A boa notícia é que Nuno Gomes está bem e recomenda-se. A má, é que já não vamos lá. Desde a derrota contra o Braga que a coisa já estava complicada, mas agora estamos pior. Jesus não fez milagres, apenas demasiadas alterações na lista de convocados, e algumas substituições com que os adeptos talvez não tenham concordado muito. Como, por exemplo, retirar Carole e deixar César Peixoto em campo. O Benfica de hoje não é o verdadeiro Benfica, nem nada que se pareça. Hoje, a partir do minuto zero do jogo contra o Portimonense, o Benfica desistiu oficialmente de ser campeão.
12 de Março de 2011 – A terra, o mar, o Japão
Primeiro, a terra tremeu. Depois, o mar agigantou-se. O Japão sofreu um dos maiores sismos e maremotos de que há memória. Não se sabe quantos mortos, quantos feridos, quantos desaparecidos ao certo. Sabe-se, apenas e já não é pouco, da imagem de devastação. Antes, durante e depois da catástrofe se consumar. Há centrais nucleares em perigo de explosão, e a coisa pode não ficar por aqui. Teme-se uma reedição de Chernobyl, a acrescentar ao que já vimos acontecer. De entre as imagens de caos e destruição, ficam na memória os incêndios que se seguiram ao primeiro ataque da natureza. Mas o que mais me surpreendeu foi o avanço, lento e determinado, das águas cheias de entulho pela pista de um aeroporto nipónico. Os cinco elementos vão-nos avisando de que somos ainda mais insignificantes do que pensamos. E parece que nem assim os escutamos.
11 de Março de 2011 – Este governo não nos serve
O sentido etimológico da palavra «ministro» é a de servo ou servidor, executante de acções que visam o bem da coisa e da causa pública. Quando alguém é Primeiro-Ministro de um país, deve ser, pela lógica, o melhor servidor da causa pública. E ser o melhor servidor da causa pública não significa apenas tomar as medidas que se entendem necessárias para o melhor do país. Significa também dizer a quem se serve o que se vai fazer. Sócrates, hoje, fugiu. Outrora, António Guterres deu a cara pelo «pântano» a que o país tinha chegado, seguindo a linha de um Governo que, dentro do razoável, foi sempre assumindo os seus erros. Hoje, José Sócrates aproveitou a desculpa de estar ausente do país para que um outro ministro nos avisasse de que o aperto vai aumentar. Os juros da dívida pública disparam para máximos históricos, e, soubemos hoje, o famoso «PEC» já não basta. É preciso apressar as coisas. Hoje soubemos que os pensionistas que recebem mais de 1500 euros vão sofrer cortes de cerca de 5%. Números redondos, estamos a falar de cerca de 180 mil portugueses. Quem nos devia servir, resolveu avançar sem nos «passar cavaco». Nem a nós, nem ao Presidente da República, nem aos partidos da oposição, nem aos parceiros sociais, nem tão pouco aos restantes ministros. Fosse por ter de ser, fosse porque as contas não deram certo, o mínimo que deveria ter acontecido era termos sido informados disto por quem de direito. Estes senhores já não nos servem. Porque não são verdadeiros ministros. Porque não servem a causa pública. Porque, a maioria de nós, já não os quer ao serviço.
10 de Março de 2011 – (Todos os) dias das mulheres
O dia em que se deveria ter comemorado o Dia Internacional da Mulher, porque ainda há necessidade de o comemorar, passou. Mas nem sempre é necessário haver um dia para nos lembrarmos do que o dia comemora, e trazer isso para todos os dias. O Dia Internacional da Mulher comemora-se a 8 de Março, lembrando o levantamento de mulheres russas por paz e pão, no contexto da Revoluçao Russa de 1917 e da Primeira Guerra Mundial. Depois disso, houve avanços e recuos, mas continuamos a ter de comemorar, o que significa que ainda falta percorrer algum caminho. Ao pensar no Dia Internacional da Mulher, pensei em muitas canções que celebraram (e celebram) a Mulher. Uma delas é «Cathy», de Rodrigo Leão. Que reclama contra o facto de não ser possível estarmos sempre nos braços delas, que elogia a sua sabedoria na escolha das palavras, que nunca mais fomos os mesmos depois de as conhecermos, sem sabermos porquê nem como. A todas as «Cathys» do mundo, feliz dia(s), apesar do atraso.
