16 de Agosto de 2012 – Uma quase auto-biografia

Embora já com interrupção anunciada, lanço-me na leitura ávida da quase auto-biografia de Fernando Pessoa, de José Paulo Cavalcanti Filho. Os brasileiros têm esta enorme vantagem sobre nós, que é conseguirem falar de coisas complicadas de uma forma tão genuinamente simples, que todos conseguem entender. Cavalcanti Filho foi reler os milhares de páginas do poeta, revistar e reviver os locais e percursos de Pessoa, foi redescbri-lo na teia do tempo e da cidade que descreveu, habitou, viveu. O livro já me tinha cativado muito antes de o conhecer, ouvindo o autor em entrevista, há algum tempo. Hoje regresso a esse Pessoa por trás do poeta fingidor, ele, vários. Mesmo com interrupções. Para uma nova viagem.

 

Outrora eu era daqui, e hoje regresso estrangeiro. Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim. Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei. Eu reinei no que nunca fui.

(Fernando Pessoa)

15 de Agosto de 2012 – Evite rezar em Ferreiros

O lugar de Ferreiros, na freguesia de Real, Póvoa de Lanhoso, apresentou-se acolhedor, com gente simpática, com um espaço urbano arranjado, e uma igreja onde a funcionalidade e a modernidade estão muito bem equilibradas com um interior antigo e bem conservado. A paisagem minhota é, de resto, convidativa, bucólica, pontuada por belos templos, fazendo jus à sua profunda tradição das festas e romarias, à sua fé, à sua proximidade com a Cidade dos Arcebispos. Tudo muito bom, à excepção daquele que devia ser um homem simpático, acolhedor, mestre, orientador de almas. Se está a pensar viajar e parar em Ferreiros, o melhor conselho que se pode dar é: não reze. Evite a igreja. Ferreiros tem o azar de ter um Pastor absolutamente contrário a tudo o que recomenda enquanto celebra. Todos temos dias maus, compreende-se. Mas daí até não mostrar qualquer simpatia, antes um tremendo desprezo, por toda a gente, vai uma distância como da terra ao céu. Alguém que celebra e proclama um ideal de comunidade, de fraternidade, que exorta ao amar o próximo como a si mesmo, não pode praticar o contrário, apimentado com uma profunda má educação. Pobres ovelhas, com tal Pastor…

14 de Agosto de 2012 – O que a música pode ser

A maioria de nós (senão todos) olhamos para a música como para um cd ou um ficheiro que temos no computador, e reproduzimos quando e como queremos. Prevemos como vai soar, porque conhecemos, e é precisamente no contrariar esta previsibilidade que a música tem de se concentrar. A música pode ser (e é) muito mais do que isso. Ela pode ser interpretada de formas inovadoras e, sobretudo, ensinada enquanto se ouve. Era bom que os músicos se dedicassem a ir mais longe do que a mera interpretação, procurando, antes de mais, a descodificação. Pessoa dizia que a poesia é para comer. Pois bem, a música também pode ser poesia. E pode querer dizer muitas coisas. Que, quando bem ditas, têm muito mais eficácia do que apenas debitadas.

13 de Agosto de 2012 – (Sem) Jogos Olímpicos

Quando os gregos “inventaram” os Jogos Olímpicos, estavam longe de imaginar que se viessem a tornar num evento mundial (global, como se costuma dizer), ao ponto de nos prender à televisão em todos os cantos do mundo, de levar o Comité Olímpico a ter uma transmissão televisiva centralizada, e a tornar os Jogos num verdadeiro “negócio” planetário. Assim como assim, já dá saudades chegar-se a casa e não se ter desporto internacional para ver, nas mais variadas modalidades. A tocha vai seguir de Londres para o Brasil, para uns jogos que vão ter, para nós, um sabor interessante, pela proximidade afectiva com aquele país, mas também pela curiosidade de ver como vão os brasileiros surpreender o mundo com esta organização. Esperemos que a espera valha a pena.

