13 de Maio de 2013 – Fátima (sem fado nem futebol)

fatimaO fado está na moda. O outro fado, o destino, parece ser negro. De futebol, talvez nem valha a pena falar, igualmente negras são as perspectivas de quem torce pelo Benfica. Resta Fátima. Hoje é um dos dias em que o povo, uma multidão, acorre à Cova da Iria, em oração. Uns, arrastando o desespero confortado nos joelhos. Outros, emocionados com os cânticos e manifestações de fé ou devoção pela virgem do rosário. Sob o altar, a frase. “Não tenhais medo”. Fátima tem um magnetismo que não se explica. Seja-se católico ou não, sente-se. Em breve, os braços deste espaço acolhem-nos. Porque queremos também agradecer o dom da vida, o dom do amor, o dom do trabalho, o dom da família, o dom de poder viver cada episódio da vida a seu tempo. Em breve, estaremos aqui.

12 de Maio de 2013 – Arouca no mapa. Com uma bola a assinalar, mas sem estrada para cá chegar

fcaArouca ficou com uma esfera mais larga no mapa. Larga, do tamanho de uma bola de futebol. Grande. Do tamanho da I Liga. Lado a lado com os grandes, com os maiores do futebol nacional. Agora, os grandes vão ter de conhecer a estrada para Arouca. Ou a ausência dela. Vão perguntar-se como é possível que «esta gente» lute. Vão fazer as contas ao acréscimo de sacrifício que estas montanhas mágicas que nos abraçam nos impõem. Agora vão saber. Vão perceber. Vão valorizar. É pena que tenha de ser a custo. Que tenha de ser uma bola a assinalar-nos no mapa. Há muito mais que nos poderia valorizar, mas seja. Seja o «ópio do povo» a impor-se. A obrigar essa gente que nos ignora a rasgar, com o seu enjoo profundo, cada quilómetro de estrada que nos falta.

Foto: Avelino Vieira

11 de Maio de 2013 – Quando a derrota foi um empate já passado

fcp-slbO Benfica perdeu no Porto. Teoricamente normal, se disso não estivesse dependente, implicitamente, o campeonato. Ou explicitamente, até. Ironia, na era Koeman o Benfica ganhou os dois jogos ao Porto e perdeu o campeonato. Agora, o Benfica sofre uma derrota que seria relativamente normal se essa derrota já não se viesse a prolongar desde o empate com o Estoril desde a última jornada. Assim, a tal “azia” é ainda mais densa. É preciso beber mais água com gás. É preciso dormir mais sobre o assunto e falar menos sobre ele. Mas que remói, remói. Ver os títulos fugirem-nos das mãos como a areia da praia em dia de sol.

10 de Maio de 2013 – Algumas saudades tuas

orgao-aroucaTenho algumas saudades tuas, meu amigo. Saudades das tuas entranhas. Vejo-te, aprecio a tua imponência. Conheço-te, mesmo que ainda superficialmente, mas o suficiente para sermos cúmplices. Tenho saudades de explorar sonoridades, de tentar contrariar a mecânica (a tua, de verdadeiro relógio, e a minha, desarticulada). De fazermos música. És um instrumento difícil de entender, por vezes. Solitário, mas que se integra. Uma voz de um espaço e de um local. Vejo-te com frequência, mas tenho algumas saudades tuas. Estás nas melhores mãos que poderias estar, com alguém que te cuida como um filho, como um bebé a quem é dado todo o carinho e atenção. Faz tudo o que o professor Nicolas Roger te pedir. Penso reencontrar-vos aos dois em breve, mas acabo sempre por adiar. Espero, sinceramente, que o adiamento seja tão curto quanto possível. Porque tenho algumas saudades tuas. Algumas saudades vossas.

9 de Maio de 2013 – Crónica em Discurso Directo: “Dar e Receber”

logo-ddDar e receber

 

Arouca recebe bem os visitantes. Aliás, Arouca recebe muito bem os visitantes. Mais concretamente, Arouca recebe, por vezes, demasiado bem os visitantes. O “slogan” não é forte. Não vende. Não é apelativo. Mas é verdadeiro. Não sabemos ser de outra forma. Gostamos de dar a conhecer, a provar, a experienciar o que de melhor temos. Gostamos de ser genuínos, de afirmar a nossa identidade. Gostamos de cultivar a amizade. E isso é bom. Isso é, de facto, óptimo. Desde que, entre dar e receber, exista um equilíbrio.

