Os versos são da «Praia das Lágrimas», de Carlos Tê, que Rui Veloso musicou. Uma espécie de «Mensagem» pessoana actualizada. Mas não vamos tão longe. Não terá sido «de chorar tanto». Talvez tenha sido do «peso» da água espanhola. O que é certo é que «importei» uma dor renal, que está a dar-me que fazer. Deve haver uma simbologia qualquer, talvez haja qualquer coisa de mau que não quer sair de dentro de mim. Ou talvez tenha de a expulsar lentamente. Seja o que for, há-de passar. Até lá, deixa-se o sistema trabalhar, e encarregar-se de se auto-equilibrar. Entretanto, sintonizo a RTP 2, aproveitando os últimos momentos, para assistir ao concerto dos 6 órgãos de Mafra.
25 de Agosto de 2012 – Padre Leonardo Pawlak
Sem nos darmos conta, simpatia e empatia funcionaram juntas. O sol do início da tarde levou-nos até Albergaria-a-Velha, onde tivemos a grata surpresa de conhecer o padre Leonardo Pawlak. Um sacerdote missionário polaco, que não só abriu a porta da sua igreja, como também, surpreendentemente, do seu coração. O padre Leonardo demonstrou que a língua não é obstáculo ao anúncio da Boa Nova. Aliás, curiosamente até torna esse anúncio mais genuíno, mais simples de entender, talvez porque muitas vezes é feito mais por obras, por gestos, do que por palavras. Sem grandes discursos, o padre Leonardo explicou o que pode (e deve ser) a missão. Basicamente, no equilíbrio entre simpatia e empatia. Estar no sentir do outro é o grande desafio, a que nem sempre sabemos responder afirmativamente.
24 de Agosto de 2012 – Crítica do concerto, no Diário de Ávila
Lemos, ainda ontem, a primeira crítica publicada ao concerto de abertura do Festival Abulensis. De algum modo, o texto leva-nos um pouco além do imenso carinho que sentimos no final do concerto. Pareceu, de facto, que o início foi promissor. Mas os músicos têm esta persistência na busca da perfeição, e parece sempre que podia ter sido melhor. Assim como assim, soube bem lermos um enaltecimento ao profissionalismo e o destaque a alguns aspectos que, de facto, procurámos trabalhar. Quanto ao resto, «felizes os que acreditam sem terem visto».
«El tratamiento de la polifonía a través de un profundo respeto de la prosodia; la afinación y el dominio vocal; la maestría y la versatilidad que demostró el grupo lusitano a la hora de reflejar el carácter y el sentido de cada obra; todo ello, en definitiva, ingredientes que denotan una profesionalidad acorde a los intérpretes para los que esta música en su día fue destinada».
(Verónica Rioja, musicóloga e directora de coros, «Diário de Ávila», 23 de Agosto de 2012)
23 de Agosto de 2012 – Instantâneos de viagem
São como recortes da memória, destes dias passados em terra de património da humanidade. Ávila foi-se descobrindo, foi-se deixando descobrir. Aqui. Terra de Santa Teresa, mas também de Tomas Luis de Victoria. Sentimos que, apesar da distância, estamos perto. Mesmo no tempo. O mesmo tempo que aprisionamos nos retratos, às vezes vorazes, tentando aprisionar a realidade. Sabia bem esvaziar tudo, até ao silêncio. Até à solidão mais profunda. Até a muralha de tudo se fechar sobre nós. Mas, mesmo que fizéssemos isso, havia sempre o sol, lá em cima. Para onde não olhamos, porque demasiado distraídos com o de cá de baixo. Esquecendo que ele, aconteça o que acontecer, está sempre lá. Quanto mais não seja, a dourar a muralha.
22 de Agosto de 2012 – Ávila, dia 3 (o concerto)
O sol amanheceu vigoroso, a chamar-nos depressa à descoberta da cidade. Reflectido na muralha dourada, não foi demasiado inclemente, e permitiu um passeio breve pelos principais pontos de interesse, sorrindo para a fotografia. É hora de manter os sentidos despertos. Chega rapidamente a hora. Como diz um dos motetes que iremos executar, «Quomodo cantabimus canticum Domini in terra aliena?» (Como iremos cantar o cântico do Senhor, em terra estrangeira?) Foi para isto que viemos cá, e a música tem esta espécie de magia perversa, que é a de correr, precisamente, como os rios da Babilónia. Sem voltar atrás.
