27 de Janeiro de 2021 – «Arbeit macht frei»

Há seis anos escrevi, aqui mesmo, este texto. Hoje, só lhe alteraria o tempo da cicatriz. De 70, para 76 anos. Tudo o resto, permanece. Porque há coisas perante as quais poucas palavras é sempre melhor.

Entrar num campo de concentração nazi é das experiências mais cortantes que se pode ter. Sachsenhausen, em Oranienburg, não muito longe de Berlim. O que começa por se entranhar, quase de forma agressiva, é o silêncio. Tudo, ali, é silêncio, mesmo ainda antes de chegarmos ao portão. «O trabalho liberta». Irónico. À entrada, como à saída. Quando milhares de judeus passaram estas grades, para serem literalmente dizimados, como quando libertaram os que sobreviveram e trouxeram o peso da experiência agarrado à pele. O trabalho liberta. A resistência. A justiça. Como a cicatriz, que renova a pele, mas não apaga o que a causou. Uma cicatriz com 70 anos. Para nos mostrar como foi e como não pode voltar a ser. No interior do hospital, junto aos fornos crematórios, a ouvir a explicação detalhada do que ali acontecia, passo a passo. No espaço ao ar livre, de onde se vê tudo, num triângulo de horizonte que parece imenso. O silêncio, sempre o silêncio. Que corta a pele como a bala metida na cabeça daquele que ia a caminho da câmara de gás. Que corta a carne como a coronhada naquele que, sem dizer nada, não obedecia ao que não sabia. A ferida, ainda aberta, ganha forma de tatuagem. Na forma de três palavras simples, aparentemente vazias. «O trabalho liberta». «Arbeit macht frei».

26 de Janeiro de 2021 – The ides of March

Às vezes, dá-me um bocadinho de saudades da política. E é nessa altura que, não sei porquê, procuro (e encontro) literatura e filmografia que ajudam a matar essas saudades. Desta vez, lembrei-me de um filme de George Clooney, em que o realizador é também o protagonista: ‘The ides of March’. A história desenvolve-se em torno de um governador que está a um passo de vencer as primárias e tornar-se no candidato presidencial (e facilmente presidenciável) do seu partido. Mostrando o pormenor da campanha, do ‘staff’ e do que se faz, não se faz, deve e não deve fazer. E de como o que não se deve fazer, leva ao que se deve fazer, para que, no fim, tudo resulte no que os políticos candidatos pretendem: ganhar.

25 de Janeiro de 2021 – Sentir & Saber

Foto: blogue ‘Engenharia Rádio’

Saramago dizia-se um pouco estupefacto pelo facto de dominarmos a tecnologia espacial, e não cuidarmos dos problemas (sociais) da nossa terra. Poderíamos ir um pouco mais longe, e vermos como a ciência já encontra soluções para tantos problemas, ao mesmo tempo que o cérebro, que todos temos, e cada um diferente, continua a ser um delicioso mistério. O último livro de António Damásio debruça-se sobre esse mistério, e do fascínio que pode exercer em nós, quando começamos a procurar respostas. Sobretudo para respostas que vão mais no sentido do sentir do que do pensar. Porque há viver e sobreviver, e aquilo a que chamamos instinto revela-se de forma diferente, consoante o contexto. Porque talvez não haja coração e razão, mas um cérebro e várias funções. A forma como o texto está escrito e disposto no livro são, para além do assunto em causa, outro convite a que se leia muito, bem e depressa. A ver se conseguimos.

Os sentimentos providenciam a vontade e o incentivo de nos comportarmos de acordo com a informação que fornecem e de fazermos aquilo que mais apropriado for para a situação com que nos deparamos, seja fugir do perigo ou abraçar a pessoa de quem tivemos saudades.

