30 de Dezembro de 2012 – Ao longe, o abismo

obamaSe fosse em Portugal, dizia-se que «à boa maneira portuguesa» se estava a negociar até ao derradeiro segundo a «fuga ao abismo» orçamental. Mas isto está a acontecer, e nos Estados Unidos. Sim, a capital do mundo está prestes a lançar-se, suicida, num abismo orçamental, sem que possamos sequer imaginar o que isso significa para nós. Bem, a sensação de estar no abismo, conhecemo-la bem. Não é coisa que se aconselhe. Em breve, estaremos em contagem decrescente. À espera que, antes do 1, a América decida travar a queda. Ou então, o abismo em que temos caído será bem maior do que imaginávamos. Barack Obama tenta ver mais longe. Talvez já esteja a tentar ver 2013, ao longe. Ou a tentar ver-nos a nós, deste lado do oceano, e a pensar que não basta ser grande para ser imune às crises. O «gigante americano» tem uma contagem decrescente mais importante para fazer. Enquanto o mundo sustém a respiração, e deixa a contagem dos últimos segundos de 2012 em suspenso.

29 de Dezembro de 2012 – Concerto de Natal

concerto-natal-2013Hoje foi dia de Concerto de Natal. O Concerto de Natal começa a ganhar uma forma própria, à medida dos seus intervenientes. Uma forma para a qual todos contribuem, e que começa a ganhar contornos únicos. Este ano, esse carácter especial foi adensado, com alguns arranjos produzidos especificamente a pensar nas vozes e nos instrumentos. Naquelas vozes, naqueles instrumentos e naqueles instrumentistas. Talvez por isso o resultado tenha sido interessante. Talvez também pelo facto de a equipa técnica que tem acompanhado este evento ter contribuído com o seu bom gosto na iluminação e com a sua eficiência no apoio aos músicos. A abrir o concerto, «Nimrod», das «Variações Enigma», de Edward Elgar. Foi bom ouvir, ali, a música que, durante muito tempo, andou apenas na minha cabeça.

Nimrod

Nimrod: Enigma Variations IX (E. Elgar) – arr. Ivo Brandão

28 de Dezembro de 2012 – O sítio certo, a hora errada, ou vice-versa

balaA vida é assim, porque é a única em que podemos escolher viver. O sítio onde estamos, é que pode ser certo, mas a hora errada. Ou o sítio errado, na hora certa. Ou. Que o diga a jovem indiana que morreu “pacificamente”, depois de uma violação repetida e bárbara, seguida de um abandono à morte lenta e dolorosa. Que o diga a jovem Aline Ramos, que morreu porque uma bala perdida, num tiroteio entre a polícia do Rio de Janeiro e um grupo de traficantes, a atingiu no taxi onde seguia. A vida é assim. Quando quer, tanto nos consome lentamente, de forma dolorosa, por vezes. Como nos pára, de repente, com uma bala perdida. E nem sempre sabemos sítio nem hora, certo ou errado.

27 de Dezembro de 2012 – Texto 1300

1300Hoje escrevo aqui pela 1300.ª vez. Umas vezes melhor, outras pior, como os dias. Às vezes, é preciso deixar passar o tempo, para ganhar distância sobre os dias que passam menos bem. Outras vezes, apetece contar logo tudo, ou até mesmo antecipar. E assim vai andando este espaço. Mantido sempre «limpinho», graças à preocupação do Rui Duarte, que ainda continua a pensar no «AroucaBiz», de que muitos terão saudades. Quem se aventurou no mundo dos «blogs», não tem razão de queixa do apoio. Só tem é de dar largas à escrita. E, como canta o Jorge Palma, «enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar».

