27 de Novembro de 2019 – Volto já

Circula pelas redes sociais uma imagem curiosa. Uma cruz, com um prego a segurar um papel, típico dos ‘volto já’ das lojas, a dizer ‘estou no presépio’. A imagem pode dizer-nos muitas coisas. Desde logo, que andamos sempre à procura da pessoa certa nos sítios e tempos errados. Por outro lado, que há sempre duas faces da mesma moeda. E, num e noutro caso, que há sempre um caminho a percorrer. Há o caminho a percorrer para o encontro, assim como o caminho a percorrer para o sermos para nós e para o outro. É preciso que sejamos para o outro, mas não podemos ser para o outro se não o pudermos ser, primeiro e com alicerce firme, para nós mesmos. Agora, é de facto tempo de começarmos a caminhar em direcção ao presépio. Chegará o tempo, depois de outros caminhos percorridos, em que deveremos caminhar para uma passagem, uma transformação. A seu tempo.

26 de Novembro de 2019 – Tubarão 2000

Foto: Quiproquó Blog

Está na lista de coisas a fazer regressar leitura (ou recomeçar) de ‘Tubarão 2000′, de António Victorino d’Almeida. Tive a fantástica oportunidade de privar duas vezes com o Maestro, uma delas num longo e muito animado jantar em Arouca, outra na preparação de apresentações de uma das suas sinfonias. Bom, na realidade, algumas mais, se a leitura de ‘Coca-cola Killer’ também contar. E foi por isso que mesmo que, mais vale tarde do que nunca, resolvi lançar-me, mesmo que lentamente, na (re)descoberta das aventuras de Marcelino Bandeira Fagundes da Gama, distinto representante diplomático da nação, a quem se tudo não acontece, deveria ter acontecido. Cidadão de correcção exemplar, cumpridor de todos os seus deveres e mais alguns, profundamente alérgico ao povo, não pára de nos fazer rir e pensar no quão ridículo pode ser estarmos em determinadas situações que, se podem piorar, pioram mesmo. A ler e a descobrir.

De Lisboa, com viagens e estadias pagas por várias entidades oficiais, veio uma animada comitiva de trinta e nove pessoas, mas só oito estiveram na projecção, devido a enxaquecas, telefonemas urgentes e confusões de fusos horários que retiveram as outras nos hotéis, fora as que se enganaram nas ruas e deram por si na plateia de outros espectáculos.

António Victorino d’Almeida – ‘Tubarão 2000’

25 de Novembro de 2019 – Ideias políticas e sociais de Jesus

Da mistura entre política e religião, à primeira vista, não poderia surgir nada de bom. Todavia, Diogo Freitas do Amaral consegue, num pequeno ensaio, equilibrar tudo o que parecia impossível, dando a conhecer a quem acredita, quem acredita mais ou menos e a quem não acredita rigorosamente em nada, o que Jesus Cristo foi fazendo e dizendo de tão marcante que, mais de dois mil anos depois, continua a marcar os passos das nossas vidas de todos os dias. Ideias que marcam a política, a economia e a sociedade. Ideias aparentemente simples, mas que, postas em prática, são um autêntico programa político, sobretudo de desenvolvimento humano, de que tanto estamos necessitados.

«Não tenho credenciais para escrever sobre problemas teológicos, exegéticos ou hermenêuticos. Mas, tendo redigido, ao longo de vários anos de estudo e reflexão, uma História do Pensamento Político Ocidental, gostaria de aplicar os métodos que utilizei nesse trabalho ao estudo e comentário das ideias políticas, económicas e sociais de Jesus Cristo. (…) Penso que este breve opúsculo poderá ter uma dupla utilidade: para os cristãos, chamar de novo a sua atenção para o facto de que, como Jesus avisou, “nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no reino do céu. Só aí entrará quem ouve [as] minhas palavras e as põe em prática” (Mateus 7, 21 e 24); para os não cristãos, para os que seguem outras religiões e para os não crentes, sublinhar que Jesus Cristo não tinha a intenção de pregar aos convertidos, mas sim aos que se sentiam perdidos ou incompletos na sua vida (…). Mesmo que não acreditem na divindade de Jesus, sei que há muitos agnósticos e ateus que reconhecem como excecionalmente boas as suas ideias políticas e, sobretudo, as sociais e que em larga medida as seguem.»