António Damásio – ‘Sentir & Saber: A caminho da consciência’

24 de Janeiro de 2021 – O elefante na loja de porcelanas

Há muito que o elefante estava bem no meio da loja de porcelanas. Aliás, há muito tempo que o elefante estava bem no meio da sala de cada um de nós. E nós, como povo, um pouco hipocritamente, como sempre, fizemos de conta que não era nada, que o elefante podia ser gracioso nos seus movimentos, e ou deixar-se ficar, ou ir-se embora sem partir nada. Assim não foi. Li, com a empatia de quem já sentiu a mesma injustiça, vários comentários de jovens arouquenses, indignados com o resultado que André Ventura alcançou em Arouca. Para termos uma ideia, simples e breve, Ventura foi o segundo candidato mais votado em praticamente todo o país, e quando leio outros comentários muito bairristicamente tripeiros, sorrio, porque Arouca faz parte da Área Metropolitana do Porto, e foi o único concelho da AMP em que Ana Gomes não ficou em segundo lugar. Olhar para esta evidência de forma parcial é mais ou menos como ouvirmos, há algum tempo atrás, Graça Freitas dizer que a pandemia não ia chegar a Portugal. Não há outra forma de olhar para isto senão pelo óbvio. Por muito que, no dia seguinte, ninguém admita que tenha votado assim, o que é facto é que André Ventura teve aquele número de votos, e isso quer dizer muita coisa. Quer dizer que o discurso anti-sistema foi ouvido e acolhido, e deve fazer pensar os partidos que se dizem legalmente constituídos, e que vão assobiando para o lado quando o assunto não lhes interessa. Quer dizer que o que Carlos César, presidente do PS, disse, não é bem assim, que o Chega é um problema do PSD. Não, o Chega, se é um problema, é um problema do país. Quer dizer que a frase que Ventura deixou, no final do seu discurso de ontem, é para ser ouvida com sublinhado, que não vai haver Governo de direita sem o Chega. E quanto a isto, não adianta Rui Rio meter a cabeça na areia, como a avestruz, mas apenas pela metade. E quer dizer, por fim, que isto de sermos contra qualquer coisa é muito bonito. Gera muitos textos interessantes nas redes sociais. Muitos comentários e partilhas. Mas enquanto, nestas coisas, como em outras, formos contra apenas cada um por si, o resultado é este, porque, na altura de votar, cada um por si, do que se lembra é da simpatia (ou não) que o elefante lhe causa. E o elefante pode ser um animal bem simpático.

23 de Janeiro de 2021 – Lembrar que nenhum português elegeu este senhor

Foto: José Sena Goulão (Lusa)

O senhor da fotografia é o (ainda) Ministro da Educação de Portugal. Nos últimos tempos, não existiu, e ficou claro que a sua existência é, no mínimo, questionável. A Educação em Portugal foi bastante bem gerida, sem a intervenção messiânica do senhor da fotografia. Eis senão quando, o senhor da fotografia resolveu aparecer, para prestar umas belíssimas declarações à comunicação social. Para dizer que o ensino privado não tinha nada que ser diferente, e tinha, sim, de estar quietinho, como o ensino público, que o senhor da fotografia resolveu encerrar e mandar de férias. Por perfeita incompetência e incúria, ao não acautelar o necessário para, em tempo útil, proceder-se ao ensino a distância. Pois bem, senhor da fotografia. Esqueceu-se da evidência mais do que evidente de que o ensino privado é, de facto, diferente. Não só por ser pago por quem o frequenta, mas porque, em muitos casos, substitui, com uma qualidade superior, o ensino público, onde ele não chega. Pensemos no ensino artístico, e não precisamos de ir mais longe. Convém lembrar que o senhor da fotografia chegou a Ministro sem que o povo português o tivesse elegido para o cargo. O senhor da fotografia é o rosto dos que querem, a curto ou médio prazo, acabar com o ensino privado, crentes de que o público será universal, e chegará para os gastos. O senhor da fotografia não faz a mais pequena ideia de como funciona o ensino artístico. Nem o público, nem o privado. E a única desculpa que lhe podemos dar é a de que terá proferido estas declarações no intervalo do efeito de alguma substância inibidora da lucidez.

Tenho muito respeito pelo ensino particular e cooperativo, mas não são as nossas universidades e o nosso ensino politécnico, com o grau de autonomia que tem. Este ziguezaguear, não digo oportunismo, mas espreitar sempre a excepção ou tentar fazer diferente é o que nos tem causado tantos problemas em termos sociais. O cumprimento das regras é algo que deve acontecer. Todas as actividades lectivas estão interrompidas durante este período.

