Paulo Portas parece ter fechado a porta por fora. Depois de um caminho iniciado na Oposição, em que Arouca parecia ser uma prioridade, a ponto de ser referência num debate eleitoral, como exemplo de uma injustiça a reparar, quando Governo, Portas trancou-se. O discurso habitual de que, quando se chega, se verifica que o problema era maior do que se dizia, e que o que se tinha prometido, afinal, já não vale, voltou a ser ouvido. Ou melhor, pior do que isso, nem isso se ouviu. Hoje, Portas disse que é essencial combater o desânimo nacional. Disse-o, talvez, com o olhar virado para fora, de costas para a porta que fechou a Arouca. A porta que disse que iria abrir. A porta para uma ligação condigna ao Litoral, que continua por abrir. Portas fechou a porta a Arouca. De forma natural. Depois de os arouquenses lhe terem confiado uma vitória. Pequena talvez, mas nunca antes atingida pelo partido que lidera. Hoje, de porta fechada, sai. Voltará?
8 de Janeiro de 2013 – John Rutter
Este texto não pretende ser qualquer tipo de prelecção sobre as qualidades ou virtudes técnicas da música de John Rutter, nem discutir com usa as formas, as melodias, os modelos. Este texto é apenas um acto de redenção total e absoluta à música de John Rutter. Progressivamente, fui descobrindo o “Requiem” deste compositor, uma obra interrogativa, porque associamos sempre o “Requiem” à morte, ao fim, ao profundo e negro abismo. Mas é precisamente nessa obscuridade que esta música não nos deixa cair, fazendo pensar que é possível uma outra vida, que a morte não rouba. Aquela, talvez, que vivemos quando se nos liberta o pensamento, as lembranças, as imagens, vividas ou sonhadas e por viver. Prova disso, talvez, é o facto de, depois de ter ouvido e descoberto sempre algo de novo a cada nova audição, descubro um outro motete, do mesmo autor. “A Clare Benediction”. Podemos ser crentes ou não, católicos, protestantes ou ateus. Mas que a música de Rutter tem algo de transcendente, tem. Perdoem-me os que não concordam.
“A Clare Benediction” – John Rutter (Choir of Clare College, Cambridge – dir. Timothy Brown)
7 de Janeiro de 2013 – “Nova” RTP
Lê-se, ouve-se e vê-se, por aí, que hoje há uma “nova” RTP. Nova, basicamente porque se conhece a nova grelha de programação. Mas também nova, porque as mudanças radicais vão sendo operadas. Mais ou menos conhecidas, mais ou menos noticiadas, mais ou menos sentidas. Lê-se, ouve-se e vê-se muita coisa. Muita vontade de mudar. Muita defesa do que se puxa sempre para o centro da argumentação. O serviço público de televisão. Há muita coisa, e muita coisa boa, escrita sobre o serviço público de televisão em Portugal. Mas nós, daqui do interior, daquele Portugal frequentemente esquecido, temos uma ou duas coisas a dizer. Primeiro, que não foi fácil criar um canal de comunicação entre nós e o mundo, através dos órgãos de comunicação social nacional. Trabalhámos muito, embora a uns não pareça e a outros esqueça. Depois, que só a RTP (e sublinhe-se fortemente, só a RTP) tem tido o carinho, o interesse e a seriedade de olhar para Arouca como foco de notícia, frequentemente (senão sempre) por boas razões. Senhores que mandam na RTP: aconteça o que acontecer, não façam com que este trabalho, que de parte a parte tem sido cordial, sério, cooperativo, este trabalho de fazer lembrar que existe um interior frequentemente esquecido, não acabe. Porque, para a RTP, pode ser uma questão de menos minutos ou menos quilómetros “gastos”. Mas, para nós, pode fazer muita diferença.
6 de Janeiro de 2013 – Cantar os Reis

Cantar os Reis é algo que, talvez para a maioria, não significa muito. Em Arouca, era algo “normal” acontecer, pelas ruas da vila, nas noites de Janeiro de cada ano. Eram muitos os grupos que, informalmente, iam mantendo viva a tradição de levar a cada casa os cantos tradicionais, guardados na memória colectiva, que anunciavam a chegada do Menino esperado, ao mesmo tempo que se pedia que o anfitrião “botasse” a mão à salgadeira ou ao fumeiro, fosse à adega, e pusesse a mesa, mesmo que já estivesse no aconchego das mantas. Lembro-me de cantar os Reis em Rossas, com talvez pouco mais do que seis ou sete anos. Lembro-me de o fazer pelas ruas de Arouca, pouco mais tarde. Hoje, passou algum tempo. As vidas são diferentes. As casas mais estanques. Talvez as vidas também. Mas nós insistimos. Continuamos. Para que essa memória colectiva, cada vez mais desprezada, não corra o risco de ser esquecida. Ontem, começámos. Andaremos por aí.
