Vasco Graça Moura, coerente como sempre foi, decidiu que o Centro Cultural de Belém (CCB) não vai continuar a usar a aberração ortográfica. As indicações são, inclusive, para que se desinstalem todas as aplicações informáticas que possam convidar à conversão para essa nova língua. Questiona-se a legalidade de tal acto de coragem, porque o anterior Governo tinha deixado indicações para que o (des)acordo fosse adoptado pelos organismos do Estado. Só que o CCB não é propriamente um organismo do Estado, mas uma instituição de direito privado. Graça Moura ainda tem esperança que os golpes do assassino à língua portuguesa não a matem. Eu também.
2 de Fevereiro de 2012 – Ferreira Leite, dentro e fora do contexto
Há dias, Manuela Ferreira Leite foi notícia porque, percebeu-se depois, alguém lhe retirou as afirmações do contexto. De qualquer forma, o conteúdo não era muito simpático, mas adiante. Desta vez, dentro ou fora do contexto, pouco importa. O que diz é certeiro como uma flecha saída da mão de William Tell. Os funcionários públicos, aparentemente, ainda não se deram conta de que estão a trabalhar para uma empresa falida. Nem o povo português, tão pouco. Faz lembrar uma manta curta, quando está frio. Tapa-se de um lado, destapa-se do outro. Não podemos querer que tudo funcione bem e possa ser gratuito, quando quem nos deve assegurar esses serviços está falido. E o desafio a estes profissionais que estejam menos satisfeitos, por muito cru, arrogante e provocador que seja, pode sempre ser feito. Há sempre o mercado privado, onde podem mostrar o que valem.
«[Os] funcionários públicos são as pessoas com a pouca sorte de trabalhar numa empresa falida».
«Queremos um sistema [público gratuito], mas, em compensação, não temos dinheiro para termos um sistema gratuito e com boa qualidade».
«Ser gratuito e mau só prejudica as pessoas com recursos mais baixos».
(Manuela Ferreira Leite, em declarações ao Jornal de Negócios)
1 de Fevereiro de 2012 – Futebol é política?
O Egipto viveu, recentemente, a chamada «Primavera Árabe», mas nem por isso deixou de demonstrar sintomas de um Estado falhado. Se o controlo sobre as multidões já tinha sido complicado durante as (legítimas) manifestações populares a favor da democracia, o que aconteceu, agora, num estádio de futebol, prova exactamente a falência do Estado. A notícia abriu telejornais, pela proximidade com que Manuel José, treinador português do «Al-Ahly», viveu os acontecimentos. As imagens mostraram-nos, mais do que uma batalha campal, uma autêntica guerra, com toda a inexplicabilidade que uma guerra civil tem. A polícia, diz-se, não agiu, ou preferiu a passividade. Os hospitais, como seria de se esperar, não estavam preparados para uma coisa destas. Pelo que diz Manuel José, antes do início do jogo já havia uma enorme faixa com letras bem legíveis exortando ao massacre. Port Said foi o palco de uma tragédia sem guião. Onde política e futebol se misturaram de uma forma inexplicável, e de cuja única imagem que fica é a das mais de 70 pessoas que perderam a vida, e das muitas outras que ficaram com marcas do que aconteceu. Não é isto a imagem mais nítida de um Estado falhado?
31 de Janeiro de 2012 – O que eu escrevi a 31 de Janeiro de 2007
Deixa-me relembrar o teu sorriso
De olhos fechados, volto a ouvir o marulhar ao longe. Um movimento perpétuo. Um vai e vem de espuma, que me traz de novo à memória o teu sorriso. Deixa-me relembrar o teu sorriso. Cada segundo do movimento dos teus lábios a rasgarem o teu rosto com as cores do teu sorriso. Como o barulho que vai da onda à espuma. Como se estivesse do lado de dentro do mar. E olho-te, eternamente, infinitamente, como da primeira vez. Vejo-te de novo. Escuto de novo a tua voz quente, como da primeira vez. Volto a ver-te, de olhos fechados. E sempre o teu sorriso. O teu olhar de menina, enquanto a tua mão volta a ficar com a palma encostada ao meu rosto. Eu continuo aqui, a olhar o mar, ao longe. Vou sorrindo, cada vez que voltas, guardando cada momento desses nesta arca do tesouro que guardo aqui. Tenho ali a lua, um resto de terra, que acaba ali em baixo, onde a espuma vai e vem, com a duração do teu sorriso, o mar a toda a volta, como som de um respirar. De olhos fechados, volto a ouvir o marulhar ao longe. Um movimento perpétuo. Um vai e vem de espuma, que me traz de novo à memória o teu sorriso. Como se estivesse do lado de dentro do mar. O teu sorriso. Deixa-me relembrar o teu sorriso…
30 de Janeiro de 2012 – O texto de Canavilhas pareceu-me ridículo
Passei os olhos, transversalmente, por um artigo de opinião de Gabriela Canavilhas, no Diário de Notícias, e, de imediato, soou-me a ridículo. Desde logo, pela temática. Tem-se debatido muito, especialmente nas redes sociais, as ideias que certos «lobbies» têm defendido sob a pretensa vontade de defender os direitos de propriedade intelectual dos autores. É interessante que uma intérprete se preocupe tanto com os autores, quando talvez nunca tenha sentido realmente a dificuldade que é criar a sério. Mas adiante. A polémica merece que pensemos um bocadinho sobre as consequências que isto pode ter, sobretudo em termos de taxas, porque é a cópia privada (aquela que fazemos do material que compramos, para o preservar) que está em causa, e não a pirataria. Agora, o que é mesmo, mas mesmo, ridículo, é que Gabriela Canavilhas escreva «de acordo com a antiga ortografia». Uma defensora deste novo português imposto, o principal rosto desta vergonha a que se convencionou chamar «acordo ortográfico», afinal não o usa. Isso também parece ligeiramente ridículo.