12 de Agosto de 2012 – Peregrinos e romeiros de Nossa Senhora do Campo

Regresso a Rossas, com tempo, num dia habitualmente especial. A Senhora do Campo sempre foi motivo para convívio, para nos revermos, para conversarmos. Para voltar a ouvir os discursos das crianças no início da procissão, e verificarmos como estamos perto das mesmas circunstâncias que levaram os peregrinos e romeiros de Nossa Senhora do Campo a dedicar-lhe uma ermida e uma festa de agradecimento. São, normalmente, as crises que nos fazem pedir a quem julgamos ter ajudado a criar isto tudo. E em particular nos cimos dos montes, à Mãe do Messias. Rossas julga dever a essa intervenção divina a sua fertilidade. O facto é que os frutos são coloridos e saborosos, e os campos continuam verdes, ao longo do vale. Rossas sempre teve este condão protector, do qual fugi desde cedo, mas ao qual os meus amigos e a minha família me haviam de voltar a prender, mais tarde. Lembro, frequentemente, a imagem que via da janela do quarto, ao anoitecer, de um relógio num campanário, que parecia andar devagar demais. Curiosamente, tenho algumas saudades, alimentadas pelas grandes amizades entretanto construídas entre os melhores deste povo talentoso e perseverante, a que digo pertencer, por adopção.

11 de Agosto de 2012 – Não ganhar e perder

Se houve coisa que o dia de hoje mostrou, embora de formas um pouco distintas, foi a diferença entre não ganhar e perder. Durante a tarde, as atenções viraram-se para a final do torneio olímpico de futebol, em que o Brasil era um vencedor à partida, apesar da história, contra o México. O jogo, todavia, demonstrou o contrário, com os mexicanos a marcarem logo aos 30 segundos, e “matando” o jogo quase no final, com dois golos de Peralta. Durante 90 minutos, o jogo encarregou-se de ir demonstrando quem merecia ganhar e quem merecia perder, e deu que pensar o facto de, dos 18 jogadores que o México levou a Londres, 17 jogarem no campeonato nacional mexicano. A final dos Jogos Olímpicos foi, assim, a antítese do futebol de mercado. Quase ao mesmo tempo, Luisão deixava um árbitro alemão “KO”, durante um amigável de apresentação do Fortuna de Dusseldorf. Golpe de teatro ou não, nada justifica a atitude de um profissional e capitão de equipa de um dos emblemas mais respeitados do mundo. Luisão colocou, assim, o Benfica em termo de comparação com clubes cujas atitudes critica sistematicamente. Pior, o Benfica deu uma imagem um tanto “parola” ao rir-se do sucedido e ao procurar explicações alternativas para o que toda a gente viu. Está aqui a diferença entre perder e não ganhar. O Brasil não ganhou, mas bateu-se justamente. O Benfica perdeu, porque não soube estar.

10 de Agosto de 2012 – Crónica de um Verão anunciado

Ele chega todos os anos, umas vezes mais de repente que outras, mas chega sempre. Quando chega, faz parar tudo. Traz o calor e com ele a falta de assunto. A música das pessoas que falam na rua é ligeiramente diferente, há carros com matrículas de outras cores, há gente que voltamos a ver, e que só (re)vemos nestes tempos. E o sol, inclemente, quando decide, retira-nos a pouca energia que resta, arrastando-nos para perto da água.

Com um calor assim, só podia ser notícia qualquer coisa que estivesse dentro de água, como os submarinos, trazendo à tona a nossa enorme capacidade de nos portarmos como baratas tontas, correndo em círculos aflitos, sem resolver nada. Como se estivéssemos tão preocupados em decidir o que levar, como levar e para que praia levar as malas térmicas com as refeições do dia. Só que, de tanto discutir e (não) decidir, o dia passa, e não fomos a lado nenhum.

Já nem os montes ardem como antes, ardem de forma muito mais desordenada e levando mais depressa a que se discuta sobre como se tentou remediar a situação do que a prevenir outras. Os incêndios já não são notícia, só os relatórios, os debates, o que se fez ou deixou de fazer para os resolver. No entanto, não se fala em limpeza, nem em outras espécies que não os malfadados eucaliptos, nem em caminhos novos que se rasguem, montanhas acima.