5 de Janeiro de 2013 – Grandes discursos do século XX
Às vezes dizem-nos que isto de sermos um país que não se governa é uma coisa endémica, mas temos dificuldade em acreditar. O que é certo é que as provas se acumulam, e é pouco provável que todas estejam erradas. Os romanos diziam isso. E agora, quando começo a descobrir alguns dos grandes discursos do século XX, feitos em Portugal, descubro de imediato uma conjugação de palavras que parece ter sido feita ontem. Mas não. É verdade que, quando preparamos um discurso, procuramos que ele se torne, de alguma forma, marcante. Único. De modo a que as palavras envolvam quem ouve. Sincero. Profundo. Irrepetível. Serão estas pelo menos algumas das características que alguns dos grandes discursos terão. Ora, a 2 de Janeiro de 1901, o rei D. Carlos fez um discurso de abertura do período legislativo apelando a que se ponderassem as despesas e se pensasse seriamente no equilíbrio das finanças do Estado. Mais de cem anos depois, bem que podia dizê-lo de novo, que talvez não valesse (igualmente) de nada.
“Mas o desequilíbrio do orçamento, e ainda mais o das contas de exercício, o ónus que do ágio do ouro advém para os pagamentos a realizar ao estrangeiro, a soma a que se elevou a dívida flutuante por déficits sucessivos, o limite já atingido pela circulação fiduciária, – circunstâncias são estas que reflectidamente tereis de ponderar, a fim de, com patriótico esforço e acuradas providências, se assegurar melhoria real à situação da Fazenda.
Não assumir compromissos, nem autorizar despesas, que os recursos do Tesouro não possam comportar; colher das receitas do Estado o seu maior produto, simplificando os processos de lançamento, e restringindo ao indispensável o que a sua cobrança e fiscalização reclama; aproveitar, valorizar, o incremento das forças produtivas do país; proteger, facilitar, por um lado, o que à iniciativa individual pertence na exploração agrícola, nos empreendimentos da indústria, nas operações de comércio, e, por outro lado, regrar a administração para que seja parcimoniosa e útil, cortando por serviços a que não corresponda um proveito eficaz; persistir, com deliberado intento, no nivelamento das receitas e despesas, evitando a acumulação de deficits, que tanto depauperam o Tesouro e afectam o crédito nacional – são normas que superiormente se impõem à acção dos poderes públicos.”
(D. Carlos I, rei de Portugal, 2 de Janeiro de 1901, “Discurso da Coroa – Abertura da época legislativa”)
4 de Janeiro de 2013 – Santos Pereira é um “Mister”
Álvaro Santos Pereira exortou hoje o país a comportar-se como uma equipa ganhadora. Entrámos, assim, na esfera dos “místeres”, e da filosofia e da psicologia técnico-táctica de jogo que cada um usa para motivar a sua equipa. Santos Pereira revela-se, assim, uma espécie de Mourinho, mas ao contrário. Ao passo que olhamos, por hipótese, para os “galácticos” do Barcelona, e verificamos que talvez seja mais fácil serem uma grande equipa, se virmos bem, o Real Madrid (exceptuando, eventualmente, Casillas e Ronaldo) não está assim tão recheado de ‘galácticos’ como outrora. Aliás, o condão de Mourinho é fazer grandes equipas e grandes jogadores. Moral da história, assim muito depressa: Álvaro Santos Pereira pensa que está a treinar o Barcelona. Só que o país, na realidade, joga nas distritais.
“As empresas ganhadoras são as que jogam em equipa e é isso que temos que fazer também como país – temos que jogar em equipa e por isso é que eu tenho apostado tanto na concertação social”.
(Álvaro Santos Pereira, Ministro da Economia, em declarações à agência Lusa)
3 de Janeiro de 2013 – O burro e o autarca
Passa Sete é uma pequena cidade do sul do Brasil, onde vivem cerca de 5000 pessoas. Até aqui nada de novo. Recentemente, a cidade elegeu um novo Prefeito. Até aqui, também nada de estranho. Sucede que Vanderlei Batista, candidato vencedor, resolveu cumprir uma promessa, depois de ter sido chamado de burro por um adversário, durante um debate, na campanha eleitoral. Vanderlei chegou à tomada de posse montado num burro. Mais caricato, tinha as portas do edifício onde ia decorrer a cerimónia fechadas. Mas nada disto o demoveu. Montado num jumento, como Cristo chegou triunfante a Jerusalém, Vanderlei chegou a Passa Sete de Burro. Esperemos que a moda não pegue. Vendo a coisa pela metáfora bíblica, para que os autarcas que lhe seguirem o exemplo não terminem crucificados. Vendo a coisa por outro ângulo, para que o povo não confunda quem é quem.