26 de Dezembro de 2012 – Mar sem fim

mar-sem-fim«E ao imenso e possível oceano/Ensinam estas Quinas, que aqui vês,/Que o mar com fim será grego ou romano:/O mar sem fim é português». Assim, Fernando Pessoa escreveu, e assim Amyr Klink tornou realidade. Vi, pela primeira vez, Amyr Klink num documentário da Globo, em casa de um grande amigo. Depois de contada a história, foi preciso ir descobrir esse velejador intrépido. E fui. A 31 de Outubro de 1998, Amyr lançou-se, sozinho, para uma viagem à volta do mundo. Trezentos e sessenta graus, à volta da Antártida, a começar nas águas calmas e quentes de Paraty, e passando pelos mares mais perigosos do planeta. O veleiro de Amyr, «Paratii», foi o companheiro de «armas», numa façanha pioneira. No fim, 141 dias no mar, um verão passado junto aos «icebergs», 18 mil milhas navegadas (mais de 12 mil sem pôr o pé em terra firme), uma passagem de ano no mar, em plena tempestade, paisagens que poucos terão tido o privilégio de ver. Tudo isto, Amyr Klink colocou em «Mar sem Fim», um livro, um diário de bordo, um exercício de poesia e coragem, ao mesmo tempo. Porque o mar sem fim é português.

«Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver».

(Amyr Klink , in «Mar sem Fim»)

25 de Dezembro de 2012 – Breve viagem à Ilha da Moçambique

ilha-mocambiqueNunca vi a Ilha de Moçambique, a não ser em sonhos. Num imgainário distante, a que se vai por instinto e não por memórias concretas. Hoje, graças a uma prenda oferecida, original ou nem por isso, o meu avô fez-nos uma visita guiada, apontando, aqui e ali, no livro, revisitando velhos amigos, poetas, fotógrafos, jornalistas, historiadores. Regressámos ao passado, pela mão. Fiquei contente por ter sido eu a encontrar o mapa. Significa que acertei no rumo. Foi bom. Talvez tenha, agora, verdadeiramente, nascido o Menino Jesus. Talvez estivesse, este tempo todo, escondido na bruma da Ilha de Moçambique. Curioso.

«A Ilha de Moçambique, ao longo dos séculos foi acumulando sensibilidades culturais distintas e até antagónicas, que têm convivido num estranho mas intrínseco abraço. Os povos que ali se foram abrigando, desde os arábicos, asiáticos, europeus (por mão dos Portugueses), até diferentes etnias africanas, ali partilharam a terra dos Enaharras, do Grupo Macua do Litoral e, juntos, construíram uma sociedade única, que se revê nas suas diferenças com profundo respeito. (…) A Ilha é um poema de impulsos e espontaneidades que não necessita de rimas nem de regras para a escrever, pois ela faz-se perceber no seu misticismo e na sua lascividade histórica.»

(Paulo Pires-Teixeira in Ilha de Moçambique na Alma dos Poetas: poesia, história e fotografia)

24 de Dezembro de 2012 – Onde, o Menino Jesus?

presepioO dia passa, e toda a atenção se centra nesse momento em que, cada um de nós, supostamente, sente que nasceu, algures, mesmo que dentro de si, o Menino Jesus. É ainda meio da tarde, e acendo a lareira, à espera de proporcionar-lhe o aconchego, o calor de um lar. E o Menino Jesus não nasce. Leio. Preparo as brasas, para que umas lascas de bacalhau espalhem um leve odor a Natal. E o Menino Jesus teima em não nascer. Ainda é cedo, penso. Afasto vaca e burro, afasto pastores e demais figurantes. Despojado. Ele deve nascer, apenas. Presépio simples. E o Menino Jesus, não nasce. No que dependesse do sentimento geral, Maria não daria à luz hoje. Teria, talvez, de programar uma cesariana. Quem sabe. Chegam convivas. Poucos, mas bons. Ele mexe-se, mas não nasce ainda. Lá fora, a calmaria. Ninguém. Cá dentro, algum silêncio. Há prendas. Poucas, porque a crise. Onde, o Menino Jesus? Se nasceu, nasceu prematuro. Pequenino. Há quem não goste do Natal. Percebe-se, talvez, quando não se sente este nascimento. Onde, o Menino Jesus, desta vez?

