As palavras. Algo de tão imediato, tão natural, tão fácil. Algo que nos habita antes mesmo de as dizermos, de as tornarmos reais. Antes de tudo, elas já nos habitam. Por isso, por essa facilidade, não nos damos conta da sua preciosidade. De como, alinhadas convenientemente, na proporção certa, medidas, organizadas, podem constituir verdadeiras preciosidades. As palavras são, na realidade, preciosidades. Valiosas. Valiosas demais para serem desperdiçadas, mal alinhadas, usadas apenas porque sim. Grandes filósofos, grandes pensadores, grandes escritores, grandes oradores usaram exactamente as mesmas palavras que temos à nossa disposição. A diferença está no génio com que, como um engenheiro, calculam a melhor combinação. Na arte com que, como um pintor ou um escultor, as alinham. Na musicalidade com que nos fazem dizer cada uma delas. E, no entanto, são apenas palavras.
17 de Fevereiro de 2013 – A história pode repetir-se
A passos largos, a União Europeia começa a parecer-se, com algumas subtis diferenças, mas igual no essencial, com a União Soviética. Começamos a verificar que as decisões que verdadeiramente nos afectam são tomadas por poucos, maioritariamente não eleitos por nós, e que também estamos condicionados a uma quase tirania do medo, controlados por esse monstro da crise. Todavia, como se o cenário não fosse suficientemente assustador, começam a acenar-nos novamente, das bandas da Esquerda, com uma ideia de federalismo europeu. A saber, um Estado europeu, em que abdicaríamos (ainda mais) da nossa soberania, em favor de uma espécie de “Estado Central” europeu. A história demonstrou o que pode acontecer. Cabe-nos sermos suficientemente inteligentes para, pelo menos, pensamos nisso.
16 de Fevereiro de 2013 – Ter ou não ter um rosto
“Quem não aparece, esquece”, costuma dizer o povo. E o povo, sabemos, tem a memória bastante curta. Ilude-se facilmente com os rostos que, de repente, ascendem na escala de importância, sempre relativa. O que é ser importante? Ser conhecido? Ser reconhecido? E quais as consequências disso? Ser criticado, justa ou injustamente? Ser incentivado a prosseguir? Ser alvo de boatos ou mentiras? Ter esse rosto público nem sempre é bom. Tira-nos aquela sensação boa de poder caminhar livremente, sem pressa, sem ninguém que nos observe. Misturarmo-nos no meio da multidão sem que ninguém se aperceba. Às vezes apetece o contrário. Chegar e parar o trânsito. Ser alvo de sorrisos e cumprimentos cordiais ou de felicitação. Mas como, costas voltadas, não sabemos o que se irá passar, talvez seja melhor passar incólume a essa “faca” do dito, do comentário, do falatório. E encontrar esse silêncio, sem rosto, sem reconhecimento. O silêncio de se poder ser quem se quiser. Na página de um livro ou, simplesmente, na imaginação.
15 de Fevereiro de 2013 – Vazio
Há alturas em que algo nos atinge como uma agulha que retira o ar de um balão. E, progressivamente, às vezes e forma tão lenta que até cansa, vamos ficando vazios. Vazios de energia, de vontade, de tudo. Ou então, é como se o cérebro ganhasse hélio, e fosse subindo, subindo, saindo de nós, ficando a vontade de fechar os olhos até não apetecer mais. Às vezes, o vazio não é mau. É uma forma de encontrarmos o que colocar em vez dele. Uma forma de procurarmos nós mesmos o que queremos colocar nesse vazio. Uma forma de procurarmos o que resta de nós mesmos, dentro de nós, durante esse (pelo menos aparente) vazio. Enquanto caminhamos, por aí, com o cérebro agarrado a um cordel.
14 de Fevereiro de 2013 – Hoje não é dia dos namorados…
Hoje não vou telefonar-te, para te dizer que quero ver-te linda, como sempre. Hoje não vou combinar ir buscar-te às oito para jantar num sítio chique qualquer, escolhido por mim, sem tu saberes. Hoje não vou dar-te uma flor, ou deixar que os que nos atenderem olhem para nós com o sorriso cúmplice de saberem que estamos ali por ser o dia que é. Hoje não te vou levar a nenhum sítio com uma paisagem bonita. Hoje não te vou oferecer um anel, ou pedir para casares comigo. Hoje vou apenas registar o passar do tempo da ausência. Hoje vou apenas passar ao lado do facto de ser 14 de Fevereiro. E não ser dia dos namorados.
13 de Fevereiro de 2013 – Ainda o Papa
Ao que parece, Bento XVI não quis deixar de dizer algumas coisas, antes de recolher definitivamente a um mosteiro, para prosseguir a sua actividade de intelectual e eremita. Na homilia da sua última missa exortou a Igreja Católica a terminar com a hipocrisia religiosa e as rivalidades internas, para que não surja desfigurada e desvirtuada aos olhos da sociedade. Quanto mais se lê, ouve e vê sobre Ratzinger, mais se fica com a sensação de um homem só, isolado, talvez propositadamente isolado, e que agora cede a esse isolamento, de forma radical e definitiva. Aos que parecia agirem nas suas costas, volta-as agora, de forma irreversível.
“O rosto da Igreja é por vezes marcado pelos pecados contra a unidade da Igreja e divisões no clero. (…) Penso nos ataques à unidade da Igreja, nas divisões no corpo eclesiástico, [na incoerência dos que se insurgem contra] os escândalos e injustiças naturalmente cometidas por outros, [mas que não estão] prontos a agir no seu próprio coração, consciência e intenções”.
