As contas estão feitas, e não há que enganar. Para reduzir o nosso défice público precisamos de 6 mil milhões de euros. É muito. É colossal. É quase oito vezes mais o que se vai arrecadar com uma das medidas que os portugueses acharam mais duras. Seria repetir oito vezes o corte no subsídio de Natal para se chegar a este valor (esta medida apenas rende ao Estado 800 milhões de euros). Pelo que já se sabe das previsões, só está percorrido metade do caminho. Os cortes na Saúde deverão rondar os 800 milhões de euros. Na Educação, 600 milhões, se somarmos 300 milhões das prestações sociais e benefícios fiscais e 400 milhões oriundos das alterações ao IVA, mais mil milhões de cortes na despesa do Estado e sector público e 500 milhões vindos da contracção no investimento, se as contas não falham, serão 3500 milhões de euros. Com o «esforço colossal» só conseguimos chegar a meio do percurso. Amanhã saberemos mais.
11 de Outubro de 2011 – «Road to nowhere»
Soube-se hoje, naquelas letras pequeninas em que são dadas as notícias que não se quer que sejam lidas, que a «Estradas de Portugal» (uma empresa do Estado, sublinhe-se) foi lesada em cerca de 600 milhões de euros, em negociações feitas com a «Ascendi» para as concessões Norte e Grande Lisboa. Já poucas dúvidas havia de que as famosas parcerias público-privadas são um péssimo negócio, apesar de, para o anterior Governo, serem um expediente perfeitamente natural. Há cerca de um ano (Novembro de 2010), o então Secretário de Estado das Obras Públicas, o famoso Paulo Campos, foi alertado para as negociações «potencialmente ruinosas» que estava a conduzir, junto do grupo «Ascendi», que, pasme-se, é propriedade da Mota-Engil e do Banco Espírito Santo. Em causa estavam a auto-estrada entre Barcelos e Guimarães e a auto-estrada entre Famalicão e Vila Pouca (concessão Norte) e várias ligações do IC16, IC30 e IC17 (concessão Grande Lisboa), todas elas já anteriormente portajadas e sem qualquer comparticipação pública. De parte a parte, fizeram-se as contas, e verificou-se que o tráfego ficou aquém do previsto no contrato inicial, o que gerou prejuízos, o que levou Paulo Campos, em nome do Estado, a resolver o problema de forma simples. A empresa «Estradas de Portugal» passou a estar obrigada a pagar à «Ascendi» um valor, em rendas fixas, de 1.864 milhões de euros, ao passo que recebia em troca 1.267 milhões de euros de portagens. Contas simples de fazer. Em estradas que não nos custavam rigorosamente nada (sim, porque o Estado somos nós e os nossos impostos), a «Estradas de Portugal» passou a ser responsável por um prejuízo de 597 milhões de euros. Por muito que não queiramos olhar para trás, enquanto prosseguimos nesta estrada, estas coisas parecem querer avisar-nos, como as tabuletas, que estamos a ir rumo a lado nenhum.
10 de Outubro de 2011 – Portugal já não mora aqui
E se, de repente, Portugal deixasse de existir? É a pergunta fundamental para a qual o sociólogo António Barreto nos alerta, hoje. O mundo está em profunda mudança. Fala-se e deixa-se de falar em soberania com demasiada facilidade. Procura-se outro modelo europeu, que não se sabe bem qual. A reflexão de Barreto foi feita durante o arranque do ano lectivo do Instituto de Estudos Académicos para Seniores, na Academia das Ciências de Lisboa. Aconteceria em Portugal o que aconteceu na Ilha de Páscoa, no Pacífico, «desaparecida» devido às decisões e à forma de vida dos seus habitantes. E para isto contribuem, na sua opinião, situações como as que recentemente demonstraram que os políticos nos fazem viver, por vezes, numa realidade ficcional, escondida nos livros de facturas por pagar, disfarçada de um desafogo que nunca existiu, nas nuvens de projectos ambiciosos, quando a terra que pisamos nos puxa, com a força da gravidade, para uma situação de falência iminente.
«É possível que Portugal, daqui a 30, 50, 100 anos não seja um país independente como é hoje».
«Convém perguntarmos o que vai acontecer no futuro».
