Há precisamente setenta e sete anos morreu Fernando António Nogueira Pessoa. Ninguém saberá de cor a sua vida, nem a sua obra, nem a sua morte. Como ninguém saberá onde é a verdade e a ficção. Onde é ele e onde é outro. É perigoso considerá-lo o maior escritor português, se é que há maior. Mas terá sido, pelo menos, um dos maiores. Ninguém saberá de cor decifrá-lo com exactidão. Mas os que o admiram, e se deixam tocar por ele, ficam sempre com a vontade de ser com ele, de olhar pelo olhar dele, por querer mais dele. Ver com ele o que se vê da janela do escritório ou da sua aldeia, sentir com ele a solidão do quarto, passar com ele pelas ruas do Chiado. Sofrer com ele. Ver com ele. Sem o decifrar. Sem o saber todo. Que importa? Ante ele, as palavras que usamos são trémulas e poucas e insuficientes para as imagens que temos. Viveu só. Morreu só. Hoje é lido, conhecido, citado. O humilde guarda-livros de Lisboa. Sozinho. Sempre.
29 de Novembro de 2012 – “Sua Santidade”
O Vaticano é um Estado, e, como qualquer Estado “normal”, tem as suas “jogadas de bastidores”. Dizer isto desta forma parece cruel, tratando-se da “Cidade de Deus”, mas é um facto. Se dúvidas houvesse, Gianluigi Nuzzi, jornalista italiano, vai tratando de as dissipar. Há cerca de um ano, começou a levantar o véu sobre alguma correspondência interna (e alegadamente secreta) do Vaticano, e foi dando a conhecer uma outra “Cidade”. Primeiro foi “Vaticano SA”, depois “Sua Santidade”, livro que deu origem à detenção de Paolo Gabriele (ex-mordomo do Papa) e Claudio Sciarpelletti (informático do Vaticano), por fuga de informação. O livro apresenta um Papa agrilhoado numa teia de poderes que o limitam, e que, a certo ponto, mostram uma imagem deturpada do que é a verdadeira essência do pensar e do sentir do sucessor de Pedro. Teias cujos caminhos começo, agora a percorrer.
28 de Novembro de 2012 – Pequenos Natais
São oito «pequenos natais». Oito canções de Natal, em que as vozes dos Pequenos Cantores do Conservatório de Lisboa (direção de Inês Igrejas) e os sons da Camerata de Lisboa (direção de Joana Carneiro) nos transportam para essa simplicidade do que é, no essencial, o Natal. Compuseram para este «presente de Natal» Carlos Marecos, Vasco Pearce de Azevedo, Sérgio Azevedo, João Madureira e Mário Ribeiro. Dessa simplicidade, ficou no ouvido o «Amigo de Papelão», de Mário Ribeiro. Uma faixa extra, simples mas belíssima, que talvez retrate bem esta necessidade urgente de despojamento. «Canções de Natal Portuguesas» foi, assim, um pequeno grande presente de Natal que Joana Carneiro deu a quem segue um pouco o seu percurso. Também ele muito baseado nessa simplicidade. Tão genuína. Tão necessária.
27 de Novembro de 2012 – Gorongosa: o paraíso
Há um chamamento inexplicável, que conduz a Moçambique. Sem nunca o ter visto nada mais a não ser fotografias cobertas com várias camadas do tempo. Histórias. Objectos. Um imaginário. A internet, por seu turno, traz a realidade. E a realidade, no caso concreto da Gorongosa, um espaço natural que mais parece o paraíso. Procuramos, incessantemente o paraíso, e esquecemo-nos que ele está bem aqui. Na Terra. E não à nossa espera, depois de consumidos por este turbilhão de dita civilização. A Gorongosa, para quem a conhece, é o local na Terra onde Noé deixou a Arca. O Eden perdido, em África. Com o selo da «National Geographic» ficamos a conhecer a Gorongosa. Sabe bem.
26 de Novembro de 2012 – Um povo que não se governa nem se deixa governar
Os Romanos deixaram-nos um legado vastíssimo, no Direito, na organização política, na língua. Mas deixaram também uma frase lapidar, que nos define, de certo modo. Referindo-se aos Lusitanos, com quem, de resto, sabe-se, até conseguiram ter uma relação relativamente pacífica a certa altura, diziam tratar-se de um povo que não se governa nem se deixa governar. Desse tempo, muitos séculos passaram, mas nem tanto assim mudou. Hoje, a «terra da luz» está bastante mais desfocada, apesar do muito que conseguiu iluminar. Daqui saíram os descobridores do mundo. Daqui saíram dois prémios Nobel. Daqui saíram alguns dos mais insígnes matemáticos, cartógrafos e geógrafos do mundo. Daqui saiu o melhor treinador de futebol do mundo. Um dos melhores jogadores de futebol do mundo. Paralímpicos de topo. Alguns dos melhores músicos do mundo. Pintores e escultores de referência mundial. Temos universidades reconhecidas mundialmente. Arquitectos e engenheiros, investigadores e técnicos que todo o mundo reconhece. O presidente da Comissão Europeia é português. O vice-presidente do Banco Central Europeu é português. E até o Ministro das Finanças já disse que os portugueses são o melhor povo do mundo. Algo não bate certo. Como podemos ser tão bons e estarmos tão mal? Seremos auto-fágicos?
