O violento texto de Almada Negreiros, contra Júlio Dantas, escrito com um fim intelectual muito superior ao da politiquice actual e quotidiana, quase encaixa como uma luva na mão cheia de pseudo-resistentes de um Governo em queda livre. Portugal disse hoje «basta, pum, basta». Ficou provado que não basta uma boa comunicação para disfarçar o indisfarçável. Não bastam os telepontos, os discursos sem gaguejos, as cerimínias pomposas. Os números não mentem. Há défice, há recessão, há dívida pública a um juro nunca visto, há uma série de coisas que insistentemente nos disseram que não havia. Há um autoritarismo arrogante disfarçado de poder forte. Há uma política de mentira dissimulada, usada como arma eleitoralista, que se serviu das necessidades de quem vive no Portugal profundo para atingir o poder e virar a atenção para obras megalómanas, que não servem a coesão nem podem ser construídas, porque não temos dinheiro para elas. Uma geração, um país que se deixa representar por gente desta, não pode estar satisfeita. Há uma imagem desgastada, cansada, sem braços para fazer o que precisa de ser feito. Está de volta o pântano. «Morra o Dantas, morra – pim».
«BASTA PUM BASTA!
UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D’INDIGENTES, D’INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO!
ABAIXO A GERAÇÃO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS A CAVALO É UM BURRO IMPOTENTE!
UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS À PROA É UMA CANOA EM SECO!
O DANTAS É UM CIGANO!
O DANTAS É MEIO CIGANO!
O DANTAS SABERÁ GRAMÁTICA, SABERÁ SINTAXE, SABERÁ MEDICINA, SABERÁ FAZER CEIAS P’RA CARDEAIS SABERÁ TUDO MENOS ESCREVER QUE É A ÚNICA COISA QUE ELE FAZ!
O DANTAS PESCA TANTO DE POESIA QUE ATÉ FAZ SONETOS COM LIGAS DE DUQUESAS!
O DANTAS É UM HABILIDOSO!
O DANTAS VESTE-SE MAL!
O DANTAS USA CEROULAS DE MALHA!
O DANTAS ESPECULA E INOCULA OS CONCUBINOS!
O DANTAS É DANTAS!
O DANTAS É JÚLIO!
MORRA O DANTAS, MORRA!
PIM!
(…)
SE O DANTAS É PORTUGUÊS, EU QUERO SER ESPANHOL!
O DANTAS É A VERGONHA DA INTELECTUALIDADE PORTUGUESA! O DANTAS É A META DA DECADÊNCIA MENTAL!
E AINDA HÁ QUEM NÃO CORE QUANDO DIZ ADMIRAR O DANTAS!
E AINDA HÁ QUEM LHE ESTENDA A MÃO!
E QUEM LHE LAVE A ROUPA!
E QUEM TENHA DÓ DO DANTAS!
E AINDA HÁ QUEM DUVIDE DE QUE O DANTAS NÃO VALE NADA, E QUE NÃO SABE NADA, E QUE NEM É INTELIGENTE
NEM DECENTE, NEM ZERO!»(Manifesto Anti-Dantas e por extenso, por José de Almada-Negreiros, poeta d’Orpheu, futurista e tudo)
Artur Agostinho faz parte, a partir de hoje, do etéreo, onde, afinal, se propagam as ondas da Rádio e da Televisão, que ele próprio encarnava. «Comunicador» seria o epíteto que melhor lhe servia, mas foi também escritor e actor. Noventa anos de vida, e setenta de carreira, terminam com um sorriso, com o «até já» de um homem que, de forma simples, se auto-intitulou «um gajo porreiro». Na Emissora Nacional, como na «Renascença», ficaram famosos os seus relatos, tanto da Volta a Portugal em Bicicleta como, entre outros momentos, o «cantinho de Morais», do seu Sporting, que vivia «até à ponta das unhas», como disse no «Leão da Estrela». Recebeu um Globo de Ouro e a Comenda da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada. Foi, como prometeu, «um gajo porreiro». A comunicação vai encarregar-se, agora, esperamos, de o eternizar.
São José foi, provavelmente, o primeiro exemplo de abnegação de si próprio, em favor do filho. Mesmo não sendo «o seu» filho, e mesmo estando esse filho entregue aos desígnios de outro «Pai», José, na sua humildade de carpinteiro, aceitou enfrentar um mar de dúvida, e, na sua simplicidade e recato, viveu discretamente o acontecimento que viria a dividir a história em «antes» e «depois». A Igreja e o povo (através do Dia do Pai) relembram-no, melhor ou pior, a 19 de Março. É, portanto, hoje que se comemora esse dia do pai, que abdica de si mesmo em favor do filho, para que este possa ser parte de um «projecto» de humanidade diferente. É isso, penso, que deve ser pai. Feliz dia.
