22 de Abril de 2011 – Yo-Yo ma «remixed»

O filme tem cerca de quatro minutos, e é da autoria de Spike Jonze. Nele podemos ver como a arte, a performance podem elevar-se, quando libertas de complexos. Lil Buck é, aparentemente, um «break dancer», que aliou a sua performance à música erudita do violoncelista de renome mundial, Yo-Yo Ma. Nos tempos que vivemos, há que dar passos neste sentido, o da simplificação, da aproximação, do livre acesso à arte. Sem complexos, sem pruridos, sem medos, sem convenções inúteis. É isto, a cultura.

21 de Abril de 2011 – António Barreto põe o(s) dedo(s) na(s) ferida(s)

De que forma e por que razão chegámos onde chegámos? De quem é a culpa? Em que ponto estamos? Para onde vamos? Portugal sofre de um mal: os maus políticos. Talvez por isso estejamos a braços com a crise. Mas o Estado somos nós, e cabe-nos, também, dizer uma palavra afirmativa, assertiva, eficaz. A política de trazer por casa tem de terminar, um dia. A política da intriga, do «soundbyte», do mostrar mesmo que não seja verdade, começa a ser irritante. Porque nos fazem passar por asnos. Como quando nos estimulam a não trabalhar, com base no que chamaram de «tradição». António Barreto foi, hoje, entrevistado por Fátima Campos Ferreira, na RTP, no ciclo «Portugal e o Futuro». A obra e as ideias deste sociólogo, pensador da sociedade portuguesa, são relativamente bem conhecidos. Também passou pela política, e, aparentemente, desiludiu-se. Hoje, colocou o dedo a fundo nas feridas. E a «dor» deveria despertar-nos.

«Creio que o Governo e o partido de Governo têm mais responsabilidades. Bastantes mais. São mais abrasivos, mais coléricos, mais furiosos, mais violentos, mais cruéis. Os partidos da oposição, o CDS tem-se portado com alguma contenção, que noto e sublinho. O PSD tem dado sinais de alguma hesitação e de alguma trapalhice na sua movimentação. [Agora,] o maior contributo para esta falta de diálogo vem, evidentemente, do Primeiro-Ministro».

«Em política, para o bem dos outros, as pessoas não têm de falar só com quem gostam. (…) Pede-se para se entenderem, em nome da população, em nome das pessoas que representam. Estão ali, porque receberam umas centenas de milhar ou uns milhões de votos. Eles têm de falar com quem têm na frente. Eles têm de dar o exemplo. (…) Mas eles só dão o mau exemplo, e o mau exemplo é sempre mais fácil de seguir».

«O povo não disse que queria um Governo minoritário. O povo não deu o suficiente a um para ser maioritário. [De todos os que estiveram mal, nessa altura], o pior foi o Primeiro-Ministro, José Sócrates. O pior de todos, porque queria governar sozinho, queria governar em minoria. Este Partido Socialista tem uma predilecção por Governos minoritários. Acha que vai bem assim. Faz uma maioria à esquerda hoje, faz uma maioria à direita amanhã, depois troca, baralha e dá de novo, e tem gosto nisso. Mas isto é quase uma delinquência política. (…) Sempre disse que o Presidente da República devia ter dito que não daria posse a um governo minoritário».

«Não há campo nem agricultura sem agricultores. Fazer agricultura é difícil. Produzir alimentos é difícil. É preciso que haja terra, é preciso que haja água, é preciso que haja saber e experiência. Dizer simplesmente vamos pescar e semear batatas, pode ser fácil de dizer mas é muito difícil de fazer».

«Portugal rendeu-se. (…) O Estado faliu. Faliu financeiramente, ninguém tem dúvidas sobre isso. Está a pedir. Faliu politicamente, porque não soube prever. O Governo não soube prever. O Governo não soube, há dois anos, há três anos, tomar as medidas necessárias para diminuir a fragilidade portuguesa».

«Os chefes partidários deram cabo da vida política e da vida pública portuguesa, nestes dez anos».

(António Barreto, em entrevista a Fátima Campos Ferreira, na RTP)

20 de Abril de 2011 – Boa música, bons músicos, boa crítica

O Festival de Páscoa de Salzburgo é um dos espaços culturais de elite mundial. Normalmente, é à Orquestra Filarmónica de Berlim, tida por muitos como a mais completa formação sinfónica do mundo, que cabe a programação deste Festival. Sir Simon Rattle é o maestro da formação, a quem cabe a direcção de dois dos três concertos da Filarmónica, cabendo o concerto remanescente a um maestro convidado. Este ano, a honra coube a Gustavo Dudamel, um autêntico meteoro musical, oriundo de «el sistema» venezuelano. A reportagem publicada pelo «El País» relata todos os pormenores, como por exemplo a raridade de algumas situações. À hora marcada (e sabemos como são as questões de pontualidade, no centro e norte da Europa), nem concertino nem maestro tinham entrado em palco, porque faltava o contra-fagote. O concerto começou atrasado 19 minutos. Nem mais, nem menos. Mas o meteoro Dudamel, na sua humildade e na leitura altamente e profissionalmente intensa, também do ponto de vista afectivo, conseguiu, como é hábito, que os músicos estivessem absolutamente perfeitos. Aplausos e «pateios», uma plateia ao rubro. Houve boa música, bons músicos, e, pelo que se lê no «El País», boa crítica, porque bem escrita. Coisa rara (sobretudo a crítica), quase nunca encontrada, em Portugal.

