7 de Novembro de 2019 – Parasitas

Há quem viva no rés-do-chão, quem viva ao cimo de umas escadas e quem viva na cave. Da mesma forma que há quem viva à superfície e debaixo da terra. Depois, há quem suba as escadas, da cave para o rés-do-chão, e aspire a subir mais andares. Há quem desça à cave. Há quem saia da terra, e esqueça que a raiz não permite que saia totalmente. ‘Parasite’ é um filme coreano que retrata um pouco da dinâmica social que se vai encontrando a oriente. Uma espécie de parasitas que vivem imersos numa pobreza de espírito, mas em busca de rede ‘wi-fi’. Outra espécie de parasitas que vivem imersos na riqueza, mas completamente fora da realidade. E o encontro entre uns e outros, uns enganando, outros sendo enganados.

6 de Novembro de 2019 – Brexiterror

Foto: BBC

John Bercow, ex-speaker do parlamento inglês, afirmou que o ‘Brexit’ é o maior erro cometido pela Inglaterra desde a II Guerra Mundial. Durante a sua actividade parlamentar, manteve a imparcialidade, mas entendeu, agora, largar a bomba sobre um processo caricato, para dizer o mínimo. É incrível como a Inglaterra, ‘land of hope and glory’, referência cultural e política em muitos momentos da história, parece um cão a perseguir a própria cauda. Será que arrisca sair da União Europeia sem acordo, com base numa decisão parlamentar? Será que vai pedir nova extensão de prazo? E como ficará o país depois das eleições? Para Bercow, contudo, uma coisa é clara. Sair é um erro (‘error’). Para o país, este processo é, cada vez mais, um terror. Talvez não seja, portanto, de todo injusto fazer um ‘upgrade’ ao nome: ‘Brexiterror’.

Já não sou speaker, não tenho de continuar a ser imparcial, e se me perguntarem o que penso honestamente sobre o Brexit, se é bom para a nossa reputação internacional, a resposta honesta é não. Considero o Brexit o maior erro de política externa desde a II Guerra Mundial.

John Bercow

5 de Novembro de 2019 – Breve diálogo internético sobre velocidades e certezas

Ele: Como estamos de vida?

Ela: Indo…

Ele: Só indo?

Ela: Só.

Ele: Pronto…Não insisto.

Ela: Estou bem, mas só indo. E tu?

Ele: Idem. Mas indo muito depressa.

Ela: Isso é bom.

Ele: Tem dias. Podia andar mais devagar… Não era pior.

Ela: Ainda nao percebi o ritmo da vida…

Ele: Vamos morrer sem perceber.

Ela: Talvez. Mas espero que com menos angústias e mais certezas.

Ele: Isso agora…Se há coisa que é certa é que nada é certo…

4 de Novembro de 2019 – Pode respirar, não respira…

Foto: Reuters

Respirar é, talvez, a coisa mais natural do ser humano. Aliás, morrer asfixiado, afogado ou de qualquer outra forma que seja condicionadora da respiração deve ser horrível. É por isso que ganha particular importância a notícia de que respirar é, por estes dias, um luxo, em Nova Deli. A capital da Índia atingiu um nível de poluição tal que já estão em marcha medidas de contingência, como a limitação à circulação automóvel, uma maior oferta de transportes públicos, o fecho das escolas ou a proibição de obras de construção civil. O que está a motivar esta verdadeira nuvem irrespirável é, no entender de alguns entendidos, o fogo de artifício do “Diwali” (festival do Ano Novo hindu) e as queimadas. O que é curioso. Olhando para os motivos apresentados e para as medidas postas em prática, a sensação que fica é a de que se está a combater um incêndio gigantesco com um balde de praia. E, enquanto isso, vamos asfixiando. Lentamente, à distância. Pensando que, a prazo, talvez seja essa a forma de extinção da nossa espécie.

3 de Novembro de 2019 – Dois Papas

A Netflix já anunciou que, a 27 de Novembro, irá apresentar o novo filme de Fernando Merelles. Chama-se ‘Dois Papas’, e procura retratar os acontecimentos, emoções, histórias, percursos, biografias, tensões e tudo o mais que levou a que o Papa Emérito Bento XVI renunciasse ao cargo e o Papa Francisco fosse eleito. Enquanto o filme não pode ser visto pelo comum dos mortais, vamos matando a curiosidade com o livro de Anthony McCarten, que esteve na origem do argumento. Curiosamente, é um livro bastante visual, se assim lhe podemos chamar, em que queremos sempre saber o que vai acontecer a seguir. O que, aliado ao facto de o filme ter Anthony Hopkins e Jonathan Pryce nos papéis principais, faz com que queiramos que chegue a dia 27 depressa.

