2 de Maio de 2011 – Bin Laden, o mito

No dia seguinte a ter feito 21 anos, ainda a recuperar de uma noitada de trabalho no departamento de Jornalismo da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, ouvi falar, pela primeira vez, daquele que seria, provavelmente, o maior mito do terrorismo mundial, envolvido numa terrível e assustadora aura de mistério. Bin Laden. Seguiu-se o terror em Londres, em Madrid, sempre em «onzes» fatídicos, sempre em locais de muita gente, como se o ataque às Torres Gémeas tivesse sido o grande terramoto da civilização, seguindo-se as réplicas. Em pano de fundo, sempre o rosto de Bin Laden e o selo da sua Al Qaeda. O homem mais procurado do mundo, o homem mais temido do mundo, o homem mais bem escondido do mundo foi morto, alegadamente, hoje. Ainda não se sabe se a notícia é boa ou nem por isso, até porque há quem duvide da veracidade da notícia. De si, fica, como em vida, o mito.

1 de Maio de 2011 – Santo, subito

Um pontificado de quase 30 anos (mais precisamente 26 anos e meio) não passa despercebido. O papa da era da globalização, o papa do sorriso, o papa de algumas polémicas acabaria, de qualquer das formas, por marcar a história contemporânea. Mais de cem viagens, por 129 países e mais de 1000 localidades, também ajudaram a essa proximidade e identificação. João Paulo II viveu para o seu ministério. Assim como o seu lema («Tottus Tuus») preconizava. Hoje, na Praça de São Pedro, o Vaticano dá seguimento a um pedido do povo: «Santo, subito». João Paulo II é, a partir de hoje, modelo de santidade.

30 de Abril de 2011 – Texto número 800 (ontem)

Depois de clicar no botão de «publicar», no final do texto de ontem, ficou completo o texto número 800 deste espaço. Há coisas que são como a vida. Nascem pequenas, sem se saber que caminho vão percorrer, a precisar de orientação. E depois, vão por aí fora. Indo, umas vezes por onde pensamos, outras por onde nunca pensávamos. À medida que as coisas vão evoluindo, vamos vendo que as visitas diárias vão sendo mais, os reparos e os incentivos vão surgindo, e nem sempre há tempo de responder a tudo. São devidos, portanto, 800 obrigados, que se alargam a todos os que fazem o «lado de aí» deste blogue, porque sem isso isto não teria sentido. O agradecimento ao Rui Gato, rosto do «AroucaBiz», que continua a apoiar esta ideia tresloucada, que nem sempre tem interesse. E, a todos, até amanhã.

29 de Abril de 2011 – O bom gosto musical da cerimónia real

William Arthur Philip Louis e Catherine Elizabeth Middleton protagonizaram hoje o nono casamento real, desde 1919. É curioso que entre 1382 e 1919 não se realizou qualquer cerimónia que envolvesse a monarquia, na abadia de Westminster. Hoje, estima-se que cerca de dois mil milhões de pessoas, em todo o mundo, presenciaram, diante das televisões ou via internet, a cerimónia religiosa deste casamento real. Independentemente do facto político, ou da discussão sobre se a monarquia está mais ou menos viva, o que ficou na retina dos que a apreciam foi a fabulosa música executada durante o serviço religioso. Paul Mealor, John Rutter e James O’Donnell, entre outros «inevitáveis» compositores da escola britânica, teceram a manta de sons a que os coros da abadia de Westminster e da Capela Real, a London Chamber Orchestra e a Fanfare Team from the Central Band of  the Royal Air Force, entre outros, deram corpo. Valeu a pena, pela (excelente) música.