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«Cathy» | Rodrigo Leão
9 de Março de 2011 – Magistratura activa
Os «políticos profissionais» estavam à espera que o Presidente da República terminasse o discurso para emitirem opinião. Para uns foi demasiado sectário, para outros fez um diagnóstico do país real. O que é certo, é que as palavras de Cavaco Silva não deixaram ninguém indiferente. O seu discurso de tomada de posse, proferido hoje no Parlamento, não poupa, sobretudo, o Governo. José Sócrates pode contar com a «magistratura activa», vinda de Belém. Mas o discurso não esquece que os numeros nao mentem. Portugal perdeu uma década no caminho da integração europeia, correndo sempre «ao lado» do crescimento europeu. A crise económica é já uma crise social. Os cargos públicos não podem depender das filiações partidárias. O papel dos jovens é essencial para a construção do futuro. E, como se não bastasse, na hora dos cumprimentos, o Primeiro-Ministro de Portugal, homem acima de qualquer protocolo, preferiu ficar a responder aos jornalistas do que cumprir as suas funções de Estado, e cumprimentar o Presidente recém empossado. O discurso de Cavaco Silva vale pelo seu todo, e é difícil «retalhá-lo». Vale a pena ler aqui.
«Ao Governo e ao Senhor Primeiro-Ministro reitero o compromisso de cooperação que há cinco anos assumi perante os Portugueses. Pela minha parte, pode contar o Governo com uma magistratura activa e firmemente empenhada na salvaguarda dos superiores interesses nacionais».
«Os indicadores conhecidos são claros. Portugal vive uma situação de emergência económica e financeira, que é já, também, uma situação de emergência social, como tem sido amplamente reconhecido».
«Nos últimos dez anos, a economia portuguesa cresceu a uma taxa média anual de apenas 0,7%, afastando-se dos nossos parceiros da União Europeia. Esta divergência foi ainda mais evidente no caso do Rendimento Nacional Bruto, que constitui uma medida aproximada do rendimento efectivamente retido pelos Portugueses».
«A margem de manobra do Estado português para acudir às necessidades de crescimento da economia e para combater os problemas de natureza social encontra-se severamente limitada, como o provam os níveis da despesa pública, da dívida pública e do endividamento do Sector Empresarial do Estado, a que acrescem os encargos futuros com as parcerias público-privadas».
«Portugal está hoje submetido a uma tenaz orçamental e financeira – o orçamento apertando do lado da procura e o crédito apertando do lado da oferta. Este quadro afectará negativamente o crescimento económico e a qualidade de vida das famílias, a não ser que os responsáveis políticos, económicos e financeiros correspondam, com firmeza e sem ambiguidades, à obrigação que têm de libertar o país desta situação».
«Em particular, é fundamental que todas as decisões do Estado sejam devida e atempadamente avaliadas, em termos da sua eficiência económica e social, do seu impacto nas empresas e na competitividade da economia, e das suas consequências financeiras presentes e futuras. Não podemos correr o risco de prosseguir políticas públicas baseadas no instinto ou em mero voluntarismo».
«A expectativa legítima dos Portugueses é a de que todas as políticas públicas e decisões de investimento tenham em conta o seu impacto no mercado laboral, privilegiando iniciativas que criem emprego ou que permitam a defesa dos postos de trabalho».
«Não podemos privilegiar grandes investimentos que não temos condições de financiar, que não contribuem para o crescimento da produtividade e que têm um efeito temporário e residual na criação de emprego. Não se trata de abandonar os nossos sonhos e ambições. Trata-se de sermos realistas».
«Necessitamos de recentrar a nossa agenda de prioridades, colocando de novo as pessoas no fulcro das preocupações colectivas. Muitos dos nossos agentes políticos não conhecem o país real, só conhecem um país virtual e mediático. Precisamos de uma política humana, orientada para as pessoas concretas, para famílias inteiras que enfrentam privações absolutamente inadmissíveis num país europeu do século XXI. Precisamos de um combate firme às desigualdades e à pobreza que corroem a nossa unidade como povo. Há limites para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos».
«O exercício de funções públicas deve ser prestigiado pelos melhores, o que exige que as nomeações para os cargos dirigentes da Administração sejam pautadas exclusivamente por critérios de mérito e não pela filiação partidária dos nomeados ou pelas suas simpatias políticas».
«Agora, no momento em que tomo posse como Presidente da República, faço um vibrante apelo aos jovens de Portugal: ajudem o vosso País!»
(Cavaco Silva, Presidente da Republica, no seu discurso de posse)
8 de Março de 2011 – Sócrates e a paródia de Carnaval
http://www.youtube.com/watch?v=8_uE6u6Hln8&feature=player_embedded
Os políticos, depois de estarem no poder, depois de se sentirem no poder, fazem sentir a arrogância na idêntica proporção do poder que sentem ter. Já experimentámos isso com Cavaco Silva, agora é a vez de José Sócrates mostrar o que vale. Com tiques de arrogância e algum cinismo, respondeu de forma cáustica a uma acção de protesto do grupo «Geração à Rasca», que pagou para participar no jantar, e queria falar ao mesmo tempo que Sócrates. É sempre complicado digerir uma adversidade, sobretudo quando a sensação de estar no púlpito de inverte ou subverte. Foi correcto? Foi incorrecto? Quem esteve melhor e pior? É difícil de saber. Mas ao manifestar uma franca indisposição para o diálogo, temperada com uma certa hipocrisia na forma como lidou com o problema nos entretantos, José Sócrates não ficou muito bem na fotografia.