Diogo Freitas do Amaral – ‘As Ideias Políticas e Sociais de Jesus Cristo’

24 de Novembro de 2019 – O sentido da vida

Os Monty Python também já reflectiram sobre o assunto. Aliás, talvez já todos o tenhamos feito, nem que tenha sido por breves instantes. Qual é o sentido da vida? Apenas viver, no sentido de morrer? Viver, com medo de morrer? Viver, só por viver? Tudo, e nada. Num vídeo muito simples, que me mostrou uma colega de trabalho, está tudo mais ou menos resumido a uma bela metáfora, como se a vida fosse um girassol. O girassol, ensinaram-me na escola primária, ganhou o nome por estar, constantemente a procurar o sol. É assim que nasce, cresce e se desenvolve. Na busca do sol, porque é ele que lhe dá nome. Nasce, cresce, desenvolve-se e morre. Mas não morre completamente. Ao morrer, ficam as sementes, e nascem novos girassóis. Bem, se não é uma bela metáfora sobre o sentido da vida…

23 de Novembro de 2019 – Que cantata de Bach para hoje?

Houve alguém que se deu ao trabalho de criar uma página no Facebook que nos indica que cantata Johann Sebastian Bach (1685-1750) terá composto, em cada dia e para cada dia ou ocasião especial. A página Which Bach cantata today? mostra-nos tudo isso, e ainda nos aponta para listas de reprodução no Spotify, no Apple Music e outras plataformas, para que nada nos falte. Não há, portanto, desculpas para não conhecermos melhor a genialidade deste homem, que parece só ter parado de compor cada uma das obras que compôs, porque se lhe acabou o papel.

22 de Novembro de 2019 – The Crown

Os actores mudaram, mas as personagens continuam carismáticas. É impossível não ficarmos colados às histórias que fazem a história do reinado da Rainha de Inglaterra, mesmo que o rosto agora seja outro, para nos dar a ideia de que se passaram 25 anos e não demos por isso. ‘The Crown’ é uma série muito interessante, também porque nos mostra outros lados da política. De como a monarquia influencia de forma decisiva a forma de fazer política. Também porque nos ajuda, ainda que de forma subliminar, a perceber por que razão os britânicos andam tão indecisos. Talvez porque estão habituados a lideranças com que se identifiquem de forma clara e tácita, e não com um certo tipo de gente que não sabe estar.

21 de Novembro de 2019 – Crise, again…

Não há muito tempo, o jornal ‘I’ publicou um texto com um alerta que parece não ter alertado ninguém, mas cuja gravidade é, no mínimo, alarmante. Comecemos pelo princípio. Todos nos lembramos bem, até porque, se não nos lembrássemos, as nossas carteiras lembrar-nos-iam todos os meses, do colapso de alguns bancos nacionais. Pois bem, as ajudas concedidas para recuperação dessas instituições dariam para construir 27 pontes Vasco da Gama, 157 hospitais ou cobrir os custos de dois anos da electricidade de nossas casas, ou ainda, se olharmos só para os valores investidos no BPN pagavam 291 alas do São João para crianças com cancro. Pois bem, as sirenes soaram de novo. Mais de metade dos bancos mundiais estão fragilizados, e, em caso de abalo, afundarão. Mal a coisa acalmou, toda a gente correu ao crédito, confiantes que ‘depois vê-se’. E… pronto, de facto, depois vê-se. Pode é não ser coisa boa.