É curioso este quase paradoxo entre o “receber” de “acolher” e o “receber” de “trocar”, ainda mais quando, sabemos, está no ADN do bom cristão e honesto cidadão privilegiar o “dar” em vez do “receber”. E Arouca dá. Muito, e muito bom. Dá uma paisagem natural que muitos espaços classificados invejam. Dá, mesmo que não o valorizemos, uma qualidade de vida que dificilmente encontramos num centro urbano de média/grande dimensão. Dá uma gastronomia que, mesmo que não nos pareça diferenciadora, se destaca pela qualidade. E poderíamos continuar, pela doçaria conventual, pelo Mosteiro, pelos monumentos, pelos espaços urbanos cuidados. Em última análise, e porque o conceito é aglutinador, Arouca tem (ou melhor, é) um “Geopark”, e isso procura ser a marca identitária, o núcleo destes aspectos que nos diferenciam, para que sejam potenciados.

E foi, precisamente, por esse facto, pelo facto de Arouca, alegadamente, estar a fazer o “trabalho de casa”, que a Entidade Regional de Turismo do Porto e Norte de Portugal convidou o Secretário de Estado do Turismo para visitar o território. Como sempre, Arouca recebeu bem. Recebeu, provavelmente, melhor do que alguma vez recebeu outra entidade semelhante. Arouca deu, nesses dias, tudo o que de melhor tinha, ao ponto de, em Vale de Cambra, o governante ter afirmado que o concelho vizinho devia olhar para o nosso exemplo.

O Secretário de Estado do Turismo, talvez sem querer, acabou por cair no erro crasso e habitual de quem visita Arouca e se encanta. Deixou que o encantamento ficasse dentro do “aquário” temporal em que esteve com os pés assentes no território. Quem tem responsabilidades na governação e visita Arouca sofre sempre do mesmo mal. As curvas e as agruras do caminho de regresso ajudam ao esquecimento rápido. Ajudam a esquecer que o caminho se faz caminhando. Mas sem nos ajudarem a ter um caminho melhor, de pouco servirá darem-nos como exemplo a quem está colado a nós. Porque mesmo sendo pior exemplo, terão sempre um caminho melhor para percorrer.

E nós, que damos tudo, continuamos a receber tão pouco. Ainda que recebamos quem nos visita (sempre) com o melhor de nós.

8 de Maio de 2013 – Prece

Hands of senior Muslim man prayingSenhor. Liberta-me dos fardos que eu não consiga carregar. Dos pesos que sejam superiores a mim. Dos caminhos que eu não conseguirei nunca percorrer, por serem longos, ou sinuosos, ou sem saída. Lembra-te que me esforço por não julgar, para não ser julgado, e aí deveria residir toda a justiça de andarmos todos juntos, nestas andanças que dizem terem sido “artimanhadas” aí, mas que muitos pensam que continuam a ser “telecomandadas”.  Faz com que as “coincidências” sejam justas, e que o que tiver de acontecer aconteça como tiver de acontecer. Vê se lês o que te escrevo, e ilumina quem precisa de ser iluminado. Ajuda quem tem de arriscar a arriscar como deve. Ajuda a germinar o bem que a gente tenta plantar, pelo menos de vez em quando. Depois, há a coisa da felicidade. Como uma porta que se abre para um dia de sol. Uma maçã doce que nasce numa macieira que parecia não dar mais fruto. Como a graça de ver uma semente fazer nascer uma árvore. Escuta. A quem não guarda rancores, a quem oferece a sua bondade aos outros, a quem olha para os problemas como desafios, a quem agradece os dons que lhe são dados, a quem tem sonhos grandes para concretizar, a quem não julga os outros, a quem ouve o dobro do que fala (porque, para isso, tem dois ouvidos e só uma boca), para quem é da verdade. A estes, ajuda a provar que, afinal, a vida não é injusta. Ou então, ajuda-os a serem idiotas, por não estarem “afinados” pelo diapasão da maioria. Quando se olha para o chão que se pisa, vê-se que o tempo é relativo, mas que o nosso é demasiado curto. Pequeno. Fugaz. Vê se nos ajudas a perceber o que andamos aqui a fazer. Para não darmos conta disso depois de já ter passado tudo. Amen.