É tempo das festas, das romarias, de bailes animados por conjuntos, de procissões. De esplanadas, piscinas, ondas do mar, do correr do rio. Não é tempo de notícias, muito menos de crónicas. Para alguns, é tempo de voltar a tentar pôr a leitura em dia, para outros nem tanto, e é pena. Tal como este pedaço de papel impresso passará aos olhos de muitos como apenas isso, muitos livros e jornais ficam por ler.

Chegam os festivais de música, um pouco por todo o lado, com os que vêm e com os que cancelaram em cima da hora, com o campismo e a praia, com a cerveja e as operadoras de telemóveis. É Verão, sabemos. Temos os sintomas.

É Verão. Pensamos que bom seria se todo o ano fosse assim. Sem tempo contado. Sem preocupações alinhadas. Sem rotinas asfixiantes. Com uma relatividade tão saudável, que até irrita. Não perca mais tempo a ler crónicas como esta. Distraia-se, divirta-se. Boas férias.

Crónica escrita para publicação no Diário de Aveiro

9 de Agosto de 2012 – A Arábia Saudita já pode sonhar com o atletismo feminino internacional

Sarah Attah é um nome que ficará para a história destes Jogos Olímpicos, como a primeira mulher da Arábia Saudita a participar numa prova de atletismo. Era caso para levantar o estádio, para nos levantarmos todos. Por todo o mundo, a aplaudir. Não um recorde do mundo, não um recorde olímpico, ou sequer uma medalha do que quer que seja. Festejarmos um penúltimo lugar, de uma atleta que, como se não bastassem as restantes dificuldades, teve de correr de véu e calças. É nestas alturas que nos apercebemos de que o mundo gira a várias velocidades, e que as grandes questões que colocamos nas nossas vidas nem  sempre são assim tão grandes. Depende do ponto de vista. Tal como pode ser desconcertante ver, depois deste penúltimo lugar, o enorme sorriso de Sarah. Ela diz (e prova) que vale a pena seguir os sonhos. Mesmo os que, às vezes, custam caro. Tudo depende da velocidade a que estamos a correr, da visibilidade que temos e da vontade que alimenta o esforço. Dá que pensar.

8 de Agosto de 2012 – A acabar de «inventar» um litofone

O nome pode soar estranho, mas se dissermos que se trata de uma espécie de xilofone de pedra, toda a gente perceberá. O xilofone chama-se assim porque é feito de madeira (xylo). O litofone, porque é feito com recursos da litosfera. A ideia não é nova, mas faz sentido quando falamos de um Geopark. Graças a algum engenho e à ajuda preciosa do senhor José Armando Vilar, pai do meu amigo Mickael, já há som a partir de granito polido. O princípio é simples. Primeiro, a percussão. O efeito de um objecto exercendo contacto com outro. Depois, a afinação, com vários tamanhos de lâmina. Claro que, antes de tudo isto, foi preciso fazer algumas experiências com a espessura, textura e densidade do material. Já há som. Isso é o que importa. O projecto prossegue, para ser apresentado em Setembro. Depois se verá, que voz vai ter.

7 de Agosto de 2012 – Bingo

Deve haver uma razão para se lhes chamar jogos de azar, e não de sorte. Seja como for, tentámos. O investimento não foi grande, e foi mais com vista ao convívio do que a outra coisa. Optou-se por um jogo em que há sempre alguém que ganha (de facto, um de nós ainda ganhou um bocadinho). Como na vida, nem sempre se acerta, nem sempre se tem sorte. Mas a gente tenta. Tenta sempre. Investindo aos bocadinhos. Sem desistir logo, nem indo logo com muita sede ao pote. E podemos até não acertar nos números todos. Mas também não ficamos de cartão em branco. Em termos de amizade e convívio, fazemos sempre bingo.