13 de Fevereiro de 2012 – O dia da Rádio

Pela primeira vez, hoje é Dia Mundial da Rádio. A iniciativa é da UNESCO, e serve para reflectir sobre o papel que este meio de comunicação desempenhou, desempenha e poderá desempenhar na nossa vida de todos os dias. A Rádio esteve presente na guerra colonial, como arma de propaganda. A Rádio esteve presente no 25 de Abril, como meio de fazer passar a mensagem. A Rádio está sempre presente nos momentos de glória do futebol, através dos relatos. A Rádio está presente nos automóveis, fazendo-nos companhia nas viagens. A Rádio sempre esteve presente nas minhas noites e nos meus momentos de pausa. A Rádio acabou até por se cruzar comigo no percurso profissional da forma mais inesperada possível, ensinando-me muito mais em poucas semanas do que um percurso académico. Hoje é o dia da Rádio. Já sem a magia de «Radio Days» de Woody Allen. Mas com o desafio dos novos «media», a que a Rádio tem sabido responder à altura.

12 de Fevereiro de 2012 – Fernando Pessoa, Plural como o Universo

Foto: Márcia Lessa

«Fernando Pessoa, Plural como o Universo» é o título de uma exposição que o jornal «Expresso» se encarregou de me incentivar a ver, talvez aproveitando a curta estadia em Lisboa, em trabalho, em breve. A Fundação Gulbenkian promete-nos um espaço cheio de palavras, em poemas e textos, documentos e imagens, que nos abre a porta para um universo único de um escritor único. A exposição pretende ser sensorial, e a esse desafio apetece responder com um tremendo sim. Sim, tentar ficar mais próximo de Pessoa, o poeta que é fingidor, que é múltiplo, mas único. Tão único, que nunca nenhum outro se assemelhou a ele. Nem antes, nem depois dele.

11 de Fevereiro de 2012 – «Histórias contadas, memórias preservadas: o volfrâmio»

Um território faz-se também das suas memórias. Das memórias que preserva e projecta no futuro, através das histórias contadas, recolhidas junto de quem as viveu na carne e no espírito, e que é, hoje, parte da história. Uma história que nos apresenta alemães e ingleses em conflito bélico na Europa, quando, entre Rio de Frades e Regoufe conviviam pacificamente, partilhando, inclusive, uma mesma estrada. Unia-os, nessa altura, um objectivo comum: o volfrâmio, o «ouro negro», que, para uns, significava o reforço do poder militar, para outros, uma forma de enriquecer. Rio de Frades e Regoufe são testemunhos vivos desse imaginário, que ficou latente em outros locais do concelho, como, por exemplo, Alvarenga. Porque a Europa estava em guerra, a segunda, não muitas décadas depois de um conflito de dimensões mundiais, e apesar do Portugal de Salazar manifestar neutralidade (que permitiu esta presença dupla em terras de Arouca), os géneros alimentares eram escassos e racionados, e até o milho, os fertilizantes e as sementes eram contados. A única resposta a estas dificuldades parecia ser o «ouro negro», que fazia chegar a Arouca um largo número de pessoas, à procura de riqueza fácil, não importando se era preciso contrabandear, pilhar ou o que fosse. Mas houve também quem se entregasse ao trabalho «legal», esforçado, árduo, penoso. E houve, sobretudo, quem visse e vivesse. Quem tenha esses tempos ainda à flor da pele. São alguns desses testemunhos que aqui se reúnem, num contributo para a preservação desse passado que é uma marca indelével da nossa identidade, que é nossa função dar a conhecer.

A exposição «Histórias contadas, memórias preservadas: o volfrâmio» pode ser visitada no Museu Municipal de Arouca, até 25 de Março, de terça-feira a domingo, das 09:00 às 12:30 e das 14:00 às 17:30.

10 de Fevereiro de 2012 – Baltazar Garzon: Condenou-se o justo?

