18 de Novembro de 2013 – Algumas ideias sobre ler, lidas por aí

lerFui lendo várias coisas, maioritariamente enviadas por amigos, que juntam palavras e ideias interessantes, ou que, pelo menos, dão que pensar. Está provado, por exemplo, que a leitura é mais edificante que a televisão. É um facto. Mas o que dizem alguns estudos sobre questões mais específicas, com todas as reticências que os estudos possam merecer, é que os livros nos ajudam a ganhar mais e melhor vocabulário do que a televisão. Outro facto que não precisa de ser muito estudado é o de que a maioria dos estudantes tem notas menos boas em exames porque tem dificuldades em interpretar correctamente as perguntas. Depois, quando desafiadas a escrever qualquer coisa num papel, com lápis ou caneta, 97% das pessoas escreve o próprio nome. Curiosidades…

17 de Novembro de 2013 – O presente

passado-presenteEnquanto escuto «Voici le Printemps», um dos coros mais belos da ópera «Sansão e Dalila» de Camille Saint-saëns, penso, por momentos, que era bom que a Primavera chegasse rápido. Que o que agora seca, possa renascer. Que as cores se renovem. Que o verde fique mais verde, e as flores pontuem a relva, sem pedir licença. Que respiremos outro ar, olhemos outros olhares. Mas, depois, penso melhor. E chego à conclusão que cada dia é-nos dado para que o vivamos. Nem mais depressa, nem mais devagar. Nem com outra coisa que não o que ele traz dentro. Por isso se chama «presente». Que temos de desembrulhar para descobrir. E que, muitas vezes, só mais tarde lhe achamos utilidade.

Act 1: Scene 6: Voice le printemps
Sansão e Dalila (Camille Saint-saens) – Acto 1, Cena 6 – “Voici le printemps”

16 de Novembro de 2013 – A partir de agora, «As terças com Morrie»

tercas-morrieNavegando pelas leituras pendentes, foi tempo de acabar «O homem de Constantinopla», em que José Rodrigues dos Santos dá a conhecer, de forma ficcionada, a vida de Caloust Gulbenkian. Um livro leve, sem uma trama difícil de deslindar, nem tão pouco com aquele olhar quase cinematográfico, ao estilo «danbrowniano». Lida a última página, fechado o livro, a leitura seguinte revela-se mais profunda. Digamos que se trata de um «velho amigo», a que só agora pude regressar com calma. Trata-se de uma série de conversas, aulas, ensinamentos, desabafos entre um professor e um aluno, com a particularidade de ambos saberem que o professor, Morrie, está, progressivamente, a desligar-se, devido à sua esclerose lateral amiotrófica. O livro conta esse processo, passo a passo, e como é vivido, sentido, transmitido e que ensinamentos se tiram de cada situação. Há quem considere que a maior capacidade humana é a de aprendermos uns com os outros. Talvez sim. Mas, essencialmente, creio que será mais a de nos adaptarmos. Porque, ao fim e ao cabo, andamos todos a tentar iludir a morte. Pensamos muitas vezes nela, em como virá e o que fará. Talvez não valha a pena, senão para pensarmos no que fazer até lá, mesmo que saibamos que ela já se aproxima. A cada segundo, temos oportunidade de fazer algo bom, algo melhor, algo que nos supere. Algo, no fundo, que nos perpetue por aqui. Mesmo quando a carcaça já tiver desaparecido.

