Por dizer a verdade numa crónica, aos microfones da estação pública de rádio, Pedro Rosa Mendes foi silenciado. Basicamente, o que o jornalista disse foi o que todo o país minimamente letrado pôde constatar. Que o tão badalado «Prós e Contras» emitido desde Luanda, apregoando um «reencontro», foi tudo menos isso. Foi um «flop», uma visão parcial, distorcida e conveniente. Por momentos, esquecemo-nos de que Angola esteve em guerra até há pouco tempo, e que também até há pouco tempo pairava, constantemente, uma nuvem negra sobre os políticos angolanos, e a palavra corrupção não era usada com tanta parcimónia como naquele dia. «Desfilaram, durante duas horas, responsáveis políticos, empresários, comentadores de Portugal e de Angola, entre alguns palhaços ricos e figuras grotescas do folclore local». Foi pouco, muito pouco, para uma televisão que todos nós pagamos. Por tudo isto, e muito mais, Rosa Mendes tinha razão. E, por isso, pelas mesmas verdades inconvenientes de sempre, com base em velhos métodos, foi vítima de uma nova censura. Disfarçada de final de contrato.
«O serviço público de televisão tem estômago para muito, alguns dirão que tem estômago para tudo, mas o reencontro a que assistimos desta vez foi um dos mais nauseantes e grosseiros exercícios de propaganda e mistificação a que alguma vez assisti».
(Pedro Rosa Mendes, na sua última crónica de «Este tempo»)
Há várias formas de contar uma história. Ela pode ser contada de um determinado ponto de vista, parcial. Pode ser contada com o coração. Pode ser contada com frieza. E pode ser contada desde o princípio, e com todas as histórias que, como as cerejas, estão juntas a ela. É assim que Thomas Mann conta a história de «Doutor Fausto». A história é, basicamente, a de um músico que vende a alma ao diabo para conseguir terminar a sua obra-prima. Mas é contada desde o princípio, ou seja, desde a primeira altura em que o narrador encontra o protagonista, desfiando a história familiar e desenvolvendo a narrativa de uma forma progressiva. Ainda nas primeiras páginas, ficou a vontade de embarcar nesta viagem, e, aqui e ali, ir vendendo a alma ao diabo. Na esperança de que talvez ele, em troca, possa dar uma qualquer obra-prima.




Senhor Presidente da República:
Ler as declarações de Otelo Saraiva de Carvalho, e relembrar os ditos de outros Otelos Saraivas de Caravalhos que por aí grassam, não pode ser senão hilariante. Colecciona-se um vocabulário, que não precisa de ser muito abrangente, junta-se os argumentos do costume, com as palavras certas, e faz-se um brilharete de reflexão política. Se a cada frase se intercalar «o povo», com «os interesses do capital», a «subordinação a novas formas de ditadura», e termos utilizados de forma avulsa, como «a liberdade», «os militares como último bastião», e as habituais muletas «pá» e «portanto», e temos um corpo de conceitos perfeito. Ou isto, ou considerandos semióticos, dá no mesmo. Fundamenta-se a opinião com algumas destas «peças», habituais neste tipo de «puzzles», e eis-nos verdadeiros sábios. Mesmo que falte tudo o que fundamente e estruture, ética e moralmente, estes «people instigators», o que conta é o «soudbyte». Portugal é um país de leis e legisladores, onde facilmente nos tornamos juízes. Todos sabemos disso. Mas talvez se devesse acrescentar uma outra lei. A de que quem instigue a hipotéticos golpes de Estado, tenha de comprovar que, previamente, fez um golpe de estado a si próprio. Porque de gente desta, «autofágica», não devemos precisar.
Hoje revi, finalmente, o meu amigo Rui Tukayana. O Rui é jornalista na TSF, e veio a Arouca dar a conhecer a Camarc, uma empresa que, apesar de trabalhar discretamente, exporta a maior quota da sua produção para grandes marcas francesas, algumas delas absolutamente desconhecidas de quem não frequente a «alta roda». Amanhã, nas ondas hertzianas da TSF, a Camarc vai ser dada a conhecer a quem quiser ouvir. Ao Rui, tive a oportunidade de dar o abraço atrasado desde há alguns anos, com a esperança de o poder ver por cá em breve, novamente. Ao outro Rui, «Gato», o reconhecimento pelo trabalho desenvolvido pela Camarc, que, esperamos, chegue a todo o mundo, amanhã pela manhã, no «Made in Portugal».

«Intervalo» é o título da biografia de Carlos Paião, recentemente lançada por Nuno Gonçalves da Paula. A «chegada» deste livro fez com que, de facto, se fizesse um intervalo, para que possa voltar a recordar um dos mais notáveis compositores e letristas da música portuguesa. Paião conseguiu fazer música de uma forma absolutamente voraz, e até um miúdo de oito anos era capaz de trautear as melodias, que se entranham em nós de uma forma mágica. Como os que não são daqui, passou por cá talvez depressa demais. A forma rápida, abrupta, estranha como desapareceu marcou quem gostava de o ouvir, quem se deixava enredar pelas suas palavras, sempre certeiras e, acima de tudo, musicais, quando era assim mesmo que elas tinham de ser. Fica a música, ficam as palavras, o que, de facto, era para si o mais importante. E, se assim era, é o que é mais importante para nós também.
É irónico que a concórdia naufrague tão perto da costa. Talvez porque o peso e o tamanho sejam tão grandes, que tornem a concórdia tão difícil de desviar de «pequenos» rochedos. É irónico, também, como é que pequenos rochedos podem fazer naufragar um «Titanic». Um cruzeiro é algo que faz, certamente, parte do imaginário de muita gente, desde «The Love Boat», e porque as paragens destas viagens a bordo de autênticas cidades flutuantes são sempre convidativas. Mas um pequeno rochedo fazer naufragar um barco enorme, tão perto de terra, é irónico, é inexplicável, é quase estupidificante. É uma fonte de notícias, para, dia a dia, vermos o que pode acontecer a Portugal, se, numa manobra de charme, nos desviarmos muito da rota e nos aproximarmos exageradamente de «pequenos» rochedos.