17 de Novembro de 2019 – Sobre voltar a vestir uma farda

Há coisas em que não conseguimos estar de fora. Ou, dito de outra forma, tudo o que é orgânico, que nos pertence, que está dentro das fronteiras do nosso corpo, só à força sai de nós. Ou não sai. Isto é uma espécie disso. Alguns anos depois, volto a vestir a farda (nova, desta vez) da Banda Musical de Arouca. E é como se ela nunca tivesse sido tirada. Há coisas em que não conseguimos estar de fora, e por isso como que fugimos delas, porque não conseguimos ver-nos de outra forma que não seja dentro. Dentro, tudo flui de forma normal, até porque há isso, que é a música. Fora, não. Há vazio, e parece que em presença das coisas, o vazio é ainda maior. Não é o caso, porque, desta vez, estou dentro. E com uma música fabulosa, que dá um gozo imenso fazer. É mais ou menos isto que se sente, sobre voltar a vestir uma farda.

16 de Novembro de 2019 – Sons primordiais

O duduk é um instrumento arménio, com um som quente, profundo, envolvente. Um som que nos transporta para dentro de nós próprios, até conseguirmos olhar-nos a partir de fora, verificando que não estamos lá. Não tem o exotismo do Oriente, nem o habitual do Ocidente. Não tem o estranho do desconhecido, nem o normal do que conhecemos. É outra coisa, em qualquer contexto. Algo que, a partir de uma simples nota pedal, ou do nada, nos transporta até ao princípio de tudo. Aí, a partir de onde tudo é possível. Um som primordial, a partir do qual tudo nasce de forma equilibrada e justa, fluída e bela, alegre e, ao mesmo tempo, melancólica. Como se uma paisagem ampla e construída passo a passo, por nós, se fosse estendendo, sem limites, diante de nós. Vale a pena ouvir o duduk.

15 de Novembro de 2019 – Uma extensão do artigo de Daniel Deusdado no DN

Daniel Deusdado escreve hoje, no Diário de Notícias, um artigo sobre os matarruanos do interior que impedem o progresso de Portugal. Aliás, pegando no debate sobre a exploração de recursos naturais, rumo à descarbonização, a ideia que fica é que só se lembram do interior quando encontram algo mais para esmifrar. O encerramento de serviços essenciais começou, inevitavelmente, pelo interior. As escolas, idem. Progressivamente, as aldeias e vilas do interior passaram a ser desertos, desses onde, um dia, nem um aeroporto se poderia construir. É do interesse nacional que se esvazie o interior, o que não interessa, o que não existe, por estar fora do horizonte que se alcança a partir de Lisboa. No fim da linha, destrói-se o património natural, e pronto. Eis-nos no Portugal do futuro, do progresso. Da descarbonização. Depois de deitar-se fora esse ‘carvão’ que ficou de um interior completamente ‘queimado’.

João Galamba entrou nisto pelo lado errado e parece incorporar o chip desenvolvimentista de Sócrates, parte II. É pura e simplesmente ridículo atirar a expressão “interesse nacional” para cima de gente sempre ignorada, nos confins do “Portugal de que ninguém quer saber”. Eles nunca foram o “interesse nacional” de ninguém, como se sabe – o interior não tem tribunais, hospitais, correios, as pessoas têm de pagar portagens e alojamentos para irem ao médico ou estudar nos grandes centros, etc.. E agora levam com a destruição das suas casas e dos ecossistemas que protegem em nome do “interesse de Portugal”. Amavelmente, please! É impossível entrar pior num tema tão delicado.

Daniel Deusdado

14 de Novembro de 2019 – ‘Acqua alta’ na Saúde

A capa do JN de hoje é duplamente preocupante. Ao mesmo ritmo que as águas sobem em Veneza, inundando, mais do que é habitual, um vastíssimo espaço patrimonial, há doentes que ficam esquecidos nas urgências dos hospitais portugueses. Se juntarmos as duas notícias, várias são as metáforas que podemos fazer, mas uma é transversal. A inacção, o não fazermos nada, só adensa o problema que nos aflija. A ‘acqua alta’ é uma realidade com que os venezianos sempre viveram, sempre previram, sempre controlaram. Há décadas que se fala na possibilidade de, a prazo, Veneza poderá deixar de existir, e passar a existir apenas a água da ‘acqua alta’, o que seria uma espécie de regresso à Atlântida. O mesmo pode acontecer ao sistema nacional de saúde, numa altura em que o investimento público é inexistente. As macas, esquecidas, a encherem os corredores das urgências, são uma espécie de ‘acqua alta’, com cheiro a esgoto e cor escura, que não queremos que nos molhe. Todavia, se nada for feito, esse património conquistado que é o serviço nacional de saúde será rapidamente invadido por essa água fétida, com cheiro a morte, repugnante. E, nessa altura, como sempre acontece, nenhum político irá sujar o fato. Porque, desde o tempo dos Romanos, as pessoas mais importantes vivem em andares superiores, para estarem mais próximas dos deuses.