“Seja ridículo, mas seja feliz e não seja frustrado. ‘Pague mico’, saia gritando e falando o que sente, demonstre amor. Você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo para ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta mais. Não se importe com a opinião dos outros. Antes ser um idiota para as pessoas do que infeliz para si mesmo”.

Arnaldo Jabor (atr.)

22 de Março de 2013 – Requiem de Verdi, na Casa da Música

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Finalmente, o dia do concerto. Há várias semanas que o Coro Casa da Música vem preparando uma das obras mais emblemáticas de Verdi: o “Requiem”. É, de facto, uma grande obra. Imponente. Dramática. Sonora. Operática. Mesmo sendo de cariz sacro. Hoje foi dia de concerto, sob a sábia direcção de Michail Jurovsky, e após uma longa e apurada preparação vocal com Marion Sarmiento. Mais uma experiência musical marcante, num grande palco, ainda que o espaço ocupado tenha sido pequenino. Mas talvez seja assim e por aqui que se cresce.

Foto: olivrodaareia.blogspot.pt

15 de Março de 2013 – Um novo papa, do fim do mundo para um novo mundo

francisco-i“Habemus Papam”. Jorge Mario Bergoglio, argentino, é, a partir de hoje, Francisco I. Francisco, já o demonstrou, da simplicidade, do despojamento, da humildade. Francisco da proximidade, e não do trono. Como Francisco de Assis, dizem. Os últimos dias pareciam a versão da vida real do filme “Habemus Papam”, de Nanni Moretti. Em que o Papa recém-eleito preferia ser uma pessoa normal, e, na tentativa de ajudar a decidir quem seria o sucessor, um psicólogo promovia um torneio inter-continental de voleibol. Mas veio Francisco. Aparentemente de fora do “aparelho”. Disse ele, do fim do mundo, ou quase. Venha ele do fim do mundo. Desde que o destino seja um mundo novo.

 

“Vocês sabem que o dever do conclave era dar um bispo a Roma. Parece que os meus irmãos cardeais foram quase até ao fim do mundo para me buscar. Mas aqui estamos.”

(Primeiras palavras de Jorge Mario Bergoglio, Papa Francisco I)

20 de Fevereiro de 2013 – Intervalo…

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Decidi. Durante algum tempo, fazer um intervalo nestas lides. Escrever quando houver motivo para escrever. Chega perto o fim de uma etapa de vida, que precisa de ser reflectida, assimilada, enquadrada. Vêm tempos mais musicais, ainda que não com a dimensão e a vontade desejadas. Há-de sobrar tempo para escrever, mas não todos os dias. Que me perdoem os que contavam com isso, mas vou “de férias”, até novas ordens.

19 de Fevereiro de 2013 – Quando se corre o risco de desvirtuar uma cantiga que é uma arma

jose-afonsoQue a cantiga é uma arma, já sabemos. O 25 de Abril provou-o, se mais dúvidas houvesse. Antes disso, também o foi. E continua a sê-lo. O risco que se corre, agora, é o de gastar todas as munições a disparar para o ar. De repente, a “Grândola Vila Morena” está na moda, como expressão de indignação. Não questionando a pertinência da indignação, nem tão pouco a pertinência da escolha da canção, é paradoxal que se procure de novo Zeca Afonso, depois de o país nada ter feito para que morresse de uma forma mais digna. Num documentário recente, ficámos a saber que José Afonso morreu praticamente esquecido por muitos dos que deviam tê-lo amparado. Houve, inclusive, colegas espanhóis que se empenharam na ajuda ao músico português, quando o país que ele ajudou a libertar lhe virava as costas. São curiosos estes paradoxos.