O programa «Linha da Frente», da RTP, mostrou, recentemente, uma reportagem sobre as derrapagens das obras públicas. Mostrou alguns exemplos grandes, mas estes podem, facilmente, ser replicados em ponto mais pequeno, e, assim, percebermos para onde vai tanto dinheiro a mais. Em alguns casos, ainda bem, porque os equipamentos funcionam, servem o povo, melhoraram as condições de vida das pessoas. Mas, na maioria dos casos, apenas serviu para dar aso a interesses, uns mais outros menos obscuros. É, também, por aqui que estamos no ponto em que estamos. Porque umas vezes fazemos as coisas de uma forma, mas a pensar em outra. Outras vezes, fazemo-las sem projectar nem pensar. Outras, na vertigem de agarrar a oportunidade de fundos comunitários, esquecendo-nos de que há sempre uma percentagem nacional de investimento. Outras, ainda, porque, a meio, nos lembramos de que a obra ficava melhor com mais uns retoques. Vale a pena ver, e, já agora, pensar nisto.
1 de Abril de 2011 – Um dia, talvez isto se torne verdade
José Sócrates mentiu, sobretudo ao povo de Arouca. Aproveitou-se, despudoradamente, descaradamente, repugnantemente da interioridade forçada de um município que sempre se manteve vertical, íntegro, honesto e cumpridor, coisa que não se pode dizer deste vendedor de ilusões. Arouca tem a fama de ser demasiado pacífica, e pouco reactiva. Mas tem, agora, a oportunidade de reagir com elevação, integridade, assertividade e de forma efectiva. E essa reacção só pode ser a de aproximar o mais possível da lama os rostos que nos fizeram estas falsas promessas, sabendo, naquele preciso momento, que estavam a mentir. E isso passa (apenas) por não votar nestes senhores.
31 de Março de 2011 – Dois (maus) retratos de Portugal, antes do 1 de Abril
Ainda não chegámos ao 1 de Abril, portanto os retratos são fidedignos. Hoje ficámos a saber que o jornal americano «Financial Times» classificou o Ministro das Finanças português como o pior da Europa. Segundo a publicação, Teixeira dos Santos revelou um «perfil fraco», teve a «pior performance política» e «um dos piores desempenhos a nível macroeconómico» da União Europeia. Mas não é só. O jornal espanhol «ABC» publica hoje um texto absolutamente imperdível, com o sugestivo título «Um antipático contra todos», onde o retrato de José Sócrates é tudo menos… simpático. O texto começa por comparar o (ainda) Primeiro-Ministro português a um condutor que guia a toda a velocidade em contra-mão numa auto-estrada, convencido que todos os outros estão errados. Depois, não esconde a surpresa com que os jornalistas acolheram a sua saudação e o seu cumprimento, na última cimeira europeia, contrariando a sua (já internaconal) fama de antipático para com os profissionais da comunicação social (que, de resto, em Portugal se habituou a tratar como «reles» subordinados). Avançamos no texto, e pode ler-se que para se acreditar em Sócrates é necessário apagar as páginas negras da sua biografia, nomeadamente a sua curta e desastrada passagem pelo sector privado, que culminou numa demissão por parte de quem o empregava. O «ABC» não esquece, ainda, o episódio da licenciatura, terminando o texto com uma certa concordância com as palavras de Passos Coelho, que disse, em tempos, só admitir voltar a reunir-se com Sócrates «na presença de testemunhas».
Leia aqui o texto: Un antipatico contra todos | «ABC»
30 de Março de 2011 – Nem tudo é mau, em terras lusas
Fiquei a conhecer, graças à partilha do meu estimado amigo Nobre Silvestre, o texto que Nicolau Santos escreveu para a revista «Up», da TAP. Quando olhamos para a frente e o quadro é negro, é mais complicado lembrarmo-nos de que o passado é rico e construtivo. É facto que, em 30 anos, Portugal baixou drasticamente a taxa de mortalidade infantil. Que em menos de uma década se constituiu como um dos países europeus com mais dadores de medula óssea. Que se afirma como líder mundial em transplantes hepáticos e renais. As empresas portuguesas afirmam-se no estrangeiro, com soluções inovadoras, na informática, no têxtil, no calçado, na distribuição alimentar. Os portugueses na diáspora são reconhecidos mundialmente pelo seu trabalho. Estamos na linha da frente na procura de soluções energéticas alternativas. Está-nos a faltar qualquer coisa, aparentemente pouco. Só falta saber o quê.
