Às vezes, mesmo quando não queremos, somos desligados da ficha. Ou porque o nosso sistema se desliga, aqui ou ali, ou todo ele. Mas às vezes o desligamento da ficha dá-se de outra forma. De uma forma mais abrupta, se a ficha de onde nos desligam é aquela que menos esperamos. Vemos o quanto as velas são pouco práticas quando nos falta a electricidade. Sentimos extremo desconforto se acaba o gás que nos aquece a água. Ficamos completamente desorientados se nos falta a água para o banho ou para a cozinha. E, em casos mais esotéricos, quando se nos desliga a ficha que nos liga ao mundo: a internet. As portas de entrada estão cada vez mais disseminadas, é certo. Mas quando não temos acesso dentro da nossa própria casa, numa altura em que precisamos mesmo dela (será?), é quase como se faltasse á água, a luz, o gás. Resta olharmos para o copo meio cheio. Ainda há conversas para ter. Filmes para ver. Livros para ler.
6 de Novembro de 2013 – Coisas pequenas
Em todos os momentos possíveis, a lassidão não pede licença para entrar. Os dias correm depressa, cada vez mais ocupados por horários, trabalhos, tarefas, pormenores que teimam em colocar-se entre as rodas dentadas do nosso funcionamento, até emperrarem todo o sistema. Por muito que nos pareça ridículo, são esses pequenos grãos de areia, insignificantemente pequenos, que conseguem fazer parar grandes máquinas. Portanto, talvez seja melhor não nos preocuparmos com as coisas demasiado grandes. Porque essas, vemo-las ao longe, a vir em nossa direcção. Já as pequenas, apoderam-se de nós, e só se manifestam quando conseguem grandes feitos. Por isso, não tenhamos medo de parar e pensar. É preciso aproveitar cada um desses segundos, em que podemos pensar em nada, fazer nada, ser nada. Segundos, minutos, horas em que, no fundo, não sendo nada, podemos ser tudo o que quisermos.
5 de Novembro de 2013 – A estação da vida
Há quem diga que a mesma água não passa duas vezes debaixo da mesma ponte. Talvez sim, talvez não. Há o ciclo da água, e o rio é sempre o rio, e o mar é sempre o mar. E há o sonho, e a imaginação, e o desejo, e tudo o que queremos tornar possível, mesmo que seja só num universo que nem a todos conseguimos mostrar. Há também quem diga que a vida é parecida com uma estação de comboios, onde há gente que vai e vem, gente que vai para não voltar, vem para ficar, está só em trânsito, veio só ver, sorri e chora, porque se despede ou reencontra com alguém. Sim, talvez. Acontece todos os dias. Há uma espécie de estação dentro de cada um de nós. Onde nos encontramos connosco, desencontramos connosco, onde podemos partir e chegar, sempre que queiramos. Passou muito tempo. Tempo em que se disse adeus, em que se disse olá, em que se reviram e reviveram várias cenas de vida, em telas imaginárias. Em que se caiu, levantou, tropeçou, amparou. Houve um tempo em que o caminho se fez caminhando, como tem de ser. As intermitências, para Saramago, eram as da morte. Aqui, podem ser as da vida. A ver se, desta vez, a chegada a esta estação é para ficar. Ou para regressar diariamente. Como quem regressa a dentro de si. Estou a chegar. Até já.
8 de Agosto de 2013 – Tu és assim…

Hoje apetece-me pedir a um táxi que te siga os pensamentos. Que te siga os pensamentos e volte a mim, para transportar os meus junto. Hoje, apetece-me escrever a quatro mãos. Sair de mim, esperar que saias de ti, e sermos juntos, como que à parte de nós mesmos. Porque sim. Tu és assim. Os cinco elementos da natureza. As estrelas todas do universo. Tudo. Condensado em ti. Apetece-me seguir os teus pensamentos, sem destino. Ou com destino a ti, a nós. Colhendo a água nas mãos, e deixando-a escorrer pelo rosto. Pegando na terra com as mãos ambas. Sentir em todo o corpo o fogo que não se vê mas que se sente. Enchendo os pulmões com o teu perfume. Tu és assim. Esse quinto elemento. Único e irrepetível. Que eu guardo em mim, como tesouro. Enquanto peço a um táxi que siga os teus (os nossos) pensamentos.
Tu és assim
Tu és a água…que sacia a minha sede!
És tu a lágrima salgada que inunda o meu rosto e beija os meus lábios…
Tu és o riacho, o mar onde me banho…inundando-me os sentidos com a tua clara nitidez…
O fogo que se acende em mim…És tu!
És a chama que a água teima em apagar, mas não consegue…
…consomes a floresta que se expande em mim
desbastas e destróis tudo o que diante de ti se coloca.
És o vento…
Enfureces as águas, agitando-as…
Exacerbas o poder do fogo…que queima…
És a brisa suave que acaricia os meus cabelos
És a fresca rajada que sinto passar junto ao meu rosto…e me faz sorrir.
És o solo árido e arenoso, sequioso de água…
A terra “abatida” de anos de sobrevivência…
És o caminho sinuoso, que se percorre com cautela.
