Não resisti a escrever antes de chegar ao fim. Das três horas de filme que Oliver Stone dedicou a Nixon, ainda só cheguei a dois terços, mas já foi suficiente para ter em que pensar. Para além da habitual aura de polémica que Stone gosta de deixar a pairar no ar e da estupenda interpretação de Anthony Hopkins. Que um político pode ter várias faces, e talvez nenhuma ser verdadeiramente sua. Que as circunstâncias traem, muitas vezes, quem deveria estar mais preparado. Que as consequências de algo que sucedeu no passado surgem sempre no momento em que menos espera. E que, como na vida, o que faz verdadeiramente sentido é a luta, e não tanto a vitória.
9 de Março de 2015 – Spem in alium
«Spem in alium» é um motete de Thomas Tallis, composto por volta de 1570, a 40 vozes. Significa que está pensado para oito coros a cinco vozes. A última página da partitura tem mais ou menos o aspecto desta imagem. Dizem que faz parte da banda sonora das «Cinquenta Sombras de Grey». Pouco me importa. Hoje, é a minha forma de oração. Sentir as palavras ganharem corpo, ao longo da música. Dizer ao silêncio e à escuridão que nunca confiei em mais ninguém senão nesse Deus, que nos dá a conhecer a ira e a misericórdia, para que possamos escolher o perdão, e espero-lo dele. Esse Deus que teima em exaltar-nos, apesar da nossa pequenez. Essa pequenez que vai crescendo, à medida que as vozes vão chegando à música, até serem todas as quarenta. Não confio em outro. Senão no silêncio. Nesse escuro vácuo de palavras.
Spem in alium (Thomas Tallis)
8 de Março de 2015 – É mais ou menos assim
O principal problema dos maestros é que a sua actividade à frente da orquestra não pressupõe que produzam qualquer tipo de som. Têm de, pura e simplesmente, confiar em cada um dos músicos que estão consigo, e expressar-se da melhor forma possível (de preferência, com poucas palavras). O grau de incerteza que vai desde o abrir dos braços até ao sinal de «partida» é tal que tudo pode acontecer, a qualquer momento. Aqui, vemos a caricatura, mas que não está assim tão longe da realidade quanto isso. Aliás, até está bem perto. E não tem os músicos a ajudar, porque se tivesse…
7 de Março de 2015 – Hoje vi um pintassilgo
Não é nada de especial, mas se não nos deixarmos surpreender pelas pequenas coisas que nos surgem, não adianta sermos bípedes, termos a capacidade de olharmos para cima e um espaço alojado por baixo do cabelo que nos permite sermos diferentes de qualquer outra coisa que existe no universo. Sim, hoje surpreendi-me com um pintassilgo que andava por aí. É difícil ficar indiferente a um pássaro com cabeça vermelha. Mas, mais do que isso, suspender o olhar no dourado da asa. Esse dourado que corta as nuvens na rapidez dos voos curtos e em espiral, como se fossem malabarismos. Se pudesse ser pássaro, talvez quisesse ser pintassilgo.
6 de Março de 2015 – Cuidado, eles andem aí
Às vezes apetece não confiar em ninguém, viver na clandestinidade ou ter o poder de tomar grandes decisões no isolamento de um espaço. Porque há sempre uma dose grande de coisas que acontecem, passam, ficam ou dão-se sem que consigamos perceber porquê. Apenas se impõem. Tornam-se pedra na realidade quotidiana. E passamos a ter de ser Migueis Ângelos para libertarmos a escultura de cada bloco de calcário. Portanto, vigiai. Porque eles andem aí.
5 de Março de 2015 – A verdade é um encontro
A frase é de uma das homilias do Papa, nas celebrações diárias a que preside, na sua residência, em Santa Marta. E, à semelhança do Papa Francisco, em que as coisas mais simples se transformam nas maiores, a expressão acabou por dar título de livro. As homilias diárias do Papa foram reunidas num volume absolutamente fascinante, por ser tão simples mas, ao mesmo tempo, tão rico. De ideias, de ideais, de formas de olhar as coisas com os óculos correctos. Não são lições de moral, ou interpretações diárias das escrituras para servirem de manuais de instruções. São textos simples. Directos. Curtos. Incisivos. Que nos lançam nessa procura de um encontro com a verdade.
4 de Março de 2015 – Tenho de escrever todos os dias
Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Tenho de escrever todos os dias. Repetir quantas vezes for necessário, até estar assimilado.
3 de Março de 2015 – The Contender
Ultimamente, os bastidores da política têm estado mais presentes na tela cá de casa. E, nesse sentido, «The Contender», mesmo não sendo um grande filme, é um dos que vale a pena ver, dentro desta temática. Os figurinos e o «décor» têm a hibridez dos tempos da mudança de milénio. Não são nem demasiado «old fashion», nem demasiado arrojados. Neutros, às vezes, até. Mas de todo o filme, para além do discurso presidencial, já no final, para além da forma como a trama é dada a conhecer, para além dos habituais jogos de bastidores e respectivas consequências, ficou no ar uma ideia. A de que um grande político tem de ter, obrigatoriamente, grandeza. Grandeza a vários níveis. De espírito, de personalidade, na forma de estar. Essa grandeza depende, em larga escala, das circunstâncias em que venha a exercer os seu mandato. Mas se, a todo o momento, não fizer passar pelo menos a ideia de grandeza, então é melhor dedicar-se a outra actividade.
2 de Março de 2015 – Yes, Prime Minister
Em 1984, a série «Yes, Prime Minister» venceu um prémio no Reino Unido (o National Viewers and Listeners Award), e algo, só possível num país com um sentido muito refinado, aconteceu. A própria Primeira-Ministra Margaret Thatcher fez questão de escrever um «scketch» humorístico, com a ajuda do seu assessor de imprensa, Bernard Ingham, em que fez também questão de participar. Com o típico humor britânico, Thatcher disse estar a desenvolver uma ideia profunda: reformular as instituições, tal como as conhecemos. Especialmente a economia. «It’s all very simple. I want you to abolish economists». Tem o seu quê de actual, não?
1 de Março de 2015 – «El sistema», ou a tirania
O «The Guardian» publicou, em Novembro do ano passado, um artigo que dá que pensar. Correm rumores, e, em alguns casos, informações concretas, de que o projecto «El Sistema», que está a ser exportado da Venezuela para todo o mundo como uma forma inclusiva de fazer música (sobretudo junto dos mais desfavorecidos, dando-lhes um horizonte de vida), tem o seu quê de tirânico. Há histórias de metodologias menos inclusivas e mais capitalistas, alegados abusos de menores, má gestão, etc. As contas ficam baralhadas quando uma realidade que tínhamos como adquirida, que funcionava, que parecia ser um rio de esperança no meio de uma lixeira, parece, afinal, estar contaminada com os factores que a rodeiam. A interrogação, pelo menos, fica.