«[Jared Diamond] diz que são gestos e comportamentos deliberados, não para se matarem nem para se extinguirem, mas que não têm consciência que estão gradualmente a destruir o seu próprio habitat, a sua própria existência».
«Cito o caso [dos povos desaparecidos] porque, muitas vezes, quando se discute o caso de Portugal ou da Europa tem-se sempre a ideia de que as coisas são eternas, que tudo é eterno, e agora não é».
«Os nossos gestos de hoje, as nossas decisões de hoje, sem que muitas vezes percebamos o quê e como, vão mudar e construir as grandes decisões daqui a 50 ou daqui a 100 anos».
«Depende da nossa liberdade e das nossas decisões de hoje saber o que vamos construir daqui a um século».
(António Barreto, no discurso de abertura do ano lectivo do Instituto de Estudos Académicos para Seniores, na Academia das Ciências de Lisboa)
9 de Outubro de 2011 – Um Jardim mais pequeno, mas, ainda assim, um Jardim
Alberto João Jardim vai continuar a «contar com o Continente», como se tem partilhado pelas redes sociais. O jardim está mais pequeno, mas continua a ser um jardim. Com maioria absoluta. Seja o pior resultado de sempre do PSD Madeira (48,56%, 25 deputados). Mas não deixa de ser uma maioria absoluta, ponto final. O resultado do PS (11,5%, 6 deputados) fica muito aquém do que seria de se esperar, depois do ruído imenso que António José Seguro, irritantemente, insistiu em produzir, nos últimos dias. O CDS (17,63%, 9 deputados) assume-se como a segunda força política, o Bloco de Esquerda deixa de estar representado, José Manuel Coelho vai poder continuar a promover uma oposição «criativa» e o Partido dos Animais consegue eleger um deputado. A história conta-se, assim, em poucas palavras. Jardim continua, e pronto.
8 de Outubro de 2011 – Os fogos
Desde o início deste mês, Portugal já ardeu por 1.978 vezes. Só hoje, até cerca das 22:00, registaram-se 322 ocorrências, estando, a essa hora, a decorrer 19 incêndios em território nacional. Segundo a Autoridade Nacional de Protecção Civil, só no dia 1 de Outubro houve 243 incêndios, no dia 2 houve 299, no dia 3 foram 245, no dia 4 registaram-se 265, mais um no dia 5 (266), no dia 6 houve 343 e ontem 317. Na voragem dos números, nas comparações, nas reflexões feitas a quente, porque o tempo nos baralha os pensamentos, esquecemo-nos que, por trás destes números, há meios, viaturas e homens e mulheres a combaterem de frente as chamas, dando a sua vida pelo que não é seu.
7 de Outubro de 2011 – E se os bancos europeus só durarem mais umas semanas?
O aviso é de Robert Shapiro, assessor do Fundo Monetário Internacional, e é, no mínimo preocupante. Segundo este especialista, se os políticos europeus não encontrarem uma forma sólida, efectiva, credível de responder a esta crise, as dívidas soberanas podem conduzir ao colapso de todo o sistema bancário europeu. Shapiro disse isto em entrevista à BBC, e referia-se, explicitamente, aos maiores bancos da Alemanha, da França, da Inglaterra, do mundo, porque a globalização é isto mesmo. As afirmações de Robert Shapiro surgem na sequência de uma recomendação do FMI para que se injectassem até 200 mil milhões de euros nos mais importantes bancos europeus, de forma a acalmar os ânimos do sector, ao mesmo tempo que a própria Comissão Europeia, pela voz de Durão Barroso, afirmava essa necessidade de acalmia. Angela Merkel também afina pelo mesmo diapasão. Haja políticos a sério, porque, caso contrário, deixarão de ter razão de existir.