29 de Janeiro de 2012 – António Pinho Vargas, no «Expresso»
Às vezes é bom vermos as coisas de outro ponto de vista. Sobretudo do ponto de vista de quem tem génio criador. António Pinho Vargas é um desses, e aparece em entrevista à «Revista» do jornal «Expresso» desta semana. Navegando entre um registo próximo do «velho do Restelo» e a razão prática, ficam muitas pistas para reflexão. Como por que razão os compositores portugueses passam um ano inteiro a desenvolver uma obra que se esgota num concerto único. Como por que razão se festeja o Fado Património Imaterial, quando há mais música que também o é. Como por que razão a música contemporânea continua a ser complicada. Mais do que as respostas às perguntas, António Pinho Vargas deixa, nas respostas, perguntas a que não responde. Para que, talvez, respondamos nós.
28 de Janeiro de 2012 – Janeiras no Burgo
Hoje, o Orfeão de Arouca esteve no Burgo, para mais um encontro de cantadores de Janeiras. A tradição pode já não ser bem o que era, mas o que parece é que se não fossem estes encontros, já não haveria tradição de todo, nem sequer um imaginário. Pode já não sentir-se o frio das noites de Janeiro, nem o luar, nem as portas a abrirem-se (ou não), nem as mesas fartas, nem os sorrisos de convívio. Mas há uma chama, por pequena que seja, que persiste. Para que estas coisas não fiquem só nas histórias que iremos contar, um dia, sem ter nada que prove que eram verdadeiras. Para não corrermos o risco de não acreditarem em nós.
27 de Janeiro de 2012 – O que se pode fazer com uma licenciatura em Música
É uma das questões que normalmente se faz a quem estuda música: para que é que serve a licenciatura? Isto quando não perguntam aos músicos o que é que realmente fazem para viver, porque «músico» não rima com «profissão». Há um gráfico, que circula pela internet, que explica, «cientificamente», o que é que se pode fazer com o «canudo». Podemos ensinar um pouco, tocar menos um pouco, compor residualmente, e, basicamente, morrer na pobreza. O grande desafio, portanto, vai ser explorar muito bem essa pequena percentagem que consiste nisso tudo, que não o «morrer na pobreza», e rentabilizar ao máximo. Para que, depois de morrer na pobreza, se possa deixar qualquer coisa para que nos reconheçam. É o que costuma acontecer aos artistas.
26 de Janeiro de 2012 – Última sessão de gravações
Depois de quatro horas intensas, terminou. Foi duro, a certo ponto. Parecia que não ia acabar. Parecia que o tempo era pouco, e estava a fugir. Mas terminámos. A «saga» chegou ao fim. Terminámos as captações áudio para o cd do Orfeão de Arouca. Agora, virá o trabalho de mistura e masterização, e, em breve, chegará o produto final. O carinho e o empenho que foram colocados neste projecto, desde a sua concepção até ao produto final, foram postos, na dose certa, para poder surpreender. Haverá surpresas. Mas essas, ficam para depois.
25 de Janeiro de 2012 – Síntese entre dois grandes homens
Honrar a memória dos que nos antecedem é algo que nem sempre temos estatura suficiente para alcançar. Carregar sobrenomes, sem uma estrutura moral que os apoie, somado a actos pouco recomendáveis, redunda, cedo ou tarde, no desmascarar de uma identidade vazia ou até mesmo rasteira. Olhar com humildade para o legado de quem nos precede, com absoluto respeito pela postura perante a vida, pelas obras realizadas, pela gente que serviram com essa mesma humildade e disponibilidade, é outra coisa. Por isso, aprendi com o bisavô António Almeida Brandão a exercer o dever cívico de lutar contra as dificuldades para que, mesmo que em pequena escala, possamos melhorar um bocadinho isto a que chamamos mundo em que vivemos. Com o bisavô Ângelo Pereira de Miranda, a disponibilidade para, a qualquer hora, lutar pela justiça. Sem esquecer que, contra vaidosos e interesseiros (acrescentaria idiotas) não vale a pena gastar qualquer chumbo.
«Nunca fiz, nem quero que alguém faça outro conceito de mim, neste particular, a não ser o de um homem que trabalhou, quanto lhe foi possível, pelo progresso da sua terra, tendo em vista os limitados meios de que então dispunha e a precariedade das circunstâncias. E quem assim procede, apenas cumpre o seu dever. Dever que é mesmo uma obrigação, a que cada um, como membro da sociedade a que pertence, está sujeito».
(António de Almeida Brandão, «Memórias»)
«Há só duas classes de indivíduos que não me merecem consideração: os vaidosos e os interesseiros. Nenhum deles hesita em sacrificar os seus irmãos para satisfazer a sua vaidade humilhada ou os seus interesses lesados. A eles o meu desprezo!»
(Dr. Ângelo Pereira de Miranda, a 4 de Novembro de 1911, no n.º 1 da «Gazeta de Arouca»)