15 de Novembro de 2013 – Texto 1400

1400Todos temos tendência para procurar números redondos. É-nos mais fácil quantificar tudo, quando podemos ter presente um número claro. Pois bem. Com mais ou menos intermitências, mais ou menos assumidas, cá chegámos ao texto número 1400. É um número como outro qualquer. Que, quando olhado com atenção, mostra palavras úteis, outras menos. Coisas melhor e pior escritas. Quase sempre tive a pretensão de fazer tudo bem. Talvez excepto na escrita. Aqui é o sítio por excelência onde raramente releio o que escrevo. Escrevo, e pronto. Sei que há muita gente desse lado, que vai olhando para aqui. Pois bem, se sou digno de atenção, é meu dever agradecer, porque se a mensagem não tiver destinatário, é vã. Tenho vontade de continuar, mas sabemos bem que só isso não basta. É preciso que haja quem leia. É preciso, também, que haja o que escrever. E é preciso, ainda, que haja espaço. Razão pela qual (já para não falar no encorajamento permanente), o agradecimento maior, devo-o ao Rui Duarte, por continuar a ajudar-me a manter este espaço online. E pronto, até amanhã, por aqui.

14 de Novembro de 2013 – Quando a música não sai da cabeça

http://www.youtube.com/watch?v=6ryURuDIjIk

Embrenhado em «La Bohème», de Puccini, há uma parte fundamental da obra que insiste em não abandonar o meu pensamento. O desfecho já parece desenhado. É só uma questão de tempo. Mas Puccini parece querer esperar pelo momento certo, e conduz-nos com uma melodia feita de excertos de toda a ópera, como que resumindo tudo em pouco tempo, até ao fim trágico de Mimi. Pelo meio, há tantas palavras, tanta música, que fazem inveja por não termos sido nós a ter aquela ideia. Aqui, é tudo isso. Palavras que gostaríamos de poder dizer, um dia. Música que as acompanha como nenhum outro compositor conseguiria. É como se, de repente, estivéssemos mesmo ali. Como se também uma parte de nós estivesse a morrer, e aquelas pudessem ser as últimas palavras. É como se vivêssemos. Abençoadas palavras. Abençoada música.

13 de Novembro de 2013 – Verão de São Martinho

outonoOs meteorologistas não conseguem explicar por que razão o anti-ciclone dos Açores se posiciona, ano após ano, de forma a que, nos dias próximos ao 11 de Novembro, haja sol.  Uns, preferem acreditar no acaso. Outros, talvez se atrevam a explicá-lo com a lenda. Seja como for, o sol aí está, a ajudar a iluminar as cores quentes de Outono, que contrastam com o início do frio das noites de Inverno, que se aproximam.

Há coisas que não têm explicação, mas nem essas, pelo menos as que são boas, nos fazem olhar para o copo meio cheio. Continuamos a preferir responder que vamos andando. Continuamos a preferir expor as nossas pequenas desgraças, quase a competir para o troféu da desgraça mais desgraçada. Continuamos focados no que pensamos que está tão mal, tão mal, que não tem remédio senão ser substituído por algo ainda pior. E, lá fora, apesar do frio, há sol. Há vermelhos, laranjas e castanhos para serem olhados com olhos de ver. Há castanhas para serem assadas nas lareiras do lusco-fusco dos fins de tarde, inícios de noite. Há muita coisa que podemos continuar a fazer. Por nós e pelos outros.

Esta pequena réstia de sol, no meio do frio que deixa as ruas quase a cheirar a Natal, devia, isso sim, fazer-nos pensar em recentrar o nosso olhar. Se virmos bem, as coisas começam a extremar-se. Há cada vez mais ricos e pobres, e menos remediados. Cada vez mais satisfeitos e insatisfeitos, e menos felizes. Cada vez mais preocupados e despreocupados, e menos empenhados. Cada vez mais instalados e desempregados, e menos produtivos. Os antigos diziam que “no meio está a virtude”. No meio-termo, no equilíbrio, na ponderação. Nós, pelo contrário, preferimos ser decididos, e não querermos algo que nem é carne, nem peixe. Nem preto, nem branco. Nem bom, nem mau. Recusamo-nos, assim, a explorar as infinitas possibilidades da paleta de cores que, por exemplo, o Outono nos disponibiliza totalmente de graça.