21 de Agosto de 2012 – Ávila, dia 2
O segundo dia em Ávila foi, essencialmente, um dia de trabalho, mas que acabou da melhor forma possível. Afinal, era a música que nos movia, e a música merece sempre o melhor de nós. Tudo de nós. mas o melhor, como sempre, guarda-se para o fim. O nosso colega e amigo Daniel de la Puente tinha-nos reservado um programa de “descompressão” absolutamente incrível. Um mergulho (na verdade vários, mas metaforizamos todos os outros num só) na piscina, e um jantar principesco. A temperar tudo isto, um salutar convívio, em que, tanto em português como em espanhol, se trocaram anedotas e partilharam inconfidências, sempre sob o olhar ternurento e vigilante de Elma, a (cadela) “guarda” de serviço. Amanhã é o grande dia. E, sabemos, sentimos, tudo está preparado.
Fotos do convívio: João André Carvalho
20 de Agosto de 2012 – Ávila, a chegada
Na Idade Média, viajava-se à procura de alguma coisa que pudesse curar um mal, libertar, fortalecer, dar um sentido. As primeiras rotas tinham muito a ver com a assistência que os santos prestavam aos que junto deles procuravam alento, explicação, soluções. De facto, exceptuando quando o fazemos com um propósito muito directo, viajamos um pouco pelas mesmas razões, embora com formatos diferentes. Procuramos uma paisagem, um monumento, um ambiente que nos faça ganhar distância, objectividade e reflexão sobre nós próprios e o que nos rodeia, para retemperarmos forças e regressarmos mais motivados às nossas próprias lutas. Hoje iniciou-se uma viagem com duplo propósito. O de revigorar forças e o de procurar a melhor música. Somos chegados a Ávila, onde faremos o concerto de abertura do festival internacional “Abulensis”. Andaremos, portanto, por aqui.
19 de Agosto de 2012 – Padre Paulo
A vida é feita de encontros e despedidas, está escrito em muitos lados. Como uma espécie de estação, em que há sempre gente a ir e a vir, a regressar, a partir, enfim. Hoje, foi dia de assinalar essa característica da vida, que a memória não deixa prevalecer. O padre José Paulo Teixeira foi chamado a outras funções, e deixará as suas comunidades serranas de Arouca. Digo serranas sem qualquer desprimor, antes pelo contrário, até porque, como se já não soubesse, o relembrei hoje, ao subir a Albergaria da Serra para a Eucaristia das 8:30. Em dia de festa, o padre Paulo dizia adeus aos seus paroquianos, fazendo um pequeno balanço do (muito) que todos crescemos com a sua passagem por esta estação, mas também abriu o coração para nos demonstrar que não somos todos perfeitos, muito menos porque nos despedimos, com saudade. Há o futuro, e esta fotografia, que encontrei na internet e não perdi tempo em roubar, trouxe-me à memória isso mesmo. Estamos aqui, mas os que estão longe podem estar, em qualquer momento, connosco. Porque os podemos ter connosco sempre que queiramos. Aqui, neste retrato, reencontrei o meu colega de faculdade, padre José Manuel Lima, que muito me marcou também, pelo seu exemplo missionário e pleno de simplicidade. Dois homens de Deus, que nos provam (ou pelo menos a mim) que há um sentido. E esse, é para a frente.
18 de Agosto de 2012 – Espírito empreendedor…
Tenho andado a pensar, com afinco, na possibilidade empreendedora de fornecer algo, um serviço, por exemplo, que faça falta de uma forma generalizada. Entrar no mercado “a matar” é a forma mais certeira de demonstrar espírito empreendedor com consequências válidas. Nesse sentido, a prospecção de mercado não parece ser muito complexa. Há um produto/serviço de que todas as organizações precisam, embora nunca tenham pensado em concessionar ou procurar fora de portas uma solução. Trata-se de um produto, pelo menos aparentemente, com um valor intrínseco alto, e sem o qual muitas organizações parecem não funcionar. Aliás, algumas parecem estar apenas vocacionadas para isso mesmo, e não tanto para o que realmente deveriam produzir. Tenho andado a pensar, e talvez funde uma empresa que forneça reuniões. É demasiado caro produzi-las internamente. Está provado.
17 de Agosto de 2012 – 3, 2, 1… Go
No ultimo dia de trabalho, mesmo no final, é um pouco esta sensação que se tem. A de se querer chegar depressa aos instantes finais, em que, depois de uma espécie de tiro de partida imaginário, podemos desligar das coisas que deixamos no local de trabalho por mais tempo. Chegou a hora de, mesmo que o pensamento não queira, desligar, pelo tempo possivel, dos grilhões da rotina diária. Com mais ou menos trabalho, mais ou menos descanso, aí vamos nós…


































