pude deixar de sublinhar «carregadamente» a mensagem que deixou no seu Facebook. Lúcida, como habitualmente. Incisiva, como a sua forma de estar na política nos habituou. E absolutamente certeira. Seja por causa da greve, da situação do país, ou do que for. Civismo, é algo que nos deve caracterizar. Quem não o praticar, não pode passar impune.

1. Os provocadores que atacaram ontem a PSP foram e são os piores inimigos da greve geral.
2. Ninguém deve ter dúvidas sobre isso. Eu, pelo menos, não tenho: tais vândalos estão a marimbar-se no povo que sofre e são ferozes adversários do movimento sindical.
3. Estão também totalmente apostados em destruir o crédito internacional de Portugal, reduzindo a nossa imagem no exterior à de uma cidade em estado de sítio.
4. Já houve tempo em que pensei que eram cúmplices da direita involuntariamente. Mas é-me cada vez mais evidente que eles sabem e gostam de saber que a sua acção só favorece a “direita da lei e da ordem”.
5. Tenho por isso um pedido a fazer à direcção do meu partido, o PS: que não hesite em defender pública e inequivocamente a actuação da polícia.

(Prof. Augusto Santos Silva, no seu Facebook – com adaptação à antiga ortografia)

14 de Novembro de 2012 – Aplaudir, ou não aplaudir?

Li hoje, com interesse, um artigo da revista «Gramophone», uma publicação internacional dedicada à música erudita, muito apreciada no meio. Versava sobre algo que, por vezes, se reveste de um carácter algo enigmático, no decurso de um concerto. O aplauso. Para muitos de nós, o aplauso é algo que nem sempre sabemos como (e se devemos) usar, em que circunstância e em que medida. Mas o texto era sobre um outro tipo de aplauso. O aplauso na sequência de um concerto transmitido numa sala de cinema. Com a disseminação das salas de cinema, uma tendência que tem sido muito aproveitada na Europa é a da transmissão (muitas vezes em directo) de grandes concertos em grandes salas, normalmente com grandes produções para grandes transmissões. Fruto da mesma tendência de disseminação, aplaudir um filme é algo que já não é propriamente comum. Agora, e um concerto? Um grande concerto? Um excelente concerto? Devemos ou não aplaudir? É certo que quem esteve a tocar não vai poder ouvir, mas manifestar o entusiasmo e enaltecer a qualidade do que foi transmitido, é algo que não ficava mal. Ainda assim, a pergunta continua a não ter uma resposta certeira.

13 de Novembro de 2012 – Estudar ou não estudar…

Já diziam os antigos, que quando se tocam várias violas, nem todas saem afinadas. Trabalhar, estudar, fazer mil e uma coisas, é bonito. Mas nem sempre sobra tempo, espaço e disponibilidade mental para fazer uma das coisas, em vez de descansar. Começam a chegar compromissos académicos, e a questão começa a ser quase existencial. Chega de escrever… Há que estudar. Ou tentar, pelo menos.

12 de Novembro de 2012 – A responsabilidade de ensinar

O caminho trouxe-me até ao ponto em que devo aprender a ensinar. Ensinar é, talvez, a maior responsabilidade que se pode ter. Quando se ensina mal, cria-se espaço para a mediocridade, para o vazio, para o que não interessa, para o erro. Mas não se trata de um processo linear. Não se ensina sozinho, porque é preciso alguém para aprender. Ensinar implica formar, informar e enformar. Criar a forma de algo novo. É aquele momento após o questionarmo-nos acerca do que verdadeiramente sabemos. E é, sempre, tão pouco.

11 de Novembro de 2012 – Os Donos de Portugal

“O que é que você vai fazer domingo à tarde?” é, talvez, uma das perguntas que mais se canta, tentando imitar Nelson Ned. Pois bem, desta vez, depois de terminada uma pequena jornada de trabalho, sento-me a ver “Donos de Portugal”. Trata-se de um documentário realizado com base num livro de Jorge Costa, Cecília Honório, Luís Fazenda, Francisco Louçã e Fernando Rosas. Pode parecer tendenciosamente esquerdista, manipulador, propagandístico, mas há muita coisa que narra (senão mesmo tudo) que é bem verdadeiro. Há uma forte componente de ligações familiares no mundo dos negócios, e uma fortíssima ligação entre política e finança. E foi havendo um Estado que foi dando cobertura e um fortíssimo apoio (quando não uma intervenção directa) a tudo isto. Talvez por muitas destas coisas estejamos onde estamos. Assim como assim, cada um pode ver e tirar as suas conclusões. A ligação está ali ao lado. Chama-se, precisamente, “Donos de Portugal”. Ali, tem tudo. Vale a pena ver.