19 de Abril de 2011 – Portugal ainda se deixa enganar?

No editorial do jornal «i» de ontem, Ana Sá Lopes é absolutamente arrasadora no retrato que faz do (ainda) Primeiro-Ministro de Portugal. O mesmo Primeiro-Ministro que, acreditando na análise (também ela arrasadora) de Freitas do Amaral, vive num mundo irreal. O mesmo Primeiro-Ministro que insistiu que não precisávamos de ajuda externa, mesmo depois do Ministro das Finanças ter dito que o sinal de alarme seria a subida das taxas de juro da dívida pública acima dos 7%. Esse mesmo Primeiro-Ministro, prossegue, qual «bulldozer», cilindrando quem tiver de cilindrar para fazer vingar as suas decisões. Nem que, nos intervalos, tenha de deixar cair quem o sustentou. Teixeira dos Santos não será candidato a nada. O mesmo sucede com Luís Amado, que cometeu a (im)prudência de dizer, em pleno congresso do PS, «levámos o país para o abismo». E o mesmo sucede, sabe-se agora, com Ana Paula Vitorino. Provavelmente por ter resistido a colaborar nas negociatas do processo «Face Oculta». Agora, Sócrates entretém-se a distribuir notícias pela comunicação social, elogiando a sua governação e a sua gestão, quase dando a entender que nem sequer temos cá uma delegação do FMI. Portugal cresce, a economia cresce, no primeiro trimestre do ano quase parecíamos a Alemanha, de tão desenvoltos que estávamos. Portugal: pára e pensa. Os cães passam e a caravana ladra.

«Quem leu as escutas do processo Face Oculta percebe claramente o porquê do afastamento de Ana Paula Vitorino: provavelmente, mesmo que não tivesse testemunhado nos termos em que testemunhou no processo, a resistência de Ana Paula Vitorino no governo a variados negócios (como fica claramente sugerido da leitura das escutas) poderia ter sido suficiente para ditar a sua sentença de morte no universo socrático».

«Quem se mete com Sócrates e amigos leva, leva sempre. Não é quem se mete ao estilo de Ferro Rodrigues ou de Manuel Alegre, agora recuperados para a família. É quem se mete onde verdadeiramente dói e onde dói a Sócrates não é nas divergências quanto a políticas sociais, legislação laboral ou rendimento social de inserção. O que verdadeiramente dói são assuntos aborrecidos chamados processo Face Oculta, Figo e Taguspark, licenciamento do Freeport em vésperas de eleições, tios e filhos de tios, professores virtuosos, compra de casa de luxo a preços de amigo e offshores metidas pelo meio, e por aí fora».

«Os socialistas, com excepções aqui e ali, passaram a ser impressionantemente cobardes e incapazes de afrontar o chefe».

«No dia em que for humilhado, é evidente que não lhe restarão quaisquer amigos. E a maior parte dos auto-amordaçados de hoje virão a terreiro afirmar que já diziam tudo isto há muito tempo. Será mentira: dizer diziam. Mas diziam muito baixinho».

(Excertos do editorial de Ana Sá Lopes, no jornal «i» de ontem)

18 de Abril de 2011 – Dia Mundial da Voz (dois dias depois)

http://www.youtube.com/watch?v=5YdvuL16i3U

Dia 16 de Abril foi Dia Mundial da Voz. Curiosamente, nesse dia estava a utilizar a voz, no palco da Casa da Música, o que constituiu uma belíssima forma de o comemorar. A voz é algo que nos identifica, e identifica-nos de tal forma que estranhamos quando nos ouvimos a nós próprios, talvez por nos deixar confusos sobre estarmos a ser outro para nós próprios. É quase um «roubo» de nós próprios. Talvez, também, por isso não gostamos de nos ouvir. Depois, há quem trabalhe com a voz. Cantores, jornalistas de rádio, locutores, apresentadores. E imitadores. Bruno Ferreira é um destes últimos, e faz disso uma arte, como se pode provar pelas múltiplas entrevistas concedidas à TVI em cerca de quatro minutos. «Oiça a sua voz. Goste da sua voz».

