Lêem-se, por aí, duas notícias que, aparentemente, nada têm a ver uma com a outra. Mas, se calhar, até têm. O jornal «I» publica um texto que dá conta de movimentações ao nível da concessão de bolsas de investigação, por parte da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Sabemos bem que há muitos professores universitários que só o conseguem ser porque têm este apoio do Estado para desenvolverem os seus projectos, e sabemos também que a nossa ciência é motivo de prestígio no estrangeiro. Agora, de forma encapotada, o Governo pode estar a preparar-se para despedir (ou melhor, nem sequer voltar a contratar) estes investigadores, que, talvez, venham a engrossar as fileiras da nova vaga de emigrantes. O que pode ajudar a explicar esta decisão (ou a ausência dela) é o texto que o jornal online «Dinheiro Vivo» publica, também hoje. O título é sugestivo: «Por que razão tantos homens incompetentes se tornam líderes?». Segundo o mesmo texto, as razões são, pelo menos, três: acontece quando elas não são capazes; acontece quando elas não estão interessadas; acontece quando elas são capazes e estão interessadas, mas não conseguem vencer os preconceitos. É muito provável que, se houvesse mais mulheres a tomar decisões, talvez não se fizessem tantas asneiras. Nem tantas perguntas contendo a palavra «incompetente».
1 de Dezembro de 2013 – Wie der Hirsch schreit…
Ouço, até à exaustão, repetidamente, repetidamente, «Wie der Hirsch schreit», o salmo 42 da Bíblia, musicado por Felix Mendelssohn Bartholdy. «Como o veado anseia pelas torrentes das águas, assim a minha alma suspira por vós, ó Deus». A primeira frase é assim. Nada de excessivamente complicado. Mendelssohn começou a fazer jorrar música a partir daqui, até ao final do salmo. Não sei por que razão, regressou-me à memória esta música absolutamente sublime, de tão simples e, ao mesmo tempo, tão rica que é. Na verdade, talvez este salmo tenha surgido para relembrar que é importante olhar para os tempos que aí vêm com os olhos certos. Esta procura constante, que a música também dá a entender, pode ser, pelo menos parcialmente, satifeita. Se estivermos com os outros, com os nossos, sem tempo limite. É aí, nessas coisas que parecem pequenas, em que somos mais humanos, mais nós, mais sentimento, que encontramos essa entidade abstracta a que chamamos Deus. Não é ele que vem resolver os nossos problemas, ou fazer qualquer magia para nos reorientar. Mas ele está, muitas vezes, onde menos esperamos. Nas coisas mais simples, mais pequenas, menos vistas. Como o veado, que procura algo tão simples como uma água corrente. Se a música nos puder conduzir até aí, tanto melhor.
Felix Mendelssohn Bartholdy – Der 42. Psalm
«Wie der Hirsch schreit» (Psalm 42) – Felix Mendelssohn Bartholdy
30 de Novembro de 2013 – O poder de ensinar
É, de facto, um poder incomensurável. O de ensinar. Alguns preferem exercê-lo. Outros respeitá-lo. Eu, chego a ter medo. Medo de não estar à altura de transmitir o que é preciso transmitir. Porque não é difícil ensinar. É difícil ensinar bem. O problema não está no conteúdo, mas na forma. Há quem tenha como objectivo ser (apenas) professor. Há quem tenha por objectivo ser bom professor. Eu tenho por objectivo ser o melhor professor. Porque quem está do outro lado não merece senão isso. Até chegar lá, faço tentativas, diárias. Na esperança de ensinar como se deve ensinar, avaliar como se deve avaliar e decidir como se deve decidir. Tentando, a todo o momento, evitar o erro.
25 de Novembro de 2013 – Os bateristas são intelectuais por natureza
Lê-se hoje no «P3» (excelente suplemento online do jornal «Público») que os bateristas são intelectuais por natureza. Quem o prova é um estudo, feito na Suécia, pelo Instituto Karolinska e pela Universidade UMEA de Estocolmo. Segundo parece, os bateristas têm mais capacidade mental para resolução de problemas, aliada à capacidade rítmica. O estudo foi feito com base na performance de 34 voluntários, com idades entre os 19 e os 49 anos, sem experiência musical. Foi-lhes lançado o desafio de tocarem alguns ritmos e fazerem um teste psicométrico, com 60 perguntas. Os resultados demonstraram que quem tinha mais ritmo também tinha melhor desempenho no teste teórico, combinando inteligência, noção rítmica e capacidade de resolução de problemas. Há, portanto, menos razões para piadas sobre quem toca «pancadaria».
«As pessoas com melhores notas nos testes de inteligência eram também mais estáveis na simples tarefa de manter o ritmo. A precisão rítmica na atividade cerebral observada quando uma pessoa mantém uma batida certa também é importante para as capacidades de resolução de problemas, medida com os testes de inteligência».
(Professor Fredrik Ullen, responsável pelo estudo)
24 de Novembro de 2013 – (Um) Rodrigo (de) Leão
Dom La Nena, com o seu violoncelo aliado à electrónica, levou-nos para um ambiente que quase nos fez lembrar a infância. Essa infância em que tudo se descobre. Inclusive o cinema. Estava dado o mote (interessante, diga-se) para ficar a conhecer ao vivo as «Bandas Sonoras» de Rodrigo Leão. Desta vez, vontade acrescida de ver, com todo o orgulho do mundo, o meu colega e grande amigo, Tiago Noites, em palco. Um concerto de Rodrigo Leão é sempre cheio. Cheio de boa música. Simples. Directa. Sedimentada. Desta vez, reforçada com mais músicos. Excelentes músicos, diga-se. Dá até para ficar com um bocadinho de inveja. Poder compôr para filmes e escolher tocar com gente assim tão boa. Caramba. O homem é mesmo um privilegiado.