2 de Novembro de 2019 – Palavras sobre imagens sobre o rio Arda

Foto: Óscar Valério

O Arda é o rio que corre no coração de Arouca. Mais ou menos oculto, pela forma como serpenteia pela terra. Mais ou menos ocultado, pelo forma como a mão humana foi tentando moldá-lo. Se Arouca tivesse sangue, talvez o primeiro a correr-lhe nas veias fosse o Arda. Foi o Arda que fez a Senhora da Mó e a Pedra Má, um monte de cada lado do vale, para lhe dar vida. E porque foi correndo, oculto e ocultado, o Arda é um rio de quedas. Umas mais, outras menos vertiginosas, mas todas elas belas, porque tornam a água um ser vivo. A precipitar o seu lençol pelos muros, pelas pedras, pelos desníveis do leito, as águas de um rio oferecem-nos o espectáculo mais bonito que podem oferecer. A música da natureza. As cores de uma pintura. O movimento da fotografia. O Arda continua a correr no coração de Arouca. Oculto e ocultado. A moldar e embelezar a paisagem muito mais perto de casa dos arouquenses do que eles mesmos pensam. Porque, às vezes, não é preciso grandes viagens para encontrar o paraíso. Às vezes ele está bem ali. Oculto. Ocultado.

Foi a pedido do meu amigo Óscar Valério que escrevi estas linhas sobre o rio Arda, que tanto diz às gentes de Arouca, apesar de estar mais oculto da nossa vista, sobretudo na vila. O texto pretendeu dar palavra a algumas imagens fabulosas, uma das quais aqui publicada, com a devida autorização do autor.

1 de Novembro de 2019 – Dos Santos e dos Fiéis

Não deixa de ser curioso o facto de a Igreja festejar, em dias seguidos, todos os santos e os fiéis defuntos. Aliás, as datas são frequentemente confundidas, misturadas ou até mesmo alteradas na cabeça de muitos. Independentemente disso, é bom lembrarmos os que nos precederam. Reavivarmos memórias, ensinamentos, momentos. Porque o que somos também lhes devemos, nem que seja apenas um pouco. E, ao mesmo tempo, lembrarmos que os santos são humanos. Não há santos que não tenham sido humanos. De carne e osso, e sentimentos e dúvidas, e erros e conquistas, e sofrimento e felicidade. E que, por tudo isso, foram exemplo. Precisamente pela sua humanidade. A mesma humanidade dos nossos, que partiram, deixando em nós um pedaço de si.

31 de Outubro de 2019 – Everything happens to me

Não gosto muito de publicar coisas performativas. Porque nem sempre correm bem, ou porque nem sempre há tempo para fazer mais do que uma tentativa. Esta foi a primeira e única tentativa de dar asas ao pensamento com ‘Everything happens to me’, de Hoagy Carmichael e Johnny Mercer. Não está perfeita, tem erros. Não soa como deveria. Mas procura, pelo menos, transmitir o que ficou, depois do último ‘A rainy day in New York’, de Woody Allen. Quem se der ao trabalho de ver o filme, ou simplesmente ver a letra da canção, facilmente perceberá a mensagem.

30 de Outubro de 2019 – Um outro pântano?

Foto: Paulo Vaz Henriques

No início do mês de Outubro, António Guterres alertou o mundo para a iminente bancarrota da Organização das Nações Unidas (ONU), da qual é Secretário Geral. Segundo Guterres, até ao final do mês de Outubro, as Nações Unidas poderiam ficar sem dinheiro, pondo mesmo em causa os salários dos funcionários (cerca de 37 mil). Segundo se soube, o passivo andará na ordem dos 230 milhões de dólares (qualquer coisa como 210 milhões de euros), e já estariam em marcha algumas medidas para impedir despesas, mais no imediato, nomeadamente o adiamento de reuniões e conferências, bem como a redução ao mínimo das viagens, uma maior eficiência energética e o adiamento de compras. Apesar das gigantescas diferenças entre as situações, os contextos e as circunstâncias, é inevitável o déjà vu com a famosa declaração sobre o ‘pântano’ em que o país tinha mergulhado, quando António Guterres se demitiu do cargo de Primeiro-Ministro de Portugal.

As últimas reservas de tesouraria podem esgotar até ao final do mês

António Guterres – Secretário Geral da ONU

29 de Outubro de 2019 – Criatividade musical

Foto: Filipe Pinho

Uma das coisas mais gratificantes de trabalhar com artes é o facto de termos sempre (se assim o quisermos) algum poder criativo. Depois, ou usamos, ou não. Usar o poder criativo, em concreto na música, só vale a pena se, ao usar, pudermos ousar. A sensação de vermos aparecer, à medida que se vai tornando física, entranhada, uma peça composta por um compositor sobre o qual temos de procurar saber mais, é fantástica. Mas a sensação de vermos algo surgir de nós, de dentro de nós, e em colaboração com outros, pode ser ainda melhor. Codificar pensamentos, sentimentos, sensações, transmitir ideias… Hoje, foi um desses dias. Dedicado ao que chamámos ‘criatividade musical’. Dia de pôr tudo isto em prática. Sobretudo usar e ousar.