Para o bem e para o mal, a cultura está dependente da política. Dificilmente se consegue fazer algo pela cultura em Portugal sem que, para tal, tenha que haver algum apoio (mesmo que ínfimo) de alguma entidade oficial. O problema que isto levanta é o das prioridades. O que é que é prioritário, em termos de preservação e divulgação da cultura? A questão coloca-se de forma pertinente em relação à opção tomada pela Câmara Municipal de Lisboa de reforçar a verba que atribui à Fundação Mário Soares, retirando, em simultâneo, o apoio ao restauro de um belíssimo órgão de tubos que existe na igreja de Santa Catarina. Outra Catarina (Vaz Pinto, por sinal) entendeu que, para além dos 50 mil euros anuais que a autarquia lisboeta dá como apoio àquela Fundação, o subsídio deveria ser reforçado com mais 14.825 euros. A justificação terá sido a do prolongamento, até ao dia 31 de Dezembro, da exposição «A Voz das Vítimas», organizada pelo movimento cívico «Não Apaguem a Memória» e pela fundação de Mário Soares. A função dos políticos, estamos de acordo, é tomar decisões. Podemos concordar ou não com elas, e a isso chamamos democracia. Quanto ao acerto desta decisão, cada um julgará.
1 de Outubro de 2011 – Dia Mundial da Música
Escreveu Vergílio Ferreira que não há amor como o primeiro, porque ele é feito de todas as possibilidades, de todos os sonhos, de toda a intensidade que se coloca em algo que se experimenta pela primeira vez, e que parece pleno. Mas também não há amor como o último, porque ele é a consequência de todos os outros que foram havendo. Nietszche terá também dito, um dia, que a vida sem música é um erro. Aparentemente, as ideias não têm rigorosamente nada a ver uma com a outra, mas, de facto, têm. Demorei quase trinta anos a perceber que a música foi o meu primeiro amor. Trinta anos vividos quase em erro. Mas ela esteve sempre lá, a música. Seduzindo, e deixando-se seduzir. Alimentando sempre esse primeiro amor. Desviando-me do erro. Descomplexada, nada formal, irreverente, até. Diferente. Há dias mundiais para tudo, e também para a música. Para mim, todos os dias são dela. Pelo menos um bocadinho.
30 de Setembro de 2011 – Isaltino
Há mais de oito anos que se fala no caso «Isaltino», um presidente de Câmara cujos «fregueses» defendem com unhas e dentes, apesar das constantes acusações de irregularidades, e, em última instância, de corrupção. Para quem vive em Oeiras, em geral isto pouco importa, porque continuam a ter um concelho desenvolvido, serviços de proximidade e eficazes, e uma relação fácil com o seu presidente de Câmara. Depois de terem descoberto contas bancárias não declaradas na Suíça e na Bélgica, tudo mudou. Em 2002, Isaltino Morais abandona a Câmara de Oeiras, que presidia há 16 anos, para se tornar Ministro das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente, no Governo de Durão Barroso. Em 2003 abandona o cargo, sob suspeita de ter contas bancárias não declaradas na Suíça e na Bélgica, tendo sido desencadeada uma investigação pelo Departamento Central de Investigação e Ação Penal. Em Junho de 2005, é novamente candidato (desta vez independente) à autarquia de Oeiras, e durante a pré-campanha é constituído arguido. Em Junho de 2008, o Tribunal Central de Instrução Criminal de Lisboa delibera a ida a julgamento, por crimes de participação económica em negócio, corrupção, branqueamento de capitais, abuso de poder e fraude fiscal. Em Agosto de 2009 é condenado a sete anos de prisão e a perda de mandato. Isaltino recorre. Em Julho de 2010 a pena de prisão é reduzida de sete para dois anos, e a pena de perda de mandato é anulada. Em Setembro de 2010, o Ministério Público recorre da decisão do Tribunal da Relação de Lisboa. Em Setembro de 2011, depois de alguns avanços e recuos legais, Isaltino Morais é detido pela PSP. É libertado poucas horas depois.
29 de Setembro de 2011 – Parlamento mais barato do que em 2006
O parlamento português vai ficar-nos mais barato cerca de 5,5 milhões do que em 2006. São os dados avançados pelo presidente do Conselho de Administração da Assembleia da República, Couto dos Santos, que, curiosamente, é deputado por Aveiro. O valor global do orçamento para 2012 é de 60 milhões de euros, com os organismos autónomos a gerirem a verba de 10 milhões e meio de euros, sendo que as subvenções aos partidos políticos e grupos parlamentares serão de 24 milhões de euros. A presidente da Assembleia da República já apelou a todos os esforços para que se partilhem responsabilidades, que se fomente a contenção e a lealdade para com as dificuldades que todos sentimos.