De repente, a justiça, essa entidade alegadamente cega e independente, imparcial e ponderada, condenou um dos seus. Baltazar Garzón, que conseguiu condenar Augusto Pinochet, e que sempre foi um símbolo da justiça, não poderá voltar a ser juiz durante mais 11 anos (está impedido de exercer desde 2010), porque quis defender as vítimas do franquismo e porque quis investigar crimes corrupção de políticos do seu país. A justiça acha que o juiz abusou do seu poder de julgar. Talvez o desaparecimento de 114 mil pessoas, durante a ditadura e a guerra civil não mereça qualquer julgamento. Como talvez outros ditadores não devessem ter sido condenados. Como talvez os corruptos devam ser mantidos corruptos. Não se pode, aparentemente, ser justo. Corre-se o risco de se ser justo demais. E talvez isso seja crime.

«Tomei essas decisões porque considerei que eram as mais apropriadas, [guiado] pela defesa e pelo amparo às vítimas que são, neste tipo de crimes, o elemento principal que todo o juiz deve defender. (…) A minha consciência está tranquila».

(Baltasar Garzón, em sua defesa, perante o Tribunal)

9 de Fevereiro de 2012 – Portugal e Alemanha, em privado

Aparentemente, era uma conversa privada, mas a comunicação social tem destas coisas, e depressa se tornou pública. Os Ministros das Finanças de Portugal e Alemanha estavam a conversar amenamente, quando um microfone e uma câmara de filmar, estrategicamente colocados, conseguiram captar que o que estava a acontecer era um princípio de negociação para flexibilizar as condições do programa de assistência financeira. Ficou patente que todo o aparato da estrutura europeia é apenas isso: aparato. As coisas podem resolver-se directamente com quem realmente manda. O país de quem já escrevo há tempo de mais. Coisa que me irrita.

8 de Fevereiro de 2012 – Uma falsa regionalização, uma falsa descentralização, um falso reforço de poder das autarquias

Olhando para trás, hoje verificamos que talvez o não avanço da regionalização tenha sido um erro. Com o passar do tempo, Lisboa foi concentrando o poder de decisão, e fazendo reformas a régua e esquadro, no interior dos gabinetes, olhando para mapas, sem qualquer conhecimento do terreno. Foi assim com o encerramento das escolas, com a reorganização dos serviços de saúde, e agora com a justiça. O país foi sendo, progressivamente, «litoralizado» e «macrocefalizado» em Lisboa. Entretanto, como se chegou à brilhante conclusão de que o Estado faliu, lançou-se uma operação de reforma administrativa, que a opinião pública apenas conhece pela reorganização e extinção de freguesias, porque pouco (ou nunca) se falou de reorganização ou extinção de outros organismos do Estado. Agora, lê-se a notícia de que o Governo quer reforçar o «inter-municipalismo», como forma de rentabilizar recursos financeiros. A ideia será reforçar as competências das comunidades inter-municipais e das áreas metropolitanas. Segundo se sabe, a ideia passará por uma espécie de descentralização de competências do Estado para a administração local, por um lado, mas também o assumir de algumas competências municipais para um nível superior. Mais uma vez, tudo isto soa a falso. O peso político (e não falemos, sequer, no aspecto técnico) destas comunidades e áreas metropolitanas é praticamente nulo, e, na prática, tem servido para praticar uma certa rotatividade de «boys», que vivem à sobra dos seus salários principescos e do trabalho dos técnicos que exploram, limitando-se a visitar as instalações onde trabalham e a estacionar o carro de alta cilindrada no lugar reservado quando lhes apetece.

7 de Fevereiro de 2012 – Merkel e a Madeira

A Alemanha continua a povoar as nossas notícias, desta vez com uma referência directa a um «mau exemplo» português: a Madeira. Segundo a «Chanceler da Europa», a Madeira é um exemplo do que não deve acontecer com os fundos comunitários, que devem ser utilizados para aumentar a competitividade, e não para estradas ou túneis. Depois continuou com a sua «pregação» habitual, de que os Estados têm de transferir mais soberania para Bruxelas, a criação de um governo europeu e outras coisas a que já nos habituámos. Não falou em outras manobras de reajustamento de verbas comunitárias, como o que acontece com Lisboa, que reafecta verbas destinadas a outras regiões, a quem esse dinheiro realmente faria falta. «Bater em quem já está no chão», e torná-lo exemplo, é talvez mais fácil do que atalhar o problema ou ser-se inteligente.