25 de Novembro de 2012 – De volta à Sé do Porto
A zona da Sé, no Porto, traz muitas recordações, a que se regressa sempre com uma certa nostalgia. Muitas vezes pude admirar a paisagem do Terreiro para o Douro, ao pôr-do-sol ou quando a manhã começava a acordar a cidade. Aqui fizemos muita música, amizade, descoberta. Algumas vezes, levámos a música ao templo, dando vida ao(s) magnífico(s) órgão(s) que ali existe(m). Hoje, de relance, todas essas memórias voltaram, quando acompanhava o meu amigo José Joaquim Ribeiro em mais um passo da sua caminhada espiritual. Penso que as memórias regressaram como uma espécie de interrogação sobre o futuro. Essa, à qual não sei responder.
24 de Novembro de 2012 – “Desejo de Natal” (ou mais um para esperar por ser lido)
A editora “Esfera dos Livros” já tinha editado uma excelente biografia de Francisco Sá Carneiro, que, apesar de volumosa, soube muitíssimo bem descobrir. Desta vez, em tons menos carregados, é a vez de Marcelo Rebelo de Sousa ser biografado. Comentador político próximo do povo, professor universitário, catedrático de Direito como desejado, nunca alcançou grande sucesso “do outro lado”. Líder fugaz do PSD, chega aos 64 anos pleno de vitalidade. Afilhado de Marcello Caetano (o homem que transportou a sua mãe à maternidade), talvez tenha herdado o “bicho” da política do seu pai, homem de Estado, Governador-Geral de Moçambique, Ministro. Ajudou Pinto Balsemão a fundar o jornal “Expresso”, e esteve na linha da frente da fundação do PPD/PSD (aliás, é o militante número três). Católico convicto, até já se criam “mitos” em torno de si, como o facto de conseguir escrever dois textos em simultâneo, um com cada mão, consegue ditar vários textos ao mesmo tempo, entre ouras excentricidades. Presidenciável em 2016? Talvez. Para já, é apenas um “desejo de Natal”. Talvez para a “pilha” dos que estão por ler. A “atiçar” a vontade de ser lido.
23 de Novembro de 2012 – Enquanto sonhar não paga imposto
Diz o povo, de várias formas e em várias ocasiões, que não há machado que corte a raiz do pensamento. Haja o que houver, governos e potestades, crises e tempestades, Deus ou o diabo. Ainda é lícito sonhar. Ainda é lícito querer-se estar onde não se está. Ser-se melhor do que o que se é. Procurar mundos atrás dos livros, atrás da arte, atrás dos sons. “Pelo sonho é que vamos”, lê-se. Ousar. Ousar conhecer mais. Saber mais. Ser mais. Não se conformar. Não se reduzir. É urgente sonhar. Sonhar sempre. Enquanto não paga imposto…
22 de Novembro de 2012 – O síndrome da folha em branco
Cada vez menos sinto medo da folha em branco. Seja por não encontrar melhores palavras do que outros, seja por não alinhar os melhores sons, que valham a pena escrever. Como ter esse receio, quando tanta gente tem tanta coisa mais importante, mais bela, mais decisiva a dizer? Como querer contrariar esse silêncio, quando tanta gente tem maior “inspiração”, melodias ou improvisos para partilhar? O carteiro de Pablo Neruda cansou-se de ser apenas um homem, e procurou ser poeta, como se a poesia de entregar cartas e a simplicidade de um amor impossível não lhe bastassem. Trocou a vida por um sonho. É lícito sonhar assim. Quando se tem, de facto, algo a dizer, algo a acrescentar, algo que valha a pena deixar claro. Mas talvez possa haver também poesia suficiente na folha em branco. No silêncio. No nada. Muito melhor do que muito do que se exterioriza.
21 de Novembro de 2012 – Da agenda de Mário Cláudio
Fiquei a saber, com agrado, que o meu mestre e amigo Mário Cláudio também tem uma agenda. Trata-se de um blog, no espaço virtual do jornal «Expresso». Muito bem escrito, como é seu timbre. Salta à vista um texto sobre a idade e a leitura. Sobre a descoberta e redescoberta das histórias e das personagens que se escondem atrás das páginas de um livro, à espera de nos serem reveladas. Haja o tempo que houver, venham as revoluções tecnológicas que vierem, não haverá nada que substitua o objecto livro. Mesmo que também saiba muito bem ler estas agendas.
«A persistência das minhas leituras, atravessando sucessivas estações etárias, oferecer-me-ia uma perspectiva que julgo valiosa, quer do conteúdo das centenas e centenas de volumes que fui desbaratando, quer também, e sobretudo, da simples natureza do acto de ler. E verifico que, se na infância percorria laboriosamente com o indicador as linhas dos contos de Andersen, ou das histórias tradicionais portuguesas, na adolescência derrubava espécie bibliográfica atrás de espécie bibliográfica com velocidade que se me afigura hoje quase miraculosa. E a idade adulta, honrada pelo convívio com Tolstoi e Dostoiewsky, Proust e Musil, Joyce e Virginia Woolf, espraiar-se-me-ia por dilatados momentos de detença num capítulo, num parágrafo, ou numa frase, em busca do efeito, da estrutura, ou da dinâmica, que pudesse aproveitar ao escritor que ia crescendo em mim».
(Mário Cláudio – da Agenda)