Em linguagem automobilística, podemos dizer que o PS nos aparece sempre pela direita. E aparece pela direita, porque tem um conjunto de prioridades muito próprio. Hoje, ficámos a saber que, para o líder parlamentar socialista, a prioridade não é a redução de deputados, como defendeu o líder do seu partido, mas renovar a frota automóvel da bancada parlamentar. Aliás, Francisco Assis não deixou Carlos Zorrinho sozinho, e chegou mesmo a vociferar se não queríamos que andassem de Clio. Os políticos esquecem-se de que já passaram quase 40 anos sobre o 25 de Abril, e que o povo que os elegeu é diferente. Não é aquele povo ignorante, que se sujeita e deixa subjugar facilmente pela demagogia barata. Continuam os políticos a agir como se vivêssemos há 40 anos atrás, a fazer política para o “soundbyte” e para as televisões, para o carreirismo pessoal e para o salto para um lugar ao sol, algures no mundo do capital. O povo, quando quer, sabe. Mesmo os que andam de Clio.
«O Grupo Parlamentar do PS tinha quatro viaturas em sistema de ‘renting’, cujos contratos terminaram e foi necessário encontrar uma outra forma para voltar a ter quatro carros. Fizemos um aluguer de longa duração, que custa 3700 euros por mês»
«Os deputados discutiram o tema com serenidade, mas, para nós, é muito claro que [a redução do número de deputados] não é um tema prioritário».(Carlos Zorrinho, líder parlamentar do PS)
Dentro de quatro dias, a Real Irmandade da Rainha Mafalda irá homenagear o professor Arnaldo Cardoso de Pinho. Apesar da eminência no campo das ciências sociais e humanas, e mais concretamente na Teologia, o doutor Arnaldo nunca deixou de ser, à imagem de Alberto Caeiro, um guardador de rebanhos, que se assume do tamanho do que vê e não da sua altura, ao olhar pela janela da casa da sua aldeia. Lembro-me de o conhecer, na calmaria do campo que (ainda) cultiva em Fundo de Vila, e que se estende até um riacho. Ali, sem muitas palavras, ensinou-me que a cultura não vem só nos livros, e que os grandes homens não precisam de se anunciar ou engalanar. Simplesmente o são. Nas coisas mais simples. Desde então, cada conversa, cada encontro, cada pequena brincadeira sobre como vão as coisas, é sempre a continuação dessa lição fundamental. A 14 de Outubro, com o Orfeão de Arouca, a Orquestra de Sopros da Banda Musical de Arouca e o mestre organista prof. Nicolas Roger, faremos um concerto de homenagem. Simples. Como o homenageado.
































António José Seguro disse, hoje, o que talvez todos os portugueses quisessem ouvir. De resto, tanto o PSD como o CDS já tinham dito o mesmo. Portugal passa bem com menos deputados (se pudessem ser melhores, já agora, também agradecíamos). Seguro deu, assim, um tiro para o ar, numa espécie de partida para uma corrida em que todos vão querer ganhar. A vantagem, é que Seguro deu o tiro, e, só por isso, já ganhou. Até aqui, tudo bem. Se não tivesse, de seguida, dado um tiro no pé. Levado pelo calor do momento (e sabemos bem como estes almoços, jantares e manifestações são facilmente manipulados), não perdeu tempo a fazer uma promessa de governante. Devolver o 5 de Outubro a feriado. Era um tiro desnecessário, depois de ter disparado tão certeiramente.
Falar mal dos políticos e do Estado, por muito que não queiramos, é falar mal de nós mesmos. O que é facto, é que temos políticos medíocres, e, consequentemente, uma gestão ruinosa do Estado. Porque, em geral, somos um povo que é demasiado permeável ao facilitismo, ao “amiguismo”, ao favor, ao jogar ao lado das regras, ao trabalhar “em cima do joelho”. E isso reflecte-se no dia-a-dia de quem nos governa. São como nós, mas ampliados à escala respectiva. É por essas e por outras que o facto de hastearem a bandeira ao contrário, no dia da República, foi imediatamente interpretado como um sinal dos tempos que vivemos. Não é mais do que isso, de facto. Um reflexo do que somos. Quem hasteia a bandeira, diariamente, ao contrário, somos nós mesmos. O tal povo que “não se governa, nem deixa governar”, o tal país “à beira mar plantado”. (Quase) sem rei nem roque.
Francisco Sá Carneiro tinha um sonho antigo. Um Presidente, um Governo, uma Maioria. O que Sá Carneiro talvez nunca tivesse sonhado, foi que isso fosse concretizado da forma que foi, com a nuvem negra da “troika”, depois de termos vendido anéis e dedos, sem horizonte, sem futuro e quase sem país. Entretanto, o Governo, por sinal de coligação, vai-se esquecendo de que tem um partido que o suporta, com um ADN próprio, com uma acção própria, com uma implantação no território nacional fundamentalmente de base autárquica. O PSD é, neste momento, o partido mais presente nas autarquias, essas entidades que estão mais próximas das pessoas, e que têm sido bombardeadas com pedidos de ajuda. Das mesmas pessoas que perguntam, legitimamente, como é possível apoiar-se, estar-se de acordo com uma austeridade verdadeiramente asfixiante e esmagadora em relação a qualquer possibilidade de futuro neste país. O PSD, progressivamente, está a deixar de existir, porque esgota, dia a dia, a possibilidade de pôr em prática o que preconiza. Ou algo acontece, ou, a médio prazo, o Partido Popular Democrático, ou Partido Social-Democrata, corre o risco de deixar de existir.
Entrámos num carrossel de austeridade, está visto. Hoje, e não propriamente pelas melhores razões, Portugal está nas capas dos jornais em todo o mundo. No Financial Times, lê-se “Portugal announces ‘enormous’ tax rises” (“Portugal anuncia um ‘enorme’ aumento de impostos”). “Portugal planeia ‘enorme’ aumento de impostos para cumprir metas do défice” foi o título escolhido pela agência Bloomberg. Em Espanha, o El Economista, escreve “Portugal propone un “enorme” aumento de impuestos para cumplir con la troika” (Portugal propõe um ‘enorme’ aumento de impostos para cumprir com a troika”). O francês Le Fígaro traz para a primeira página o título “Portugal: hausse des impôts en 2013” (“alta generalizada de impostos”). Na Irlanda, a RTE dá a conhecer os aumentos “abruptos” de impostos, e, em Inglaterra, o The Guardian tem por título “Portugal raises taxes at ‘critical moment’ to meet bailout conditions” (um aumento de impostos num momento crítico, para respeitar as condições do empréstimo). Estamos em todo o mundo.
D. José Cordeiro, bispo da diocese de Bragança/Miranda, nem sempre é “canónico” nas opiniões que emite, e é, frequentemente, crítico em relação às posições oficiais da Igreja Católica. Desta vez, não foi crítico, mas avançou com uma sugestão para que a Igreja não fique à espera que as coisas se resolvam por si, ou por outros. D. Cordeiro afirmou, e bem, que as pessoas precisam de ser ouvidas, precisam de partilhar as suas preocupações. Há carências económicas a que não se pode fugir, e a essas, a Igreja, através da Caritas, tem procurado ajudar a colmatar. Seja como for, é uma tentativa de se fazer algo pelo Outro, numa altura em que, por força de tudo e mais alguma coisa, cada vez mais estamos centrados em fazer algo por nós próprios. Ficar indiferente seria, de facto, mais fácil.