Este é o cartaz do evento que me pôs ao piano outra vez. Nunca me considerei pianista, porque não o sou. Uso o piano para fazer música, o que é um pouco diferente de ser pianista. O desafio é tocar para preencher as imagens de alguns dos primeiros filmes da história do cinema (alguns deles, portugueses), com as «Mulheres da Beira» a terminar. A forma de encarar a coisa é exactamente a mesma com que os pianistas (esses sim, verdadeiros) a encaravam: tocar da forma mais improvisada possível, deixando que as imagens conduzissem a música. Vai ser assim, também, desta vez. Sem grandes preparações, mas com alguma coragem. A coragem de chegar ao piano com uma folha em branco, pronta a ser escrita uma única vez, ao sabor das imagens que forem correndo. Assim, como que num sopro.
27 de Fevereiro de 2015 – Jeunes filles au jardin
Dos quadros sonoros que Federico Mompou pintou, nas suas «Scènes d’enfants», o olhar e o ouvido detêm-se no último. «Jeunes filles au jardin». Como se estivessem, de facto, as duas a passear pelo jardim. A falar de tudo e de nada. Dos amores e desamores. A rivalizarem com o brilho do sol e com as cores das flores. Talvez tenham trajes antigos e uma sombrinha cada uma. Ou talvez não. Talvez saibam que as vejo, ou talvez não tenham dado conta. Elas apenas estão. As duas. «Jeunes filles». «Au jardin». E eu, preso no meu sonho, não consigo roubar aquela para mim. Aquela, do sorriso mais luminoso, do olhar mais furtivo. Não consigo. Porque, no fundo, estou preso às cordas do piano. Esse, de onde ainda não consigo fazer sair os sons que a trazem até aqui.
Federico Mompou: Scènes d’enfants – V. Jeunes filles au jardin
(Arcadi Volodos, piano)
26 de Fevereiro de 2015 – Uma espécie de «undertaker»
O homem estacou diante da porta, como se ganhasse ali raízes. Não falava. Limitou-se a estar ali. Hirto. Cinzento, como o fato que trazia. Engomado, todo ele. Não trazia consigo qualquer expressão. Era como se estar ali fosse explicação suficiente. Os ombros ligeiramente encolhidos, estendiam-se até à pasta que pendia do braço direito, esticado. Procurava, com todo o cuidado, dignificar a profissão. Era, no fundo, cobrador de impostos. Não daqueles traidores bíblicos, nem tão pouco dado a corrupções. Procurava ser impoluto. Sem mácula. Como a cor da pele que o cobria. Era enfezado, com aspecto de picuinhas. ‘A man has got to do what a man has got to do’. Falava pouco, sempre num tom anasalado e irritante, de quem apenas atenta ao pormenor. Fazia as contas de cabeça num ápice, e entregava os dinheiros ciosamente. Toda a sua vida era cinzenta, de um cinzento contagiante. Quase como uma nuvem, desejosa de se estender mais e mais, até cobrir outros, e descarregar em trovoadas de esbandalhar vidas. Ossos do ofício, tinha sido mandado a casa do rei. Afinal estava vivo, e era preciso fazê-lo sentir a obrigação de contribuir para os cofres da cúpula. Ninguém está acima da lei dos cobradores de impostos, pensava ele. Não estava para grandes conversas. Levava o recado escrito, até porque o inglês não era o seu forte, e não estava com grandes disposições para viagens no tempo. Tocou à campainha e esperou a vinda da próxima vítima. Arrastado. Volumoso. Quase como se fosse um amontoado de restos humanos. Enquanto vinha em direcção à porta, o cobrador tirou o papel liso, sem rugas nem dobras, e estendeu-lho. “Senhor Elvis. Estou farto das suas baladas melosas. Preferia vê-lo e ouvi-lo quando ainda era galã. Dentro dos seus ‘blue sweat shoes’. Agora, você é pesadão. O seu penteado ondeado perdeu a piada, diluído na cara bolachuda. Estou farto do seu sucesso. Por que raio ainda é ‘o rei’? O mundo mudou, e você manteve-se decrépito. Se os excessos o tivessem levado, poupar-nos-ia de assistirmos ao seu esvaziamento diário. Vim penhorar a sua existência. Arranje forma de pagar quanto antes”.
25 de Fevereiro de 2015 – Uma cena
Lê-se no «Público» de hoje uma crítica demolidora ao mais recente disco de Rui Massena. Ainda que aos holofotes televisivos muita da controvérsia em torno da sua carreira vá passando despercebida, pelo menos aquela criticazinha típica do meio (musical, como de qualquer outro), do género «destruir o que o outro faz para valorizar um bocadinho o que eu faço», o que é certo é que Rui Massena fez. Melhor, pior, é discutível, como qualquer situação que envolva opiniões. Notabilizou-se na Orquestra Clássica da Madeira. Compôs ou fez arranjos para orquestra com vista a ter concertos que «descomplicassem» a música erudita. Esteve na Capital Europeia da Cultura em Guimarães. E agora, teve a coragem de lançar um disco a solo. Independentemente da razão ou do coração, dá para pensar se não será mais um dos casos em que se é «preso por ter cão e preso por não ter». E aproveitar um trabalho discográfico para alargar a crítica (velada) a outros aspectos (com razão? sem razão?), não parece lá muito correcto.