A história, e sobretudo a dos últimos dias, prova-nos que sozinhos não conseguimos chegar a lado nenhum. Precisamos de ajuda externa para nos integrarmos num falso federalismo, a que chamamos União Europeia, e que nos subsidia, em muitos casos, a inércia e a improdutividade (para não falar na má gestão dessas ajudas). Precisamos de ajuda externa para que nos comprem a dívida, mesmo tendo de pagar juros absurdos. E agora, desenganemo-nos, precisamos de ajuda externa para nos deixarem governáveis. Lendo a investigação do «Diário de Notícias», sabemos o estado a que o Estado chegou. E isso quer dizer que praticamente metade do que o país produz é para alimentar os serviços do Estado (estruturas governamentais, fundações, institutos, etc., exceptuando administração local e empresas municipais). Chegámos, portanto, a uma situação ingovernável. Não queriamos, por isso, consensos alargados, porque isso não nos serve. Precisamos de ajuda externa para nos reorganizarmos, para acordarmos deste marasmo de viver à «sombra» de uma entidade que ajudámos a transformar em monstro, quando, no fundo, deveria ser «todos nós».
Almerindo Marques abandonou a liderança da Estradas de Portugal, porque o Governo não decidiu, em tempo útil, que modelo de financiamento quer seguir para aquela empresa pública. A Estradas de Portugal, convém recordá-lo, tem de pagar às concessionárias das antigas SCUT cerca de 800 milhões de euros por ano, o que, convenhamos, é suficiente para tornar qualquer empresa inviável. Esta talvez seja mais uma razão para, estranhamente, Sócrates começar a aparecer com as gravatas cada vez mais engelhadas. Um homem considerado «charmoso» por várias publicações internacionais, que se gabava de vestir fatos «Armani», e com uma presença cada vez mais assídua nas televisões (pudera), tem-se apresentado com gravatas cada vez mais enrugadas. O «bater de porta» de Almerindo Marques foi mais uma ruga na gravata de Sócrates, que, em breve, talvez começe a rasgar-se. Como o país, de resto.
O Governo continua a insistir no TGV, contrariando toda a lógica do país que, supostamente, devia servir. O Governo está, assim, a servir não o interesse de quem o elegeu, mas outros interesses, que ainda ninguém conseguiu descortinar muito bem. O Governo persiste no erro de abandonar a construção infra-estruturas básicas, com as quais, aliás, se comprometeu, e entende a obra da alta velocidade como um projecto que visa trazer coesão ao território nacional. O Governo não diz aos portugueses que esta obra beneficia única e exclusivamente a região da Grande Lisboa, que, de resto, já esgotou as verbas do Fundo de Coesão que a Europa disponibiliza a Portugal, para aquela região. O Governo não diz aos portugueses que está a roubar ao que deveria servir para outras regiões convergirem para essa coesão territorial, com base nesses fundos, a que têm direito, e que serão, tudo indica, mais uma vez, desviados para uma obra completamente desnecessária, desajustada e injusta para a grande maioria dos portugueses, que têm de a pagar, sem nada beneficiarem com isso. O Governo diz uma coisa e o seu contrário, quando afirma que esta obra não pesará no Orçamento de Estado, e quando, por outro lado, afirma, pela voz do Ministro das Finanças, que temos de ser realistas e só fazermos o que pudermos. «Fazermos o que podemos», seria ouvir do Governo a confirmação de uma promessa expressa em alta voz, por alguém que não se sabia se era Primeiro-Ministro, candidato a tal, ou outra coisa qualquer, em plena Praça Brandão de Vasconcelos. Isso sim, seria coesão e realismo. Tudo o resto deveria apenas servir para que estes senhores abandonassem os seus cargos, a alta velocidade.
Enquanto não se sabe muito bem como vai terminar o bloqueio dos camionistas, que já deu aso a detenções quase indiscriminadas, Sócrates vai «toureando» a crise como pode, com frases do tipo «ou eu, ou o FMI». Desenganemo-nos quando nos tentam dizer que não precisamos de ajuda externa. Nós já estamos, de facto, a receber ajuda externa, na medida em que estamos, dia após dia, a tentar vender títulos de dívida pública, a juros exorbitantes. Nas estradas, os camionistas são uma metáfora do que o país deveria fazer: um bloqueio ao Governo.
Cada vez mais nos apercebemos de que isto está tudo ligado. A natureza mostrou-se, e pôs a nu as fragilidades humanas, muito para além do que se pensava. Mas não só. Pôs também a nu a irresponsabilidade com que utilizamos os recursos que nos deixaram, e que devemos preservar para as gerações futuras. Bem ou mal, o Japão permitiu que se construísse uma central nuclear em zona sísmica, junto ao mar. As consequências estão aí, e podem ser bem mais devastadoras do que se pensa. Não são só as radiações que podem, consoante o apetite dos ventos, afectar mais ou menos milhares de pessoas. São, sobretudo, as consequências económicas de tudo isto. O impacto que a catástrofe teve nas bolsas de todo o mundo. O impacto que tudo isto irá ter nos consumos de petróleo, a que o Japão vai ter de recorrer como alternativa ao nuclear. Da União Europeia, com as palavras medidas ao pormenor, surgiu a reacção de que estaríamos perante uma situação apocalíptica. Será?