Não tenho retratos. Nem vídeos. Nem sons. Mas tenho tudo o que fizemos gravado na memória, e isso, sempre me disseram, é o mais importante. Ontem, no meio da azáfama do dia, tivemos um pequeno concerto com os meus meninos da Banda Juvenil da Banda Musical de Arouca. E que concerto. Aquela gente toca mesmo muito bem. Os meus meninos, muitos deles tive o prazer de ensinar (e aprender) há alguns anos atrás, estão cada vez mais fabulosos. No fundo, sou um privilegiado por poder trabalhar com estes miúdos, que me ensinam como gente grande. Obrigado, malta.
Começa hoje a ser exibida, na RTP, uma série documental com cinco episódios sobre a música coral. João Henriques mostra-nos que cantar é algo que diz muito aos portugueses, que o fazem de formas muito distintas. Mas, sobretudo, o que ficará, certamente, patente é o que une estas pessoas, que resistem fazendo coisas juntas, quando tudo as convida a serem mais individualistas. Já John Cage dizia que ‘tudo isto aconteceu por causa da música’. Será por isso.
À medida que o Natal se vai aproximando, começamos a encarar as coisas de forma diferente. A proximidade do final do ano leva-nos a fazer balanços e projectos para o futuro. A proximidade da família faz com que sintamos as coisas de outra forma, com quantidades diferentes de fraternidade, de alegria, de solidariedade. Até o frio do Inverno faz com que respiremos um ar diferente, e há aromas que se nos entranham na memória e ficam, para sempre, associados a esta quadra.
Consumismos à parte, o Natal deste ano vem temperado, no que à política diz respeito, com uma pseudo-discussão sobre uma pseudo-regionalização que passou a estar na agenda não se sabe bem porquê. Como vem sendo costume português, as reformas ditas sérias nunca são pensadas a partir de uma necessidade sentida pelas pessoas, ou num contexto de proximidade. Primeiro decreta-se, e depois vê-se. No caso da regionalização, o debate contrasta claramente com o contexto local, em que vemos Juntas de Freguesia a reclamarem competências, Câmaras Municipais a negociarem com o Governo sobre o que querem gerir e, sobretudo, dinâmicas locais que marcam a diferença, num equilíbrio entre proximidade com os cidadãos e afirmação no contexto regional e até nacional. Arouca é, claramente, um exemplo disso. Se olharmos bem para o caminho percorrido, verificamos que a ‘marca’ foi criada, ou deixada, se quisermos, partindo das dinâmicas locais, gerando uma profunda identificação com os arouquenses, que hoje, muito mais do que há alguns anos, se orgulham das suas origens. Essa ‘marca’ não é compatível com ‘coligações’ regionais, e não pode (nem deve) ser submetida a qualquer tipo de gestão intermédia da qual possa vir a ficar dependente. Além disso, a proximidade aos arouquenses e o seu envolvimento na construção de propostas, nos processos de decisão e até mesmo na produção de eventos foi algo que foi sendo cada vez mais cultivado, sendo hoje um activo de que não se pode (nem se deve) abdicar. Isto para não falar das possibilidades que se abrem em termos de teias de interesses, favorecimentos ou desfavorecimentos decididos a partir de afinidades políticas, ou, simplesmente, a criação de cargos que apenas servirão de prateleira ou trampolim para políticos profissionais.
Outra das coisas que assusta, para além destes ímpetos reformistas desfasados da realidade, é a tremenda limitação de horizontes, no que diz respeito ao alcance das medias que possam ser tomadas. Os políticos portugueses, em geral, têm uma tremenda dificuldade em pensarem medidas que ultrapassem o médio prazo dos mandatos para os quais são eleitos. Qualquer político que se preze começa, depois de eleito, por destruir completamente o que foi feito antes, para que possa, enfim, deixar a sua pegada. Depois, tratará de implementar as medidas necessárias à sua reeleição. Por fim, poderá pensar em anunciar uma ou outra medida de longo prazo, já contando que, quem venha depois de si, irá reverter ou alterar, para mudar a forma da pegada. Em Arouca, felizmente, não tem sido assim. Independentemente das opções (sempre questionáveis), encontramos alguma dimensão estratégica nas decisões tomadas, e mesmo que nem tudo corra como gostaríamos, verificamos que houve um percurso feito e alguns (bastantes, podemos concordar) frutos colhidos. Enquanto isso, a Oposição baseia a sua acção numa colecção de ‘reparos’, limita-se a criticar a estratégia e sente-se confortável ao não apresentar qualquer tipo de visão alternativa a longo, médio e, por vezes, até curto prazo. Agora, que a quadra natalícia se vai aproximando, e um novo ano (com vida nova?) se aproxima, talvez seja hora de fazer os tais balanços e rever projectos futuros. Porque, mais do que fazer caminho, é preciso caminhar com rumo.
Segundo o Spotify, das 643 músicas que ouvi este ano, houve algumas que se destacaram. Depois analisar, verifico que foram, basicamente, as peças que ouvi com os meus alunos, sobretudo com o intuito de conhecerem melhor alguns instrumentos, estilos e de como a música pode ajudá-los a serem, pelo menos, diferentes no seu dia-a-dia. ‘Idyll’ para cordas, de Janacek, ‘Oblivion’, de Astor Piazzolla, e o segundo andamento do Concerto para Clarinete, de Mozart, estão no topo. Não desgosto da selecção.