O Verão de São Martinho podia muito bem convidar-nos a olharmos para o que nos rodeia e vermos onde estamos e onde queremos estar. Para que não voltemos, mais uma vez, a cair naquela caridadezinha simples de quem já está em pleno espírito natalício, de prendas compradas e bacalhau demolhado, com muita pena dos outros, mas preocupado com os lugares à mesa da sua ceia. O Verão de São Martinho, como a lenda nos ensina, é o tempo certo para pensarmos o que queremos fazer com a nossa capa. Se preferimos rasgá-la e reparti-la com quem tem frio, ou se preferimos enrolar-nos nela, de forma egoísta.

Este texto será parte integrante do jornal «Discurso Directo» de 15 de Novembro

12 de Novembro de 2013 – O corpo e o pensar, em velocidades diferentes

VelhoDesde as leituras compulsivas de Vergílio Ferreira, especialmente as obras mais tardias, que me invade o pensamento uma interrogação sobre a velhice. Redescobri esse grande ponto de interrogação depois de ler “a máquina de fazer espanhóis”, de valter hugo mãe (sim, assim, tudo com minúsculas, se propósito). O que será de nós quando o corpo já não responder à mesma velocidade que o pensar? O que será de nós quando nós virmos prisioneiros de um corpo decrépito, inútil, desligado, inerte? Que raio de sentimento será esse, o da velhice, em que estamos presos dentro de nós mesmos, funcionando apenas por dentro?

11 de Novembro de 2013 – La Bohème

la-bohemeHoje, inciou-se mais uma aventura. Uma aventura em forma de ópera. «La Bohème» foi a primeira produção que vi ao vivo. Foi a primeira vez que vi, que me apercebi que era possível chorar de amor ao ouvir o final do primeiro acto. Que experimentei a emoção da tragédia, no final do quarto acto. Que me dei conta de como se trata de um espectáculo completo, durante toda a obra. O objectivo é apresentar este trabalho no próximo sábado, no Coliseu do Porto, com a Orquestra do Norte e um naipe de cantores de enorme, enorme qualidade. Tenho vontade que esta récita faça chorar de alegria, que possa apresentar a melhor música com a melhor intenção (e tensão) possível. Porque a música é mesmo da melhor que há. Escreveu, um dia, um amigo, em resposta à pergunta «o que é a música?», que «a música é boa». Assim é. A música é (sempre) boa. Sobretudo, se feita com alma, com o coração, com todas as nossas entranhas dentro dela. Puccini é mais ou menos assim. Valerá a pena confirmar. Sábado, no Coliseu. O som dos «ferrinhos» é, quase de certeza, meu.

9 e 10 de Novembro de 2013 – De volta à Casa da Música

casa-da-musicaÉ sempre bom regressar a casa. A casa é onde nos sentimos em casa. Não tem necessariamente de ser apenas a nossa ou apenas nossa. Pode ser de todos. É o caso. Hoje estamos de regresso, para mais uma experiência no curso de formação de animadores musicais. O grupo é absolutamente fantástico. Gente com quem se faz música à primeira e sem qualquer dificuldade. Estes dias, iremos trabalhar com um grupo comunitário da freguesia de Lordelo do Ouro, Porto. Gente que, com mais ou menos conhecimentos musicais, quer fazer música com. Esta é a grande lição que, antecipadamente, há a reter. Fazer música só para nós, não resulta. Fazer com, isso sim, é trabalho.

8 de Novembro de 2013 – De repente…

sexta-feiraDe repente, é sexta-feira. Só nos damos conta dela, porque se começa a aproximar o escuro, e a tomar conta do céu. Com o Inverno a chegar, toda a gente parece querer arrumar as coisas mais cedo, e chegar a casa ainda «com de dia», ou com o máximo do que possa restar dele. Involuntariamente, toda a gente parece ter medo do escuro. E é sexta-feira, de repente. Ao fim e ao cabo, é um dia igual aos outros. Às vezes, o trabalho estende-se pelo fim-de-semana dentro, e não deixa grande espaço para nos apercebermos que depois vem sábado, e domingo. E o tempo continua a correr. Até nos darmos conta de outro dia qualquer. Hoje, é sexta-feira. Assim. De repente.