24 de Janeiro de 2012 – Novas censuras, velhos métodos, as mesmas verdades inconvenientes

Por dizer a verdade numa crónica, aos microfones da estação pública de rádio, Pedro Rosa Mendes foi silenciado. Basicamente, o que o jornalista disse foi o que todo o país minimamente letrado pôde constatar. Que o tão badalado «Prós e Contras» emitido desde Luanda, apregoando um «reencontro», foi tudo menos isso. Foi um «flop», uma visão parcial, distorcida e conveniente. Por momentos, esquecemo-nos de que Angola esteve em guerra até há pouco tempo, e que também até há pouco tempo pairava, constantemente, uma nuvem negra sobre os políticos angolanos, e a palavra corrupção não era usada com tanta parcimónia como naquele dia. «Desfilaram, durante duas horas, responsáveis políticos, empresários, comentadores de Portugal e de Angola, entre alguns palhaços ricos e figuras grotescas do folclore local». Foi pouco, muito pouco, para uma televisão que todos nós pagamos. Por tudo isto, e muito mais, Rosa Mendes tinha razão. E, por isso, pelas mesmas verdades inconvenientes de sempre, com base em velhos métodos, foi vítima de uma nova censura. Disfarçada de final de contrato.

«O serviço público de televisão tem estômago para muito, alguns dirão que tem estômago para tudo, mas o reencontro a que assistimos desta vez foi um dos mais nauseantes e grosseiros exercícios de propaganda e mistificação a que alguma vez assisti».

(Pedro Rosa Mendes, na sua última crónica de «Este tempo»)

23 de Janeiro de 2012 – Vender a alma ao diabo

Há várias formas de contar uma história. Ela pode ser contada de um determinado ponto de vista, parcial. Pode ser contada com o coração. Pode ser contada com frieza. E pode ser contada desde o princípio, e com todas as histórias que, como as cerejas, estão juntas a ela. É assim que Thomas Mann conta a história de «Doutor Fausto». A história é, basicamente, a de um músico que vende a alma ao diabo para conseguir terminar a sua obra-prima. Mas é contada desde o princípio, ou seja, desde a primeira altura em que o narrador encontra o protagonista, desfiando a história familiar e desenvolvendo a narrativa de uma forma progressiva. Ainda nas primeiras páginas, ficou a vontade de embarcar nesta viagem, e, aqui e ali, ir vendendo a alma ao diabo. Na esperança de que talvez ele, em troca, possa dar uma qualquer obra-prima.

22 de Janeiro de 2012 – O que às vezes apetece fazer

Uma das coisas piores que nos podem fazer é interromperem-nos um discurso quando estamos, por exemplo, bem no cerne de uma resposta a uma pergunta. Pois bem, isso multiplicado por 10.000 ao quadrado é o que se sente quando se está a fazer música e se é interrompido pelo toque de um telemóvel. O «Mozart Group» já provou que é quase possível fazer-se uma sinfonia com toques de telemóvel. Aqui, o violinista prova, no mesmo patamar de discurso, sem se rebaixar ao «idiotismo» e sem mudar de idioma, explicar, que o que aconteceu não devia ter acontecido. É o que, às vezes, apetece fazer.

21 de Janeiro de 2012 – Encontro de Janeiras de Arouca

O Encontro de Janeiras de Arouca tem quase a minha idade. Vinte e seis anos, a teimar em manter uma tradição que faz parte da nossa forma de viver. Hoje cantámos as Janeiras a uma família, protagonizada pelo Teatro Experimental de Arouca. Foi diferente, foi engraçado, porque fomos nós que tivemos o privilégio de os acordar, depois de terem recebido (e prendado com umas rabanadas com muito bom aspecto) os restantes grupos. Os Pequenos Cantores da Paróquia de Arouca, a Associação Recreativa e Cultural de Santo António (Nelas), o grupo de cantadores de janeiras de Moldes, o grupo de cantares «Os Rabelos do Douro» (Régua) e o Orfeão de Arouca teimaram, mais uma vez, em acordar-nos para esta tradição. Soube bem.

