8 de Fevereiro de 2013 – Em carne viva

carne-cavaloDe tempos a tempos, é lançada uma histeria colectiva em torno da segurança alimentar. Foi assim com a doença das “vacas loucas”, é assim, agora, com a deficiente rotulagem de refeições congeladas. Normalmente, as notícias partem sempre da Inglaterra. Não sabemos se estrategicamente ou se por acaso. No que diz respeito a isto, também não sabemos, mas o que nos desenharam nos ecrãs de televisão foi uma rede complexa, envolvendo vários países, que traduzia a enorme teia económica que reveste tudo o que consumimos. O novelo foi sendo desfiado, até parar na Roménia. Talvez porque dava jeito ter um país menos desenvolvido na origem de tudo. Pelo que nos dizem, o que se passa é que estamos sujeitos a consumir outra coisa em vez do que está assinalado. Não que o alimento esteja deteriorado ou faça algum mal à saúde. Apenas não está devidamente identificado. Metaforizando um pouco, é como estarmos com alguém que se faz passar por outrem. Sentimo-nos defraudados, e é grave. Mas mais grave é se esse alguém tem alguma “avaria”. Aí torna-se chato. Aí, as coisas podem mesmo ficar “em carne viva”.

7 de Fevereiro de 2013 – O New York Times prova que há alternativas à publicidade

NY-Times-LogoO suposto fim dos jornais em papel é um debate antigo, mas que atingiu contornos de inevitabilidade mais recentemente, à mesma velocidade das inovações tecnológicas. A internet é o local da gratuitidade, o sítio de todas as possibilidades, à distancia de um clique e, de preferência, sem qualquer custo. Até determinada altura, os jornais pensavam que podiam sobreviver a esse cenário apenas com base nas receitas publicitárias. Redondo engano. A crise veio fazer retrair os investidores, que começam a pensar a sua intervenção publicitária de uma forma muito mais cirúrgica e directa, sem precisarem dos “lençóis” de jornal. Neste processo, houve jornais, como o “New York Times”, que pensaram atempadamente em alternativas, mesmo que se tivesse, numa primeira fase, de ressentir disso na própria carne, com o despedimento de 30 trabalhadores, em Dezembro último. Em suma, o “Times” passou a disponibilizar conteúdos pagos, oferecendo exclusividade no acesso a informações a assinantes. Resumindo, com esta estratégia, o jornal norte-americano conseguiu reverter a dependência da publicidade, e prestar um serviço de maior proximidade com o leitor. As receitas falam por si. No último ano, a venda de conteúdo rendeu ao “Times” 953 milhões de dólares (703,3 milhões de euros), enquanto a publicidade se ficou pelos 898,1 milhões de dólares. Os números falam por si.

6 de Fevereiro de 2013 – Uma (longa) passagem para uma vida melhor

orquestra-nacional-washingtonUm milionário americano, discreto, deixou a sua fortuna a uma instituição de caridade e à Orquestra Sinfónica Nacional de Washington. À instituição de caridade, Richard Hermann deixou 21 milhões de euros, e à Orquestra e Ópera Nacional 12 milhões. Não foi a primeira vez que Hermann fez doações, mas sempre de forma discreta. Quase nunca aparecia em eventos sociais, nunca quis que se soubesse da sua filantropia e os motivos que o levaram a deixar estas somas também são um mistério. O que se sabe deste milionário filantropo é que nasceu em 1912, e que se formou em Arquitectura na Universidade da Pensilvânia, em 1938. O exemplo de Hermann, para além de musical, demonstra bem o que a vida significa (ou deveria significar) para nós. Um ponto de passagem. Uma oportunidade para fazermos render talentos. Um dever de deixar o mundo melhor. Richard Hermann tentou fazer isso, durante os 100 anos de vida. Morreu a 13 de Novembro, e, segundo se diz, não havia quem convidar para o funeral. Estava cumprida a sua missão.