Tiago Brandão Rodrigues – ministro da educação de portugal

22 de Janeiro de 2021 – É justo que se publique a defesa da corja

Esta senhora foi escolhida para defender a seriedade e a transparência com que a corja que nos governa nos mentiu e mentiu a toda a Europa. Note-se a forma assertiva, clara e inequívoca com que expõe os seus argumentos, e como desmonta, uma a uma, todas as acusações sustentadamente apresentadas. Note-se, ainda, a forma elogiosa como o presidente da sessão se refere à brilhante intervenção desta senhora, que, para além de ter sido escolhida para defender a seriedade e a transparência com que a corja que nos governa nos mentiu e mentiu a toda a Europa, terá sido escolhida, também, por alguns portugueses para que os represente no Parlamento Europeu. Esses portugueses devem, pois, orgulhar-se desta intervenção, desta interveniente e da forma como Portugal geriu este caso.

21 de Janeiro de 2021 – Quando um espanhol nos tenta defender da corja

Seria reconfortante, se não fosse vergonhoso, vermos um eurodeputado espanhol a expor o nível de sujidade da corja que nos governa. Esteban González Pons não teve meias palavras para descrever o que aconteceu com o caso da nomeação do procurador europeu. Joacine gritou ‘mentira’. E nós, rimos. Pois bem, aqui, o tamanho do cotão de mentira é gigantesco. E nós rimos. O Governo português mentiu a toda a Europa. A mentira do Governo português levou a que se tomasse uma decisão. Essa decisão, resultou, mais do que numa injustiça, numa ilegalidade. E o que é que acontece? O Governo diz que é uma conspiração internacional liderada por portugueses. Nós rimos. E tudo continua na mesma. Eu, sinto vergonha. Mas, ao mesmo tempo, alguma esperança. Os portugueses têm aquele síndrome de ‘parolismo’, de que o que vem de fora é que é bom. Pois bem, escutemos este senhor espanhol, e sejamos parolos. A bem da Nação.

20 de Janeiro de 2021 – Bem-vindo, Quico

O Quico chegou hoje. Como sou um pouco ‘kota’, reservo-me o direito de não escrever Kiko. Acho que, para já, um certo carácter analógico fica-lhe bem. A mãe do Quico era, até hoje, a nossa ‘pikena’, dado que, ultimamente, já começávamos a duvidar se era o Quico que estava dentro da barriga da mãe, ou se era a Sara que estava a tentar sair da barriga do Quico. Eu fui acompanhando o surgimento do Quico à distância, porque agora não se pode conviver assim de qualquer maneira, e quero dizer-lhe que quando a mãe dele era do tamanho dele, talvez eu não tivesse o mesmo jeito (nem os braços de um tamanho aceitável) para poder pegar-lhe como deve ser, e fazer um embalo bem feito. Mas agora, consigo. Portanto. Quico, se me estás a ler, põe-te atento. Um dia destes, pego-te ao colo, e tu vais ver…

19 de Janeiro de 2021 – Portugal Selvagem

Por momentos, parece que estamos a ver os documentários da BBC, de David Attenborough, que os canais generalistas transmitiam ao fim-de-semana, antes dos noticiários da hora de almoço. Mas, aqui, a curiosidade é que estamos a ver Portugal à lupa. Às vezes não é preciso darmos a volta ao mundo para encontrarmos coisas preciosas. Paisagens. Plantas. Árvores. E animais, esses que, tantas vezes, nos ensinam as coisas mais simples e mais importantes, da forma mais inesperada. Vale a pena conhecer este ‘Portugal Selvagem’, que tem estado a dar na RTP2.

18 de Janeiro de 2021 – Da justiça de elogiar profissionais de quem nem sempre nos lembramos

Lembro-me de ouvir Miguel Portas desfazer-se em elogios aos enfermeiros, pouco tempo depois de ter saído do hospital, lembrando-nos de como só valorizamos algumas profissões depois de vermos, com os nossos próprios olhos, e sentirmos, com a nossa própria pele, a importância que têm. Aconteceu-me mais ou menos o mesmo com os fisioterapeutas. Depois de ter visto com os meus olhos e de ter sentido com a minha pele (e com os meus músculos, e com os meus ossos) como uma intervenção bem feita pode não só retirar-nos a dor, como também ajudar-nos a encontrar uma postura mais acertada, para que ela não volte.