20 de Janeiro de 2012 – Senhor Presidente, eu também me queixo

Senhor Presidente da República:

Diz o povo, e com razão, que com o mal dos outros podemos nós bem. Permita-me, portanto, que, na qualidade de miserável cidadão a que o país (e o seu Estado) cada vez mais me remete, lhe diga, de forma sincera e aberta, que com o seu bem eu posso muito mal. Um homem que tem uma Casa Civil onde grassam assessores, onde o pulsar da Nação é sentido ao segundo, e antes mesmo de acontecer, não pode dizer o que o senhor disse. Sobretudo porque, vistas bem as coisas, é uma falácia, para não dizer uma mentira. Não aceito a desculpa de que não disse o que queria dizer, ou que fomos nós que percebemos mal. Lembre-se de que nunca existe uma segunda oportunidade para causar uma boa impressão, e que há verdades (ou mentiras) que é melhor nós nem sequer pensarmos que sabemos, sob pena de cairmos na tentação de as dizermos alto.

O senhor diz que é muito difícil viver com 1300 euros mensais, e eu concordo, porque sei como é. Imagine, agora, quem não tem contrato de trabalho, e tem de, a menos do que isso, tirar dinheiro para dar à Segurança Social (quase 300 euros), à DGCI (mais de 300 euros), à Universidade (cerca de 100 euros), às ex-SCUT (mais de 30 euros), para um empréstimo automóvel (cerca de 300 euros), e poderíamos continuar. Mas, claro, eu não sou Presidente de todos os portugueses, e não tenho responsabilidades ao mais alto nível. Contudo, senhor Presidente, o que se diz por aí é que, a esses seus 1300 euros, temos de acrescentar a sua pensão do Banco de Portugal, que deve andar entre os 4000 e os 6000 euros por mês, o que nos leva a discussão para outros patamares.

Permita-me, ainda, que lhe diga que não vai ser, agora, com um perímetro de segurança mais alargado, que empurre os jornalistas para fora da «área vital», permitindo-lhe continuar com sorrisos e acenos de «Mona Lisa», que nós portugueses vamos mudar de opinião. Desengane-se. Vai haver quem ironize, muitos até talvez comecem uma colecta, outros vão pedir-lhe que saia. Por mim, tanto faz. Faça como entender, desde que reconheça que não lhe correu bem a tirada. E, quanto ao resto, saiba que me queixo, com um diferencial de cerca de 6000 euros. Bem sei, dou-me a certos luxos. Sou, por certo, um extravagante, por sonhar mais do que o que o meu país me permite. Mas fique ciente de uma coisa, senhor Presidente, é por causa destas coisas, de termos sempre um país mais pequenino do que nós mesmos, graças a tiradas como as suas e a políticos desses, que o que fazíamos mesmo bem era obedecer ao «super-Ministro» Relvas, e emigrarmos para bem longe.

Aceite um cumprimento cordial, claro, à distância de segurança.

19 de Janeiro de 2012 – Fazer um golpe de estado a si próprio

Ler as declarações de Otelo Saraiva de Carvalho, e relembrar os ditos de outros Otelos Saraivas de Caravalhos que por aí grassam, não pode ser senão hilariante. Colecciona-se um vocabulário, que não precisa de ser muito abrangente, junta-se os argumentos do costume, com as palavras certas, e faz-se um brilharete de reflexão política. Se a cada frase se intercalar «o povo», com «os interesses do capital», a «subordinação a novas formas de ditadura», e termos utilizados de forma avulsa, como «a liberdade», «os militares como último bastião», e as habituais muletas «pá» e «portanto», e temos um corpo de conceitos perfeito. Ou isto, ou considerandos semióticos, dá no mesmo. Fundamenta-se a opinião com algumas destas «peças», habituais neste tipo de «puzzles», e eis-nos verdadeiros sábios. Mesmo que falte tudo o que fundamente e estruture, ética e moralmente, estes «people instigators», o que conta é o «soudbyte». Portugal é um país de leis e legisladores, onde facilmente nos tornamos juízes. Todos sabemos disso. Mas talvez se devesse acrescentar uma outra lei. A de que quem instigue a hipotéticos golpes de Estado, tenha de comprovar que, previamente, fez um golpe de estado a si próprio. Porque de gente desta, «autofágica», não devemos precisar.