29 de Março de 2011 – Curiosidade para ler a biografia de Passos Coelho
Hoje encontrei num escaparate a mais recente biografia de Pedro Passos Coelho, um livro da autoria da conhecida jornalista Felícia Cabrita. A boa notícia é que, agora, vamos poder conhecer um pouco melhor em quem podemos votar, antes de o fazer. O livro tem cerca de 200 páginas, num exercício que Mário Crespo qualificou de escrutínio público, a que estamos pouco habituados. O livro, parece, sai um pouco do cânone oficial, mostrando também a parte pessoal e até mesmo humana de um político, considerado invulgar pela própria autora. A esperança, neste momento, é que a leitura deste livro possa ajudar a desmistificar a ideia de que a classe política é unicamente constituída por selvagens em busca do poder, e de que algo pode estar a mudar, desde os últimos tempos, na forma de ser, estar e agir na política. O futuro, talvez prove o contrário, mas até lá, permanece a esperança.
28 de Março de 2011 – Não é possível revogar o (des)acordo ortográfico?
Agora que o Governo está em gestão, talvez fosse boa ideia aproveitar o lanço para, da mesma forma que se revoga a avaliação dos professores e o alargamento das possibilidades de ajustes directos aos políticos, revogar-se o famigerado (des)acordo ortográfico. Este assunto, fundamental para a nossa cultura e para a nossa identidade, tem sido (talvez propositadamente) esquecido. Não se trata de qualquer hostilidade face aos nossos irmãos brasileiros. Trata-se, isso sim, de afirmar a verdadeira língua portuguesa. E essa, não é a que o (des)acordo pretende implementar, por decreto e contra-natura. As nossas palavras são assim, porque têm uma determinada raiz, no latim ou no grego, por exemplo, e isso não se muda por decreto, nem por provincianismo nem com base numa falsa ideia de internacionalidade. Este (des)acordo é, claramente, estranho para com a forma como falamos a nossa própria língua. Não tem em conta que se fala português em Angola, em Moçambique, na Guiné-Bissau, em Cabo Verde, em São Tomé e até em Timor. Não tem em conta a forma como pronunciamos, a musicalidade portuguesa, e acaba por instalar uma perigosa confusão na ortografia. Há estudos que comprovam que algumas palavras podem escrever-se de quatro a trinta e duas maneiras diferentes, todas válidas. Mas ainda há uma esperança, que o silêncio sobre o assunto nos deixa. Tratando-se de um acordo internacional, a sua entrada em vigor depende do acordo de todos os países que o subscrevem, o que não sabemos se já aconteceu. Ainda há esperança.
27 de Março de 2011 – Retomar o trabalho, no Coro Casa da Música
Retoma-se, hoje, o trabalho da formação sinfónica do Coro Casa da Música, desta vez em torno do Requiem Alemão, de Brahms. O concerto está previsto para 16 de Abril, mas, até lá, há muito trabalho ainda a desenvolver, sob a orientação atenta e minuciosa da maestrina Marion Sarmiento. Em simultâneo com a obra de Brahms, será executada a obra «Das Lesen der Schrift» (que pode traduzir-se por «Lendo a Bíblia»), do compositor Wolfgang Rihm, compositor residente da Casa da Música, no decurso da presente temporada. Rachel Harnisch será a soprano solista, e Andreas Scheibner o barítono. A direcção, essa estará a cargo do inevitável e incomparável Christoph König. Serão três semanas de muito trabalho, mas que, por certo, valerão a pena.
