29 de Julho de 2015 – Silly Season

logo-ddChegou o período a que habitualmente se chama «silly season». Basicamente, trata-se do Verão, das férias, de um tempo em que estamos (os que estamos) descomprometidos da rotina habitual, e, como tal, mais propensos ao inesperado, ao «fait divers», a coisas mais ou menos estapafúrdias. Este ano, temos um ingrediente acrescido: as eleições legislativas em Outubro, com as máquinas partidárias já devidamente oleadas, e prontas a disparar as balas do costume, com as acções e reacções habituais.

Este, que devia ser o tempo para nos desligarmos de um dia a dia que quase nos oprime, de um quotidiano acinzentado por vários factores, e nem todos culpa nossa, de dias justos e outros injustos, de gente muito boa e menos boa que connosco se vai cruzando; este, que devia ser o tempo para nos rendermos às fotografias (in)felizes (ou, pelo menos, disfarçadamente felizes) do facebook, com fundos de mar ou montanhas verdes e céu azul; este, que devia ser um tempo para nós, para não haver Grécia que nos desanime, ou políticos que nos envergonhem; este tempo não está a ser só nosso.

Se a representatividade que nos é proposta fosse funcional, talvez não nos fizesse grande diferença abdicarmos do único período em que podemos ser mais «silly» durante mais tempo (o Carnaval é outra altura, mas dura apenas dois ou três dias). Mas com a constante nuvem negra da corrupção a pairar sobre os políticos, não nos resta senão antever mais do mesmo, para os próximos tempos. Já nos começam a impingir «pseudo-escândalos» que poderão adensar-se, dependendo do sentido de voto da maioria dos portugueses. E quando o futuro se resume a mais do mesmo, sujeitar os momentos que deveriam ser exclusivamente nossos a estas lógicas é, no mínimo, injusto.

Quando o que de mais «silly» temos para desfrutar é uma espécie de campanha eleitoral em várias frentes, e não podendo ter a sorte programada de ganhar o Euromilhões, resta a esperança de que algo mude. Caso contrário, «silly» estaremos todos no decurso de mais um ano de trabalho. Penosamente. A implorar por um novo período de férias em que todos, sem excepção, possamos ser «parvinhos» em paz.

7 de Julho de 2015 – Dito e Rui Águas no FCP

rui-aguas-fcpFoi há precisamente 27 anos que eu, com 8, sentia, pela primeira vez, a crueldade do mercado futebolístico. Estava a minha colecção de cromos a terminar, quando descubro que o avançado do Vitória de Guimarães, Ademir, vai ser reforço do Benfica, apesar de o Porto ter tentado contratá-lo. Mas essa «vitória» acabaria por ser amarga. Pinto da Costa consegue «roubar» Dito e Rui Águas ao Benfica. Perder Rui Águas era algo impensável, mas aconteceu. Pior, o avançado acabaria por ser o melhor marcador dessa época. Ele há coisas do catano.

6 de Julho de 2015 – Técnica(s) de comunicação ousada(s)

agueda-banonÁgueda Bañón é a nova directora de comunicação de Barcelona há cinco dias, e já é notícia. Sucede que surgiram umas fotografias na internet em que a assessora aparece com as calças para baixo em Berlim ou a fazer de conta que faz xixi à homem. Águeda é uma activista do «postporno», um movimento que tem uma forma feminista de encarar a pornografia. Quer a gente queira, quer não, parece que há sempre quem faça o nosso trabalho melhor do que nós. E é com os melhores que devemos aprender. Por isso…

1 de Julho de 2015 – Arouca, onde tudo acontece

logo-ddAproxima-se o Verão, e Arouca, à semelhança do que acontece um pouco por todo o lado, prepara-se para o frenesim de eventos, próprio da época. A Recriação Histórica está quase aí, o Torneio Infantil/Juvenil de Futebol vai ocupar todo o mês de Julho, Agosto começa com os «Sons da Praça», a Volta a Portugal em Bicicleta também passa, mais uma vez, por cá, e, mais acontecimento menos acontecimento, chega a Feira das Colheitas, este ano temperada pela campanha eleitoral.

