Nem sempre o Vaticano faz a única coisa errada possível. De vez em quando, e mesmo que a história pareça dizer o contrário, os purpurados, prelados e o próprio Papa acertam nas decisões, com os respectivos riscos e as consequências devidas. Pio XII foi o protagonista de uma dessas «decisões decisivas», quando, sem grande alarido, e sofrendo mesmo críticas severas (e injustas), resolveu fazer tudo o que podia para salvar o máximo de judeus romanos. Pio XII pode ter sido um Papa silencioso, enquanto o Holocausto se dava ante os seus olhos. Mas, mais do que as palavras (e podemos ver que foram muitas), foram as obras que se evidenciaram. E que, mesmo assim, não foram muito valorizadas. Gordon Thomas conta, agora, a história desses tempos, com uma prosa cativante, em «Os Judeus do Papa». Traços de uma rede de padres, freiras e leigos católicos que arriscaram a vida para ajudarem os seus irmãos judeus a escapar da «solução final». A «voragem literária» prossegue, por aqui.
9 de Dezembro de 2012 – “L’Enfance du Christ”, de Hector Berlioz
«L’Enfance du Christ» revelou-se uma agradável surpresa, sobretudo depois de verificar que o narrador, em concerto, seria o meu amigo Fernando Guimarães. A obra é uma espécie de cantata cénica, uma «quase ópera», e foi estreada em 1854, causando no compositor sentimentos díspares. Segundo consta, Hector Berlioz ficou satisfeito com a forma positiva como o público acolheu a obra, mas menos satisfeito por ter causado maior impacto do que a sua «La Damnation de Faust», apresentada em 1846. Nesta obra, Berlioz evoca, segundo as suas memórias, as suas primeiras impressões musicais, procurando, ao mesmo tempo, «recolorir» o conceito de oratória, uma das formas mais significativas da música sacra. A música é muito boa, mas fica muito melhor na voz do Fernando, eu acho. Hoje, foi a primeira apresentação. Nada mal, da nossa parte. Sublime, da parte dele.
«Many thought they could detect in this work [l’Enfance du Christ] a complete change in my style and manner of writing. But this view is completely without foundation. The subject naturally called for music of a naïve and gentle kind … I would have written l’Enfance du Christ in exactly the same way twenty years ago»
(Memoirs, Post-Scriptum – 1856)
8 de Dezembro de 2012 – Aniversário do Centro Juvenil Salesiano de Arouca
O aniversário do Centro Juvenil Salesiano é sempre uma prova de que, haja o que houver, venham as turbulências que vierem, existe, de facto, qualquer coisa que faz mexer esta gente. Gente que se deixa mover por essa força, que se traduz no apoio aos mais jovens, na sua educação e formação. É sempre uma boa ocasião para rever amigos, para colocar as conversas em dia. Um dia para celebrar, para lembrar que estamos a falar de uma das associações mais activas das últimas décadas, e que, apesar das sucessivas dificuldades, sempre as soube ultrapasssar. É também uma data propícia a centrar o olhar no futuro, nesse futuro que está nos rostos dos mais novos que se vão deixando envolver e que se vão juntando em torno de um objectivo comum. Provando que vale a pena continuar. Parabéns.
7 de Dezembro de 2012 – E se o Brasil não quiser o (des)acordo ortográfico?
Lê-se, por aí, que o Brasil está em processo de aprovação de um decreto presidencial que pretende adiar a entraga em vigor do (des)acordo ortográfico. O texto está fixado, e só está a aguardar assinatura do Ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, e de Dilma Rousseff. De resto, a iniciativa legislativa surge na sequência de várias opiniões contra o (des)acordo, entre professores e gente de relevo no panorama cultural brasileiro, dando mesmo origem a um abaixo-assinado, com mais de 20 mil assinaturas. E agora?
«Não tem a menor condição de entrar [em vigor] no dia primeiro. O acordo é uma ‘colcha de retalhos’ e muitos professores ainda não sabem como aplicá-lo. (…) O acordo [ortográfico] está muito confuso. Acredito que tanto Portugal como o Brasil vão pedir para que ele seja revisto».
(Cyro Miranda, senador e membro das comissões de Educação e de Relações Exteriores, em entrevista à agência Lusa)
6 de Dezembro de 2012 – O que eu escrevi há sete anos…
E regressa a dor da mão que se larga. Lentamente. Dedo a dedo. Como uma despedida sofrida. Em silêncio. E ondas de espuma marinha que perguntam porquês sem sentido. Dores diferentes, e sempre a mesma. A da ausência. A do querer sentir tudo de todas as formas. A de se tentar saber o que se sente, sem se saber. A dor do silêncio. A da saudade de percorrer todo o mundo na palma de uma mão. Sentir-te na ponta dos dedos. Pudera eu ter as palavras que me faltam. Para que as mãos, apesar de distantes, permaneçam entrelaçadas. De novo à descoberta. De nós.