Em relação à nova crise que possa surgir, o responsável garante que “será 20 vezes mais danosa” que a do subprime, crise desencadeada em 2007 que começou nos Estados Unidos e rapidamente alastrou por toda a Europa – e dá dois motivos para isso: “os montantes em questão são claramente superiores e, passado mais de uma década, as coisas acontecem mais rápido devido à tecnologia. Temos quase 15% da dívida mundial com juros negativos – nunca antes visto”, acrescenta.

20 de Novembro de 2019 – Rasgos de Brexit nos EUA

A história da hipotética destituição de Donald Trump do cargo de Presidente dos Estados Unidos começa a ganhar laivos de Brexit. É um tanto ou quanto estranho que um Presidente (em princípio) democraticamente eleito seja alvo de um processo (em princípio) menos democrático do que o que o elegeu. É muito difícil deixarmos de parte esta tendência infantil de precisarmos de uma desforra depois de perdermos, ou de tentarmos ganhar na secretaria o que perdemos no campo de jogos. E, no meio disto tudo, não esqueçamos da responsabilidade da comunicação social no meio disto tudo. Ao amplificar o que mais convém, esquecendo o que também mais convém. Trump é desajeitado. Os americanos diriam ‘clumsy’. Está a vestir um fato que não lhe serve na perfeição. Mas, o que é facto, é que não está em guerra com nenhum país, não lançou nenhum caos global e tenta agir (pelo menos assim parece) para agradar maiorias. As mesmas que, teoricamente, o elegeram. Mas o que mais nos ressalta à vista é o facto de o fato não lhe servir. E, como só pensamos numa coisa de cada vez, é nisso que nos concentramos.

19 de Novembro de 2019 – Notícias que dizem coisas

No mesmo dia em que o Jornal de Notícias faz manchete com o abandono da ferrovia, por parte do Governo, a TSF conta-nos que o mesmo Governo quer uma fábrica gigante de hidrogénio, alimentada por energia solar. Assim de repente, numa comparação manhosa, faz lembrar alguém que resolve comprar um Ferrari, mas não tem dinheiro para a gasolina. É consensual que o investimento no transporte ferroviário é estrutural. Mas não está na moda. Energias alternativas, sim. Lembro-me bem do martírio que foi decorar (para rapidamente esquecer) as várias linhas de caminho-de-ferro, com estações que pareciam não terminar, até podermos dizer, aliviados, ‘segue para Espanha’. Hoje, talvez mais de dois terços dessas estações e apeadeiros já não funcionam, ou até deixaram mesmo de existir. Já ouvimos várias promessas de que agora é que ia ser, voltarmos a ter uma rede ferroviária digna desse nome. Mas não, ainda não é desta. O importante é descarbonizar a todo o custo, transitarmos para carros eléctricos mesmo sem querermos, sermos verdes, mesmo que sejamos daltónicos ou não gostemos da cor. Como acontece com o lítio, que, de repente, passou a ser obrigatório explorarmos, sob pena de irmos todos parar ao inferno, se não o fizermos. Estas duas notícias dizem-nos muitas coisas. Agora, é preciso pensarmos nelas.

18 de Novembro de 2019 – Saído da arca

Desta janela posso ver tudo o que eu quiser. Desde as montanhas que me fizeram nascer, até à estrada que há-de levar-me. Posso ver-te, também, tal como a nuvem que acaricia, maternalmente, o pôr-do-sol. A nuvem que tu também vês, no teu horizonte. O pôr-do-sol… é no mar que acaba o dia. E foi no mar que tudo começou. Quando o seu cheiro se confundiu com o teu. Quando a areia que pisava se confundia com a relva do paraíso. Quando? (Quando?) Não havia tempo. Apenas a pressa e o desejo de agarrar-te. E a proximidade da partida. Para sempre… Talvez.

Fui resgatar este texto a uma espécie de arca, que é nada mais do que um monte de papéis com coisas que escrevi na adolescência. Este texto foi escrito a 10 de Julho de 1997. Talvez devesse ter vergonha dele, mas não me parece assim tão mal para um miúdo de 17 anos.