Fruto da intensidade com que o movimento associativo tem trabalhado, quase podemos dizer que há sempre coisas a acontecer, muitas vezes até em simultâneo, e a acontecer com qualidade equiparável a um nível profissional. Esta dinâmica deve orgulhar-nos, mas tem um lado mais perverso, a que convém estarmos atentos. Por se tratar do movimento associativo, vamo-nos habituando ao gratuito, ao fácil, ao podermos entrar e sair de um espectáculo quando nos aprouver, porque, no final de contas, não pagamos, o que nos dá essa liberdade. O trabalho, arduamente preparado, é, também ele, gratuito, e mesmo que esteja a um nível profissional, não deixa de ser encarado como amador, e, como tal, deve ser gratuito. Feito o balanço, o reconhecimento dado a quem se dedica a estas coisas é, no mínimo, relativo, e, a certa altura, os «carolas» começam a deixar de ter tempo disponível para trabalharem o seu talento gratuitamente e com prejuízo para si e para os seus.

Corremos o risco de enraizar a ideia de que tudo é fácil. Parece que é fácil pensar um espectáculo, idealizar a sua dinâmica, ensaiá-lo com os intervenientes, pô-lo pronto a ser apresentado. Parece, quando tudo se esgota naquele momento de palco, que tudo aconteceu rapidamente, mas, antes de tudo isso, estão horas, dias, um tempo imenso dedicado à causa, retirado ao descanso e, muitas vezes, a responsabilidades adiadas.

Talvez comece a ser tempo de pensarmos melhor nestas coisas. É sabido que nenhum profeta é reconhecido na sua própria terra, mas se conseguimos ser bons em tanta coisa, porque não nisto também?

28 de Junho de 2015 – Kirill Petrenko: o triunfo do «low profile»?

kirill-petrenkoA Orquestra Filarmónica de Berlim já escolheu o maestro que irá suceder a Sir Simon Rattle. Depois de um processo debatido e relativamente demorado, a escolha (tudo menos óbvia) recaiu sobre Kirill Petrenko. O actual maestro da Ópera Estatal da Baviera, conhecido pelo seu «low-profile», inicia funções em 2017, tendo já garantido o seu lugar na história da Filarmónica. A lista de maestros desta formação de referência é curta: Hans von Bülow, Arthur Nikisch, Furtwängler, Herbert Von Karajan, Claudio Abbado e Simon Rattle. O «El Pais» coloca algumas achas interessantes nesta fogueira. Assegura que Petrenko é obsessiva e quase patologicamente tímido, que quando se junta aos músicos, no final de um concerto, para beber um copo de vinho (a única bebida alcoólica que consome socialmente), raramente fala. Será o primeiro russo, o primeiro judeu e o segundo «barbudo» a liderar os 124 músicos berlinenses. A sua timidez contrasta radicalmente com a cultura da Berliner Philharmoniker, habituada a ter verdadeiros «pavões reais» no estrado. Diz o «El Pais». E nós, ficamos a pensar nisso.

9 de Junho de 2015 – Síndrome do impostor

impostorSegundo dizem os entendidos, há uma diferença entre a baixa auto-estima e a «síndrome do impostor». Quem tem baixa auto-estima, ainda consegue, de vez em quando, aperceber-se de que tem valor e que o seu sucesso também depende (muito) de si próprio. Já quem sofre da «síndrome», para além de ser extremamente auto-crítico, encara as coisas boas (ou menos más) que vão sucedendo de forma alheia à sua acção. Sente-se uma fraude, alguém que é menos eficiente do que parece, e que, a qualquer momento, pode ser descoberto. Muitos dos famosos e competentes que conhecemos colocam, secretamente, estas questões. Será?