6 de Dezembro de 2005: “A dor da mão que se larga”, in “Marinero in Tierra”
Foto: Ana Sofia Silva
5 de Dezembro de 2012 – O senhor Geraldo…
Há pessoas que passam pela vida com a força de um furacão, recolocando as coisas no devido lugar, impondo a sua presença. Quando assim é, o vazio que deixam é grande, proporcional a essa força que largam. Outras, deixam a sua pegada funda com discrição e recato. E talvez marquem mais precisamente por isso. Era mais ou menos assim, o senhor Geraldo. O senhor Geraldo foi sempre nosso vizinho por simpatia. Primeiro, dos avós. Depois, ao lado da casa onde moramos. O senhor Geraldo era discreto. Bom. Simpático. Presente, quando menos se esperava. Afectuoso. Sorridente. O senhor Geraldo talvez fosse aquilo a que estamos habituados a considerar um anjo. Pela forma discreta e determinada como viveu. Como se entregou à sua grande família. Como se deu a conhecer aos amigos. Com a mesma calma e discrição com que passou pela vida, deixou-nos. Com essa pegada. Forte. Discreta. Indelével.
4 de Dezembro de 2012 – “O meu Sá Carneiro”
Há umas décadas atrás, num dia com o número e o mês de hoje, Sá Carneiro desaparecia, e, com ele, os sonhos de um país inteiro. O tempo traz a objectividade e o distanciamento suficientes para se começar a pensar e a falar criticamente sobre o que aconteceu, mas, essencialmente, sobre o legado deste homem, que de pequeno tinha apenas a estatura física. José Miguel Júdice foi um dos que escreveu sobre Sá Carneiro, com um texto muito vocacionado para o seu pensamento político. É isso que nos mostra “O meu Sá Carneiro”, mais do que as “peripécias” de uma vida cheia, que múltiplas biografias já nos oferecem. É, tem sido, leitura de cabeceira. Entremeado com outras leituras. Para conhecer melhor a faceta do político mais inspirador que se pode conhecer. E como nos fazem falta políticos inspiradores…
3 de Dezembro de 2012 – Grandes problemas, soluções simples
Há quem olhe para a vida como uma espécie de grande engrenagem, movida através de sucessivas rodas dentadas. Uma vez quebrada uma das rodas, ou alterada a rotação, todo o sistema daí em diante é alterado. Transpondo isso para o dia-a-dia, essas alterações no movimento das rodas dentadas são as nossas opções. Opções que nos surgem com base nos sonhos e nos desejos que temos, e numa boa daquilo a que chamamos “acaso”, seja lá o que isso for. Há algum tempo, revendo uma entrevista de Christoph Konig, maestro da Orquestra Nacional do Porto Casa da Música, relembrei algo que ele próprio já nos tinha dito, numa das sessões de trabalho. Se, em vez de ter escolhido seguir um sonho e ser maestro, tivesse sido taxista, teria muito menos problemas. Penso isso quando vejo as mãos dos homens que trabalham a pedra com a arte da cantaria. Penso nisso quando os calceteiros conseguem alinhar um passeio onde muitas vidas passarão. Penso nisso quando vejo um electricista ou um canalizador fazerem com que dois bens essenciais nos cheguem onde queremos. Penso nisso quando um trolha, um carpinteiro, um pedreiro põem de pé uma casa. Podia ter sido tudo isso… Afinal as soluções são simples. Nós é que tornamos os problemas complicados.
2 de Dezembro de 2012 – À lareira
Uma das coisas de que começo a orgulhar-me é do facto de conseguir manter uma lareira acesa. Junto à lareira, procura-se esse calor que nos liberte do frio com que os dias de crise nos vão cortando a pele. O crepitar da lenha seca leva-nos o pensamento para mais longe, para as recordações, para nos deixarmos envolver por um bom livro. Para sentirmos a casa como uma fortaleza. Para não querermos sair de perto destes pensamentos. É pena que aprendamos tanta coisa na escola, mas não aprendamos mais, como antigamente, a acender a lareira. Como a apertar os sapatos, ou outras coisas verdadeiramente úteis. Porque, não tendo lareira, dificilmente teremos este espaço de memórias, de imaginário, de aconchego. E é pena.
1 de Dezembro de 2012 – A Banda, 187 anos depois
Fazer parte de uma instituição centenária é, mais do que um orgulho, responsabilizador. Uma instituição que tem quase 200 anos de vida, não pode sobreviver. Tem de viver com pujança, e de olhos ainda mais postos no futuro. Hoje comemorámos os 187 anos da Banda Musical de Arouca. Uma instituição cuja história é feita de muitas histórias, de muitas vidas, de muitas curiosidades, de muitas cumplicidades. Cada um trouxe um pouco de si e leva muito do que consegue ser mais em conjunto. Hoje, ao ver a Banda Juvenil fervilhar e ao sentir a alegria da partilha entre mais e menos novos, fica a certeza. Apesar de nós, há muita vida para esta instituição viver.