28 de Setembro de 2011 – De como a crise pode enriquecer alguns
Alessio Rastani é corretor, e em alguns minutos de entrevista à BBC incendiou completamente essa entidade abstracta, que nos governa a toda a hora, chamada «mercados». Os «mercados» não querem saber da recuperação económica dos Estados em dificuldade. Aliás, os «mercados» rejubilam com esta crise, ansiavam por ela, para poderem enriquecer alguns. Foi basicamente isto que Rastani disse. Que não vale a pena sermos utópicos. São eles quem nos governa, e não os políticos. Esses, fazem parte do «jogo», mesmo que não queiram. De um jogo onde são quase meros figurantes. Porque os «mercados» são muito mais poderosos. Afinal, sempre é verdade que a crise pode ser uma oportunidade. Pena que seja, como sempre, mais para uns que para outros.
«O ‘Goldman Sachs’ [um dos maiores bancos de investimento] governa o mundo. (…) Esta crise é um sonho para fazer dinheiro. (…) Há três anos que sonhava todas as noites com uma recessão como esta para poder ganhar mais dinheiro. (…) Em doze meses as poupanças de milhões de pessoas vão desaparecer… e isso será só o princípio».
(Alessio Rastani, em entrevista à BBC)
27 de Setembro de 2011 – Benfica: prognóstico acertado
Hoje fiz um prognóstico acertado. Quando me diziam que o Benfica não ganharia fora, atirei o prognóstico de 1-0. No fundo, eu queria mais e melhor, mas ganhar é ganhar, e não foi tão mau quanto isso, dadas as circunstâncias. Não estamos a falar (ainda, esperamos nós) daquele futebol espectáculo, de que todos os benfiquistas têm saudades, mas já não está tão mau como esteve. Acima de tudo, o que interessa é o prognóstico que, no final do jogo, estava correcto.
26 de Setembro de 2011 – Merkel, a soberana
Angela Merkel vai somando derrotas internas, ao mesmo tempo que dispara para o exterior. As suas afirmações de hoje fazem lembrar uma espécie de reedição das loucuras de Hitler, quando, no seu «bunker», já tinha perdido a guerra, apesar de achar que ainda podia ter um golpe de génio para dominar o mundo. A Alemanha está disponível para ajudar os pobres da Europa, mas, como contrapartida, sugere que estes abdiquem de parte da sua soberania. Merkel faz um discurso para fora que é suposto ser escutado dentro. Está, no fundo, a tentar minorar os rombos no casco de um navio que já vem naufragando há bastante tempo, usando, para isso, a ameaça aos pobres. E nós, como andamos de mão estendida, temos de ouvir e calar. Fazendo de conta que não ouvimos. Sem poder dizer que «o rei vai nu». Bajulando a soberana. Até quando?
25 de Setembro de 2011 – Feira das Colheitas, «day four»
Chegou ao fim mais uma edição da Feira das Colheitas. Haverá quem diga que foi a melhor edição de sempre. Haverá quem diga que não. Haverá quem ache que há coisas a melhorar. Haverá quem não goste do rumo que o certame está a tomar. Haverá de tudo. Mas terminou. Foram dias de intenso trabalho, que começaram muito antes de quinta-feira passada. Terminou. Para o ano haverá mais.
24 de Setembro de 2011 – Feira das Colheitas, «day three»
Esta é a melhor imagem do dia de hoje, embora não seja grande coisa. É como que o símbolo do final de um ciclo, a sensação de que a parte mais exigente já passou. Amanhã é o último dia, o dia do folclore, o dia das tradições, dos açafates, do cortejo em que as freguesias e os ranchos folclóricos mostram que ainda temos uma identidade viva, mesmo que em crise, mesmo que com sacrifício. Estamos ali, ao ponto de termos um dia inteiro dedicado a isso, com uma vila repleta de gente. Amanhã termina, até voltar a acontecer. Talvez ainda com mais pujança que este ano.
23 de Setembro de 2011 – Feira das Colheitas, «day two»
Embora ligeiramente mais tarde, o dia de hoje voltou a começar com a RTP. Gravações para o «Portugal em Directo», com enfoque na revitalização da tradição ligada à broa de milho. Seguem-se os produtos do campo, e uma breve nota sobre o que é o certame. À tarde, enquanto alguns se divertem com os jogos tradicionais, decorrem os concursos de broa e de vinho verde. À noite, baile à moda antiga, na cerca do Mosteiro (bem concorrido, por sinal), «Pé na Terra» e «Reativa» fecham a programação do dia. Entretanto, várias voltas aos recintos para algumas imagens. As pernas começam a ganhar mais quilometragem.
