6 de Outubro de 2011 – Steve Jobs (1955 – 2011)
Hoje não há grandes hipóteses de se ser original. Morreu Steve Jobs. Filho de pai sírio e mãe norte-americana, foi dado para adopção, para que pudesse estudar, ter um futuro. Entrou na universidade, mas não conseguiu terminar o curso. Disse Jobs que viu-se ali, de repente, a gastar todo o dinheiro das poupanças de uma vida dos pais. Resolveu desistir, e confiar que tudo ia correr bem. Foi estudando como pôde, e fascinou-se com o conhecimento. Fundou a «Apple», foi afastado e voltou, não sem entretanto «fazer das suas» com o trabalho que desenvolveu na «Pixar», por exemplo com o filme «Toy Story». Tem o seu nome associado a «gadgets» que mudaram o mundo, como o «iPod», o «iPhone» e o «iPad», e até as escadas em espiral das lojas «Apple» têm a sua marca. O homem que não virou a cara à luta contra o cancro disse, no seu discurso mais conhecido, partilhado e reflectido, que a morte é, provavelmente, a maior invenção da vida. Hoje, Steve Jobs fez, provavelmente, a maior invenção da sua vida.
http://www.youtube.com/watch?v=JdmJEwO5qiE&feature=share
5 de Outubro de 2011 – Nakité
Depois da porta, é como que um mundo novo. Parecia que o «stress» tinha ficado à porta, impedido de entrar por uma força boa. Hoje foi dia de jantarmos no restaurante vegetariano «Nakité», no Porto. Atendidos com um sorriso simpático, provámos os sabores que nos propunham. E aventurámo-nos a escolher provar uma francesinha vegetariana. Muito saborosa, por sinal. Depois, tartes de pêra, limão e feijoa. Sumos naturais de fruta, e tudo bem temperado com um atendimento sempre muito atencioso. E a melhor de todas as companhias: tu.
4 de Outubro de 2011 – A morte, depois da vida depois da vida
Ele tinha sobrevivido, quase milagrosamente, ao assassinato da mãe, enquanto esperava para nascer. Enquanto rezava, numa igreja de Madrid, a mãe foi assassinada por um louco, que se suicidou de seguida, em frente ao altar. A mãe, grávida, ia trazê-lo à luz no próximo sábado, mas as coisas precipitaram-se, e ele acabou por nascer, logo ali, da mãe já sem vida. Havia um sentimento de que a vida, apesar de tudo, tinha prevalecido. Que talvez houvesse alguma luz naquela tragédia absolutamente inexplicável. Fazia sentido pensar-se que houve vida depois da vida. Hoje, depois de não resistir aos danos cerebrais causados por uma cesariana de emergência, aquele rebento de vida deixou de estar vivo. Talvez tivesse de ser assim. A morte, apenas depois da vida depois da vida.
3 de Outubro de 2011 – Mudanças nas freguesias
Está em curso um debate mais ou menos aberto sobre o que o Governo tem chamado de «agregação» de freguesias. O conceito é, parece, o de agrupar freguesias, mantendo a identidade e a dimensão territorial e social de cada espaço, mas aglutinando serviços. As Juntas de Freguesia que tenham poucos habitantes terão os seus serviços agrupados e rentabilizados, passando a haver um único «prestador» para vários territórios. Não estamos a falar na extinção de freguesias, que se mantêm com o mesmo estatuto territorial, identitário, paroquial até. A única coisa que passam a ter é um serviço de proximidade que engloba territórios vizinhos, o que até, em termos de escala, nomeadamente, por exemplo, em termos de formulação de concursos públicos, pode ser muito vantajoso. Nos espaços urbanos, essa reestruturação está a decorrer de forma relativamente pacífica. A Associação Nacional de Freguesias teme que as mudanças que tocam a cerca de 2500 freguesias retirem ao cidadão o serviço de proximidade. Mas nós sabemos bem que é preferível racionalizar e rentabilizar do que manter a maioria das Juntas de Freguesia com migalhas, que não lhes permitem trabalhar, precisamente, em proximidade. Nós sabemos que são as Câmaras Municipais que acabam por ter de complementar os orçamentos das freguesias, seja com verbas, seja com obras da sua iniciativa, seja com a cedência de funcionários e/ou materiais. Atentemos num exemplo. O que é que será mais barato e eficaz, três Juntas de Freguesia promoverem três concursos públicos para a pavimentação de caminhos, ou uma única promover um concurso que englobe as obras das três? Debateu-se o encerramento das escolas, e verificou-se que a medida era acertada. Estamos, de certo modo, a ter, agora, um «déja-vu».