5 de Fevereiro de 2013 – Uma triste evidência

miguel-relvasAugusto Santos Silva, no seu comentário da TVI, colocou o dedo na ferida. Pedro Passos Coelho não tem autoridade para remodelar Miguel Relvas. Trata-se, de facto, ao que parece, de uma evidência. De uma evidência triste. Como pode um país estar vergado a situações como esta? Não bastava que um Ministro deste país nos voltasse a mostrar as histórias rocambolescas de licenciaturas feitas por correspondência ou ao domingo. Não bastava, depois disso, vermos que é esta pessoa que tem o poder de mandar e “desmandar” em tanta coisa absolutamente estrutural neste país, da RTP às autarquias, por exemplo. É possível confiar nesta pessoa? Não parece. Mas o que é ainda mais triste é verificar o acerto da frase de Santos Silva. Esta personagem é absolutamente intocável. Sem que ninguém explique porquê, nem porque não. Continua a mandar e desmandar, tendo ou não tendo credibilidade, revendo-se o povo na sua acção ou não. Só neste país.

4 de Fevereiro de 2013 – Algo vai mal, para os lados de Alvalade

Sporting_Clube_de_Portugal“Esforço, dedicação, devoção e glória: eis o Sporting”. A frase é conhecida, e é suposto definir o clube de Alvalade. Os últimos tempos, todavia, não têm sido de grande glória, e isso tem feito diminuir a devoção, a dedicação e o esforço. Algo vai mal, para os lados de Alvalade, e não é de agora. Como todos os clubes dependem dos resultados futebolísticos, às vezes pensa-se que talvez seja uma fase, e que as coisas mudem com o tempo. Mas não foi isso que aconteceu, e o cenário é absolutamente dantesco. O Sporting quase luta para não descer de divisão, quando, paradoxalmente, tem uma equipa B a somar vitórias sucessivas na II Liga. Aqui, como em quase todo o lado, sabemos que nem tudo se sabe, e que só quando se vê fumo, ainda que pouco, é que se sabe que há fogo. Mas, neste caso, o fumo escondido era muito, o que significa um fogo de dimensões gigantescas. O Sporting procura, agora, um novo corpo dirigente, à espera que isso resolva (ou ajude a começar a resolver) os problemas, e traga a estabilidade necessária para que, com esforço, dedicação e devoção, alguma glória possa atingir.

3 de Fevereiro de 2013 – Notícias, informações e verdades

franquelim-alvesSempre que se fala de Hugo Chavez, regressa à memória a imagem do Ministro da Informação do Iraque, quando as forças aliadas já estavam apenas a metros de distância, dando conta de grandes vitórias militares. Dizem que está no seu melhor momento ou em franca recuperação. Apesar de tudo, o facto de a Venezuela estar quase do outro lado do mundo não nos ajuda a ter uma visão clarividente das coisas. Mas, por cá, também temos destas peripécias informativas, desta feita em torno de um Secretário de Estado que foi gestor do BPN. Franquelim Alves parece ter ocultado (ou o Governo por ele) essa passagem menos feliz do seu Curriculum Vitae. Num caso ou noutro, o que sobra é que “à mulher de César não basta ser séria”. E, num caso ou noutro, temos a segurança de apenas acreditarmos no que quisermos. Abençoada liberdade.

2 de Fevereiro de 2013 – Problema Espinosa

capa_Problema Espinosa_FINAL.aiEspinosa tem algo de quase mágico. Visionário no seu tempo, ousou contrariar a ortodoxia rígida da sua religião, o judaísmo, em favor do que julgava ser a liberdade plena. O que muitos não saberão, é que Espinosa, um dos grandes filósofos do seu tempo (e de todos os tempos), era português. E o seu pensamento tão profundo, que de Goethe aos ideólogos nazis, e até mesmo a António Damásio, deixou profundas interrogações. Irvin D. Yalom, que já havia romanceado parte significativa da vida de Nietzsche, apresenta-nos uma imagem aprofundada, apesar de composta, de Espinosa. Composta, porque é difícil descrever alguém de quem nem um retrato fiel existe. Alguém que fez tudo para deixar apenas o essencial de si. A sua obra, o seu pensamento, o seu percurso de vida. E muitas interrogações, tal a profundidade das ideias. A viagem vale bem a pena. Ainda por cima, guiada por um português.