«Se me permitem, camaradas, eu gostaria de fazer um convite às pessoas que agora entraram para jantar connosco, não temos nenhum problema nisso. Somos um partido da tolerância, estamos no Carnaval e a verdade é que no Carnaval ninguém leva a mal».
(José Sócrates, Primeiro-Ministro, em «resposta» à acção de protesto do grupo «Geração à Rasca», em Viseu)
7 de Março de 2011 – Um retrato de Carnaval
Confesso que não percebo muito mais de fotografia do que espreitar para dentro da câmara, esperar pelo momento decisivo, e disparar. Percebo mais do momento e do enquadramento, do que da técnica para o captar melhor. É, em linguagem «técnica», o que se chama um «handicap». Hoje foi noite de Carnaval, e foi mais uma partida à aventura, à descoberta de novas imagens. Esta terá sido, talvez, uma das imagens da noite. Que ilustra como, no Carnaval, tentamos «queimar» o que não nos agrada, o que nos incomoda, o que não nos deixa ver as coisas como elas são, e, por uma noite, sermos outros. Que queríamos, ou não, ser. Mas outros. Purificados por este lume, que, depois de arder, nos faz voltar à mesma condição. Mas talvez com uma perspectiva diferente das coisas.
6 de Março de 2011 – O elixir do amor (moderno)
As histórias sobre o elixir do amor são recorrentes. Esta, é mais moderna. «Amor é o melhor remédio» mistura esse elixir do amor, que reside, no fundo, em nós, com um dos marcos na história do «marketing» farmacêutico, relacionado, de alguma forma, com esse elixir: a eclosão do Viagra. O filme é ligeiro, ao estilo «matiné», mas vale a pena ser visto. É que, embora não pareça, é, frequentemente, nas coisas mais simples e insignificantes que encontramos algumas respostas para (grandes) problemas que nos «assustam».
5 de Março de 2011 – A luta continua
A «Deolinda» já tinha personificado o nosso estado de parvoíce. Também somos culpados disso, não nos iludamos. Somos culpados, porque deixamos que façam de nós parvos. Porque nos damos ao luxo de eleger para cargos principescos os mesmos que nos aparvalham. Hoje foi dia de Festival da Canção. Um evento que parava o país, por onde passavam grandes artistas, um verdadeiro barómetro da «arte musical pop». De há algum tempo para cá, não. É só um espectáculo «kitsch», cujo conteúdo é difícil de qualificar, em que os vencedores são anónimos, e depressa regressam ao anonimato. Mas hoje foi diferente. Os «Homens da Luta» ganharam a taça. Depois da votação formal, a fazer lembrar os velhos tempos, em que os juris distritais dizem de sua justiça, o voto do público (uma coisa muito em voga, na «TV 2.0») deu a volta à tabela classificativa. Tudo isto é um reflexo do que somos e de como estamos. Para melhor ou para pior, bem ou mal, a luta continua.
4 de Março de 2011 – Entre-os-Rios
O poder central deu conta, tarde de mais, que o país estava a ir ao fundo, numa «terra de ninguém», esquecida de tudo e de todos. O país ia, lentamente, ao fundo em Entre-os-Rios, sem saber porquê nem por causa de quem, sofrendo a pior dor que se pode sofrer, depois de se ter sofrido o esquecimento. Sem saber, o destino estava a proporcionar-nos um retrato antecipado de Portugal. Antecipado 10 anos. Na altura, não se regateou nos recursos, para tentar compensar com betão, dinheiro e promessas uma dor que não se apaga e vidas que não se pagam. Dez anos depois, não há uma mas duas pontes, mas os caminhos continuam a levar a lado nenhum. É, talvez, mais fácil, mais cómodo, mais rápido apanhar um avião para Barcelona do que vir do Porto a Castelo de Paiva (ou Arouca). É irónico que uma tragédia torne célebre o nome de uma «terra de ninguém». Entre-os-Rios não é cidade, nem vila, nem concelho, nem freguesia. Por outro lado, Raiva sim. A raiva de um país a duas velocidades. Onde se olha para o lado quando se fala dos problemas «de proximidade». Onde se adia a resolução de problemas como estes, apesar dos avisos constantes. Dez anos depois, todos nós nos afundamos um pouco, solidários com Entre-os-Rios ou não. Porque nada apagará aquela dor. Especialmente porque ela está lá, aguda, todos os dias. Enquanto «os outros» se esquecem dela, até alguém os lembrar.