23 de Novembro de 2013 – Fragmentos de uma carta para amanhã
Não há um dia em que não esteja contigo, porque, sabe-lo bem, desde que me pregaste a partida de te esconderes que procuro ser como tu. Procuro honrar-te. Procuro pensar como tu pensarias. Procuro agir como tu agirias. Procuro estar como tu estarias. Talvez ninguém perceba. Talvez ninguém sinta. Acredito que não. Naquele dia, senti que perdi o meu pai, e isso só mais uma pessoa saberá o que é. Tive pena que não tivesses ficado mais tempo. Para falar contigo. Para me aconselhar. Para te contar os meus sucessos e fracassos. Para te poderes orgulhar de mim. Para te poder abraçar outra vez quando acabei a minha segunda licenciatura, que tanto queria que tivesse sido a primeira. Para te poder contar que me apaixonei e cresci muito com isso. (…)
Sabes bem. Falámos bastante sobre trabalho e sobre música. (…) Falei muito contigo sobre isso, como sabes. E a tua sensatez, a tua ponderação, o teu cuidado fizeram com que eu tomasse a atitude certa e que tudo se tivesse conjugado para que eu pudesse arriscar nesta aventura. Sou um sortudo, no fundo. Fazes-me falta, pá. (…) Às vezes, quando penso em ti, é como se me esvaziasse por completo. (…)
Lágrimas de verdade. Como se uma força me apertasse as entranhas até sair tudo, respirar fundo, e entrares tu, de novo. (…) Confesso-te que talvez nem sempre tenha sido bom filho, mas tenho dado o meu melhor. Quero continuar a orgulhar-vos. Quero continuar a fazer tudo bem. Quero continuar a ter-te como referência, e desculpa se nem sempre o sou. Conto com a tua ajuda e com a tua luz. Sempre.
Um abraço apertado
22 de Novembro de 2013 – Outra conta-corrente
Desde «Aparição», ou até mesmo antes, folheando «Pensar», que resolvi, como aquelas decisões importantes que tomamos em meninos, que queria ser (quase) tão bom como Vergílio Ferreira. Depois, à medida que fui acrescentando mais livros, começou a desenhar-se a conclusão de que nem «quase» seria possível. Lembro-me que até António Lobo Antunes decidiu que queria imitar aquele que considerava o melhor escritor português (o que, na altura, lhe valeu uma palmada, jocosamente relatada numa das suas crónicas). Pois bem, abri ao acaso o primeiro volume da «Conta Corrente», e deparei-me com uma forma interessante de um escritor se questionar. Essencialmente, sobre se tem algo a dizer e se isso vale a pena (dizer e o que se diz). Para chegar à conclusão de que temos é de estar no lugar de onde somos. O resto, diria Ricardo Reis, «é sombra de árvores alheias».
«Vou perdendo o jeito da escrita. Sufocado, de jornais, rádio, TV. Tenho imenso a dizer – e nada tenho a dizer. A valer a pena dizer. É necessário libertar-me disto, voltar à literatura. É a terra de onde sou».
(Vergílio Ferreira – Conta Corrente I)
21 de Novembro de 2013 – Qualquer acorde de qualquer música
http://www.youtube.com/watch?v=qnqSJO_1SWU
Este é o «Chordify». É uma aplicação online que nos ensina os acordes de qualquer música. Tem, em média, 50 mil visitantes por dia. Para pô-la a funcionar, basta carregarmos a música que pretendemos descobrir, em formato MP3, ou um vídeo do «YouTube», e a plataforma desata a dizer-nos os acordes que temos de tocar. Dos cinco investigadores que criaram este projecto, um deles é português. Chama-se José Pedro Marques, e é «só» investigador na Universidade de Oxford. Há sempre um português, algures no mundo, co-responsável por tornar a nossa vida mais fácil. Pena haver tantos, em Portugal, empenhados em torná-la, a cada minuto, mais difícil.
20 de Novembro de 2013 – Efeitos especiais
Tem circulado um vídeo pela internet que dá a conhecer um pouco dos efeitos especiais usados nas grandes produções de Hollywood. No caso, trata-se de «O Grande Gatsby», e dá para ficarmos com uma percepção do que é feito, e de como é feito, para resultar em imagens «reais». As próprias televisões, nos serviços informativos, já recorrem muito ao cenário virtual (nã0, ainda não introduziram efeitos especiais significativos nas notícias, talvez um dia…). Este pequeno vídeo talvez desfaça alguns dos sonhos que vemos nas imagens das telas de cinema, mas um pouco de realidade, de vez em quando, não faz mal a ninguém.
19 de Novembro de 2013 – O piano de Da Vinci
Diz-se que é mais uma das inúmeras invenções de Leonardo da Vinci, mas, nestas coisas da internet, convém mantermos sempre a dúvida. Foi dado a conhecer, recentemente, um instrumento que combina o piano e o violoncelo, chama-se «viola organista», e combina as características do cravo, do órgão e da viola da gamba. Slawomir Zubrzycki, diz-se, terá interpretado os planos de Da Vinci, e chegou a este instrumento, cujas teclas fazem girar várias rodas dentadas, que fazem com que pequenos arcos passem pelas cordas de aço, em vez dos martelos do piano ou das pinças do cravo. O instrumento soa bem, seja ele do famoso homem do renascimento ou não. Vale a pena ouvir, mesmo que haja desmentidos em breve.