2 de Janeiro de 2013 – Primeira crónica em «Discurso Directo»: Por favor, não me leia
Por favor, não me leia
Se caiu no erro de começar a passar os olhos por estas linhas, peço-lhe, encarecidamente, o favor de desistir enquanto é tempo. Leia um livro, leia outras crónicas, mesmo que não sejam deste jornal. Isso mesmo, leia outros cronistas, que esses de certeza valerão mais a pena do que eu. Ou ainda melhor, veja a Casa dos Segredos, ou uma novela, ou o Preço Certo, ou qualquer coisa edificante. Não me leia, por favor.
O que é facto, é que eu não tenho nada de especial para lhe dizer. Sinceramente, não percebo por que razão me convidaram para fazer isto. Tantos cronistas bons na nossa praça, tanta gente com coisas importantes para dizer e escrever, e eu aqui a fazer perder tempo.
Eu não sei de notícia nenhuma, bombástica, em primeira-mão, que possa interessar-lhe. Não estou envolvido em nenhuma teoria da conspiração que possa adensar um mistério interessante. Não sou bom comentador do panorama político local. Não paro na rua, nem muito menos o trânsito, para dar autógrafos. Não sou importante. Não tenho o poder de «meter cunhas». Por isso, não tenho nada a dizer que lhe possa interessar.
Falaram-me em 2500 caracteres. Duas mil e quinhentas letras que vou ter de alinhar para preencher este espaço. Começo a invejar a coragem, o talento, a sabedoria dos cronistas, que conseguem ter matéria às vezes para mais do que uma crónica sobre o mesmo assunto. E eu, nada. Não me leia, por favor. Há tanta coisa mais importante que tem para fazer. A menos que tenha por hábito fazer leitura de casa de banho. Aí, talvez se justifique. Ou nem assim.
Quando se vê a cara de alguém ao lado de uma crónica, a primeira reacção generalizada é a de «Que raio terá este de tão importante para dizer? Quem é que este pensa que é? Que mérito é que lhe reconhecem para dar opiniões sobre o que quer que seja?». E é justo que pensem assim. Por isso, não leia isto. Não vale a pena.
Toda a gente pensa para a frente. Porque o tempo urge. Porque há sempre muita coisa a acontecer e por acontecer. Para o futuro. Para crescer. Para ascender. Pois eu prefiro pensar na urgência de instalarmos um relógio igual ao que Caroll inventou para Benjamin Button. Um relógio que ande para trás. Que nos leve de volta ao início. Ao princípio. E no princípio, era o Verbo. A Palavra. Essa, essas que eu não domino. Outros sim. Leia outros. Por favor, não me leia.
Estes textos serão escritos sempre de acordo com o que se convencionou chamar «antiga ortografia».
1 de Janeiro de 2013 – Em que se continua o que se dizia há segundos…
… E tudo continua na mesma. O tempo continua a correr exactamente na mesma proporção. Talvez seja ano novo, vida velha. Foi como se chegássemos ao ponto culminante do «Sanctus» do «Requiem» de Maurice Duruflé. Uma explosão, um vulcão que entra em rápida erupção. Depois, a lava corre, mais depressa ou mais devagar, e sedimenta, até nova corrente. Talvez a mudança não seja assim tão grande, tudo depende. Do que quisermos (e pudermos) fazer com este (novo) tempo que agora se inaugura. Entre uma e outra vida, a música preenche os espaços. Propondo um renascer. Como o sol, que voltará. Em breve.
Maurice Durufle – Sanctus (Requiem)
Sanctus – «Requiem» (M. Duruflé)
31 de Dezembro de 2012 – E há dias que queremos que passem depressa, para que algo mude (em dois actos)
Deve ser genético. Pensarmos que uma fronteira separa claramente dois espaços. No caso, que a meia noite separa dois tempos. Dois anos diferentes. Formulamos desejos, fazemos um balanço do que passou, verificamos que talvez não tenha sido tudo tão mau como pensávamos. E esperamos que o novo ano chegue, depressa, se faz favor, para tentarmos convencer toda a gente (e nós mesmos) que «ano novo» é mesmo «vida nova». Ou talvez não. A fronteira, neste caso, é apenas algo que separa um dia de outro dia. Um dia igual a outro dia. Talvez os olhos com que olhamos para a frente sejam diferentes. Ou apenas os «óculos». Fazemos contagens decrescentes, a pensar que agora é que vai ser, o mundo vai mudar, os sonhos vão concretizar-se, desfilam diante dos nossos olhos os bons momentos de um ano e os projectos para outro. Tudo muito rápido, 5, 4, 3, 2, 1…