[audio:http://aminhaagenda.aroucaonline.com/wp-content/uploads/2011/05/Crown-Imperial.mp3|titles=Crown Imperial]
«Crown Imperial» | Sir William Walton
(The London Chamber Orchestra, Fanfare Team from the Central Band of  the Royal Air Force)

28 de Abril de 2011 – O tumor

A imagem de um furúnculo, para nos compararmos à sua aparência, já seria violenta o suficiente. Mas no famoso «Górgias», que Viriato Soromenho Marques cita hoje nas páginas do «Diário de Notícias», a violência da metáfora é mais intensa. Um tumor. Um tumor onde está a complexificação e a burocracia do que é simples, os amigos dos amigos fazendo nada e recebendo muito, uma justiça que não funciona, um Estado muito maior do que deveria ser, um amontoado de obras desconexas, desnecessárias e sobrepostas. Se tudo isto fosse um furúnculo, talvez o FMI o pudesse espremer e esvaziar. Sendo um tumor, talvez a cura seja mais difícil.

«Diz-se que fizeram grande a cidade, mas não se vê que ela está apenas inchada, que esta grandeza que lhe criaram é uma espécie de tumor (…) encheram a cidade de portos, estaleiros, muralhas, impostos e outras bagatelas do género».

(in «Górgias»)

27 de Abril de 2011 – Sócrates tem razão

O (ainda) Primeiro-Ministro, que, por acaso, é também (ainda) Secretário-Geral do Partido Socialista, apresentou hoje o seu programa eleitoral. Esquecendo, mais ou menos, a situação actual do país, decalcando as linhas de pensamento que o elegeram sem maioria, as baterias estiveram sempre apontadas à oposição. Os outros são «impreparados», imaturos, mal-educados, radicais, preconceituosos. E só ele, só ele, oh só ele pode defender o país, proteger as pessoas e desenvolver os serviços públicos e o Estado Social. Mas os «tiros» também foram disparados à esquerda, que acusou de se esgotar na crítica e no protesto, sem apresentar ideias ou soluções para resolver a crise. Feitas as contas de somar e subtrair, Sócrates tem razão, aliás como quase sempre. Este tempo não é para tiros no escuro. Antes para tiros no pé. Que o diga o líder do PSD. Sigamos, assim, o filósofo, e não o cherne.

26 de Abril de 2011 – Maior que o pensamento

A RTP tem estado a transmitir um notável documentário, da autoria de Joaquim Vieira, intitulado «Maior que o pensamento». Nele se percorre a vida, a obra e os caminhos rasgados por José Afonso, verdadeiro impulsionador de uma música diferente (para melhor) em Portugal. O «Zeca» fez (e faz) falta à música e à cultura portuguesa. Os seus textos incisivos, a sua sonoridade mestiça, a sua capacidade de intervenção. Ouvir algumas declarações de José Afonso assustam-nos, porque parecem ter sido feitas ontem, ou mesmo hoje. Ouvir algumas das canções de José Afonso colocam-nos, novamente, frente a frente com uma dura realidade chamada Portugal. «Zeca» consegue, assim, ser, de facto, maior que o pensamento. E ressuscitar, mesmo depois de Portugal o ter deixado partir, praticamente sem nada. Porque tudo o que tinha, e tudo o que era, foi-o por um Portugal melhor. Que ainda não conseguiu ver, totalmente.

25 de Abril de 2011 – Um presidente «foleiro»

Por engano ou não, José Lello, distinto militante socialista, publicou hoje na sua página do «Facebook» a seguinte frase: «Este presidente é mesmo foleiro. Nem sequer convidou os deputados para a cerimónia do 25 de Abril». José Lello personifica, assim, o verdadeiro espírito de Abril. Um espírito de liberdade que permite, inclusive, que critiquemos desta forma o mais alto magistrado da nação. Um espírito de liberdade que permite que um deputado tenha este nível de discurso, mesmo que por engano, publicando uma mensagem privada. Um espírito de liberdade que até lhe permite esclarecer, sorridente e na televisão, o imbróglio que protagonizou. Talvez para ter mais gente que lhe pudesse desejar feliz aniversário, via «Facebook». É este o tipo de representantes a quem damos o voto.