(Excertos da última homilia de Bento XVI)
12 de Fevereiro de 2013 – Ataques ao Papa
O título é afirmativo. “Ataques ao Papa: escândalos de pedofilia e polémicas doutrinárias contra Bento XVI”. Como o ditado, “não acredito em bruxas, mas que as há, há”, tanto equívoco soa pouco a coincidência. O livro de Andrea Tornelli e Paolo Rodari é fruto de uma investigação aprofundada de vários casos que envolvem o Vaticano, tentando perceber melhor o que esteve na sua origem. Deliberadamente ou por inabilidade, todos os episódios resultaram em ataques ao Papa, a começar por uma citação de um discurso de Ratzinger fora do contexto, às nomeações de alguns bispos envoltas em polémica. O livro ajuda a compreender melhor, a questionar com mais acuidade, a esclarecer. A edição portuguesa é de Setembro de 2011. Já há muito tempo se falava em muitas destas coisas. Porém, talvez agora façam mais sentido.
11 de Fevereiro de 2013 – Papa
O Papa resignou. O Papa que não conseguiu arrebatar os fiéis desde o primeiro momento. O Papa que foi preciso conhecer, para deixar entrar. Como quando alguém morre, parece que, agora, toda a gente achava que, de facto, Ratzinger era o homem. Mas ele já não concordava com isso. Pela idade, pela saúde, dirão alguns. Pelos escândalos, pelos interesses instalados na Cúria romana, dirão outros. Por tudo. Talvez por uma Igreja que a sua racionalidade e pensamento demasiado científico não conseguissem acompanhar de perto. Talvez por ser necessária outra força para dar novos rumos a várias coisas. O Papa intelectual, pensador, nem sempre bom comunicador, renunciou. Ninguém esperava. Uns, talvez porque achavam que poderiam, assim, continuar a pôr e dispor. Outros, porque acreditavam na sedução tímida do Papa alemão. Outros, porque acharão que só com a morte se deixa de ser Papa. Joseph Ratzinger teve a coragem e a lucidez de provocar a mudança. De lançar o desafio. De deixar a cada um a interrogação. E agora? A quem iremos?
Caríssimos Irmãos,
convoquei-vos para este Consistório não só por causa das três canonizações, mas também para vos comunicar uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado. Por isso, bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20,00 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice.
Caríssimos Irmãos, verdadeiramente de coração vos agradeço por todo o amor e a fadiga com que carregastes comigo o peso do meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos. Agora confiemos a Santa Igreja à solicitude do seu Pastor Supremo, Nosso Senhor Jesus Cristo, e peçamos a Maria, sua Mãe Santíssima, que assista, com a sua bondade materna, os Padres Cardeais na eleição do novo Sumo Pontífice. Pelo que me diz respeito, nomeadamente no futuro, quero servir de todo o coração, com uma vida consagrada à oração, a Santa Igreja de Deus.
Vaticano, 10 de fevereiro de 2013
(Declaração de resignação de Bento XVI)
10 de Fevereiro de 2013 – Os que vieram de África
Ando a namorar este livro, mesmo sem saber muito bem o que tem dentro. O título, porém, basta-me. Seduziu-me. Tenho-o. Posso não o ler todo tão cedo, mas hei-de ir passando os olhos pelas páginas. As histórias repetem-se um pouco, essencialmente na forma como muitos “retornados” tiveram de refazer as suas vidas a partir do nada, depois de terem vivido em terras onde o clima e a sociedade eram radicalmente diferentes. Em alguns casos, terão esperado 20 anos para voltarem a sentir a modernidade que conheceram antes do 25 de Abril. Os números vêm no livro, e devem, por isso, ser verdadeiros. Cerca de 500 mil portugueses de além-mar regressaram à metrópole, passando, a partir de então, a deixar de ter raiz. Não eram daqui, como não eram de além-mar. Um Portugal que, de repente, deixou de ser uno e indivisível, passou a ser uma espécie de terra de ninguém. Que não conseguiu acolher os “retornados” como prometia. Que se enganou em todas as previsões e em todas as medidas pensadas para resolver a dificuldade de receber tanta gente, mais do que a esperada. A voracidade da liberdade acabou por ser madrasta para alguns. E, para esses, os que vieram de África, talvez ela não tenha existido. Porque terminou quando outros a exerceram de forma tão ampla, que a que lhes restava deixou de existir.
9 de Fevereiro de 2013 – Também nós, numa vala comum
A distância que vai de nós até ao Mali é tão curta como uma curta metáfora. Se virmos as coisas de forma crua, não há uma diferença substancial entre os massacres sucessivos e as valas comuns, que são, no fundo, o verdadeiro rosto das guerras, e a opressão a que “os mercados” nos obrigam, ao sujeitar-nos a um Governo que lhes está sujeito. Há a diferença decisiva de não perdermos a vida, no sentido literal, mas isso não quer dizer que não a estejamos a perder, talvez aos poucos, de outra forma. Vendo os horizontes estreitarem-se. Vendo as oportunidades escassearem. Vendo poucas vezes o copo meio cheio. Vendo, calmamente, a vala comum fechar-se, e engolir-nos, à velocidade da voragem com que as más notícias nos entram pelos olhos dentro.