4 de Junho de 2015 – A placa, no Testinha

placa-testinhaHoje, inaugurámos a placa evocativa da fundação da Real Confraria do Frango Frito. Chamamos-lhe real, porque ela existe. É, portanto, real. Não precisa de formalismo que não seja o da amizade, entre quem come e entre quem come e quem nos confecciona as iguarias. Pouco a pouco, fomo-nos tornando da casa. E o que parece ser uma brincadeira, não deixa de suscitar curiosidade. A partir de hoje, fica assinalada a passagem destas gentes por esta casa. É como se tivéssemos encontrado forma de estarmos sempre por casa, mesmo não estando.

3 de Junho de 2015 – Maestros / Condutores

É curioso observarmos as associações possíveis com a palavra «maestro». Os italianos chamam maestros aos professores primários, o que dá uma conotação pedagógica à função. Já os ingleses traduziram a palavra para «conductor», uma espécie de condutor, portanto, da orquestra. E é um pouco no espaço entre estas duas fórmulas que vagueia aquela que muitos consideram ser a profissão mais charlatã do mundo. Alguns são, verdadeiramente, maestros. Vivem, comunicam, aprendem e ensinam. Outros são meros condutores. Se bem que, no tempo das camionetas do Calçada, apesar das camionetas mais velhas, havia muito bons condutores. Se eu pudesse experimentar…

2 de Junho de 2015 – Os Vândalos

logo-ddOs Vândalos, povo (ou conjunto de povos, ou tribos, se quisermos ser mais precisos) cuja origem deve remontar a qualquer coisa como ao século III, algures nos territórios que hoje correspondem à Alemanha, Polónia, Dinamarca, Noruega e Suécia (mais ou menos), marcaram o seu lugar na história com um grande ataque à cidade de Roma, no ano de 455, em que destruíram algumas obras emblemáticas do Império, que ficaram, assim perdidas no nevoeiro dos tempos. Hoje, mais de 1500 anos depois, e à devida escala, continuamos a ter reminiscências da presença destas gentes nas nossas terras. O último fim-de-semana deixou-nos demasiado próximos desses tempos, a que, certamente, ninguém minimamente civilizado deseja voltar.

Continuamos, hoje, a chamar vândalos aos que destroem o que serve o uso público. Adoptámos, para o efeito, o termo «vandalismo». Que mais não significa do que termos todos, os que cumprimos zelosamente os nossos compromissos para com o Estado, de pagar pela destruição do que é de todos por parte de alguns (poucos). Deve ser frustrante. Deve dar vontade de desistir, frequentemente. Quando nos vemos obrigados a fazer os cumpridores pagarem pelos incumpridores. Deve dar vontade de deixar ficar tudo como está. Não melhorar nada. Se destruíram, deixar destruído. Se roubaram, deixar roubado. Porque, de uma maneira ou de outra, quem «ganha» são sempre os vândalos.

Desta vez, os vândalos resolveram pôr fogo à obra mais emblemática dos últimos tempos, os passadiços do rio Paiva. Uma infra-estrutura que começa a ser praticamente consensual, em termos de concepção, embora subsistam algumas dúvidas acerca da sua gestão/manutenção. Mas que, todos acreditamos, irá mudar Arouca (para melhor), porque irá tornar-nos diferentes. Mas os vândalos preferem a mediocridade. Preferem que todos façamos um esforço extra para consertarmos o que estragaram. Com certeza prefeririam que nos mantivéssemos como no século III ou V. Na altura, mutilaram Roma, mas houve muito mais, para além do que destruíram e do que não destruíram, que ficou como legado. Isso, para quem tiver memória e inteligência, não haverá vândalo que destrua.

1 de Junho de 2015 – Uma questão de perspectiva

 

Um ponto de vista é uma vista a partir de um ponto, o que faz com que, olhando para a mesma realidade, cada um de nós veja uma coisa diferente. Aqui, o que se passa é ligeiramente diferente. Anne-Sophie Mutter, uma das mais reconhecidas violinistas do mundo, resolveu filmar parte do seu ensaio, deixando-nos uma perspectiva muito interessante sobre como estes instrumentistas actuam. Na descrição, já foi avisando: «tente não ficar tonto». Não tanto pela música, mas pelo movimento constante e intenso da câmara de filmar. Uma questão de ponto de vista, ou de perspectiva, portanto.