13 de Novembro de 2019 – Saudades do bom humor

Às vezes, dá-nos saudades do passado. Especialmente de um passado bom, feito de coisas boas, feito de coisas bem feitas. Assim era, em tempos, com o humor. Não que agora não se faça bom humor, mas é diferente. Nos tempos do José Esteves, por exemplo, do ‘Tal Canal’, era mais complicado fazer-se humor. Se pensarmos bem, só quando começamos a conseguir rir-nos de nós próprios é que começamos a ter sentido de humor. E Portugal, na altura, não se ria de si próprio, porque até disso tinha pudor. Felizmente, a Internet ajuda-nos a recordar algumas coisas, coisas que acabam por ficar na memória, personagens que acabam por ganhar vida para além do contexto em que foram (e para que foram) criadas. Assim foi com o José Esteves, que, neste ‘Boião de Cultura’, uma década depois de ter aparecido pela primeira vez, conseguiu, com a mesma frescura da novidade, dez anos antes, falar de futebol, de música clássica e de uma série de outras coisas, à moda do Porto, com piada e com ‘substracto’. Coisas que, hoje em dia, nem sempre encontramos.

12 de Novembro de 2019 – Recordações da casa rosa

Este senhor é o actual Ministro da Administração Interna. O mesmo que protagonizou um episódio no mínimo caricato, ao exemplificar quão inflamável pode ser uma protecção de microfone. Dados os seus dotes de retórica, talvez o que quisesse efectivamente dizer era que a comunicação social pode ser inflamável, mas talvez não com ele. Ele é à prova de qualquer ignição. Porque ele próprio é a ignição. Imparável. Inesgotável. Um fogo que arde sem se ver. Até ver.

11 de Novembro de 2019 – De como Bach nos faz olhar para as coisas

Começar a estudar uma qualquer peça para instrumento de tecla de Bach é como começar a resolver uma equação matemática. Numa primeira fase, parece que tudo se resume a tentativa e erro, depois parece que a equação não tem solução. Depois, de um momento para o outro, parece que os termos começam a fazer sentido, e a estrutura parece começar a revelar-se, como se todo o equilíbrio do mundo estivesse ali mesmo, diante dos nossos olhos. E, de repente, damos por nós a fazermos coisas que nos pareciam impensáveis, e a música parece fazer sentido, um sentido primordial, como se ali estivesse tudo, muito claramente resumido e definido. Resolver estas equações de Bach é como resolvermos muitas das equações do mundo. É capaz, portanto, de fazer algum sentido olharmos para as coisas da mesma forma que olhamos, por exemplo, para um pequeno coral para órgão.

Puer natus in Bethlehem (Orgelbuchlein, BWV 603) – Ton Koopman

10 de Novembro de 2019 – (Re)encontros de amigos

Uma das coisas boas da música, é proporcionar o encontro, o reencontro, o convívio. Hoje, foi dia de reencontrar colegas de trabalho, amigos, alunos. Ver que, em alguns casos, já passaram alguns anos desde que nos encontrámos pela primeira vez. Ver que, em outros, continuamos a caminhar, há largos anos. Ver que é a música que nos proporciona tudo isto. Às vezes pensamos, vemos, sentimos que isto das lides da música coral está em crise. Já não é um motor de mobilização, como outrora. Já não temos públicos que encham espaços, como outrora. É diferente. O trabalho faz-se de forma diferente, a forma de apresentar as coisas também pode ser diferente. São desafios novos a quem teima em continuar a fazer coisas. E ele há dias em que sabe bem fazer coisas.