24 de Abril de 2011 – …para onde podemos ir

Continuando a leitura do estudo de Mira Amaral, são curiosas as ideias deste ex-governante, que não se fica pelo reconhecimento da realidade. Antes aponta caminhos. É óbvio que a crise não vai acabar em Junho, quando houver festa de quem ganhar as eleições, validando ou contrariando as sondagens. E não foi a crise mundial que nos colocou em crise. Portugal já estava em crise estrutural há cerca de 10 anos. António Guterres, Durão Barroso e Santana Lopes apenas deram continuidade a uma inacção estrutural. A nossa economia está, portanto, em declínio e sem grande produtividade. Dos níveis de endividamento público e externo nem vale a pena falarmos. Como provam as investigações do «DN» sobre o estado do Estado, «o monstro» é demasiado grande, burocrático, ineficiente. E, já o disse o Presidente da República várias vezes, a sociedade portuguesa está cada vez mais desequilibrada. José Sócrates, segundo Mira Amaral, «desperdiçou a maioria absoluta e um Presidente que não iria obstaculizar, não executando as reformas estruturais e o Programa de Reestruturação da Administração Central (PRACE)». Temos o retrato da realidade. E agora, para onde podemos ir? Mira Amaral aponta caminhos:

1. Melhorar drasticamente os Sistemas de Educação e Formação Profissional.

2. Flexibilizar os mercados de trabalho e emprego no contexto do conceito de «flexigurança».

3. Simular uma desvalorização competitiva, reduzindo a contribuição patronal para a Segurança Social, compensada pelo aumento do IVA.

4. Resolver o problema candente da justiça económica.

5. Assumpção, por parte do Estado, das suas dívidas para com as empresas fornecedoras e pagamento nos prazos legais ou contratualmente fixados.

6. Fomentar a inovação empresarial, apostando no Sistema de Inovação e não apenas num dos seus sub-sistemas–Investigação Cientifica e Tecnológica.

7. Fomentar o empreendedorismo e apoiar, através dos instrumentos de capital de risco público e dos incentivos fiscais, o financiamento do “seedcapital” e dos “startup’s” tecnológicos.

8. Fazer a reforma da Administração Pública e reduzir a despesa pública corrente primária para 30% do PIB, no espaço de duas legislaturas.

9. Ter mercados realmente abertos e concorrenciais na energia e nas telecomunicações.

10. Incentivar a massificaçãodo acesso e do uso das tecnologias de informação na sociedade portuguesa, escolas, famílias, empresas, designadamente PME’s, e Administração Pública.

Apostar em pequenas obras, como recuperação de escolas e troços de ligação («last mile») entre as auto-estradas existentes e centros urbanos.

Apostar na reabilitação urbana, em barragens, em investimentos na eficiência energética e nas redes digitais da nova geração.

Não se inserem claramente neste compromisso entre curto e longo prazo investimentos megalómanos.

23 de Abril de 2011 – Onde chegámos…

Os gráficos podem ser encontrados, entre outros locais, num estudo apresentado por Mira Amaral, curiosamente do Banco BIC, que tão na moda está, pelo menos para os arouquenses. Os números dizem-nos que a nossa média de crescimento económico é a pior dos últimos 90 anos, que a nossa dívida pública é a maior dos últimos 160 anos, que a nossa dívida externa é, no mínimo, a maior dos últimos 120 anos (desde que o país declarou uma bancarrota parcial em 1892), que o nosso desemprego é, no mínimo, o maior dos últimos 80 anos (610 mil desempregados, dos quais cerca de metade são de longa duração), que voltámos a divergir em relação à generalidade das economias europeias, após décadas de convergência, que assistimos, actualmente, a segunda maior vaga de emigração dos últimos 160 anos, e que temos a taxa de poupança mais baixa dos últimos 50 anos. Continuaremos, para falar de «por onde podemos ir».