O Ministro da Educação, por querer ou sem querer, deu hoje um mau exemplo, na sua forma de estar na política, ao culpar o seu antecessor pelos maus resultados, nas ciências e na leitura, no PISA (Programme for International Student Assessment). Este velho costume português de termos de dizer mal dos outros para que digam bem de nós já não surte o efeito pretendido. Se pensarmos bem, facilmente chegamos à conclusão de que é fácil contornar estatísticas, fabricá-las até. E que os números valem o que valem, e ficam muito aquém da realidade, essa sim, todos os dias vivida na carne de cada um. Colocar as culpas em outros é um atestado de incompetência a quem o faz. Um ministro é, por definição, um servidor do povo. Serve mal quando, em vez de agir no presente e projectar o futuro, continua a caminhar para a frente olhando para trás. Serve mal quando apresenta desculpas, em vez de apresentar factos. Serve mal quando não assume a responsabilidade que lhe compete assumir.
Foi um célebre Concerto de Ano Novo que me permitiu conhecer Mariss Jansons, e, mesmo sem apreciar largamente o estilo que o evento privilegia, acabei por ficar absolutamente electrizado pela forma como foi conduzindo a Orquestra Filarmónica de Viena. A partir daí, fui saber mais, ver mais, ouvir mais. E se houve coisa que achei curiosa, foi o facto de nunca ter visto nenhuma imagem de Jansons que não fosse a sorrir. Hoje, esse sorriso eternizou-se.
Não tarda, termina o ano. Chegados a Dezembro, parece que agora o tempo passa ainda mais rapidamente, e o fim do ano está já aí. Os dias, mesmo continuando a ter vinte e quatro horas, e as horas, mesmo continuando a ter sessenta minutos, e os minutos, mesmo continuando a ter sessenta segundos, parece que voam, em direcção a 2020. Não tarda, começa o ano novo, com muitos desejos e coisas a continuarem na mesma. Não tarda, o tempo começa outra vez a passar mais depressa e chegas aos 40 anos. E muita coisa ficará na mesma, alguma mudará. E é como caminhares em direcção ao horizonte. Quando pensas que vais tocar no céu, afinal é mais à frente. Não tarda acontece tudo outra vez, e tu ris-te, porque aprendeste, e já sabias que ia ser exactamente assim.
Fernando Henrique Cardoso publica, hoje, no jornal ‘El País’ um interessante texto sobre aquilo a que chama ‘explosões sociais’, um conceito explorado por Manuel Castells. É curiosa esta definição. Uma explosão é momentânea, muitas vezes até mesmo acidental. Pode ser muito preparada, pode ter repercussões inimagináveis. Mas resulta de um momento geralmente curto. Se lhe juntarmos a componente social, verificamos que, o que hoje sucede um pouco por todo o mundo, é um pouco isso. Explosões sociais, mais do que movimentos. Perdeu-se essa continuidade, de que os sindicatos sempre foram um bom exemplo. Depois, as redes e a comunicação global em tempo real fazem os resto. Multiplicam. O texto do ex-Presidente do Brasil termina com um aviso importante. Convém que estes ‘revoltosos’ tenham alguma consciência política, e não se limitem a ser apenas do contra, sob pena de serem uma espécie de heróis sem causas.
O Presidente da República desempenhou bem, no Congresso da Associação de Nacional de Municípios, o papel para o qual foi eleito pelos portugueses, ao avisar que regionalizar agora poderá transformar-se num erro irreversível. É profundamente paradoxal que os municípios, que, melhor do que ninguém, deveriam perceber que a regionalização, se feita de qualquer maneira, irá ser-lhes muitíssimo mais prejudicial do que benéfica, insistam em debater algo que não irá, de forma nenhuma, beneficiar aqueles que mais próximos deles estão. É quase uma burrice não perceberem que eles são, de facto, a face mais visível, mais próxima, a melhor face da regionalização, e que, em vez de lutarem por poderem contar com mais verbas para investirem, mais competências para decidirem e mais responsabilidades para gerirem, preferirem embarcar numa discussão estéril sobre mais cargos intermédios, para políticos que não saibam fazer mais nada senão serem políticos, distanciando-se dos cidadãos, em vez de se aproximarem. Numa altura em que se discute e operacionaliza a descentralização, esteve bem Marcelo ao colocar gelo nas euforias de alguns autarcas que talvez estejam a vislumbrar, neste comboio da pseudo-regionalização, mais uma janela de futuro para si, e não uma porta aberta para os seus eleitores.
O surgimento de novos (ditos pequenos) partidos no Parlamento lança um novo desafio, sobretudo para quem gostar de observar as habituais movimentações políticas. A Assembleia da República tem os seus rituais próprios, as suas formalidades próprias, até certo ponto o seu idioma próprio. Será curioso vermos como é que os ‘outsiders’ se integrarão (ou não) nestas dinâmicas, sob pena de, ou continuarem ‘outsiders’ para sempre, ou converterem-se ao ‘status quo’. Pelo meio, sujeitam-se a não serem ouvidos da forma que pretendiam, ou então de apenas serem ouvidos sobre o que não pretendem. E, por fim, vermos como a comunicação social irá fazer de amplificador de tudo isto. Não falarem ‘politiquês’, é estranho, porque é como se não pertencessem onde estão, como se não pudessem mudar nada, como se não contribuíssem para que se decidisse o que quer que seja. Sujeitos a, no fim, questionarmos a sua utilidade.