«Quem já esteve na Madeira, deve ter ficado convencido que os fundos estruturais europeus foram bem aplicados na construção de muitos túneis e autoestradas, mas isso não conduziu a que haja mais competitividade».

(Angela Merkel, numa palestra, na Bela Foundation, em Berlim)

6 de Fevereiro de 2012 – Para a Alemanha, e em força

Se dúvidas havia de que a Alemanha é, para o melhor e para o pior, o «motor» da Europa, com todas as consequências que isso traz, a notícia que hoje corre pelos «media» europeus confirma-o. A cidade de Schwäbisch Hall, perto de Estugarda, tem para oferecer cerca de 3.000 empregos, com um salário médio de 2.700 euros, a quadros qualificados. A escola é gratuita, as despesas com creche podem rondar os 85 euros mensais, a universidade não cobra propinas este semestre e uma casa com dois quartos pode custar cerca de 450 euros de renda mensal. Schwäbisch Hall orgulha-se de ter a trabalhar no seu território algumas das empresas líderes de mercado das áreas em que são especialistas, e talvez por isso já tenha gente de 110 países que ali vivem e trabalham. A Alemanha tem mais de 400 mil empregos disponíveis, o que nos faz pensar se esta não será uma das outras faces da moeda com que nos traíram, quando nos emprestaram dinheiro para sobrevivermos.

5 de Fevereiro de 2012 – Sara

Quando a Sara nasceu, eu ainda não tinha 10 anos bem feitos. A Sara era pequenina, do tamanho da prima mais nova da família. Mais ou menos um ano depois, desafiámos tudo e todos, e acabei por ser padrinho de baptismo da Sara. A Sara continuou sempre pequenina, como se condensasse uma vida muito grande em pouco espaço. O dia já passou, mas conta quando festejamos, e hoje festejamos os 22 anos da Sara. Que, na prática, são mais, porque a vida é sempre mais cheia do que nós. O tempo passou depressa, talvez depressa demais. Apesar de sempre pequenina, a Sara é grande. Grande como a borboleta que deixou de ser bicho da seda. Já só lhe acompanhamos o voo à vista, à espera que as asas tenham sempre a cor que lhes foi dada. E que aterre aqui, sempre que for preciso. Parabéns, «pikena».

4 de Fevereiro de 2012 – (Sem) Carnaval, ninguém leva a mal

O Primeiro-Ministro foi coerente, só pecou no «timing». Sejamos realistas. Numa altura em que se pensa em diminuir o número de feriados, negociação em que a própria Igreja se envolveu. Quando quem trabalha no sector privado tem, muitas vezes, de recorrer a dias de férias, quando há quem possa usufruir de tolerância. Quando estamos a falar de uma tradição que nem sequer é verdadeiramente emblemática ou identitária, a única crítica que pode ser feita a Pedro Passos Coelho é a de quase ter esperado que todos os funcionários saíssem pontualmente dos seus serviços às 17:30, para anunciar que este ano o Carnaval não era feriado. Foi hilariante ouvir os jornalistas dizerem que «a medida está a causar polémica entre os funcionários públicos e na sociedade portuguesa», quando, na realidade, os «desgraçados» nem tiveram sequer tempo de falarem uns com os outros. Era urgente criar essa polémica, e conseguiu-se. O único Carnaval genuinamente português de que me recordo, de repente, é o dos Caretos de Podence, embora possa aceitar que existam mais manifestações. O resto, são importações esquisitas, com as escolas de samba e coisas parecidas. Os municípios onde houver especial interesse económico nas festividades, poderão optar. O que assegura um saudável livre-arbítrio. O resto, se pensarmos bem, ninguém leva a mal.

«Julgo que ninguém perceberia em Portugal, numa altura em que nos estamos a propor acabar com feriados como o 5 de Outubro ou o 1.º de Dezembro ou até feriados religiosos, que o Governo pensasse sequer em dar tolerância de ponto, institucionalizando a partir de agora o Carnaval como um feriado em Portugal».

«O facto de poder haver municípios que têm especiais tradições na comemoração do Carnaval quererem fazer eles próprios a tolerância de ponto a nível local é uma matéria que será decidida por cada município».

(Pedro Passos Coelho, Primeiro-Ministro, em declarações aos jornalistas)