18 de Janeiro de 2012 – A TSF na Camarc

Hoje revi, finalmente, o meu amigo Rui Tukayana. O Rui é jornalista na TSF, e veio a Arouca dar a conhecer a Camarc, uma empresa que, apesar de trabalhar discretamente, exporta a maior quota da sua produção para grandes marcas francesas, algumas delas absolutamente desconhecidas de quem não frequente a «alta roda». Amanhã, nas ondas hertzianas da TSF, a Camarc vai ser dada a conhecer a quem quiser ouvir. Ao Rui, tive a oportunidade de dar o abraço atrasado desde há alguns anos, com a esperança de o poder ver por cá em breve, novamente. Ao outro Rui, «Gato», o reconhecimento pelo trabalho desenvolvido pela Camarc, que, esperamos, chegue a todo o mundo, amanhã pela manhã, no «Made in Portugal».

17 de Janeiro de 2012 – «Black Fear»

«Black fear» foi, na adolescência, e contrariamente ao que a expressão possa querer fazer pensar, sinónimo de libertação, descoberta, amizade e, sobretudo, música. Lembro um período da vida que passou mais ou menos a correr, graças a umas fotografias antigas que o meu amigo de longa data André Pimentel, que há muito não vejo, deu a conhecer no «facebook». É verdade, eu já fui assim. Quase paradoxalmente pequenino e cabeludo, com muito pouco tempo de intervalo. Já várias vezes tinha pensado que esta fase estava mais ou menos apagada das memórias. Sobretudo sem muitas fotografias que ajudem a lembrar «as figuras». Pois bem, elas aí estão. De um tempo em que ninguém esperaria que surgisse uma banda de «rock» na escola. De um tempo em que nem eu esperaria fazer parte de um grupo de amigos onde todos eram mais velhos vários anos. De peripécias que só naquele tempo, naqueles lugares e com aquelas pessoas era possível acontecerem. Obrigado André, por ressuscitares uma parte desta vida. Aparece.

16 de Janeiro de 2012 – Intervalo, para Carlos Paião

«Intervalo» é o título da biografia de Carlos Paião, recentemente lançada por Nuno Gonçalves da Paula. A «chegada» deste livro fez com que, de facto, se fizesse um intervalo, para que possa voltar a recordar um dos mais notáveis compositores e letristas da música portuguesa. Paião conseguiu fazer música de uma forma absolutamente voraz, e até um miúdo de oito anos era capaz de trautear as melodias, que se entranham em nós de uma forma mágica. Como os que não são daqui, passou por cá talvez depressa demais. A forma rápida, abrupta, estranha como desapareceu marcou quem gostava de o ouvir, quem se deixava enredar pelas suas palavras, sempre certeiras e, acima de tudo, musicais, quando era assim mesmo que elas tinham de ser. Fica a música, ficam as palavras, o que, de facto, era para si o mais importante. E, se assim era, é o que é mais importante para nós também.

15 de Janeiro de 2012 – Costa Concordia

É irónico que a concórdia naufrague tão perto da costa. Talvez porque o peso e o tamanho sejam tão grandes, que tornem a concórdia tão difícil de desviar de «pequenos» rochedos. É irónico, também, como é que pequenos rochedos podem fazer naufragar um «Titanic». Um cruzeiro é algo que faz, certamente, parte do imaginário de muita gente, desde «The Love Boat», e porque as paragens destas viagens a bordo de autênticas cidades flutuantes são sempre convidativas. Mas um pequeno rochedo fazer naufragar um barco enorme, tão perto de terra, é irónico, é inexplicável, é quase estupidificante. É uma fonte de notícias, para, dia a dia, vermos o que pode acontecer a Portugal, se, numa manobra de charme, nos desviarmos muito da rota e nos aproximarmos exageradamente de «pequenos» rochedos.