Não te imagino “decomposto”…
És a conjugação dos elementos essenciais
És transparente como a água…
Forte como o vento…
Inflexível como o fogo…
E úbere como a terra…
És o quinto elemento…como só tu sabes ser!(Sofia Correia)
7 de Agosto de 2013 – Amigos
Cada vez mais, acredito que há uma boa forma de medir a amizade. Ela é proporcional à capacidade de, rapidamente, estarmos com um amigo com quem não estávamos há imenso tempo como se tivéssemos estado ontem. A verdadeira amizade resiste ao tempo. Faz uma espécie de sedimentação, em que é fácil ir ao núcleo de tudo, como se, na rocha, viajássemos milhares de anos num segundo. É sempre bom, reconfortante, regressar à companhia de amigos (dos grandes) com quem já não estávamos há muito tempo. É como se ganhássemos tempo. Tempo de vida. De afectos. De alegrias. De partilha. Num instante, é como se não tivesse passado tempo nenhum desde a última vez. É isso, a amizade. Parece-me.
6 de Agosto de 2013 – Esticar o corpo, para alargar o espírito
Às vezes, o corpo comporta-se como a concha de um caracol, encolhe-se sobre si mesmo, quase atrofia. É preciso, de vez em quando, obrigá-lo quase a sair de si mesmo. A expandir-se. A ganhar espaço para que o espírito também se alargue. Hoje é o dia seguinte. O dia das dores do esticão. Uma espécie de “dor de crescimento”, daquelas que sabemos que, no fundo, são boas, porque nos ajudam a ganhar mais espaço para o espírito. Agora, há que ir puxando o limite mais além. Até onde o espírito se sinta confortável. Depois, o corpo acompanhará.
5 de Agosto de 2013 – Quando a segunda-feira é um dia igual a outro qualquer
Há alturas em que parece que a segunda-feira é o pior dia da semana. Outras, em que passa a ser um dia igual a outro qualquer. Quando, uma vez ou outra, a semana se mete pelo fim-de-semana adentro, deixando pouco espaço para nos apercebermos que, de facto, existe sempre um sábado e um domingo em cada semana. É só às vezes, e vezes em que compensa. Porque, na realidade, a segunda-feira é só mais um dia. Igual a outro qualquer. No fundo, o segredo talvez esteja em descobrirmos como é que podemos rechear os dias. De que ponto de vista podemos olhar para as coisas. Com que olhos podemos olhar para as segundas-feiras.
4 de Agosto de 2013 – Viagem Medieval
Por artes mágicas, ainda não tinha tido a oportunidade de fazer essa viagem que, todos os anos, leva praticamente toda a gente a Santa Maria da Feira. Ontem, foi o dia. Na melhor companhia possível, lançámo-nos rumo ao passado, com a mesma cumplicidade. Esta é a imagem do fim da noite, depois da viagem de ida e volta. Depois de ver os soldados de el-rei passarem rumo ao castelo. Depois dos comes e bebes. Depois de passar por todo o lado. Depois de vestir uma boina igual à de Caravaggio, segurar uma lança e um escudo. Sabe bem viajar assim.
3 de Agosto de 2013 – Maria João e Mário Laginha e nós e o mundo
Às vezes temos receio de dizer o que sentimos, por ter passado pouco tempo. Passou, de facto, pouco tempo. Mas o suficiente para se perceber que marcou. Marcou ter-se partilhado o palco com dois vultos da música nacional. Há coisas que são difíceis, impossíveis de esquecer. Maria João e Mário Laginha são assim. Difíceis de esquecer. Pela forma como fazem música, mas não só. Pela grande música que fazem. Mas sobretudo pela forma humilde e “entregada” como a fazem. Aceito que ou se ama ou se odeia. Mas não acredito muito que, no fundo, não se consiga reconhecer o que é efectivamente bom. E esta música é demasiado boa para não se apreciar. Eles, nós, o mundo. À distância das memórias que nos vão deixar, e a que vamos sempre poder voltar.
Foto: Avelino Vieira
2 de Agosto de 2013 – Zeca, 84 anos de vida
Portugal tem destas dicotomias. Anda toda a gente preocupada em estar na moda, a cantar a “Grândola, vila morena”, mas completamente esquecida do seu compositor. José Afonso, se fosse vivo, faria hoje 84 anos. E se os fizesse em vida, por certo outro galo cantaria. Zeca não deixaria que a música portuguesa se desenraizasse. Não deixaria que o povo se tornasse amorfo. Não permitiria que se desrespeitasse a arte e os artistas. Zeca partiu cedo. Como os heróis. Esquecido. Ajudado por de quem menos esperaria. Portugal preferiu outros cosmopolitismos. Preferiu enterrar essa irmandade de sangue com África, e procurar falsas relações com outros universos. Fez uma opção. Zeca, como é próprio dos génios, resistiu. Ao ponto de, de forma silenciosa, poder rir com a forma acéfala como o povo se apropria da sua canção e se esquece dele. Ou pensa que se esquece, porque, na realidade, é impossível ele não estar aqui. Sempre.