17 de Abril de 2011 – Pouco Nobre

Fernando foi pouco nobre na forma como decidiu disparar o «soundbyte» de que não queria ser deputado, apenas presidente da Assembleia da República. As ingenuidades de um cidadão estreante na política desculparam-se-lhe, durante a campanha presidencial. Mas agora, o «jogo» é mais sério, e «joga-se» com mais adversários, com mais argumentos, com mais táctica. Que nobre quisesse dizer que não está agarrado a nenhum lugar, seria uma coisa. Afirmar-se apenas como candidato a presidente do Parlamento, quando sabe (ou devia saber) que essa eleição não é directa, é um tremendo «tiro no pé». O gesto de Pedro Passos Coelho, de abrir o partido a independentes podia ter sido feito com outra candura, e não dando a entender que apenas fez «contas de somar votos», que, sabemos, normalmente não são de fiar. Se o objectivo foi quebrar o doentio mediatismo do congresso do PS, a coisa resultou. Mas, se calhar, não com a eficácia pretendida.

16 de Abril de 2011 – Um Requiem Alemão

Um «requiem» é, normalmente, uma ilustração (umas vezes mais, outras menos positiva) da morte, que termina com uma aproximação sonora do «paraíso». O Requiem Alemão de Johannes Brahms é um pouco diferente. É, sobretudo, uma música de encontro com a vida, mesmo que passe por caminhos tortuosos, deslocando-se para onde menos esperamos, surpreendendo-nos. Hoje, o Coro Casa da Música e a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música executaram esta obra prima do repertório coral sinfónico. A espaços, ouviu-se «Das Lesen der Schrift» («Lendo a Bíblia»), obra contemporânea do compositor Wolfgang Rihm, composta para ser executada precisamente neste contexto. Um trabalho árduo, que, como a vida, não desembocou na «morte», mas numa espécie de «renascer». Sob a sublime direcção de Christoph König.

15 de Abril de 2011 – Midnight in Paris

http://www.youtube.com/watch?v=z1iR1CErfsg

Woody Allen tem o condão de projectar-se, um bocadinho, em cada uma das suas personagens, dar uma luz única aos locais que filma, atar e desatar os nós de uma boa trama, e, com tudo misturado, criar filmes absolutamente deliciosos. Desta vez, o cenário escolhido para fazer e desfazer nós existenciais é Paris. Paris, de manhã, é bela; ao fim da tarde, é encantadora; mas, depois da meia-noite, é mágica. O filme vai poder ser visto em Cannes, mas já começa a crescer a vontade de o ver numa sala mais próxima.

14 de Abril de 2011 – Etäisyyden että suomalaiset katsovat Portugali, ou a distância a que os Finlandeses vêem Portugal

No que depender dos finlandeses, Portugal que se desenrasque sozinho. É o que se pode ler nas notícias da TSF, com base na informação de várias sondagens feitas naquele país nórdico, que se prepara para ir a votos. Da Finlândia, a paisagem portuguesa é apenas uma (a bancarrota), e a ajuda deve ser negada de forma peremptória. Para estes nórdicos, a bancarrota é inevitável, e Portugal deve abandonar a Zona Euro. Este tipo de firmeza e frieza nórdicas são, como alguém muito bem lembrou, talvez fruto de uma relação (muitas vezes forçada) de proximidade com a Rússia. A Finlândia faz, assim, o papel de «pai tirano», esquecendo-se um pouco de que faz parte de uma comunidade europeia. Sem perderem a razão, os finlandeses demonstram a sua pouca aptência para a solidariedade e para a cooperação, demonstrando o seu lado frio e individualista, que degenera no obscurantismo pessoal que muitos vivem, e em taxas de suicídio das mais elevadas do mundo. Não deixando de ter razão em relação ao nosso enorme desleixo.

«Se alguém der a mão a Portugal, os portugueses agarrarão logo o braço com o objectivo de [não pagarem] o que estão a dever».

«A crise de que este país nórdico saiu há menos de 20 anos, que entendem ser pior que a portuguesa, (…) foi resolvida sem o recurso à ajuda externa».

(Excertos da notícia publicada pela TSF, com base na leitura da imprensa finlandesa)

13 de Abril de 2011 – Quando há unanimidade…

A unanimidade pode ser perigosa, sobretudo quando por falta de alternativas. José Sócrates é líder do PS com praticamente 100% dos votos, o que, nos tempos que correm, só se pode comparar ao que acontece a leste do mundo. Candidatos únicos, votações massivas, aclamações com «camarada» nas frases, é algo que é, de certa forma, estranho a Portugal. Rómulo Machado, que as televisões esqueceram, e o PS também, é, pelo menos na internet, a face dos 3 ou 4 por cento dos que não queriam Sócrates à frente do seu próprio partido. Há diferenças substanciais na forma de estar e de viver a vida partidária que distinguem o PS, por exemplo do PSD. E, frequentemente, é pelo excesso de liberdade e democracia internas que alguns não são poder.