26 de Março de 2011 – (Re)pensar no associativismo
O facto de hoje ter decorrido mais uma sessão ordinária da Assembleia-Geral da Banda Musical de Arouca, assembleia, aliás, à qual tenho o privilégio de presidir, serviu para pensar um pouco sobre como anda o movimento associativo, e da importância que, erradamente, não lhe está a ser dada. Já há cerca de uma década que os investigadores da área social avisavam que era urgente reagir à globalização com uma pressão «bottom-up», ou seja, que a sociedade se mobilizasse, se unisse, prosseguisse, solidariamente, objectivos comuns, e respondesse, assim, alternativamente, ao efeito globalizante da economia. Quase dez anos depois, pouco se sente, mas reconhece-se a necessidade. Fala-se muito de voluntariado, numa atitude quase caritativa, de uma certa afirmação de status, e sem um verdadeiro sentido de solidariedade. Mas nós precisamos de mais do que isso. A resposta a esta crise, que nos demonstra que a globalização, como a conhecíamos há cerca de dez anos, sofreu sérias mutações, estará, por certo, na mobilização social, em torno de causas comuns. E aí, o movimento associativo tem uma palavra forte a dizer. É preciso é que as entidades oficiais percebam isso, e apoiem condignamente este movimento. Com «migalhas», talvez não se chegue a parte nenhuma.
25 de Março de 2011 – Para: Nádia Oliveira; Morada: Aqui
Olá, «Nadinha». Bem sei que hoje é hoje, mas tenho-te lembrado bastante. Sabes, puseste-me a pensar em como é difícil a gente lembrar-se do dia em que as pessoas especiais nos entram pela vida dentro, como um cometa, cheias de luz, e parece que tudo muda a partir daí. Mas do dia em que se parte, desse sim, é que nos lembramos melhor. Porque é um dia em que algo se rasga, algo nos corta, algo nos fere, e deixa cicatriz. E a cicatriz fica sempre, por muito que a pele se volte a unir. Tu és danada, porque mesmo que não me lembre dos dias exactos, lembro-me de muitas coisas que tu fizeste mudar. Fizeste-nos fazer música e palavras para ti. Fizeste-me conhecer um grupo fabuloso, de pessoas únicas, o Orfeão de Arouca, com quem tu, com tanto carinho e orgulho, sempre trabalhaste. Fizeste-me voltar a estudar, e a levar-te ao meu primeiro concerto em Aveiro. A «culpa» disto tudo também é tua, por muito que não o queiras admitir. Hoje não me apeteceu escrever «de cima», falar de ti como se não estivesses cá. Hoje apeteceu-me escrever para ti, falar contigo, como falo muitas vezes, nas viagens que faço, nas memórias que revisito. Tu fizeste-me acreditar que, de facto, há pessoas que não pertencem aqui. Por muito que nos doa, tu pertences aqui, mas estando aí. São assim os anjos, ou o que lhe quisermos chamar. Eu continuo a falar contigo, porque sei que estás aqui. Se te posso pedir algo, peço-te que continues a tomar conta de nós. Que continues a receber o carinho dos teus papás, único e transbordante, como sempre. Que continues a receber a nossa amizade e admiração. E agora, vou continuar, porque, ao fim e ao cabo, isto não acaba nunca. Por muito que escreva, vou ter sempre qualquer coisa para partilhar contigo. E posso fazê-lo, a qualquer momento, porque a tua morada é (também) aqui.
24 de Março de 2011 – Não estou pensando em nada
Os dias correm a uma velocidade desnorteante, e há sempre pequenas coisas por fazer, e muitas pequenas coisas tornam-se grandes coisas. A política continua demasiada, e o dinheiro demasiado pouco. A incerteza grande, e o ânimo pequeno. Não há tempo para pensar, ou para reflectir, ou sequer para fugir, porque os destinos talvez não nos queiram. O dia termina, e eu fico como Álvaro de Campos, a pensar em nada. Quase como o eremita, que encontra tudo o que procura em estar consigo mesmo. Não estou mesmo pensando em nada. Em nada.
Não estou pensando em nada
Não estou pensando em nada
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o Verão quente do dia.Não estou pensando em nada, e que bom!
Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida…
Não estou pensando em nada.
É como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas.
Há um amargo de boca na minha alma:
É que, no fim de contas,
Não estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada…(Álvaro de Campos)