1 de Fevereiro de 2013 – O sem-abrigo

FernandoUlrichEu entrava no autocarro. Ainda na partida, e já a pensar na chegada. Porto. Batalha. O motor já funciona, e, a passo lento, a imagem de Arouca já se aproxima, apesar de a viagem ainda estar no início. Ao fundo, ainda tempo para ver um homem. Aparentemente sem-abrigo. Cabisbaixo. Alheado. Sendo o que parece ser. Das suas mãos, lentas, saem pequenos pedaços de pão. Aos pombos. A ironia do paradoxo. O sem-abrigo a dar o pão, que poderia estar a comer, aos pombos. A imagem ficou. Até hoje. A uma altura em que Fernando Ulrich nos compara aos sem-abrigo. Pois bem, eu, enquanto sem-abrigo metafórico, queria dizer-lhe, senhor Ulrich, que me deixe ser sem-abrigo com a minha arte. Com a minha arte de partilhar. De, no meio do marasmo, do desânimo, da dificuldade, tentar, pelo menos tentar, fazer algo para mudar as pessoas a partir de dentro, e não a partir da conta bancária. Sim, se é assim que coloca as coisas, eu sou sem-abrigo. Feliz. Sem dever a cabeça ao capital. Sem ter de pôr óculos na ponta do nariz para analisar balancetes. Porque a felicidade das pessoas, essa a que eu tento acrescentar juros, não creio que a encontre em nenhum dos documentos onde vai despejando a sua apenas aparente riqueza.

31 de Janeiro de 2013 – Lincoln

Sim. Como alguns dizem, já vi Lincoln a fazer de Daniel Day-Lewis. Goste-se ou não, o mais recente filme de Spielberg pode, pelo menos, despertar-nos para parte importante da história do mais influente país do mundo. Sim, os Estados Unidos não são perfeitos, sabemos. Mas têm o peso que têm, e saber da história em que fundam os seus alicerces não faz mal a ninguém, pelo contrário. O filme é esclarecedor em muitas coisas. Quanto à vontade deste homem em acabar com a guerra, com a escravatura e com a instabilidade político-social. Como todos os que procuram ser sérios, pagou o seu preço. No seu caso com a vida. Depois de ter conseguido pacificar a nação e dar passos de gigante para o fim da escravatura, foi assassinado no Ford Theatre. Ironia do destino, John Kennedy foi morto a tiro a bordo de um Ford. Vale a pena conhecer esta visão de Lincoln. À parte da ambição “oscarística”, ou da conotação política. De forma descomprometida, ver. E, só depois, julgar.

30 de Janeiro de 2013 – TeleRural, telenovela, televisão

tv-rural_sousa-velosoOs partidos da coligação querem, por decreto, intervir no Serviço Público de Televisão, trazendo de volta o “TvRural”, programa emblemático da televisão portuguesa, que tinha como rosto o Eng. Sousa Veloso. Ao mesmo tempo, o PS vai protagonizando uma espécie de “novela mexicana” política, com dois “camaradas” que não se sabe se são amigos ou inimigos, que ora se criticam, ora reúnem, e dizem tudo e o seu contrário, sem nunca se referirem a ninguém em concreto. E, por fim, Alberto da Ponte, agora presidente da RTP, diz que vai ser possível ser-se disciplinado com as contas da estação pública. É informação e entretenimento a mais ao mesmo tempo. Condicionar politicamente a televisão pública (pelo menos de uma forma tão descarada), ter uma “casa dos segredos” partidária e, por fim, a garantia de que o serviço público vai funcionar bem, faz pensar que a notícia intermédia é só para despistar, e que isto está tudo controlado. Como diria o outro, “vocês sabem do que eu estou a falar”.