9 de Novembro de 2019 – Trazer o público para dentro

A cultura não serve para nada. Não gera riqueza. É um gasto. É uma forma de propaganda. A cultura dá prejuízo. Não contribui para a diminuição do desemprego. Esgota-se nas festas para entretenimento do povo. Serve para angariar votos. De forma resumida, este é o raciocínio mais simples. Aliás, a tónica na politização é frequente, sobretudo por parte de alguns intelectuais da metrópole e de alguns subsidio-dependentes, pseudo-criadores e artistas. Gente que tem medo da municipalização da cultura. E percebe-se porquê. Porque, desta forma, deixaria de haver dinheiro público para apoiar pseudo-criações alegadamente vanguardistas, conceptuais, incompreensíveis pelo comum dos mortais. 

Não temos motivos para ter medo da municipalização da cultura. Senão, vejamos exemplos como os da Escritaria, em Penafiel, do Festival de Música de Marvão, ou da Viagem Medieval, em Santa Maria da Feira. Como podemos falar, em Arouca, da Recriação Histórica e dos Retratos do Barroco, por exemplo, como eventos com dimensão e potencial que podem ir largamente para além do mero entretenimento. Os eventos, e em particular os que têm forte impacto na ocupação e apropriação do espaço público, geram, inevitavelmente, movimento, comércio, proporcionam o encontro e o convívio. 

Mas têm uma outra dimensão, que frequentemente esquecemos, e em que todo o investimento é pouco: ajudam-nos a aprender. A dimensão pedagógica, que facilmente conseguimos potenciar, é fundamental, e talvez seja isso que irrita os intelectuais da metrópole, alguns subsidio-dependentes, pseudo-criadores e artistas. É mais fácil assumirmos que o público é uma massa inerte, iletrada e amorfa. Porque, na realidade, é tão difícil para essa gente, quanto fascinante pode ser para quem arriscar fazê-lo, abordar o público de uma forma simultaneamente artística e pedagógica. 

Em Arouca, é esse o caminho que está a ser percorrido. Seja, na produção de eventos, com a junção entre nomes de referência nacionais e o movimento associativo local, seja, por exemplo, na Recriação Histórica/Retratos do Barroco, com uma clara aproximação ao público, trazendo-o para dentro do próprio evento, com visitas guiadas ou participando activamente em actividades performativas. 

O que os intelectuais da metrópole, alguns subsidio-dependentes, pseudo-criadores e artistas esquecem (ou preferem esquecer) é que a política cultural autárquica já não é feita na base da atribuição de subsídios. Ela pode (e deve) ser feita de forma activa, atenta e interventiva, como foi o caso, por exemplo, da iniciativa do Município de Arouca em substituir-se ao Estado no apoio ao restauro do órgão de tubos do Mosteiro. E, nesse sentido, é um agir político, sim, mas com um sentido de proximidade e de carácter estruturante, que nenhum organismo do Estado conseguiria alcançar.

Neste sentido, é tempo de a Câmara Municipal olhar, de forma mais profunda, para o Mosteiro de Arouca. Não meramente como um espaço com potencial hoteleiro, mas como uma fonte quase inesgotável de conhecimento, com fortíssimo potencial pedagógico, a começar, desde logo, pela música, quer com o fundo documental de manuscritos, quer em torno do órgão. Cabe à autarquia e à Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda o abrir de portas a este conhecimento, novamente, trazendo o público para dentro das actividades. Contas rápidas, a título de exemplo, em torno do órgão, seria relativamente fácil desenvolver programas educativos com um financiamento que, rapidamente, poderia ter retorno, apenas com a visita (paga) dos cerca de 2500 alunos do ensino básico, em Arouca.

Não há que ter medo da municipalização da cultura. De um agir político local, em torno da cultura. Precisamente, para que ela não se esgote nas festas e no entretenimento. Para que todos fiquemos mais enriquecidos, ao olhar para a arte (ainda) de mais perto. Até mesmo por dentro.

8 de Novembro de 2019 – De volta das notas

Às vezes metemo-nos em alhadas sem saber muito bem porquê. Neste caso, pode ser por estar a voltar a uma casa de onde, na realidade, nunca saí completamente. Ou por se tratar de um desafio diferente. A Banda Musical de Arouca está a preparar a participação no concurso de bandas filarmónicas de Braga, e há algumas peças que têm partes de piano. Até aqui, parece tudo fácil, mas o problema é que as notas dessas partes são rápidas, precisas, difíceis por vezes. É onde começa o segundo desafio: estudar. Estudar, até as coisas começarem a aparecer e a fazerem sentido. Como o escultor que, da pedra em bruto, começa a ver formas saírem das suas mãos. É mais ou menos isso. Um processo demorado, de volta das notas.