24 de Fevereiro de 2015 – Quando for grande quero ser como RAP
Já escrevi, mas escrevo outra vez. Há dias (muitos, quase todos) que gostava de ser como o Ricardo Araújo Pereira. Ter piada. Escrever bem. Melhor. Ter piada de forma inteligente. Escrever bem de forma inteligente. Acabei há algum tempo de ler mais uma série de mixórdias de temáticas, desta vez com um sobrenome que me é caro. E fico com a sensação de estar a adensar-se esta espécie de cobiça a roçar a inveja. É incrível como RAP é capaz de ir buscar uma ideia onde menos se espera, como recupera termos e frases idiomáticas que nem damos conta que usamos, como está atento à realidade a partir de um ponto de vista carregado de (bom) humor. E eu vou lendo, na esperança de ir aprendendo alguma coisa.
23 de Fevereiro de 2015 – Estudos que provam que os estudos não provam nada
Tenho um estudo que prova que os estudos que provam alguma coisa podem, na realidade, não provar rigorosamente nada, ou então provar precisamente o contrário do que pretendem provar. Proliferam os estudos, na internet, que dizem que os irmãos mais velhos são os mais bonitos, mas há outros que dizem que, afinal, são os mais novos. Há também alguns que dizem que os homens com barba são mais inteligentes, mas os que se barbeiam também devem ter dias em que são. E há outros que até alinham a inteligência e capacidade de trabalho com os signos e todo o mapa astral que queiramos desenhar. Assim como assim, o ideal é mesmo ficarmos com a certeza de que há, de facto, estudos que provam que os estudos não provam nada.
22 de Fevereiro de 2015 – Rattle a dirigir a batuta para o lado errado
Lê-se no «The Guardian» de hoje que Sir Simon Rattle, actual maestro da Berliner Philharmoniker, já com a saída anunciada, tem uma condição megalómana para mudar-se para a London Symphony Orchestra. Uma nova sala de concertos. As boas salas são, de facto, importantes. Mas convém, igualmente, pensar-se no que vai ficar lá dentro e, sobretudo, de que maneira se vão abrir as portas. A música não pode ser exclusiva, extravagante, elitista. Deve, antes, ser inclusiva, simples e bela, próxima de todos e de cada um. Mesmo sabendo de cor as partituras, os maestros podem facilmente enganar-se, ou serem traídos pelo instinto. Porque, na realidade, não produzem um som. Convém, portanto, que confiem cegamente nos que têm à sua frente. E isso, conquista-se, constrói-se. E pode permanecer de forma mais forte que qualquer edifício.
21 de Fevereiro de 2015 – Silêncio
Talvez não haja nada mais definitivo que o silêncio. O silêncio do refúgio. O silêncio de não se dizer o que não se deve. O silêncio de procura da sabedoria, de encontrar a forma certa de agir. Talvez não haja, por vezes, nada mais cortante. Nada mais incómodo. Mas ele é necessário. Imperativo. Impõe-se como a manta que nos cobre do frio, ou o mapa que nos guia pelo incerto. Talvez não haja nada mais necessário que o silêncio. Esse, onde tudo acontece, tudo ganha vida, tudo se dá. Mas que precisa de existir. Talvez não haja nada mais que o silêncio.
20 de Fevereiro de 2015 – A resposta da «Empadaria do Chef»
O assunto já tinha sido publicado, mas o jornal «Dinheiro Vivo» repescou a história. Uma cliente da «Empadaria do Chef» resolveu contar a má experiência em público (no Facebook, vá lá), sem sequer dar a conhecer o seu descontentamento a quem a atendeu e serviu. Algo estranho, quando ali, bem por baixo da frase promocional, vem a assinatura de José Avillez, que dispensa apresentações. Um dos sócios fundadores da empresa resolveu responder, e de forma acutilante. Sem tirar a habitual razão ao cliente, Albano Homem de Melo deu a cara, e aceitou a crítica, mas não tanto a forma como foi feita. Como se de uma sentença de morte se tratasse, a cliente quase pareceu deitar por terra todo o entusiasmo e inovação investidos neste novo negócio. Um diálogo não o é quando a resposta a algo de que não se gosta, ou a um erro, é semelhante a apontar o dedo a alguém no meio de uma arena repleta de gente, e alto e bom som, para que todos ouçam. Se em vez do Facebook a cliente tivesse usado a caixa de sugestões, o livro de reclamações ou uma forma de diálogo menos pública, talvez tivesse corrido melhor. Para ambas as partes.
19 de Fevereiro de 2015 – House of cards
https://www.youtube.com/watch?v=0Od8lZp9Rt8
Há quem eleja o dinheiro como objectivo primordial. Há quem eleja o poder. Um pouco como na parábola bíblica, o dinheiro é uma espécie de «casa construída sobre a areia», que os ventos, em mudança constante de direcção, podem derrubar. Já o poder, é uma espécie de «casa construída sobre a rocha», que, quando bem construída, permanece. Um e outro, e tudo o que lhes está associado, anda a gravitar na série «House of Cards», uma série amplamente premiada, que volta a colocar a Casa Branca e o xadrez político novamente no centro da trama. Isto promete…