23 de Dezembro de 2012 – Um país chamado Lisboa

portugal-lisboa“Hélas”, vivemos num país demasiado pequenino. Pequenino, coitadinho. Onde o horizonte não pode ser largo, porque o rectângulo não o permite. Onde o horizonte termina, muitas vezes, na orla da montanha seguinte. Vivemos, portanto, num país onde o cérebro comanda, e o cérebro é Lisboa. Onde o Estado existe. Onde os partidos vão partindo, repartindo e ficando, à vez, com a melhor parte. Onde tudo se decide. Onde tudo se faz. Onde tudo acontece. Onde querem que tudo esteja. Do Norte, levam o que de bom resta, senão veja-se o que se passa na RTP. Tudo o que se passe a norte de Alverca e a sul de Setúbal, talvez já não aconteça bem em Portugal. Dá-se-lhe “profundidade”, com uma caridadezinha balofa de quem se julga superior. Desengane-se quem pensar outra coisa. O nosso país é ainda mais pequenino do que julgamos. O nosso país é, para muitos, apenas Lisboa.

22 de Dezembro de 2012 – Como organizar Portugal

organizar-portugalO atraso em Portugal é qualquer coisa já assimilada como normal. Chegamos atrasados aos compromissos, da mesma maneira que o país chegou atrasado ao Modernismo, chegou atrasado à convergência europeia e continua atrasado em relação ao desenvolvimento e ao bem-estar da generalidade dos povos europeus. Fernando Pessoa, que, para além de poeta, foi um exímio pensador, escreveu um pequeno ensaio, interessantíssimo. Do início ao fim, exercita a lógica em torno do que falta para (re)organizar Portugal para um futuro melhor. Pelo menos, para um futuro mais convergente, mais equilibrado, mais condigno com as nossas aspirações e, sobretudo, com o que fomos (ou nos dizem que fomos), nos livros de História. Em suma, Fernando Pessoa dizia, em 1919, que Portugal apenas precisa de duas coisas: educação e empreendedorismo. Cem anos, e continuamos sem aprender nada de útil para a vida.

“Educação simultaneamente da inteligência e da vontade, transformador ao mesmo tempo da mentalidade geral e do atraso material do país, o industrialismo sistémico, sistematicamente aplicado, é o remédio para as decadências de atraso, é, portanto, o remédio para o mal de Portugal. E se, de há muito, esse remédio nos tem sido necessário, na conjuntura presente, em que, pelas condições da indústria moderna, pode ser rápido e, pelas condições gerais da civilização, tem que ser urgente, passa de ser uma necessidade para ser a primeira de todas as necessidades. Detalhar esse plano fundamental, assentar as suas bases práticas, estabelecer o modo de lhe dar realização – nenhuma destas coisas é objecto deste estudo ou assunto da minha competência. O que me cabia fazer está feito”.

(Fernando Pessoa, in Como organizar Portugal)

21 de Dezembro de 2012 – «Nenhum caminho será longo»

nenhum_caminho_sera_longo_2Ao lado de um amigo, nenhum caminho será longo. É mais ou menos assim, o provérbio chinês a partir do qual o padre José Tolentino de Mendonça inicia uma deliciosa reflexão sobre a amizade. Por incrível que pareça, estamos envolvidos em “amor”. Por todo o lado, é a palavra de ordem. Nas histórias que lemos, ouvimos e vemos, todos se amam, todos lutam por um amor. E depois, o amor é fugaz, porque talvez fosse apenas paixão, volúpia ou outra coisa qualquer que não amor. E a amizade? Onde? Existe? Que sentido tem? Que importância não lhe damos? É mais ou menos por aqui que o padre Tolentino de Mendonça “rasga” o caminho. Aliando uma cultura de ecléctica, um profundo conhecimento das escrituras e uma visão eloquente da vida. O resultado, é um livro que se lê quase sem se dar por isso. Com a calma de quem circula por um caminho que não nos preocupa se será longo ou não. Apenas o percorremos.